TITANIC – a volta do colosso
15 anos depois, Titanic, o filme de James Cameron, retorna aos cinemas. Ampliado em suas qualidades pela tecnologia do 3D, história e ficção se unem em um filme magistral
Há quem ressalte que o relançamento de Titanic se deve à pretensão de James Cameron de ganhar mais dinheiro com a data que marca os 100 anos da tragédia do navio inglês fabricado por irlandeses, ocorrida na noite de 14 para 15 de abril de 1912. Pergunto eu: e isso é argumento para desmerecer as qualidades da obra cinematográfica?
Esse detalhe não pode e nem deve interessar aos críticos de cinema que se pautam pela seriedade e que exercem a profissão como uma missão de unicamente promover a análise da obra cinematográfica e abri-la para o entendimento do espectador em suas qualidades e defeitos. Não é da competência do crítico analisar se um filme foi feito ou não com a pretensão de fazer dinheiro ou se foi fracasso ou seu sucesso junto ao público. Essas são questões pouco relevantes e podem ser utilizadas apenas como informações adicionais para o público. Como qualquer outro investimento, a produção cinematográfica visa o sucesso financeiro. São as grandes produções, os chamados blockbusters, que garantem a feitura das pequenas produções e os filmes de arte, os quais rendem prestígio ao estúdio e a seus realizadores.
Amado e odiado
Titanic está nos filmes mais amados e odiados da História do Cinema. Há quem o odeie por seu sucesso, há quem o odeia por sua trilha sonora e, principalmente, por ser uma produção de Hollywood e até mesmo por seu final espiritual. Mas, analisado sem o olhar do preconceito e da ideologia cega, é uma das obras mais perfeitas já feitas até hoje.
Há 15 anos, a obra pela qual James Cameron trabalhou por quase uma década, custou 200 milhões de dólares. A primeira versão tinha quase cinco horas. A montagem final a definiu com três horas e 14 minutos. Cameron sofreu pressões por todos os lados dos chefões da Fox. Essa duração daria para os cinemas contarem apenas com 3 sessões diárias. Mais sessões, claro, mais dinheiro. Renda total do filme ao final de 1998: 1,8 bilhões de dólares, valor esse só superado em 2010 por Avatar, também de Cameron.
Roteiro, a base
A base do sucesso de Titanic está no seu roteiro, o qual concilia, harmoniosamente, história e ficção, personagens verdadeiros e outros inventados. São os personagens de ficção que se interagem aos fatos e personagens reais. Estão nessa interação, elementos levantados pela extensa pesquisa levada a efeito por Cameron e sua equipe. Detalhes sobre os lautos jantares reservados aos passageiros da primeira classe, assim como as reuniões masculinas após as sobremesas, os assuntos discutidos, as cervejadas e a descontração dançante dos passageiros da terceira classe, as presença de Bruce Ismay e Thomas Andrews, respectivamente, o presidente da White Star Line e o engenheiro construtor do Titanic, as conversas entre os tripulantes, as decisões tomadas pelo Capitão Edward James Smith, a atuação da banda de músicos britânicos, o despreparo e a falta de equipamentos dos vigilantes no alto do posto de observação, tudo foi reconstituído conforme obtido pelas pesquisas.
Outros personagens reais trafegam pelos acontecimentos, como o multimilionário John Jacob Astor (Eric Braeden) e esposa Madeleine (Charlotte Chatton), o empresário estadunidense Benjamin Guggenheim (Michael Ensigh), seu motorista René Pernot (eles desceram com o navio tomando conhaque e fumando charutos) e sua jovem amante Leontina Aubart (que sobreviveu), a poliglota e pioneira do feminismo Margareth Molly Brown (Kathy Bates), a Condessa de Rothes (Rochelle Rose) o coronel Gracie (Bernard Fox), entre outros. Molly, que queria que o seu bote voltasse para resgatar os sobreviventes, foi impedida. Mas a bordo do Carpathia deu total apoio a cada um deles e criou uma associação de assistência aos que escaparam do naufrágio, assumindo uma função de liderança e proteção legal em termos jurídicos.
Reconstituição histórica
Cameron chegou ao ponto de conseguir com a antiga White Star Line a planta original do Titanic (que é mostrada após o abalroamento do navio no gelo), mandar refazer todos os móveis e até a prataria original, tendo ainda reconstruído o Titanic, item por item, numa versão 80% menor. Um trabalho memorável.
