2011 chega ao fim após uma temporada em que 375 filmes transitaram pelos diversos circuitos de cinemas do País, e pouco menos de 300 foram exibidos em Fortaleza. Na tradicional seleção dos melhores do ano constata-se que 2011 foi um ano generoso em filmes de qualidade, especialmente porque, tanto as duas salas do Espaço Unibanco no Centro Cultural Dragão do Mar quanto o Cinema de Arte do Multiplex UCI Ribeiro, redutos da sétima arte em seu estado puro, cumpriram as suas funções. A seleção destacada pelo analista representa escolhas intrinsecamente pessoais, segundo critérios que vão desde a sensibilidade com a qual a obra é recebida, passando por critérios filosóficos e históricos e se desfechando na análise especificamente cinematográfica. Daí, um ou outro título pode gerar discordância por parte de alguns cinéfilos ou de apenas apreciadores do cinema, o que favorece ao crítico a efetuar uma defesa de suas escolhas, colocando-se como um comunicador entre o autor da obra e o público. Na minha escolha essencialmente pessoal, o destaque maior da temporada é o drama A Árvore da Vida, de Terrence Malick, uma obra tão genial quanto 2001: uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick

Os 10 Melhores
1. A Árvore da Vida
(The Tree of Life, EUA,2011), de Terrence Malick
2. Em Um Mundo Melhor
(Haevenen, Dinamarca-Suécia, 2010), de Suzanne Bier
3. 127 Horas
(127 Hors, Inglaterra, 2011), de Danny Boyle
4. Homens e Deuses
(Des hommes et des deux, França, 2010), de Xavier Beauvois
5. Namorados Para Sempre
(Blue Valentine, EUA, 2011), de Derek Cianfrance
6. Além da Vida
(Hereafter, EUA, 2010), de Clint Eastwood
7. Tudo Pelo Poder
(The Ides of March, EUA, 2011), de George Clooney
8. Um Sonho de Amor
(Io Sono L’Amore, Itália, 2009), de Luca Guadagnino
9. O Palhaço
(Brasil, 2011), de Selton Mello
10. Melancolia
(Melancholia, Dinamarca, 2011), de Lars Von trier

Aponto A Árvore da Vida, de Terrence Malick, como o melhor filme do ano por expressar o Cinema em sua essência, a Arte, ao provocar inquietude, fascínio e reflexão. Obra filosófica impactante e de imagens fascinantes e surpreendentes, nos faz refletir provocando algumas perguntas inquietantes: de onde viemos? Quem somos? Qual o sentido de nossa existência? Ao expressar a percepção de nossa origem cósmica universal e darwinista, natureza e graça como caminhos da existência, o sentido de nossa “origem família” centrada em pai e mãe e na dor da mortalidade do corpo físico, Malick nos leva a ultrapassar, com Sean Penn, o portal que nos leva à praia da certeza da imortalidade da alma e da libertação do espírito, o reencontro de natureza e graça em um só elemento em uma esfera superior. Interpretação religiosa. Sim. Malick fez uma obra descaradamente religiosa com o objetivo de nos fazer pensar sobre o amor, a nossa mortalidade, a Terra que habitamos e o universo cósmico no qual moramos. Afinal, pense: qual é o propósito da existência?

Em segundo lugar, Em um Mundo Melhor, a cineasta dinamarquesa Suzanne Bier coloca o mundo como uma aldeia globalizada para tratar de dois temas: a violência com o alastramento da vingança e a ausência de comunicação entre as pessoas. Nesse processo, a realizadora indica que o mundo globalizado está longe de eliminar alguns dos seus impasses, como a desigualdade social, a miséria, a exploração e a violência. Bier nos deixa uma pergunta inquietante: podemos controlar os males da sociedade como tentamos controlar nossas próprias ações? Sem se desgarrar da esperança, ela nos indica a necessidade do exercício do amor e da pratica do perdão como fontes de combate aos males do mundo. Mas, será que estamos preparados para isso?

