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A INVENÇÃO DE HUGO CABRET – precisamos de uma arte a nos guiar

Publicado em 02/03/2012 - 8:25 por | Comentários desativados

Categorias: CRÍTICAS DE FILMES

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O novo filme de Martin Scorsese, Hugo, no Brasil, A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scoorsese, me proporcionou uma noite de namoro com um filme cativante, envolvente com o seu visual arrebatador tal qual  um perfume, exalando idéias novas sobre o processo de criação da arte e, à reboque, o destino de seus criadores. O filme trata ainda da literatura, o cinema e o teatro como sublimes instrumentos do poder de criação humana embalados pela imaginação, a fantasia e a criatividade como propulsores do progresso. Por sua vez, a História surge como registro de nossas conquistas culturais e elemento construtor da nossa civilização

 

A fantasia, as lendas e as tradições são conquistas da criatividade e propulsores do progresso, servem à História como registro da evolução construtora da nossa civilização. A afirmação é filósofo italiano Gianbatistta Vico (1668-1744) ao confrontar o racionalismo puro do francês René Descartes (159-1650). A Invenção de Hugo Cabret nos fala também da arte como fábrica de sonhos, de agregação familiar, de registro das memórias e edificador da cultura de cada um de nós. Através da cultura, podemos nos apaixonar por uma arte, admirar um artista e até impedi-lo de ser relegado ao esquecimento da voracidade do tempo em aceleração. E, finalmente, que entre a infância e a adolescência reside o período mais importante de nossas existências porque somos tão infantis e dispostos a aprender… com a imaginação e a fantasia… o que as artes têm a nos ensinar. A arte como encantamento, como criação do desejo de ser, também, um artista…

A Invenção de Hugo Cabret recria esse tempo e essa época única em uma história terna e melancólica sobre as marcas do passado que trazemos na mente e no corpo enquanto caminhamos, trabalhamos, sofremos e amamos. Lembra que a família e a amizade são os únicos redutos de nossas relações de paz, evolução pessoal e de entendimento do outro. A base de nosso relacionamento como ser social e animal político – o homem conforme pensado por Aristóteles (384-322 a.C). Martin Scorsese expõe esse processo do conhecimento e do desenvolvimento nas raízes do encanta e fascínio que as artes podem proporcionar.

O relógio se parece com uma máquina de projetar filmes: metáfora cinematográfica

A Invenção de Hugo Cabret resgata o passado do cinema em seu enredo, e, de forma genial, ele próprio que se apresenta e como o resultado da evolução do  cinema em 110 anos de existência. O cinema do futuro. O Cinema de hoje é o expressado no início de A Invenção de Hugo Cabret: a tecnologia da terceira dimensão, o som perfeito, o dinamismo e a renovação da imagem do plano sequência, a elegância dos grandes planos e os movimentos de câmera, a realidade e a temporalidade no corte da montagem e personagens capazes de interagir com o público. Impressionante, quase como um personagem, a estação de trem com os seus relógios sinalizando a eterna e irrefreável passagem do tempo. Em suma, o cinema moderno ao processo da evolução conforme a passagem do tempo.

No entrecho dos acontecimentos, no entanto, é a literatura que trafega por A Invenção de Hugo Cabret. A literatura de Jules Verne (1828-1905), Da Terra à Lua (1865), nossa porta de entrada para a literatura, reina suprema, seguida de outro francês, Alexandre Dumas (1802-70), destacado quando Robin Hood – o Proscrito (1863), quando presenteado à Hugo por Monsieur Labisse (Christopher Lee), o dono de uma livraria na estação.

Mas, antes mesmo de chegar ao meio dos 126 minutos de duração de Hugo Cabret, o Cinema já reina como primeiro elemento da arte como a fábrica de sonhos e promulgadora da imaginação em realidade pelas imagens reais na tela capaz de fazer um trem amedrontar as pessoas como se fosse sair da tela. É a fantasia tocada com a magia que expressão da realidade.

