Há exatos 30 anos, em 26 de julho de 1982, estreava nos cinemas brasileiros Blade Runner, o Caçador de Androides. Não é por poucos motivos que o filme tornou-se um inegável marco na história do cinema.

Nos EUA, o filme baseado em livro de Philip K. Dick (Do Androids Dream of Electric Sheep) e dirigido por Ridley Scott (que vinha do sucesso de Alien, o Oitavo Passageiro, de 1979) competia pela bilheteria com o comovente E.T. de Steven Spielberg, sem conseguir agradar ao público. Hoje, entretanto, é considerado um cult. E não é por menos: para ter uma ideia, em 2004, o jornal britânico The Guardian convidou 60 cientistas a eleger o melhor filme de ficção científica de todos os tempos e Blade Runner só ficou atrás de 2001, Uma Odisseia no Espaço (o que não é nada vergonhoso)
Para rever (ou conhecer): a sugestiva abertura de Blade Runner, com trilha sonora do grego Vangelis e uma Los Angeles sombria:
A repercussão fraca no lançamento é atribuída não só à concorrência com o filme de Spielberg, como ao clima de discórdia que imperou no set de filmagem (principalmente entre o diretor e Harrison Ford), assim como às interferências abusivas dos produtores na primeira versão e às críticas incisivas da imprensa. Ou, ainda, ao desagrado dos estadunidenses para com a transformação da ensolarada Los Angeles em um ambiente soturno e sujo. A cidade onde vive o detetive Rick Deckard – Ford, que já conquistara o público com os personagens Hans Solo, de Guerra nas Estrelas (1977) e Indiana Jones, em Os Caçadores da Arca Perdida (1981) -, é chuvosa e escura como a Gotham City (Ridley Scott até quis dar este nome ao filme) de Batman.
Depois de tanta polêmica com a primeira versão da estreia nos EUA, a obra rendeu pelo menos outras quatro versões expressivas (embora existam mais variações sobre o tema): a do lançamento internacional (também em 1982), a do diretor (1992), a “definitiva” (2007) e a versão final (final cut) com algumas cenas prolongadas, que consta em edições especiais do DVD. Cada uma das mudanças deu o que falar, mantendo o filme “vivo”, com novos detalhes para ser degustados prazerosamente pelos fãs. Mais de vinte anos depois da estreia, em 2007, foi feita até uma filmagem extra: a fuga da androide Zhora (a atriz Joanna Cassidy ficou feliz em declarar que, mesmo depois de tantos anos, não precisou de nenhum ajuste no figurino original).
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Joanna Cassidy como a replicante Zhora, com a cobra que era bichinho de estimação da atriz.
UM FUTURO CONTAMINADO PELO PASSADO
Blade Runner se passa em 2019, quando a Terra está em plena decadência. O futuro, porém, apresenta uma estética um tanto retrô, inspirada em filmes noir, quadrinhos de ficção científica franceses e em Metrópolis (1927), de Fritz Lang (outro clássico). Há gigantescos outdoors eletrônicos em uma “cidade falante”, androides virtualmente idênticos a humanos, carros voadores, computadores… e, por outro lado, guarda-chuvas, ventiladores e jornais impressos (na visão de Scott, está resolvida a tal polêmica quanto ao fim do jornal devido ao avanço da internet). A mistura de passado e futuro mostra novos tipos de exclusão social – principalmente tecnológica – , dá um tom atemporal à trama e a torna ainda mais propícia à mitificação por parte dos fãs.

