A temporada 2011 está chegando ao fim e Hollywood contabiliza um rombo que só poderá ser fechado fora do vermelho caso os filmes em lançamento neste mês arrecadarem 44% a mais em relação a dezembro do ano passado. Uma missão praticamente impossível, segundo os analistas do mercado cinematográfico dos EUA
Mesmo com uma extraordinária arrecadação doméstica de 247 milhões de dólares obtida, até a última terça-feira, 6, por Saga Crepúsculo: Amanhecer Parte 1, de Bill Condon, Hollywood contabiliza um declínio de bilheteria, somente no mês de novembro, de 3,8% em relação ao ano passado. Esse declínio nas bilheterias vem ocorrendo desde agosto e, para se safar do vermelho da contabilidade, os filmes programados neste mês de dezembro terão de arrecadar 44% a mais em relação ao mesmo período do ano passado.
O filme dos vampiros adolescentes é um dos raros casos de sucesso em uma temporada que deverá levar os estúdios a um rebaixamento preocupante nas suas finanças. Uma crise que não poupa nenhum estúdio. E o que está acontecendo? Crise econômica? Pirataria? Falta de atratividade ou criatividade das produções?

Projetos tidos como sucessos de bilheterias estão sendo simplesmente ignorado pelo público e, para ampliar a preocupação, o 3D já começa a dar sinais de cansaço com a banalização da tecnologia revitalizada por James Cameron a partir de Avatar, estabelecida pela incessante conversão de filmes de celulóide para a projeção digital em 3D. E por que? Porque o preço do ingresso é, em média, 30% mais caro. Já há um consenso, entre os executivos dos estúdios estadunidenses que a participação do filme em 3D nas bilheterias está em queda, não sendo mais tão atrativo como antes. O ovo de ouro da galinha está gorando. É filme demais em 3D sem qualidade não apenas na conversão, mas também como produção fílmica.
Para se ter uma idéia, em 2010 a participação do 3D no bruto da bilheteria dos EUA foi de 67% e, agora, em 2011, está em 54% – e não há sinais de recuperação. A compensação das bilheterias no setor está vindo do mercado externo, no qual o 3D continua sendo popularmente atrativo e em crescimento. De 67% em 2010, a estimativa para este ano é de 64% e, para 2012, em torno de 70%. Há, ainda, a modernização das salas com a implantação do sistema digital. Segundo as previsões dos analistas, em 2015 esse sistema deverá estar em todas as salas dos complexos exibidores do planeta. Há dúvidas quanto ao Brasil.
O Mercado Internacional
E, como é sabido, o mercado internacional tem garantido a sustentação de Hollywood nesses últimos 11 anos. “Os territórios internacionais”, como chamam os analistas, respondem por dois terços das receitas dos grandes estúdios, o que está levando-os a uma maior presença em determinados mercados, como a China, onde, por exemplo, Avatar arrecadou US$ 204 milhões, recorde internacional. A reserva de mercado chinesa estabelece apenas 20 filmes estrangeiros para exibição, por ano. Uma negociação para dobrar esse número está em andamento, mas, como deve demorar, Fox, Sony e outros estúdios estão se unindo a produtoras chinesas e se instalando no país.
Segundo as estatísticas de sites como Mojo, Imdb e Movieline, as receitas dos filmes de Hollywood estão crescendo no mercado internacional: de 65% em 2008 a 68% em 2010. Projeta que até 2014, receitas na ordem na ordem de 12% na China, Índia, 11,5%, América Latina, 8,8%, Ásia, 6,4%. Nos EUA, apenas 3,3%. Estatísticas revelam que Hollywood domina 75% do mercado internacional.
A Crise nos EUA
Duas questões se salientam nos EUA: primeiro, a crise econômica, a qual está deixando de fora da área produtiva cerca de 14% da população estadunidense, uma alarmante taxa de desemprego de 9%. Segundo, o crescimento da audiência da televisão, carregada pelas séries, as quais estão dando um banho, em termos de criatividade e ousadia, em Hollywood. Aproveitando a boa maré, só Steven Spielberg tem duas em exibição – Terra Nova e Falling Skyes, afora outros produtores.
Por sua vez, os estúdios não brincam com a crise. Sony/Columbia, Warner, Paramount tomaram medidas duras. Foi o que fez a Paramount, que eliminou departamentos internos e uniu as áreas entretenimento, licenciamento e operações visuais, fechou escritórios no exterior (Rio de Janeiro e Londres, agora sob as ordens da matriz em Los Angeles), além de cancelar projetos em andamento, especialmente de seu braço independente, a Paramount Vantage.

