Crítica/LUZ NAS TREVAS – A VOLTA DO BANDIDO DA LUZ VERMELHA
Helena Ignez, a viúva do diretor Rogério Sganzerla, presta um tributo à obra mais famosa do cinesta, O Bandido da Luz Vermelha (1968), numa espécie de continuação-homenagem em Luz nas Trevas – a Volta do Bandido da Luz Vermelha (2012), trazendo um elenco de peso para homenagear o clássico e seu autor
Rogério Sganzerla não está mais entre nós. E talvez por isso o espectador já saiba que não deve esperar de Luz nas Trevas – a Volta do Bandido da Luz Vermelha um filme do diretor. Ainda assim, na experiência bem incomum que é a apreciação desta continuação de O Bandido da Luz Vermelha, dirigida pela esposa do cineasta, Helena Ignez, e co-dirigida por Ícaro C. Martins, é possível ver a presença de Sganzerla, seja no espírito transgressor e anárquico da montagem, que procura emular o espírito do original, seja em sequências retiradas do próprio filme que deu início ao movimento do Cinema Marginal.
Ney Matogrosso aparece no papel do bandido, que não se conforma com a maneira como foi retratado no filme de 1968 e aparece também lendo livros em voz alta em sua cela, como saído de um filme de Godard. O pouco conhecido André Guerreiro Lopes interpreta o filho do bandido, que usa a alcunha de “Tudo-ou-Nada” e tenta repetir o que o pai fez, inclusive em momentos que remontam sequências do filme de Sganzerla, com direito à famosa sequência do carro na praia e a uma imitação de Jean-Paul Belmondo em Acossado, com Tudo-ou-Nada passando os dedos por sobre os próprios lábios. Guerreiro Lopes já havia trabalhado com Helena Ignez, co-dirigindo com ela uma peça chamada O Belo Indiferente, baseada em texto que Jean Cocteu escreveu para Edith Piaf, e estrelada por Djin Sganzerla.
Falando na musa, filha do cineasta, ela aparece em toda sua glória em vários momentos do filme e de corpo nu em uma cena de Luz nas Trevas. Outras mulheres importantes que dão o ar da graça são: Simone Spoladore, Maria Luísa Mendonça, Bruna Lombardi e Sandra Corveloni. Mas é Djin quem se sobressai e que mais aparece na tela, como a amante de Tudo-ou-Nada. Nada mais justo: ela é a filha do criador e tem uma beleza ímpar.
O que talvez incomode no filme seja justamente essa tentativa de emular sem muitas diferenças, sem fazer maiores atualizações, uma obra que carrega um determinado espírito do tempo, no caso, o do final dos anos 1960, conturbados mundialmente por uma rebeldia e uma vontade de mudar revolucionária, no sentido mais amplo do termo.
Será que esse espírito hoje, em tempos mais amargos e distópicos, causa o mesmo impacto e gera o mesmo interesse na plateia? Ou serve apenas como uma homenagem a um de nossos mais inventivos cineastas? Sinceramente, ainda não sei dizer.
Veja o trailer.
LUZ NAS TREVAS - A VOLTA DO BANDIDO DA LUZ VERMELHA (Brasil, 2012), de Helena Ignez e Ícaro C. Martins. Com Ney Matogrosso, André Guerreiro Lopes, Djin Sganzerla, Maria Luisa Mendonça, Simone Spoladore, Arrigo Barnabé, Thais Almeida Prado, Mario Bortolotto, Paulo Goulart, José Mojica Marins. Mercúrio Produções. 83 min. 14 anos.
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