Os Melhores da década de 2000
Categorias: Melhores da Década
É provável conter alguma injustiça, mas a presente seleção dos dez melhores filmes da primeira década do século XXI contempla as obras que expressam não apenas a realidade e a história do mundo, mas que oferecem ao espectador uma reflexão sobre as ações transformadoras do homem ao longo de sua história
1º – Avatar (Avatar, EUA, 2009), de James Cameron
2º – A Queda – os Últimos Dias de Hitler (Der Untergang, Alemanha-Áustria, 2004), de Oliver Hirschbiegel
3º – Wall-E (Wall-E, EUA, 2008), de Andrew Stanton
4º – Cidade de Deus (Brasil, 2007), de Fernando Meireles
5º – O Segredo de Brockback Mountain (Brokeback Mountain, EUA, 2005), de Ang Lee
6º – Mestre dos Mares: o Lugar Mais Distante do Mundo (Master and Commander: the Far Side of the World, EUA-Austrália, 2003), de Peter Weir
7º – Sob a Névoa da Guerra (The Fog of War, EUA, 2003), de Erroll Morris
8º – Intervenção Divina (Yadon Ilaheyya, França-Alemanha-Marrocos-Holanda-EUA, 2002), de Elia Suleiman
9º – Em Busca da Vida (Sanxia Haoren, China, 2006), de Jia Zhang-ke
10º - Lugares Comuns (Argentina, Lugares Comunes, Argentina, 2002), de Adolfo Arastarain
Seria facílimo selecionar os melhores filmes da década de 2000 com as grandes produções de Hollywood, seus “blockbusters”, sucessos de bilheteria e apenas acrescentar um ou dois filmes internacionais. Há dezenas de listas assim nos sites de cinema e “blogs” das mais diversas áreas.
Entendemos de forma diferente: selecionar os melhores filmes produzidos ao longo de dez anos exige um esforço maior, acima dessa limitação de privilégio e submissão à qualidade e poderio do cinema norte-americano. A responsabilidade do crítico, neste momento, é com o Cinema e a sua História. O Cinema expressa a realidade. Então, este é o fio da meada.
Após essa primeira posição, surgem os problemas: o acesso aos filmes. Assim como a Terra está no limite da Via Láctea, distante de seu centro, nós cearenses estamos no limite do mapa do país, numa região onde a cultura chega a trancos e barrancos. Nem todos os filmes importantes chegam por aqui, especialmente os integrantes de mostras e festivais, os quais, a rigor, representam apenas uma ínfima parte da produção cinematográfica mundial.
Nos cinemas da cidade Hollywood reina absoluta. Enquanto isso, obras internacionais de relevo, especialmente das pequenas cinematografias, premiadas pelo mundo afora, mantêm-se teimosamente distantes. A situação é muito ruim no aspecto da formação cultural de um povo e só não chega a ser dramática graças ao Cinema de Arte do Multiplex UCI Ribeiro e as salas do Grupo Espaço de São Paulo, no Dragão do Mar.
Explicado o problema, voltamos para o critério de seleção. A condição primeira, selecionar 50 títulos, depois 30, 20 e, finalmente, dez. A segunda, destacar aqueles que não ficaram ultrapassados ou “datados”, ou seja, resistiram à passagem do tempo; a terceira, que tenham concedido alguma contribuição à evolução do cinema, e a quarta e última, entre os sobreviventes, eleger aqueles que, incólumes, expressam a realidade do mundo, a condição humana e suas contradições, a história do homem com as suas transformações, ensejando, por fim, a capacidade de gerar a reflexão no espectador.
Os critérios aqui expostos podem ter gerado algumas injustiças, deixando do lado de fora obras importantes. É provável. Mas não houve privilégios e em momento algum a pretensão de gerar polêmica. Sugerimos ao leitor que, caso não conheça algum dos títulos, procure assisti-los. E também revê-los. No mínimo, são boas “dicas” de cinema de primeira qualidade.
Os eleitos
Avatar, além de contribuir para a evolução do cinema dando-lhe o caráter de realidade, abre a porta para que, num futuro breve, o espectador venha a interagir com os personagens dos filmes. Além disso, Cameron cria uma belíssima história de amor em escala cósmica, na qual expõe a natureza humana em sua diversidade, a relação do homem com a ciência, a religião, o capitalismo, a natureza e o universo cósmico. Uma obra-prima.
O alemão Oliver Hirschbiegel, por sua vez, em A Queda – os Últimos Dias de Hitler, obriga-nos a refletir sobre a história e seus personagens funestos e monstruosos – os quais são nada mais do que nós mesmos, frágeis seres humanos. É através da história do líder nazista que o cineasta nos faz uma pergunta inquietante: devemos ter medo de nós mesmos?
O gênero que mais evoluiu nas últimas décadas, a animação, ganha destaque com a sua obra-prima: Wall-E. Dizem os filósofos que apenas contemplar não é suficiente. O filme de Andrew Stanton, para ser entendido, basta ser contemplado. Seu enredo sobre uma Terra devastada, a humanidade vivendo no espaço e robôs com sentimentos humanos, emociona, cativa e faz refletir enquanto assistimos a uma assustadora e, ao mesmo tempo, poética visão do futuro do homem.