O que entusiasma em A Invenção de Hugo Cabret é o resgate do processo de criação do cinema. Esse novo meio de contar histórias a partir de seus reais criadores, os franceses Irmãos Lumière (Auguste, 1862-1954, e Louis-Jean, 1864-1948), e não Thomas Edison (1847-1931), o ladrão de idéias e inventor do caça-níquel que os estadunidenses alardeiam como criador do cinema – uma mentira de nariz tão cumprido quanto a dos irmãos Wright serem os inventores do avião e não Santos Dumont (1873-1932).

Scorsese tem o mérito de registrar a verdade, reconhecer os verdadeiros criadores do cinema. A Invenção de Hugo Cabret só não revela que George Mélies (1861-1938) foi à falência porque seus filmes foram pirateados para os EUA e ele nunca conseguiu receber um tostão de direito autoral – o processo o qual Hollywood paga agora como uma sangria via torrents e downloads.

Mas, A Invenção de Hugo Cabret não trata apenas os conjuntos da arte – literatura, teatro, desenho, etc – que fazem a magia do cinema. É um filme sobre a luz encaminhada aos olhos humanos (é belíssima a cena em que Hugo, na biblioteca, olha para um quadro na parede – que lembra A Criação de Deus, de Michelangelo – no qual uma figura humana irradia luz pelos dedos e Scorsese transmuta essa luz em feixes que transmite a imagem cinematográfica do projetor para as telas – e lá está, mais uma vez, o grande espanto haideggeriano causado aos espectadores que assistiam a A Chegada do Trem à Estação de Ciotat. E lá estão Harold Lloyd (outra cena bellíssima, a do lanterninha expulsando os jovens penetras), o clássico Viagem à Lua colorizado pela tecnologia que chegou ao futuro.

Sobram, ainda, dois temas em A Invenção de Hugo Cabret. Um deles, a solidão, e o outro, o esquecimento pela passagem do tempo e o resgate pela história. Daí, chamamos a atenção do espectador para a condição de solidão e anonimato dos personagens, cuja estação ferroviária é o recanto dessa condição humana. Os que lá trabalham são puramente solitários, e os anônimos, os seus transeuntes e passageiros.

Hugo (Asa Butterfield), vivendo solitariamente na área de manutenção dos relógios da estação, de onde observa uma Paris igualmente solitária, busca encontrar o pai (Jude Law0 através de autômato; George Mélies (Ben Kingsley) se resigna ao anonimato; o inspetor de polícia (Sacha Baron Cohen) ferido na alma na infância e na perna pela guerra, tenta vingar-se das crianças pelo orfanato no qual viveu; Lisette (Emily Mortimer), uma florista solitária que se torna alvo do flerte do inspetor – cujo ato o demonstra também ser capaz de amar;  e monsieur Labisse com a companhia de seus livros.

A passagem do tempo se sobressai em Hugo Cabret como a expressão da existência: vivemos porque estamos no tempo. Ele estabelece passado, presente e futuro. “O Tempo é tudo”, diz um dos personagens. O processo que empurra o passado cada vez mais para trás e abre espaço para o progresso que, mais tarde, também será passado. É preciso saber existir, viver, no tempo.  

Ligada à temporalidade, surge, como fecho de A Invenção de Hugo Cabret, a história – o único processo criado pelo homem capaz de “amarrar” o tempo. Mèlies, com a falência de sua fábrica de sonhos e perda das obras, julga-se esquecido e perdido na memória das pessoas. A história o resgata.

George Mèlies e Ben Kingsley, seu intérprete em A INVENÇÃO DE HUGO CABRET

Enganam-se aqueles que relegam A Invenção de Hugo Cabret a um simples filme sobre a infância. Não é sobre a infância em si, mas como podemos manter dentro de nós a infância que nos transformou em amante das artes. Sim, precisamos de uma arte a nos guiar. Agora somos adultos saudosos de nossos bons tempo de infância. A Invenção de Hugo Cabret nos proporciona esse encantador e fascinante reencontro.

Ficha técnica

A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, EUA, 2011), de Martin Scorsese. Com Asa Butterfield, Chloé Grace Moretz, Ben Kingsley,  Sacha Baron Cohen e Emily Mortimer. Paramount. 126 minutos. Livre.

 

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