Martin Scorsese e o seu A INVENÇÃO DE HUGO CABRET: no centro da crise em Hollywood
Acompanhando o Ranking semanal de bilheteria do mercado estadunidense, é que se verifica o tamanho do desastre. Dezenas de filmes naufragam, desde o início do ano, logo nos três primeiros dias de estréia sem uma explicação aparente, já que são espetáculos de comprovada qualidade. Quanto a isso, o mais recente espanto dos executivos de Hollywood se intitula A Invenção de Hugo Cabret, o novo Martin Scorsese. O filme tem conquistado críticas arrebatadoras da crítica, mesmo assim não tem entusiasmado o público, que teima em não ir conferi-lo. Havia esperança da Paramount que as 563 novas salas em 3D que ampliaram (de 1.277 para 1.840 salas) o circuito do filme na última sexta, 2, viessem a aumentar, e expressivamente, a decepcionante bilheteria obtida na abertura (de US$ 11.3450 milhões), mas isso não aconteceu. Ao contrário, o filme teve uma queda de quase 33%, representando uma arrecadação ainda inferior à da abertura, de apenas 7,63 milhões. Ao todo, a aventura, arrecadou nesses 14 dias de exibição, apenas 27.364 milhões. Com esses números, o Movieline prevê uma arrecadação total entre 55 e 61 milhões. E agora a curiosidade: quanto o filme custou? Segundo o Imdb, estimados US$ 170 milhões. Agora que o filme, que concorre a 6 indicações ao Satélite de Ouro (incluindo o de melhor filme) e foi eleito o melhor do ano pelo National Board of Review, pode ser que desperte o público para a sua qualidade. Como na próxima semana saem os indicados para o Globo de Ouro-2012, ao qual A Invenção de Hugo Cabret deverá concorrer em várias categorias, pode estar na mídia dos prêmios a salvação do filme de Scorsese.
Morte na estréia
Com os filmes morrendo no nascedouro da exibição pública, os estúdios não podem acusar que o esvaziamento tenha alguma influência da pirataria. Os alvos principais devem ser a crise econômica vivida pelo país e falta de atração dos filmes sobre o grande público. Voltando aos números, a bilheteria total do mês de novembro ficou em US$ 863 milhões, um declínio de 3,8 em 2010 e, pior ainda, de 13% em relação a 2009. Isso, apesar do preço dos bilhetes terem sido significativamente majorados. Ray Subbers, analista do Box Office Mojo, que avalia a bilheteria dos filmes de Hollywood no mercado exibidor interno e externo, revela que essa crise atinge o seu ponto mais baixo desde 1995. “Durante os 11 meses deste ano, a bilheteria está 4% abaixo em relação ao ano passado e poderá chegar a US$ 9,3 bilhões. Somente um dezembro poderoso poderá evitar essa perda financeira”, avalia.

Um punhado de filmes ao feitio do gosto popular decepcionou ao ser testado quanto ao interesse do grande público. Envolto em remekes, sequências e enredos tipo montanha-russa, o cinema tipo Hollywood dá sinais de cansaço no público. Um dos exemplos dados por Subbers, Happy Feet 2: o Pinguim 3D, que em 13 dias contabilizou uma renda inferior a metade obtida pelo antecessor, em 2006.
Críticas é o que não sobram para o estilo Hollywood de fazer filmes. Enquanto James Cameron acusa a falta de criatividade e se insurge contra a banalização do 3D (seu mais recente ataque se dirige a Blattleship, adaptação de um jogo de tabuleiro), o francês Jean-Luc Godard, em setembro passado, em entrevista ao jornal inglês The Guardian, alfinetou: “A Hollywood dos anos 1930-50 sabia fazer filmes como ninguém mais sabia. Hoje, nem mesmo os noruegueses conseguem fazer filmes tão ruins quanto os americanos”.
Para o bem do Cinema, Hollywood precisa reagir.