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Categoria: Madri


11:10 · 11.07.2013 / atualizado às 11:12 · 11.07.2013 por

Despedir-se de uma cidade como Madri é sempre uma tarefa difícil. Fonte de inspiração para artistas, escritores e cineastas, a Capital espanhola é cheia de recantos charmosos e perfeitos para passar o dia. Surpreendente, mesmo em lugares onde você menos espera. E foi assim, ao chegar ao El Club Allard, um dos restaurantes locais que ostenta duas estrelas no famoso guia Michelin, e que serviu de cenário para minha última refeição na cidade.

A elegante sala de jantar do El Club Allard Foto: Divulgação
A elegante sala de jantar do El Club Allard Foto: Divulgação

Tínhamos reserva para as 13h30, o que é cedo para um almoço, considerando os padrões espanhóis. O lugar, como se esperava, é seleto. Entra-se em um edifício que parece residencial, sendo o estabelecimento muito discreto, sem nenhum tipo de sinalização. E é aí que começam as surpresas. Da belíssima decoração aos pratos, que combinam notas de mistério, fantasia, humor, imaginação e muita criatividade.

A sala de jantar é elegante. Mistura o clássico e o moderno, com toques dourados apenas o suficiente para fornecer o refinamento que o local reserva. O atendimento é perfeito e logo fomos levados à mesa que exibia a seguinte mensagem em um pequeno cartão à frente de cada lugar: bem-vindo à revolução silenciosa. Mal imaginávamos o que estava por vir!

Dos três menus à escolha – Encontro, Sedução e Revolução, com números crescentes de pratos -, optamos pelo primeiro (88 euros por pessoa), uma sequência de 11 iguarias, entre entradas, pratos principais e sobremesas. Detalhe: você não sabe o que vai comer até começarem a servir. Convém ainda falar espanhol, para perceber todas as explicações sobre a comida.

Antes, somos perguntados se temos algum tipo de alergia. Observei que eles fazem o mesmo com todas as mesas. Só então, o pedido é feito e logo aparece alguém para sugerir uma bebida para acompanhar. A partir daí começa a experiência gastronômica mais interessante que tive até então.

 

As boas vindas e a primeira surpresa gastronômica Foto: Anchieta Dantas Jr.
As boas vindas e a primeira surpresa gastronômica Foto: Anchieta Dantas Jr.

A princípio, chegou uma tigela com um creme de consistência bem macia que, para nossa surpresa, era para ser degustado com aquele cartãozinho que citei, como uma colher. Antes, olhei para os lados, para ver se havia mais alguém comendo. Afinal, podia ser alguma “pegadinha”. Mas não era! O cartão era comestível mesmo, feito a base de batatas. Impressionante! E foi aí que percebemos que esta ia ser uma refeição incomum.

E foi! A partir de então foram quatro entradas, um peixe, uma carne, uma pré-sobremesa (para preparar o paladar para o doce) e duas sobremesas, café e petit fours (biscoitinhos). O que posso dizer é que a cada prato, lindamente decorado, sabores, texturas e aromas apareciam para, literalmente, mexer com todos os sentidos.

Tapa de peixe com cobertura crocante Foto: Anchieta Dantas Jr.
Tapa de peixe com cobertura crocante Foto: Anchieta Dantas Jr.

 

Papelote de cogumelos e legumes de época Foto: Anchieta Dantas Jr.

Nessa ordem, comemos: trufa de caça com foie e cogumelos (ao levantar a parte inferior do recipiente, um vapor era liberado, acrescentando outro nível sensorial ao prato), mini-trufa de queijo camembert, tapa de peixe com cobertura crocante, papelote de cogumelos e legumes de época, ovo com bacon no pão e creme de batatas, garoupa marinada, picanha com ervas e crispies, sorvete de pepinos e pétalas de rosa, chocolates em formato de peixes e conchas dispostos em um aquário e ovo poché, que, claro, não era um ovo, mas casca de chocolate, cuidadosamente pintada com pó metálico, um creme de coco branco, como clara, e manga, fazendo o papel da gema. Curiosíssimo!