Detalhes da pressão de Ismay sobre o capitão para dar mais velocidade ao navio, os atos de Smith desconsiderando os alertas de gelo naquela época do ano, as informações sobre a estrutura do navio, as tentativas desesperadas para salvá-lo após o abalroamento no gelo que provocou um rasgo de 90 metros em seus 274 metros de cumprimento, o desalento de Thomas Andrews anunciando o afundamento do navio em pouco mais de uma hora, a incompetência dos oficiais encarregados de colocar a quantidade correta de passageiros nos botes salva-vidas, está tudo lá, conforme aconteceu.
Há ainda as questões técnicas sobre o progressivo afundamento do gigante de aço pela proa, a sua inclinação em direção ao fundo do oceano, a água encobrindo a meia nau e a consequente elevação da popa, o que levou o Tatanic a ser praticamente partido ao meio, estão igualmente lá, reconstituídos em detalhes, concedendo uma visão dantesca de uma tragédia provocada por uma série de atos irresponsáveis.
Chama a atenção, ainda, o som. A partir do abalroamento no gelo, passa a se ouvir o ranger da estrutura do navio tal qual uma agonia de morte. Começa baixo e vai aumentando progressivamente, até se estrondar com o rompimento total das emendas de aço, com as torres e chaminés caindo sobre os que tentavam fugir da embarcação a nado.
Inseridos na realidade do Titanic, os fictícios Jack Dawson (Leonardo Di Caprio) e seu amigo Fabriizio (Danny Nucci), Rose De Witt Bukatter (Kate Winslett), sua mãe Ruth (Frances Fisher), seu violento noivo Cal Hockley (Billy Zane) ensejam que a história seja reconstituída com seus pequenos e grandes detalhes. Mas, esses personagens não têm apenas com essa função. Eles são os responsáveis pela efetivação da dramaticidade, do romance, da aventura e da ação no desenvolvimento da história. Assim, em Titanic, realidade e ficção se mesclam para reconstruir uma história que até hoje tem novos detalhes a contar, conforme se desenvolvem as pesquisas.
Uma época em mutação
Os personagens também marcam a época do Titanic, o início do século XX. Enquanto o navio é exposto como o orgulho do progresso e da conquista da tecnologia pelo homem, criação arrogante capaz até de ser desafiadora e superior à própria divindade, Ruth e Cal representam os últimos representantes de uma tradição social em decadência. Por sua vez, Jack e Rose são expressos como a juventude mudando as antigas regras, quebrando as tradições e ensejando caminhar com suas próprias decisões. Claro, isso só veio a acontecer a partir dos anos 60, mas o processo começou bem antes.
O relançamento de Titanic proporciona, além da revisão da obra, a qual se mostra perene à passagem do tempo, uma análise da conversão do 35mm para a tecnologia digital do 3D. E novamente, assim como tinha executado em Avatar, Cameron faz uso do 3D em função do filme. A relevância do 3D aparece nas cenas do Titanic deslizando sobre o oceano, em toda a longa sequência da reconstituição do desastre, nas cenas interiores dos corredores e nas cenas noturnas do navio, e, principalmente, na memorável sequência do jantar.
Perspectiva, nação de tamanho e distância e profundidade de campo proporcionam o caráter da tridimensionalidade e a sensação de imersão dentro do filme. Cameron não utiliza objetos na direção de câmera. Ao contrário. Na sequência do afundamento do Titanic posta a câmera sempre na direção oposta à queda dos corpos, acentuando a dimensão de distância e tempo.
Titanic, o filme, resgata o fato histórico em seu status e dimensão, e, como obra de arte, acrescenta-lhe a dramaticidade e a emoção. Nada mais, nada menos, do que uma obra-prima.
Mais informações
Titanic (Titanic, 1998-2012), de James Cameron. Com Kate Winslet, Leonardo Di Caprio, Kathy Bates, Frances Fisher e Billy Zane. Fox. 195 minutos. 10 anos.
Tags: benjamin guggenheim, bernard fox, Billy Zane, bruce ismay, capitão james edward smith, charlotte chatton, condessa de rothes, danny nucci, eric braeden, frances fisher, Hollywood, James Cameron, john jacob astor, Kate Winslet, kathy bates, Leonardo Di Caprio, michael ensigh, molly brown, presidente da white star line, rochelle rose, tecnologia 3d, thomas andrews, Titanic