Harrison Ford é o detetive Rick Deckard, encarregado de exterminar os andróides
Nesse cenário, o detetive Deckard é convocado para um último trabalho: exterminar alguns androides rebeldes da geração NEXUS 6, a mais avançada, superiores em força e agilidade, com inteligência no mínimo igual à dos engenheiros genéticos que os criaram (alguns, com o requinte de memórias artificiais implantadas, são tão perfeitos que podem não conhecer a própria natureza). Os quatro replicantes que serão perseguidos por Deckard teriam invadido a Terra para descobrir uma maneira de prolongar seu tempo de vida e questionar os desígnios do “criador”.
Entre as modificações importantes nas diferentes versões do filme, há as impostas à primeira, para torná-lo mais digerível – com redução da violência, inserção do texto em off de Deckard explicando os acontecimentos (que Harrison Ford detestou gravar), e o acréscimo de um final feliz improvisado - a viagem de carro, na verdade emprestada de O Iluminado: cenas inéditas descartadas no último corte por Stanley Kubrick. Já a versão do diretor traz uma sugestão de que Deckard poderia ser um replicante.
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Daryl Hannah, em começo de carreira, interpretou a androide Pris
O FRANKENSTEIN QUE DEU CERTO
A trama coloca em evidência a ética duvidosa que rege alguns avanços científicos. O tema antigo (nem por isso menos atual e interessante) trabalha o grotesco em uma das (diversas) releituras do Frankenstein de Mary Shelley, resgatando a reflexão de até que ponto homens podem tornar-se monstruosos ou monstros são capazes de revelar-se humanos. Com tantos recortes e acréscimos, aliás, o próprio filme pode ser considerado um Frankenstein.
A trilha sonora de Vangelis é uma preciosidade a mais, que sublinha instantes dramáticos com maestria, realçando a insegurança de um mundo repleto de explosões e abismos (físicos, éticos, afetivos), e confere uma delicadeza sensual para os momentos românticos. Mas ela também não escapou da saga de reedições. As oficiais foram: a do lançamento, em 1982, com faixas executadas pela New American Orchestra; em 1994, a trilha sonora original, com composições de Vangelis não utilizadas no filme e, em 2007, uma nova edição, com músicas extras.
Ouça o blues Memories of Green, tema de amor para Deckardt (Harrison Ford) e Rachel (Sean Young), com uma seleção das cenas românticas do filme:
Outro fator que contribuiu para Blade Runner não ser esquecido com o passar do tempo é o tema. O gênero ficção científica, no cinema ou em outros formatos estéticos, muitas vezes utiliza seres, tempos e mundos diferentes para falar… da humanidade. Os replicantes querem aumentar seu curto tempo de vida. E quem de nós não pensa que a vida deveria ser um pouco (ou muito) mais longa? A diferença, no caso, é que eles podem encontrar, em carne e osso, o seu “deus” que, em muitos aspectos, não é nem um pouco superior, para pedir explicações e acertar contas…

O ator holandês Rutger Hauer em cena emblemática do filme
Harrison Ford deu ao detetive relutante não só verossimilhança, mas ao mesmo tempo frieza e sensibilidade. Através de seus olhos, conhecemos, com espanto e ironia, a estranha distopia futurística. Deckard, que não gosta nem um pouco do trabalho que precisa realizar, é o exterminador e, contraditoriamente, quem mais se deixa sensibilizar pela “humanidade” dos androides.
A sequência antológica, inesquecível, é quando o detetive finalmente testemunha essa humanidade em sua forma mais comovente, com o gesto (de compaixão?) do replicante Roy Batty (Rutger Hauer). Hauer, aliás, tem parte considerável de responsabilidade pela cena marcante, pois modificou o texto e deu a ideia de acrescentar a pomba, cujo voo é o ponto final (ou talvez as reticências) para a bela frase que ficou na história do cinema.
Veja um trecho da sequência antológica do confronto entre Deckard (Ford) e Batty (Hauer)
Roy lamenta que, com sua morte, todos os momentos únicos vivenciados por ele fiquem “perdidos no tempo, como lágrimas na chuva”. E não é este o destino de nossas vidas? O fim de cada instante, por mais intenso e belo, no qual compartilhamos a força e a fragilidade, os defeitos e virtudes que nos tornam tão mortais e maravilhosamente humanos?
Ficha Técnica
BLADE RUNNER, O CAÇADOR DE ANDROIDES (Blade Runner, EUA, 1982), de Ridley Scott. Com Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Edward James Olmos, M. Emmet Walsh, Daryl Hannah, William Sanderson, Brion James, Joe Turkel, Joanna Cassidy. Warner. 118 min.