Chocolates em formato de peixes e conchas dispostos em um aquário Foto: Anchieta Dantas Jr.
Chocolates em formato de peixes e conchas dispostos em um aquário Foto: Anchieta Dantas Jr.

 

O curioso ovo poché de chocolate Foto: Anchieta Dantas Jr.
O curioso ovo poché de chocolate Foto: Anchieta Dantas Jr.

Gostou? O El Club Allard fica alojado na Casa Gallardo, uma das edificações símbolo do modernismo em Madri, concebida em 1911 por Federico Arias Rei, na esquina da Calle Ferraz com Praça de Espanha (www.elcluballard.com).

Texto publicado na coluna do blog na Revista Siará – Edição de 10.03.2013

11:11 · 10.07.2013 / atualizado às 11:11 · 10.07.2013 por

Que tal jantar no restaurante mais antigo do mundo? É para esta experiência que hoje lhe convido. Depois de abrir o apetite no Mercado de San Miguel, bastou caminhar umas duas quadras para voltar no tempo e conhecer o Sobrino de Botín, classificado pelo Guiness Book como o restaurante mais antigo do mundo, e que reserva pratos tão interessantes quanto a sua história.

Era 1725, e um típico casarão madrilenho abria suas portas como pousada e também seu forno à lenha para que viajantes e cortesãos que passavam pela cidade assassem pedaços de carne que carregavam consigo na bagagem. Passados quase trezentos anos, tudo continua no mesmo lugar, revelando-se, atualmente, como um verdadeiro templo da gastronomia espanhola. E esta foi outra das minhas descobertas em mais uma passagem por Madri.

O Sobrino de Botín é hoje um dos templos gastronômicos de Madri Foto: Divulgação
O Sobrino de Botín é hoje um dos templos gastronômicos de Madri Foto: Divulgação

Originariamente chamado de Casa Botín, esse restaurante foi criado por Jean Botín e sua esposa. Após sua morte, um dos sobrinhos assumiu o negócio e daí a mudança do nome. A cozinha ainda mantém ativa o forno desde aquela época.

Por trás da fachada de ladrilhos, mais parecendo tijolos antigos, se abre um labirinto de pequenas salas, dispostas em três andares, por onde já passaram chefes de estado e celebridades da música e do cinema, como Jacqueline Kennedy, Charlton Heston, Ava Gardner, Michael Douglas, Pedro Almodóvar, os reis espanhóis e até Ricky Martin.

Muitos escritores também dedicaram algumas páginas de suas obras ao Botín, como os espanhóis Ramón Gómez de la Serna e  Benito Pérez Galdós (originário das Ilhas Canárias) e ainda o romancista inglês Graham Greene e o norte-americano Ernest Hemingway.

Disposto em várias salas,   seu interior é muito aconchegante Foto: Divulgação
Disposto em várias salas, seu interior é muito aconchegante Foto: Divulgação

Nas paredes, azulejos decorados completam o visual, além de pinturas que revelam como era a Madri do período medieval. O atendimento é ótimo e o ambiente perfeito para degustar as especialidades do lugar: o cochinillo assado, espécie de leitão de apenas 21 dias, além de cordeiro, sopas (a de alho é espetacular) e ainda o solomillo Botín, filé bovino de dar água na boca. Esta última foi a minha opção como prato principal.

A cozinha ainda mantém ativo o forno desde a fundação Foto: Divulgação
A cozinha ainda mantém ativo o forno desde a fundação Foto: Divulgação

E o Botín não teve apenas clientes famosos, mas funcionários também. Segundo o Guinness, Francisco de Goya trabalhou ali lavando pratos antes de se tornar um pintor renomado. Além do que, a casa também tem as marcas de momentos importantes na história da Espanha, guardando pequenos sinais da Guerra Civil que assolou o país.

Localizado na Calle de Cuchilleros, número 17, bem próximo à Plaza Mayor, a casa abre todos os dias para almoço das 13h às 16h e para jantar das 20h às meia-noite. Para quem deseja, além de comer, conhecer um pouco mais da história do Botín há o cardápio “Siglo de Oro”, uma sessão gastronômica com o que de melhor era servido à mesa de nobres no chamado século de ouro espanhol acompanhado de uma narrativa de passagens e clientes que marcaram o lugar. Mas pede reserva (www.botin.es).

