O FILME DOS ESPÍRITOS – a resenha e a humilhação
O exercício da crítica de cinema exige postura, conhecimento e, sobretudo, a eterna vigilância, ou seja, o crítico deve se colocar sempre em questão. Quando eu tinha 16 anos e Lustosa da Costa me convidou para escrever sobre cinema no Correio do Ceará, sentenciou. “O que é que você quer fazer? É escrever sobre cinema, exercer a atividade de crítico?, então, se dedique a isso, angarie o conhecimento de cinema, estude, continue estudando sempre e seja o melhor que você pode ser. O jornalismo, no futuro, será o dos bons articulistas, dos analistas e daqueles que conquistarem a credibilidade dos leitores”
Relembro as palavras de meu mestre no jornalismo devido a um espanto e uma coincidência – não acaso, coincidência. O tema é a crítica e O Filme dos Espíritos. Mais propriamente, a reação da crítica em relação ao filme. Li, na manhã desta segunda, 10, críticas do filme em vários jornais nacionais, mas não consegui tempo para visitar os poucos, pouquíssimos sites de cinema que merecem ser visitados. Li, rapidamente, alguns textos e, com lamento, digo que raros críticos fizeram uma análise digna do filme – seja ele ruim ou bom. Infelizmente, a grande maioria das “críticas” não precisaram sequer de 8 ou 10 linhas para arrasar o filme de forma implacável e até mesquinha. E aí, vem a coincidência. Na edição do Caderno 3 do Diário do Nordeste de ontem, domingo, 9, dedicado ao exercício da crítica, Nelson Hoineff, em entrevista a repórter Mayara de Araújo, trata justamente desse tema ao se referir a avaliação de um filme em poucas linhas, 8 ou 10, no máximo, a qual, para ele, se torna “humilhante para quem se esforçou em produzir uma película”.
Hoineff, eu não sabia, também luta para diferenciar resenha de crítica – um contexto o qual insisto, há anos, em separar, e que Dellano Rios, editor do Caderno 3 do Diário do Nordeste disse estar disposto a sabiamente adotar -, pois a crítica é uma análise do filme – ou de um livro, de uma peça – em seus vários setores e se fecha na obra como um todo. Uma resenha, na minha concepção, trata-se de um texto curto, de apresentação da sinopse e de detalhes da produção do filme, o qual não foi visto ainda e, por isso, sem caráter de crítica. Ou seja, no exercício da crítica não podemos ser tão simplórios e vazios. Não é justo nem o filme e nem com que o realiza. E especialmente conosco mesmo.
Concordo planamente com a colocação de Hoineff. E, dentro desse contexto, o que li de diversos colegas em relação a O Filme dos Espíritos foi simplesmente resenhas arrasadoras de um filme. Não há uma sequer que aponte os defeitos sob um critério de análise. Apenas afirmações. Não por menos, há quem defenestre a crítica e os críticos. Mas, é bom separar e não julgá-los em bloco. Assim como há cineastas e cineastas, filmes e filmes, existem críticos e críticos.
A reação visceral e agressiva contrária ao filme, me “pegou”. E ainda estou chocado. Como já tinha presenciado isso antes com Bezerra de Meneses – o Diário de um Espírito e As Mães de Chico Xavier, afora algumas desabonadoras a Nosso Lar e Chico Xavier, fico matutando se não se trata de uma reação aos chamados “filmes espíritas”. Pode também ser o medo do conhecimento de algo que, pessoalmente, prefira ficar desconhecida ou, quem sabe?, resvale numa questão moral. Afinal de contas, espíritos não existem, não é verdade?
O teor do e-mail despachado pelo diretor André Marouço na tarde de sábado, 08, e que li na manhã desta segunda, me promoveu esse pensar. Escreveu o cineasta: “Ontem estreou O Filme dos Espíritos e como não poderia deixar de ser, nossos irmãos críticos estão qualificando o filme como dispensável. Eu os entendo e respeito. Certamente aprenderemos muito com o que eles nos apontam e haveremos de melhorar nos próximos filmes. Porém, tenho para mim, que filmes como estes sempre serão mal vistos pela crítica, pois estes amigos vão analisar apenas e tão somente a peça como obra de entretenimento e, no caso dos filmes espíritas, sempre existirá uma forte mensagem educativa, filosófica e porque não dizer doutrinária, digo doutrinária, mas não proselitista”.
Estará Marouço correto em sua colocação? Afinal, o preconceito está dentro de nós mesmos e precisamos lutar contra ele, racionalmente, todos os dias. Pode haver um preconceito aos filmes de temática espírita? A questão fica em aberto para discussão. Quanto ao exercício da crítica, voltaremos ao assunto. E quanto a entrevista de Nelson Hoineff, confira-a no link abaixo http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1053599
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