Crítica/BRANCA DE NEVE E O CAÇADOR – um feitiço encantador
Branca de Neve e o Caçador faz uma surpreendente reformulação do conto clássico dos irmãos Grimm e o transforma numa fascinante e filosófica aventura, sombria e gótica sobre a busca da beleza e do poder
Um feitiço que dura 129 minutos. Esse é tempo de duração de Branca de Neve e o Caçador, de Rupert Sanders, a adaptação livre e modernizada do conto Schneewittchen (aqui no Brasil Branca de Neve e os 7 Anões), fábula originada na tradição oral alemã publicada entre 1912 e 1922 em um livro intitulado Kinder-und-hausmaëchen (Contos de Fadas Para Crianças e Adultos).
O roteirista estreante Evan Daugherty, autor da adaptação, posteriormente desenvolvida por ele mesmo em companhia de John Lee Hanckcok (o roteirista e diretor de Um Sonho Possível) e Hossein Amini (roteirista de Drive, de Nicolas Winding Refn), apesar de reformular a história original, mantêm-se fiel a ela nos aspectos concernentes às duas mulheres, a meiguice de Branca de Neve e a obsessão de Ravenna, a madrasta, pela beleza e o poder, mas amplia o âmbito do conto ao integrar a ele seres fantásticos e mitológicos em meio a um cenário sombrio, o qual condensa traças da Idade Média.
A grande conquista da adaptação de Daugherty é a forma como esta “licença poética” moderniza o clássico literário. Não se trata de uma “transposição”, mas de uma “releitura”, uma “reinvenção” do texto original, o qual serve apenas como uma “fonte de ideias”, da qual os seus personagens são puxados para outras situações. Essa “modernização”, sem prejuízo para a obra original dos Grimm, mantém a sua essência literária.
Na nova versão o que sobressai é a qualidade da história, agora desenvolvida através de uma dramaturgia pesada, mas eficiente, que a direciona para outros parâmetros, mas mantendo questões originais dos Grimm como a inocência, a beleza e a busca pelo poder. Há, na nova versão, uma história dramática e não fabular, na qual os elementos e personagens são desenvolvidos com sobriedade e fascínio.
Daugherty compõe uma história marcada pela tragédia, dor e sofrimento. A começar pela morte do rei, passando pela prisão e solidão de Branca de Neve (Kristen Stewart), o desalento do povo, a amargura do caçador (Chris Hemsworth) com a perda da mulher, a subserviência de Finn (Sam Spruell), o irmão de Ravenna (Charlize Theron) e a consequente obsessão desta pela beleza e o poder, culminando com a composição de uma época sombria, escura, de desesperança.
Outros detalhes engrandecem o argumento: a onipresença da morte, expressada pela Rainha Má, e a perda da inocência, vivida por Branca de Neve. A onipresença da morte se expressa na época (indeterminada, mas poderia ser na Idade Média) e nas condições de dor, sofrimento e tragédia. A morte se expressa na Floresta Negra e, especialmente, nos detalhes das roupas da Rainha Má – observem que são ornamentadas por caveiras, amuletos, crucifixos, etc.
Vale observar o tom de sacrifício com o qual todos os personagens movimentam as suas ações na história. Os 7 anões deveriam ser o contraponto dessa exposição com suas tiradas e diálogos de humor, mas simplesmente não funcionam porque são engolidos pelo poder avassalador de uma história essencialmente dramática, forte o suficiente para não conceder espaço para outros elementos.
A dor em todos
A meiga Branca de Neve vive um processo de perda da inocência em sintonia com uma trajetória de dor (a perda do pai, a prisão na Torre, a sobrevivência na Floresta Negra e o massacre da pequena aldeia como o ápice dessa tragédia pessoal), o caçador utiliza-se da proteção à jovem princesa para esconder a sua dor da morte da mulher amada; Finn sofre com a sua determinação de ajudar a irmã ávida pelo poder; e Ravenna é expressão da tragédia humana em sua ânsia e busca pela beleza e o poder, os quais são capazes de causar o desejo da imortalidade – como a própria História tem registrado.
Branca de Neve e o Caçador posta-se como o modelo do filme de nossa época, a do “cinema pós-moderno”: mistura vários gêneros, trafega pelo antiromantismo, joga para escanteio o caráter de realidade enquanto, ao mesmo tempo, transporta-a para o interior da ficção, adiciona-lhe a fábula, a mitologia, a literatura clássica e a remete à reflexão filosófica com o intuito de tudo se expressar como realidade. A tecnologia do 3D serve para conceder esse elemento final.
Observem como Charlize Theron esbanja beleza e talento – e em ambos os campos, superior a Kristen Stewart (que aqui tem uma grande atuação, auspiciando uma futura grande atriz), certamente pela maior experiência. Charlize concede à Ravenna uma máscara de beleza e dor. A beleza usada como contemplação de si mesma, de expô-la para os outros, de vaidade e gozo pessoal a ponto de substituir o sexo (ela mata o rei antes da concretização das núpcias e depois não é vista na companhia de nenhum homem, embora tenha no ar uma tênue sugestão, nunca confirmada, de relação com o irmão).
Reside na decadência física de Ravenna a sua desgraça. Esse detalhe se evidencia em um dos diálogos do Espelho Meu, o qual lhe revela que a inocência e a pureza se sobressaem em Branca de Neve – e a tornam mais bela. Somente a posse do coração com esses dois elementos – inocência e pureza – é possível conquistar não apenas a beleza, mas a imortalidade. Metáfora e filosofia se misturam.
Na verdade, Branca de Neve e o Caçador formula uma premissa interessante através de sua personagem mais marcante, Ravenna, a Rainha Má: a história humana, marcada pelas tragédias através das quais o homem construiu a sua civilização, traz em si (e isso será eterno?) a onipresença da morte (quantos morreram no holocausto da construção da civilização humana?), e, por isso, esta reside em ninguém menos do que em nós mesmos com a nossa ânsia e busca pela beleza do poder. Está aí a decadência moral humana. E sem esquecer que a eternidade da vida humana é uma utopia.
Nesse conjunto de acertos e qualidades reside a grandeza do filme de Sanders. Cultura, História e Filosofia se unem na reconstrução de uma história capaz de formular novas reflexões sobre as ansiedades e desejos humanos. Por conter esses e outros elementos aqui expostos é que Branca de Neve e o Caçador é um dos grandes filmes do ano. Um feitiço encantador.
Ficha técnica
BRANCA DE NEVE E O CAÇADOR (Snow White and the Huntsman, EUA, 2012), de Rupert Sanders. Com Charlize Theron, Kristen Stewart, Chris Hemsworth e Sam Spruell. Universal. 129 minutos. 12 anos.
Confira o trailer de Branca de Neve e o Caçador.
Tags: a rainha má, Branca de Neve, branca de neve e o caçador - um feitiço encantador, Charlize Theron, chris hemworth, Crítica - branca de neve e o caçador, Drive, evan daugherty, floresta negra, hossain amini, Irmãos Grimm, john lee hancock, kristen srewart, Nicolas Winding Refn, Rainha má, ravenna, Rupert Sanders, sam spruell, um sonho possível





