Com a exibição de Meia-Noite em Paris, de Woody Allen, o Festival de Cannes tem início hoje, 4a, 11, com 19 filmes disputando a Palma de Ouro, duas produções clandestinas como atração e algumas das obras mais aguardadas da temporada nas mostras paralelas, nas quais se incluem dois representantes da nova safra brasileira, um deles Abismo Prateado, de Karin Aïnouz

Cannes não é somente um festival de filmes, mas de gente que faz a maior indústria da arte e do entretenimento visual. Pelo seu famoso tapete vermelho irão desfilar cineastas do quilate dos estadunidenses Terence Mallick, Angelina Jolie, Brad Pitt, Robert De Niro e Johnny Deep, os espanhois Pedro Almodóvar, Antonio Banderas e Penelope Cruz, o italiano Nanni Moretti, e a francesa Catherine Deneuve, entre outros. Meia Noite em Paris, comédia romântica de Woody Allen, abre o Festival, nesta quarta, 11, contando três histórias que passam em Paris: uma família estrangeira em mudança para a cidade, um casal de noivos que também pretende lá se casar, e um jovem que busca pela cidade a mulher de sua vida. No elenco, Owen Wilson, Rachel McAdams, Marion Cotillard e Carla Bruni, a qual deverá “roubar a festa” com a especulação de que estaria grávida.
Veja treiler de Meia Noite em Paris.
O marido de Carla, o presidente francês Nicolas Sarkozy, está retratado no drama La Conquête (A Conquista), o qual reconstitui o colapso de seu casamento com a esposa anterior, Cecília, e as eleições de 2007, quando foi eleito.
Veja o treiler de La Conquête.
Ainda na abertura, a AmFar, organização de luta contra a Aids, prestará uma homenagem à Elizabeth Taylor, que desde 1985 com a morte do amigo Rock Hudson, vítima da Aids, engajou-se na luta contra a doença e, ao falecer, deixou parte de seu espólio, cerca de US$ 600 milhões, para duas entidades de pesquisa da cura da enfermidade.
Os atores Jude Law e Uma Thurman, a atriz e produtora argentina Martina Guzman, o produtor Chinês Nansun Shi, a escritora e crítica literária norueguesa Linn Ullman, o cineastas Oliver Assayas, francês, Mahamat Saleh Haroun, africano, e Johnny To, chinês, formam o corpo de jurados, o qual tem Robert De Niro na presidência.
A grande expectativa que cerca Cannes, neste ano, é a seleção dos filmes, tanto em competição quanto nas mostras paralelas, a qual contempla uma ampla variedade de produções de diversas nacionalidades de enfoque nos problemas sociais e políticos. Um cinema de comprometimento. Uma das atrações de Cannes será a exibição de dois filmes tidos como clandestinos por terem sido às escondidas, os iranianos Be Omid-e Didar (Adeus), de Mohammad Rasoulov, e In Film Nist (Isto não é um Filme), de Jafar Panahi e Mojtaba Mirtahmasb. Atração da Mostra Um Certo Olhar, Rasoulov conta a história de um advogado de Teerã que tenta sair legalmente do país e encontra inúmeras dificuldades, enquanto o de Panahi, cartaz nas sessões especiais, é uma espécie de diário sobre a vida de um artista impedido de trabalhar. O cineasta, condenado a seis anos de prisão e a 20 anos sem filmar, aguarda por um julgamento de recurso.

Outro aspecto relevante em Cannes é o retorno dos grandes cineastas. As maiores expectativas recaem sobre as novas criações de Terence Mallick, A Árvore da Vida; Pedro Almodóvar, A Pele que Habito; Lars Von Trier, Melancolia; além das obras de Nanni Moretti, Habemus Papam, e a nova criação dos irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne, La Gamim au Vélo (O Menino na Bicicleta).