No terceiro da lista, 127 Horas, Danny Boyle consegue dinamizar a história real do alpinista Aaron Ralston e dar-lhe a dimensão de um drama humano sobre a insignificância da vida solitária, a tomada de consciência, a luta pela vida, o entendimento de que a existência nada tem a ver com acasos e que, perante a força da natureza, simplesmente existir é o sentido de tudo.

Quarto da lista, Homens e Deuses consegue extrair dois temas, a religião e a política, de uma história real ocorrida na Argélia em 1966. O foco, a presença colonialista ocidental no Oriente (os padres rejeitam a proteção militar de um governo corrupto e esse governo vê os colonizadores como atraso social e pilhagem econômica do país) se amplia para a da intolerância religiosa ao focar uma facção islâmica fundamentalistas. Xavier Beauvois filosofa sobre a convivência harmônica com a natureza e os semelhantes e as escolhas dramáticas que somos obrigados a fazer.

Um drama romântico às avessas ocupa o 5º lugar: Namorados Para Sempre. Segundo filme de Derek Cianfrance, lento e difícil para o público comum pela ausência de ação e de ter em cena apenas duas pessoas conversando, de Hollywood só tem mesmo os atores. É notável a forma como Cianfrance desenvolve, sem pressa e a todo custo grudada à realidade, a tentativa desesperada de um casal, Cindy (Michelle Williams) e Dean (Ryan Gosling, notáveis), em salvar um casamento que, apesar de ainda se amarem, rola, desgastado, ladeira abaixo. Um filme triste, mas denso, de personagens humanos que falam, brigam e se amam com tal ímpeto que praticamente nos leva a conviver, com eles, as dores de um amor preso a um barco ao sabor do destino.

Além da Vida ocupa o sexto lugar. Clint Eastwood, com base em um argumento do inglês Peter Morgan (de A Rainha), trata da morte como motivo de busca para o entendimento e o significado da existência. Um tsunami e uma experiência de quase morte, um acidente e um irmão repentinamente órfão e um médium resistente em aceitar o seu dom, salientam-se numa história na qual as perguntas ganham caráter filosófico e cujas questões só encontram respostas na espiritualidade.

Em sétimo, o “thriller” político Tudo Pelo Poder expõe com contundência o lado sujo das campanhas eleitorais trazendo à tona as entranhas dos partidos políticos. Explorando a luta entre boa vontade versus necessidade dos homens que buscam o poder, o diretor George Clooney situa o homem como um animal político e promovendo reflexão sobre a conduta dos políticos, nos faz inquietantes perguntas: afinal, o que os partidos políticos? Há necessidade de serem como são?

Ocupando o 8º lugar, Um Sonho de Amor trata do processo de mudança na sociedade humana, a substituição dos valores do passado, como as tradições, imposto por uma nova realidade e necessidade de um mundo em veloz universalização, baseada na liberdade, processo esse levado a cabo pela nova mulher. Luca Guadagnino, inspirado em Visconti, conta como isso está ocorrendo através da história de uma mulher que se apaixona por um homem mais jovem.

Em penúltimo lugar, O Palhaço, obra de Selton Mello cujo enfoque existencialista, a linguagem popular e a reflexão filosófica são as pilastras da sua sólida construção cinematográfica. No primeiro item, as 15 figuras humanas que compõem a trupe e, ao longo da narrativa, os seus diversos personagens secundários que entram e saem de cena; no segundo, os diálogos fáceis e a trilha sonora se unem para criar um canal de comunicação e conquistar a compreensão e a emoção do espectador; e no terceiro, a busca da identidade como metáfora do conhecimento da própria condição humana.

Fechando a lista, Melancolia, o hino de amor de Lars Von Trier a depressão, uma metáfora da tristeza humana nos tempos atuais dos relacionamentos em crise, em que a traição e a indiferença sufocam as emoções. Mesmo não concordando com esse tipo de cinema que trata do desalento e da desistência da vida, esta obra de Trier me incomoda até hoje com os seus momentos de genialidade e outros nem tanto. E quando um filme incomoda e inquieta a esse nível, merece ser destacado como um dos melhores do ano.