Fernando Meireles revela ao mundo a cidade-favela dos esquecidos, cartão postal da desigualdade social do Brasil. Cidade de Deus, o mais importante filme brasileiro dos últimos dez anos é o exemplo do cinema expressão da realidade. A obra de Meireles nos leva a pensar no futuro do país caso, um dia, o morro desça desejando se inserir na sociedade. O Brasil resiste como o eterno país da esperança.
Em seu quarto trabalho em Hollywood, o taiwanês Ang Lee põe abaixo o último reduto da heterossexualidade da América ao expor a história de como os homossexuais se fizeram preservar na sociedade americana a partir da década de 1960, quando grandes transformações agitavam o mundo. Através do silêncio, O Segredo de Brokeback Mountain faz ousada e sensível exposição da discriminação e do preconceito que movem a diversidade humana, principalmente quando se trata de sexualidade, embora seja este o instrumento a mover o homem em sua jornada de sentimentos.
Um dos filmes mais injustiçados é, na verdade, um gigante da história. Em Mestre dos Mares, o Lugar Mais Distante do Mundo o australiano Peter Weir expressa a realidade de uma época de transição da humanidade, deixando para trás as trevas da imposição religiosa da Idade Média e ingressando na Idade Moderna – a separação entre o instinto (o comandante vivido por Russell Crowe) e a racionalidade (expressada pelo médico interpretado por Paul Bettany), enquanto as guerras napoleônicas promovem transformações e proporcionam o despertar para a tecnologia. Ao ver ou rever este filme, atentem para o naturalista, personagem que insere Darwin no enredo. História viva.
A história de um país e sua fome pela guerra. Erroll Morris faz de Sob a Névoa da Guerra um documento fundamental para o entendimento da política intervencionista dos EUA – sob o olho da História – em outros países. Robert McNamara (1916-2009), o ex-Secretário de Defesa dos governos Kennedy e Johnson, o arquiteto da Guerra do Vietnã, explica, moldado no “Destino Manifesto”, os motivos do intervencionismo em várias nações. Visão obrigatória.
O israelense Elia Suleiman expõe o absurdo da guerra entre o seu país e a Palestina em Intervenção Divina. O cineasta aborda a situação como a impossibilidade da felicidade de dois povos – a guerra dissemina o ódio, o medo, o sofrimento da perda de entes queridos e impede o desenvolvimento cultural. A absurda e cruel realidade tratada com humor, ironia e fantasia.
Em nome do desenvolvimento, o homem não apenas está matando o planeta, mas a sua própria história. É o que expressa Jia Zhang-ke em sua obra-prima “Em Busca da Vida”. A memória das civilizações em processo de demolição pelas exigências capitalistas que transformam o mundo num canteiro de obras. O cineasta chinês ousa colocar a esperança do homem não na sociedade, mas na sua capacidade individual em buscar a felicidade.
Lugares Comuns, em tom de lamento e tristeza e com grande poder de comunicação revela os motivos da decadência social da Argentina. Adolfo Arastarain, através da história de um professor encaminhado para a precoce aposentadoria, faz dolorosa exposição de uma nação combalida pelo desemprego, o empobrecimento da classe média, a amargura e decepção dos mais velhos para com sua pátria, a falta de perspectiva e o êxodo da juventude, o desleixo e abandono para com o produto humano – o homem. A herança da ditadura e de maus governantes. Uma reflexão sobre a relação entre homens e nações.
20 Menções Honrosas
2046 – os Segredos do Amor (Hong Kong-França-Alemanha, 2005), de Wong Kar-wai
A Agenda (França, 2007), de Laurent Cantet
A Partida (Japão, 2008),0 de Yojiro Takita
Abril Despedaçado (Brasil, 2001), de Walter Salles
Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (EUA, 2004), de Michel Gondry
Cartas de Iwo Jima/A Conquista da Glória (EUA, 2006), de Clint Eastwood
Desejo e Perigo (Taiwan, 2008), de Ang Lee
Edukators (Alemanha, 2003), de Hans Weingartner
Eleição - o submundo do Poder (China, 2007), de Johnny To
Guerra ao Terror (EUA, 2009), de Kathryn Bigelow
Filhos da Esperança (Inglaterra, 2007), de Alfonso Cuaron
O Céu de Suely (Brasil, 2006), de Karim Aïnouz
O Homem Urso (EUA, 2006), de Werner Herzog
Promessas de um Novo Mundo (EUA-Israel-Palestina, 2001), de Carlos Bolado
Sobre Meninos e Lobos (EUA, 2003), de Clint Eastwood
Traffic (EUA, 2006), de Steven Soderbergh
Trilogia O Senhor dos Anéis (EUA-Inglaterra, 2001-2002-2003), de Peter Jackson
Tropa de Elite (Brasil, 2007), de José Padilha
Valsa com Bashir (Israel, 2008), de Ari Folman
Vôo United 93 (EUA, 2006), de Peter Grengrass