Depois de ter recebido duras críticas, na edkição do ano passado, por não ter selecionado obras feitas por mulheres, nesta ano Cannes apresenta 4: Hanezu no Tsuki, da japonesa Naomi Kawase, We Need to Talk About Kevin, da escocesa Lynne Ramsey, Polisse, da francesa Maïween Le Besco, Sleeping Beauty, da estadunidense Julia Leigh, todas em competição, além de Et Maintenant, on Va Où, da libanesa Nadine Labaki, realizadora do delicioso Caramelo.
A Árvore da Vida, de Mallick, é o mais aguardado e favorito à Palma de Ouro. O treiler, já em exibição nos cinemas, vislumbra um filme filosófico e encantador. Ambientado nos anos 50, conta a história de uma família e seus três filhos. O mais velho, Jack (Sean Penn), fica tão abalado com a morte do irmão mais novo que, mesmo na vida adulta, não consegue superar a perda e empreende uma filosófica busca pelo sentido da existência.
Veja o novo treiler de A Árvore da Vida.
A Pele que Habito é a primeira experiência de Pedro Almodóvar com o terror psicológico. Baseado no livro Tarântula, do francês Thierry Jonquet, acompanha os esforços de um cirurgião plástico (Antonio Banderas) para encontrar uma pele mais resistente do que a humana a fim de salvar a vida de sua mulher (Elena Anaya), vítima de queimaduras.
Confira o treiler de A Pele que Habito.
Outra obra aguardada, Melancolia, de Lars Von Trier, aborda o fim do mundo. Durante uma festa, o casal (Kirsten Dunst e Alexander Skarsgard), a dona da casa (Chalotte Gainsbourg), o cunhado (Kiefer Sutherland) e os convidados (entre eles, John Hurt) presenciam no céu o planeta Melancolia em sua rota de colisão com a Terra.
Confira o treiler de Melancolia.
Na verdade, todos os 19 filmes em competição à Palma de Ouro têm chances de obtê-la. Afinal, foram conferidas previamente. Expectativas com uns, surpresa com outros. Entre as expectativas, Habemus Papam, o novo trabalho de Nanni Moretti, traz Michel Piccoli no papel de um cardeal que entra em estado de pânico quando o nome dele entra na lista de seleção para a escolha do novo papa. Em cartaz há cerca de 15 dias na Itália, o filme provocou a reação do Vaticano, que não gostou nada de ver seus cardeais jogando voleibol. Mas no interior do episcopado católico italiano há divisão: o crítico do “Avvenire” afirmou que o filme apresenta “a morte de uma igreja velha e confusa”, e o crítico da Rádio Vaticano elogiou, afirmando que Moretti faz um “retrato humanizado” dos cardeais e que não há nenhuma caricatura.
Para ter uma idéia, confira o treiler.
Outros filmes aguardados são as produções estadunidenses This Must be the Place, de Paolo Sorrentino, Sleeping Beauty, de Julia Leigh, considerados obras-primas pela crítica estadunidense, e Michael, o estranhíssimo drama de estréia do austríaco Markus Schleinzer. This Must be the Place traz Sean Penn (com uma maquiagem bem carregada) no papel de um cantor de rock cujo pai morreu em de Auschwitz durante a 2ª Guerra Mundial e descobre que o comandante do campo de concentração está escondido nos EUA. Ele inicia, então, uma jornada de busca do oficial nazista e ela se torna, também, uma jornada de autoconhecimento.
Veja o treiler de This Must be the Place.
Escrito e dirigido por Julia Leigh, Sleeping Beauty estava na lista negra dos estúdios desde 2008. Motivo: sexualidade. A trama gira em torno de uma jovem (Emily Browning) que ingressa, por necessidade financeira, na prostituição, e todas as noites, sob o efeito de soníferos, ela dorme enquanto os homens exploram o seu corpo como quiserem. E ela, na manhã seguinte, não se lembra de nada.
Veja o treiler.
De Michael, praticamente nada se sabe sobre o enredo, mas seu diretor, Markus Schleinzer, tem a credencial de ser um ex-ator e ter sido o responsável, como diretor de elenco, pela escolha do “cast” de filmes como Professora de Piano, Os Falsários e A Fita Branca. Ou seja, angariou boa experiência acompanhando os trabalhos de cineastas do quilate de Michael Haneke e Ruzowitzky. E pelo treiler, promete ser uma obra inquietante.