Texto publicado na coluna do blog na Revista Siará – Edição de 03.03.2013

12:33 · 09.07.2013 / atualizado às 12:33 · 09.07.2013 por

Em se tratando de viagens, o ano de 2013, até agora, tem sido de reencontros. Retornos a cidades que, de uma forma ou de outra, marcaram minhas andanças mundo afora. Embora não planejasse tão cedo uma visita a Madri, eis que surge a oportunidade quando eu menos esperava.

Mal terminava o primeiro mês do ano, voltei à Capital espanhola. Embora a trabalho, nas horas livres, revi a cidade com outros olhos. Desta vez, desobrigado de bater ponto nos principais cartões postais, curti a atmosfera inspiradora do lugar por meio da gastronomia.

Para quem deseja conhecer mais a Espanha a partir da sua deliciosa e bem elaborada cozinha uma passada no Mercado de San Miguel, por exemplo, pode ser um bom começo. Inaugurado em 1916, depois de dois anos de reforma, em 2009 a cidade ganhou novamente este endereço imperdível para todos que a visitam. A estrutura, toda em ferro, é lindíssima!

Mercado de San Miguel e sua belíssima estrutura de ferro Foto: Anchieta Dantas Jr.
Mercado de San Miguel e sua belíssima estrutura de ferro Foto: Anchieta Dantas Jr.

A reabertura veio com uma proposta super gourmet. São mais de 30 bancas de frutas e verduras cinematográficas, massas, peixes fresquíssimos e embutidos. Enfim, tudo que se espera de um mercado de qualidade.

As barraca de frutas de encher os olhos Foto: Anchieta Dantas Jr.
As barraca de frutas são de encher os olhos Foto: Anchieta Dantas Jr.

Mas o San Miguel não termina por aí. Ele tem mesas comunitárias de degustação, bares de vinhos e cavas (espumante espanhol), docerias e um time de cozinheiros de primeira, que prepara comidinhas o dia inteiro com ingredientes mais frescos impossíveis – afinal, estamos em um mercado.

Bares de vinhos e cavas Foto: Anchieta Dantas Jr.
Bares de vinhos e cavas Foto: Anchieta Dantas Jr.

Para você ter uma ideia, do mesmo peixe que a peixaria vende para a gente levar para casa, das mãos de hábeis profissionais saem tapas (comidinhas típicas da Espanha) bem diferentes. Tem de salmão com um delicado creme de ervas, de atum, camarões, mexilhões e de peixe branco. Chama a atenção ainda a diversidade de outros frutos do mar, incluindo aí ouriços.

As tapas são deliciosas Foto: Anchieta Dantas Jr.
As tapas são deliciosas Foto: Anchieta Dantas Jr.

Pelo mercado dá para saborear também o delicioso jamón ibérico (presunto típico do país) fatiado à perfeição, na hora. Já nas queijarias há pratinhos recheados de delícias mil – são delicados pedaços dos melhores queijos existentes no mundo. Sem contar as paellas!

Os frutos do mar são fresquíssimos e ainda se pode levar pra casa Foto: Anchieta Dantas Jr.
Os frutos do mar são fresquíssimos e ainda dá pra levar pra casa Foto: Anchieta Dantas Jr.

Frequentado não só por turistas, mas, sobretudo, pelos locais, mão tem programa melhor para começar a noite na cidade ou mesmo terminar. Situado bem ao lado da Plaza Mayor (pela saída oeste), de quinta a sábado, o San Miguel só fecha às duas da manhã – nos outros dias, à meia-noite.  As mesas viram uma deliciosa bagunça onde tudo acaba em festa.

Porém, se você gosta de comer, Madri tem muito mais a oferecer. Depois eu conto um pouco mais do que descobri nesta passagem pela cidade. É de dar água na boca!

Texto publicado na coluna do blog na Revista Siará – Edição de 24.02.2013

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