Excesso de modernidade avacalha OS 3 MOSQUETEIROS
Categorias: CRÍTICAS DE FILMES
Adaptação razoavelmente fiel ao romance original de Alexandre Dumas, Os 3 Mosqueteiros, de Paul W. S. Anderson revela como a inserção de elementos modernos em clássicos da literatura resulta em filmes desastrosos e incompetentes. Ou mais prpriamente, em filmes estúpidos
O escritor francês Dumas Davy de La Pailletterie, mais conhecido como Alexandre Dumas pai (1802–1870), teve o seu Os Três Mosqueteiros publicado entre março e julho de 1844, em forma de folhetim, no jornal Le Siècle, e, ainda naquele ano, lançado como romance, o qual é, ainda hoje, considerada a maior entre todas as suas criações literárias. Nos anos de 1845 e 1848 Dumas finalizaria uma trilogia com a publicação, respectivamente, de 20 Anos Depois e O Visconde de Bragelone, no está inserido outro clássico, O Homem da Máscara de Ferro.
A produtora estadunidense Summit Entertainment, a mesma da Saga Crepúsculo, de Stephanie Meyer, em parceria com o estúdio alemão Constantin Films, responsável pela franquia Resident Evil, e mais dois pequenos estúdios, levantaram US$ 75 milhões para uma nova produção de Os 3 Mosqueteiros, com planos de levar a trilogia literária para o cinema. Os roteiristas Alex Litvak, de Predadores (2010), e Andrew Davies, de O Diário de Bridget Jones (2004), receberam a incumbência de introduzir elementos modernos à adaptação cinematográfica e dar-lhe um vertiginoso ritmo de ação, cuja estruturação visual ficaria cargo da equipe de efeitos especiais e do diretor Paul W. S. Anderson, realizador da franquia Resident Evil, oriunda de um jogo de videogame.
Nenhum estúdio planeja um filme pensando em fracasso, embora saiba ser, este risco, real. Quem acessa este blog de cinema acompanhado através dos Rankings de Bilheteria dos EUA e do Brasil, a “via crusis” de Hollywood com inúmeras produções que não darão o retorno de seus investimentos. É muito, mas muito filme competindo pelo fracasso. Produzir cinema é, sim, um trabalho de risco.
Os 3 Mosqueteiros era aguardado com imensa expectativa por apostar no sucesso da “modernização” de um dos maiores clássicos da literatura universal. A idéia era clara: utilizar uma história conhecida universalmente e que por si já garantisse o interesse popular e adicionar-lhe ação e aventura ao gosto das jovens platéias não exigentes de fidelidade ou respeito ao original literário. Assim, Os 3 Mosqueteiros traz somente o esqueleto da história criada por Dumas e todo o revestimento é “novo” e “moderno” conforme os efeitos especiais e a linguagem dinâmica e ágil imposta do cinema feito em Hollywood. No geral, reside justamente nessa conjunção da “adaptação livre” a desgraça e o desastre de Os 3 Mosqueteiros. O que poderia ser um filme de aventura acabou resultando em uma obra anacrônica e sem personalidade, uma contrafação à obra literária e um desrespeito ao autor.
Os 3 Mosqueteiros de Paul Anderson rejeita o saboroso tom de folhetim da obra de Dumas e a elegância e o sabor de romance, intriga e aventura das antigas e clássicas adaptações, como as de Allan Dawn, de 1939, com Don Ameche e Glória Stewart, e, principalmente, a de George Sydney, de 1948, com Gene Kelly, Lana Turner, Van Heflin, Angela Lansbury e Vincent Price, para levar essa mesma história adaptada em um arriscado tom modernista para o paladar de um público jovem apreciador apenas da dupla ação e pancadaria. A criação de Dumas está muito além dessa limitada e estreita visão dos seus adaptadores. Nessa modernosa adaptação, mosqueteiros são ladrões de diamantes e de mapas, há encouraçados de guerra voadores que se bombardeiam como se estivessem em alto mar, as espadas são estilizadas e modernas, espadachinsque se vestem parecendo ninjas, Milady de Winter (Milla Jovovich) é uma acrobata que escapa de armadilhas de armas de fogo, além de balas de canhão voarem com estopins acesos.
Há ainda graves falhas do roteiro que contém diálogos descontextualizados com a época na qual se desenvolve e deixa os acontecimentos espaçados e estanques, o que praticamente exclui a dramaticidade, além de não explicar as questões políticas envolvendo a rainha francesa (Juno Temple), o duque de Buckingham (Orlando Bloom), e Milady de Winter, ex-mulher de Athos (Matthew McFadyen) no romance. Os contextos políticos são colocados logo no início em uma narração em “off”, a qual procura esclarecer os conflitos e as fronteiras de alguns países europeus, que naquela época, o início do século 17, ainda não estavam formalizadas e outros ainda não eram reconhecidos, como o Reino da Espanha. Uma tentativa de remediar o vazio temático do filme.
Com todos esses inconvenientes, Os 3 Mosqueteiros tenta se definir como uma aventura de ação. Nada a ver com o livro, classificado como um romance histórico. Claro, pode agradar, eventualmente, ao público jovem desconhecedor da obra de Dumas e sua importância na história da literatura. Mas, para os conhecedores do romance – o qual prima pela inteligência e trafega pela cultura –, e até mesmo dos filmes clássicos, vai ser estranhíssimo se deparar com a “modernidade” implantada a Os 3 Mosqueteiros. Uma prova de que, na modernização dos clássicos pelo cinema, a essência da obra é a primeira a escapar pelo ar.
Os Três Mosqueteiros resulta não apenas em um filme sem a essência literária de Dumas, mas em um espetáculo desastroso em sua insípida criatividade, uma avacalhação a uma das maiores criações da literatura universal. Um dos filmes mais estúpidos já feitos por Hollywood.
Mais informações
Os Três Mosqueteiros (The Tree Musketeers, EUA-Alemanha, 2011), de Paul W. S. Anderson, com Orlando Bloom, Milla Jovovich, Logan Lerman e Christopher Waltz. 110 minutos. 12 anos.
Saiba mais sobre Alexandre Dumas e Os 3 Mosqueteiros.
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