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XINGU – a celebração dos irmãos Villas-Boas

10:25 · 10.04.2012 / atualizado às 06:49 · 11.04.2012 por

Xingu narra a história dos irmãos Villas-Bôas, responsáveis pelo Parque Indígena do Xingu, considerada a maior reserva indígena do mundo. O diretor Cao Hamburguer aposta numa narrativa rápida, que remete ao estilo documental. Infelizmente, não conseguimos evitar e a crítica contém revelações sobre o enredo

 

Xingu (2012) é baseado na história dos irmãos Cláudio, Orlando e Leonardo Villas-Bôas (respectivamente, João Miguel, Felipe Camargo e Caio Blat). Segundo a narrativa, os irmãos, na década de 1940, buscavam aventuras e candidataram-se para desbravar terras brasileiras até então desconhecidas pelo homem branco. Os três são aceitos na expedição e logo se veem no comando. O grupo cruza em seu caminho com algumas tribos e estabelece com elas uma relação de cumplicidade. Os irmãos decidem protegê-las e preservar todo o ambiente em que vivem, sendo responsáveis pela idealização do Parque Nacional do Xingu (hoje Parque Indígena do Xingu), inaugurado em 1961. Considerado a maior reserva do tipo no mundo, o parque é fruto do trabalho árduo dos Irmãos Villas-Bôas, juntamente do antropólogo Darcy Ribeiro e outras personalidades, num projeto assinado pelo então presidente Jânio Quadros. Como resultado deste trabalho, diversas etnias habitam o parque até hoje. Convivem harmoniosamente, inclusive realizando casamentos entre membros de aldeias distintas, mas sempre preservando suas particularidades.

 Xingu cumpre o seu papel na celebração e preservação da memória dos Irmãos Villas-Bôas, bem como atenta para a importância da questão indígena, em tempos da polêmica que envolve a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu. Honesto, o filme não se limita a festejar os pontos positivos na inserção dos irmãos naquele local: lembra da tragédia provocada por eles mesmos, ao levarem gripe a uma aldeia que jamais tivera contato com a doença, e cuja população foi quase que completamente dizimada em consequência disto.

Exibido no 62º Festival Internacional de Berlim, Xingu conta com um impressionante trabalho de elenco, principalmente no que se refere aos índios que atuam no filme. Estes, do ponto de vista do homem branco, dão o devido toque de exotismo à produção (foi possível ouvir entre a plateia risos pudicos quando os integrantes das tribos apareciam nus em cena). Entre os atores “brancos”, destaca-se João Miguel, que interpretara um cozinheiro cearense, o retirante Nonato, em Estômago (2007). Aqui, João Miguel interpreta de maneira comovente Cláudio Villas-Bôas, ainda que o personagem não seja explorado pelo roteiro em todo o seu potencial, talvez por uma falha em sua elaboração.

Divulgado como filme de aventura, Xingu, infelizmente, não se revela um bom exercício de cinema. É bastante contido nas cenas de apelo mais cinematográfico, limitando-se a uma série de sugestões. O diretor, Cao Hamburguer (Castelo Rá-Tim-Bum, o Filme, de 1999, e O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, de 2006) parece preocupado em fazer um filme agradável a um público mais amplo e evita cenas de cunho sensual, tenso e violento.

 

Por exemplo, dá-se a entender que Leonardo Villas-Bôas, o personagem de Caio Blat, está pretende relacionar-se com uma moça indígena. O romance dos dois, entretanto, não é de forma alguma explorado. De repente, sabemos que a moça engravidou, teve um filho de Leonardo, e o caso vira polêmica, levando o rapaz a se afastar da expedição. O mesmo acontece quando Cláudio envolve-se com uma índia. Os dois adentram a mata e na cena seguinte a moça aparece grávida. Não há sedução, não há paixão; quase não há conflito. Uma maior abordagem destas subtramas certamente daria um aspecto dramático mais interessante.

Observamos algo semelhante no que diz respeito às cenas de suspense e ação. Lembremos do momento em que, acampado no meio da mata, à noite, o grupo acredita estar cercado de índios hostis. Antes de chegar ao seu clímax, a cena é interrompida. A violência também parece distribuída em pequenas doses. Na cena em que há um conflito entre índios e homens brancos, logo no primeiro ataque a imagem torna-se embaçada e a sequência é encerrada ali mesmo.

Percebe-se em Xingu uma necessidade, acima de tudo, de mostrar os fatos de maneira fiel. Cenas curtas, diretas, quase que documentais, marcam esta produção.

Ficha técnica

XINGU (Brasil, 2012), de Cao Hamburguer, com João Miguel, Felipe Camargo, Caio Blat, Maiarim Kaiabi e Awakari Tumã Kaiabi. O2 Filmes/Downtown/Sony. 102 minutos. 14 anos.

Confira o trailer de Xingu.

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