O PAGADOR DE PROMESSAS – 50 anos da Palma de Ouro
O Pagador de Promessas obteve a maior conquista internacional do cinema brasileiro: a Palma de Ouro em Cannes. Aconteceu em 23 de maio de 1962, há exatos 50 anos. José Augusto Lopes recorda a história. Um registro histórico
JOSÉ AUGUSTO LOPES
Historiador e Crítico/Caderno Gente
Há exatos 50 anos, e pela única vez em toda a sua história, o cinema brasileiro conquistou o mais importante prêmio do cinema internacional: a Palma de Ouro do Festival de Cannes, com o filme de Anselmo Duarte (1920-2009), O Pagador de Promessas, baseado na peça teatral de Dias Gomes. Ainda assim, de maneira parcial e lamentável, a crítica brasileira, contaminada pelo radical revisionismo político e cultural então vigente, foi perversamente implacável com o filme, visto sob a visão míope bem típica dos períodos de exacerbados conflitos ideológicos, somente porque seu diretor tinha o pecado “imperdoável” de não pertencer a nenhuma facção política e nem se autoproclamar militante de esquerda. Grande parte da mídia fez o possível e o impossível para obscurecer a vitória do Brasil em Cannes, negando, inclusive, o notório teor do enredo em defesa dos excluídos.
O Pagador de Promessas narra a história do rústico Zé do Burro (muito bem interpretado pelo ator Leonardo Villar, 89, a comemorar no próximo dia 25), o qual, após longa e sofrida caminhada, vê-se impedido de colocar uma imensa cruz, que levava às costas, aos pés do altar de Santa Bárbara, só porque sua promessa havia sido feita em um terreiro de candomblé. O clero, a polícia e as autoridades se unem contra o humilde representante do povo, levados pela intolerância. Ao final, após trágico conflito vitimando Zé do Burro, o povo se rebela e invade a igreja com o corpo do penitente afixado em sua cruz, em uma das cenas antológicas de maior expressão do cinema brasileiro.
Jean-Claude Bernardet foi um dos raros críticos, engajados na esquerda nacional, com a lucidez e a imparcialidade de reconhecer, na época, os indiscutíveis méritos da obra de Anselmo Duarte. Para Bernardet, o filme é “genuinamente brasileiro e retrata uma situação verdadeira, num momento de distúrbios e transformações. Em uma análise mais ampla, basta substituir a igreja pelo governo e teremos um retrato da situação atual. O filme resulta, apesar de certas hesitações, em uma lição política”.
Anselmo Duarte nasceu em São Paulo e desde muito jovem radicou-se no Rio de Janeiro. Estreou nas telas como galã no musical Querida Suzana, de Alberto Pieralisi, filme que também marcou a estreia cinematográfica das hoje famosas atrizes Tônia Carrero e Nicette Bruno. Depois, protagonizou alguns dos maiores sucessos de público do cinema nacional em todos os tempos, entre eles Carnaval no Fogo, Aviso aos Navegantes e Sinfonia Carioca, do mestre das “chanchadas” Watson Macedo, e Tico-Tico no Fubá, no qual interpretou o compositor Zequinha de Abreu.
O público se surpreendeu em sua estreia como diretor na comédia Absolutamente Certo, uma despretensiosa mas inteligente sátira aos programas de prêmios no gênero “show do milhão”. Mas foi com O Pagador de Promessas, produção em preto-e-branco com orçamento modesto, que Anselmo Duarte conseguiu ver seu talento mundialmente reconhecido, através da Palma de Ouro em Cannes, além de inúmeras outras premiações em vários países e uma inclusão entre os cinco finalistas disputantes do Oscar de melhor filme estrangeiro.
Na opinião deste colunista, uma das mais sensíveis criações de Duarte, também injustamente subestimada por uma crítica de radicalismo vesgo, foi O Descarte, provavelmente o melhor filme no gênero de suspense já realizado no Brasil, com excelente desempenho de Glória Menezes, que o cineasta já dirigira como a paciente companheira de Zé do Burro no hoje clássico e cultuado O Pagador de Promessas.
Prêmios Internacionais
Festival de Cannes-1962
• Palma de Ouro
Festival de Cartagena/Colombia
• Prêmio Especial do Júri
San Francisco Film Festival/EUA-1962
Prêmio Golden Gate
• Melhor Filme
• Melhor Trilha Sonora
Gabriel Migliori
Oscar-1962
Indicado na categoria de Melhor Filme Estrangeiro
Festival de Acapulco/México-1962
Prêmio Cabeza de Palenque
• Melhor Filme
Festival de Bucareste/Romênia-1962
• Prêmio Especial do Júri
Festival de Edimburgo/Escócia-1962
• Prêmio da Crítica Internacional
Prêmio Saci/São Paulo-1962
• Melhor Filme
• Ator – Leonardo Vilar
• Produtor – Oswaldo Massaini
• Prêmio Especial – Anselmo Duarte e Dias Gomes
Prêmio Governo do estado de São Paulo-1962
• Melhor Filme
• Melhor Diretor
• Melhor Ator
• Melhor Argumento – Dias Gomes
• Melhor Produtor
V Festival de Cinema de Curitiba-1962
• Melhor Filme
• Melhor Diretor
• Melhor Ator
• Melhor Atriz – Norma Bengell
• Ator Coadjuvante – Geraldo Del Rey
• Atriz Revelação – Glória Menezes
Prêmio Cidade de São Paulo
• Melhor Diretor
• Melhor Ator
• Melhor Atriz – Glória Menezes
• Melhor Ator Coadjuvante – Roberto ferreira
• Melhor Argumento – Dias Gomes
• Melhor Fotografia – Chick Foyle
• Melhor Composição Sonora – Gabriel Migliri
• Melhor Edição – Carlos Coimbra
Troféu Cinelândia
• Melhor Filme
• Melhor Diretor
• Melhor Ator – Leonardo Vilar
• Melhor Atriz – Glória Menezes
Ficha técnica
O PAGADOR DE PROMESSAS. Brasil, 1972. Diretor/Roteiro: Anselmo Duarte, baseado na peça teatral de Dias Gomes. Fotografia: H. E. Fowler (Chick Foyle). Montagem: Carlos Coimbra. Música: Gabriel Migliori. Elenco: Leonardo Vilar (Zé do Burro), Glória Menezes (Rosa), Dionísio Azevedo (Padre Olavo), Geraldom Del rey (Bonitão), Roberto Ferreira (Dedé), Norma Bengell (Marli), Othon Bastos (Repórter), Antonio Pitanga (Mestre Coca) e Gilberto marques (Galego). Produção: Oswaldo Massini/Francisco de Castro. 95 minutos.
Confira o trailer de O Pagador de Promessas.
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