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Assim como a dor, “A Culpa é das Estrelas” precisa ser sentido

10:00 · 09.06.2014 / atualizado às 08:26 · 09.06.2014 por

Adaptação cinematográfica do best-seller homônino de John Green mantém a fórmula de sucesso adolescente e humano

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“A dor precisa ser sentida”, diz o excerto do livro ficção dentro da ficção “Uma Aflição Imperial”, presente em A Culpa é das Estrelas. A frase condensa um conselho aplicável ao livro homônimo de John Green no qual o filme de Josh Boone, em cartaz no circuito desde 5 de junho, é fielmente baseado – há diálogos exatamente iguais e poucas perdas substanciais de adaptação, o que deve agradar inclusive os fãs mais exigentes. Mesmo para quem tem um pé atrás com os grandes nomes do gênero teen, a sugestão é bem-vinda: as oportunidades para rir e chorar são fartas.

Hazel Grace Lancaster (espetacular Shailene Woodley) tem 16 anos e convive há três com um câncer que começou na tireoide e depois se espalhou para seus pulmões. Em estágio avançado da doença, ela sobrevive graças a um tratamento experimental e à ajuda de um cilindro de oxigênio, seu companheiro inseparável, conectado às suas narinas por meio de uma cânula. Obrigada pelos pais a frequentar um grupo de apoio para jovens com câncer para fazer amigos e evitar uma depressão, Hazel conhece Augustus “Gus” Waters (Ansel Elgort), 17, sobrevivente de câncer nos ossos à custa da amputação de uma das pernas.

Os dois iniciam uma amizade espontânea e correspondida, embora tenham personalidades e objetivos muito distintos, mas o rapaz quer mais. Considerando a si mesma um perigo às pessoas à sua volta por conta da iminência da morte, Hazel evita ceder aos encantos, mas o amor, assim como tantas outras coisas nas vidas dos dois, é inevitável.

A dinâmica do romance e da amizade entre Hazel e Gus é tão natural e delicada que se torna difícil, mesmo ao coração mais resistente, não abrir um ou outro sorriso bobo. Principalmente com o riso torto e confiante do rapaz. Nem parecem os mesmos Shailene Woodley e Ansel Elgort que contracenaram na franquia juvenil Divergente (2014), na qual eram irmãos. As sequências juntos foram poucas e pouco fluidas, meio forçadas. Já no filme mais recente, ambos aparentam se conhecer a vida a toda de tão íntimos e confortáveis, embora tímidos.

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Sim, é um filme inegavelmente adolescente: primeiro amor, descobertas, identidade, lugar no mundo, perspectivas de futuro estão todos lá. Mas é também uma obra essencialmente humana, comovente sem pieguice – apesar de alguns recursos clichês de filmagem, tais como a câmera lenta e a narração em voice over no momento de crise de um dos personagens.

A empatia com os personagens é fácil e, como tantas coisas dentro das duas horas de projeção, natural. Não se trata, contudo, do sentimentalismo ou da piedade – tão criticados ao longo do filme – dedicados a pessoas com câncer, ainda mais quando em idade tão tenra. A identificação perpassa pela essência do que é ser gente, ter medos e planos e perceber que, por maior que seja a luta, “nem sempre o mundo é uma máquina de realizar desejos”.

Compreender a angústia vivida por Augustus Waters com a perspectiva não da morte, mas do esquecimento, reflete um drama vivido por todo aquele que já se preocupou em deixar uma marca – sem entrar no mérito de positiva ou negativa – no mundo e/ou nas pessoas. Da mesma forma nos afeiçoamos, embora com uma pontinha de raiva pelo atraso no início efetivo do romance entre os protagonistas, pela maneira com que Hazel aceita o próprio destino, mas teme pelo futuro de seus entes queridos e a mágoa que sua partida antes da hora trará. “Eu sou uma granada”, ela repete. É uma metáfora, nós parafraseamos Gus, ao que conhecemos da trama de “Uma Aflição Imperial”, o livro cujo final com pontas soltas leva o casal a Amsterdã para conhecer seu autor (ótimo Willem Dafoe com a aparência lunática de um Norman Osborn conturbado e aparições curtas, mas pesadas e significativas).

O final é previsível, ainda que emocionante, mas é fato que as histórias que lemos ou a que assistimos hoje em dia muitas vezes também o são. Nós todos já sabemos como terminam em certos momentos desde a capa, o poster, o trailer. Não é mais isso que nos interessa e sim a forma de contar, o “como” e não “o que”. E nisso A Culpa é das Estrelas, tanto o livro de John Green quanto o filme de Josh Boone, acerta. Os clichês se renovam na acidez do humor – sim, uma trama sobre adolescentes com câncer terminal pode provocar risadas – de Gus e Hazel, na inteligência das reflexões em certo ponto filosóficas do rapaz, na oscilação entre a maturidade forçada pela doença e a imaturidade típica daquele período específico da vida, na honestidade com que se lida com um tema tão delicado.

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Indo na contramão de um conceito rapidamente associado a elas, as pessoas com câncer não são apenas guerreiras, não são somente heroínas. É essa humanidade latente, sincera e crua de quem se sente no limiar da vida aos 17 ou 18, com medo, raiva e dúvidas, que Hazel e Augustus trazem em suas conversas e tiradas irônicas (vide a expressão e espécie de barganha chamada “Privilégio do Câncer”).

Mais do que um romance adolescente, A Culpa é das Estrelas nos faz pensar, talvez até com uma ponta de culpa, ressentimento ou remorso, na brevidade da vida e nas pessoas que por ela passam, cada uma à sua maneira deixando marcas e cicatrizes. Não apenas no efêmero, no que é de rápida passagem, mas também na eternidade e no infinito contido em cada dia. E se o cronômetro de repente acelerasse?

Sim, dá para derramar algumas lágrimas, mesmo que você não se surpreenda com a razão. Não esqueça os lenços. Ok? Ok.

Colaborou: Andressa Souza.

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