Veja o intrigante treiler de Michael.
Mas, afora os filmes em competição todos os olhares se voltam para os integrantes da Mostra Um certo Olhar, onde são encontradas algumas das pérolas do Festival. O cinema latino está representado por 4 produções. Miss Bala, do mexicano Gerard Naranjo, desenvolve a história de uma mulher (Stephane Sigman) que sonha em ser rainha nos concursos de beleza e tenta agarrar a chance em um financiado pelo crime organizado; Bonsái, do chileno Christian Jiménez, 36, uma co-produção envolvendo Chile, Argentina, França e Portugal, sobre um estudante de literatura que se apaixona por uma garota e, anos mais tarde, contratado por um escritor para transcrever uma novela, resolve contar a história de seu romance com a garota; os brasileiros Trabalhar Cansa, de Juliana Rojas e Marco Dutra, um drama em clima de realismo fantástico que conta a história de um casal (Marat Descartes e Helena Albergaria) que começa a se desentender quando ela abre um minimercado e ele é despedido da empresa multicional; e Abismo Prateado, do cearense Karim Aïnouz, inspirado na canção Olhos nos Olhos, de Chico Buarque, traz Alessandra Negrini no papel de uma mulher angstiada por ter sido abandonada pelo marido.
Veja o treiler de Trabalhar Cansa.
Chama a atenção, entre outros, o novo filme de Gus Van Sant, Restless, de Gus Van Sant, com temática espiritualista sobre uma adolescente (Mia Wasikowska) com uma grave doença que, presa a uma cama de hospital, se comunica com o espírito de um soldado japonês (Ryo Kase) falecido na 2ª Guerra Mundial. Van Sant, um dos mais respeitados realizadores de Hollywood, produz seus melhores trabalhos no sistema independente, como Gênio Indomável (2007), Elefante (2003) e Milk (2008). Este é uma produção da Imagine distribuída por um grande estúdio, a Columbia/Sony.
Confira o treiler de Restless.
Fora de competição, um dos filmes a chamar a atenção é o indiano Bollywood, the Greatest Love Story Ever Told, de Shakar Kapur (o realizador de Elizabeth 1 e 2, com Cate Blanchett), uma homenagem ao cinema indiano com as cenas de algumas das melhores realizações com os seus característicos quadros musicais.
Confira o treiler.
Outros que chamam a atenção são The Artist, a ousada criação do francês Michel Hazanavicius que fez um filme musical em preto e branco ambientado em 1927 e com a linguagem do cinema da época; Le Maitre dês Forces de L’enfer, do indiano Rithy Pann, e Um Novo Despertar (The Beaver), da estadunidense Jodie Foster, feito com Mel Gibson – que dizem, nma atuação arrasadora – no papel no papel de um homem que se torna depressivo após a mulher se divorciar dele. O filme foi feito antes dos escândalos de homofobia religiosa e violência doméstica que levaram o ator às manchetes policiais.
Cannes também será palco para as produções “blockbusters” de Hollywood, as quais devem atrair multidões. O Festival terá a primazia de promover a pré-estréia de dois dos mais aguardados filmes da temporada, a animação Kung Fu Panda 2, de Jennifer Yuh, com a voz de Jean Claude Van Damme, e Piratas do Caribe 4 – navegando em águas misteriosas, de Rob Marshall.
Vejao treiler de Kung Fu Panda 2.

Confira o Treiler de Piratas do Caribe 4.
No encerramento, dia 22, será exibido Les Bien-Aimés (Os Bem Amados), de Christophe Honoré, história de amor desenvolvida dos anos 60 ao ano 2000 envolvendo mãe e filha em momentos históricos de transformações políticas e pessoais. No elenco, Chiara Mastroianni, Catherine Deneuve e Louis Garrel. Algumas produções aguardadas, como On the Road, de Walter Salles, e W. E., estréia da cantora Madonna como diretora, não ficaram prontos a tempo.
Veja o treiler de Les Bien Aimés.