Crítica/SOMBRAS DA NOITE e a maldição de Johnny Depp
Sombras da Noite, de Tim Burton, conta a história de Barnabas Collins (Johnny Depp), que sofreu duras penas por ter partido o coração de uma moça humilde. É que essa moça era, na verdade, uma bruxa – Eva Green, que foi Bond Girl em Casino Royale ( 2006). Após perder sua amada (pela vingança da bruxa, claro) e ser transformado em vampiro, a fim de que seu sofrimento dure eternamente, ele é preso em uma tumba por quase dois séculos. Um dia, enfim, é libertado – por acaso, como já é tradição nos filmes de vampiro
O filme tem um começo breve em que a perda trágica do amor faz lembrar Drácula, de Bram Stoker, apesar de não pegar tão pesado (o roteiro parece também ter “bebido” dessa fonte para providenciar o ressurgimento da amada). Com Depp na pele gelada de vampiro, em uma maquiagem que até evoca Nosferatu mas não foge de Edward Mãos de Tesoura, logo se percebe que a história não vai ser tão dramática. O drama, na verdade, fica por conta da imagem recorrente das ondas que estouram (e se desgastam) batendo com violência nas pedras.
O vampiro ressurge com a intenção de resgatar a família, retomando os negócios e a competição com a empresária bela e jovem do local, que o conhece muito bem (não preciso dizer quem é…). Barnabas assume, então, um visual pop muito “Michael Jackson” (rosto pálido, olheiras, óculos escuros, roupas e guarda-chuvas pretos) e o filme passa a ser uma comédia leve (onde vai parar todo o sofrimento do personagem?). Enquanto isso, as ondas batem nas pedras…
As sequências parecem ter sido escolhidas não priorizando a coerência e o desenvolvimento da trama e dos personagens (muito pelo contrário), mas sim usando o critério de quais situações serviriam melhor como “palco” para Depp. Na batalha final entre ele e a bruxa, a personagem da amada é sumariamente esquecida, para depois voltar apenas no momento conveniente da resolução. As participações de Cristopher Lee e do roqueiro Alice Cooper também são apenas parte do show…

No filme de Tim Burton, Depp é Barnabas Collins, um vampiro pop
As situações cômicas são até interessantes, mas poderiam ter sido mais bem exploradas. Entre elas, o encontro do vampiro com os “hippies” e os estranhamentos para com as “modernidades” do período em questão. A exceção, bem desenvolvida, de forma simples e eficaz, fica por conta da silenciosa cumplicidade da velhinha que faz a limpeza da mansão dos Collins para com Barnabas.
Helena Bonham Carter - Clube da Luta (1999) – e Michele Pfeiffer – Susie e os Baker Boys (1989) -, duas atrizes que já colocaram seu talento à prova, contracenam com Depp em personagens sem brilho ou aprofundamento. Elas, de fato, passam o tempo todo nas sombras (de Depp, que produziu o filme). Fico me perguntando como seria a condução da história se uma delas tivesse assumido o papel da bruxa…
Depp já tem, é claro, fãs incondicionais o bastante para não se importar com isso. Apenas vê-lo em um papel de “galã” (nem tão encantador assim) já é o bastante. Mas, se o ator tivesse coragem de arriscar um pouco mais, poderia conseguir resultados realmente melhores, e aprimorar sua atuação. Quem sabe um dia ele supere a própria maldição (o comodismo e/ou a insegurança) e consiga dar o salto que seu talento, com certeza, permite. Eu, com certeza, vou estar na primeira fila, aplaudindo. Porém, por enquanto a única novidade é que… as ondas batem nas pedras.
Ficha técnica
Sombras da Noite (Dark Shadows)
Direção: Tim Burton
Duração: 113 minutos
Gênero: Comédia
Elenco: Johnny Depp, Michelle Pfeiffer, Helena Bonham Carter, Eva Green, Chloë Grace Moretz, Jackie Earle Haley.
Confira o trailler 1 de Sombras da Noite.
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