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O Oscar é francês

Publicado em 28/02/2012 - 9:50 por | Comentar

Categorias: OSCAR 2012

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Enquanto a França leva cinco Oscar de Hollywood para a Europa, o Brasil continua sem conseguir a sonhada estatueta da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood

A equipe de O ARTISTA faz a festa no palco do Oscar da Academia Foto: Mike Blake/Reuters

A 84ª entrega do Oscar da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood teve um duelo inédito: um filme francês falando sobre o cinema de Hollywood e um filme de Hollywood falando sobre o cinema francês. Fortalecido por ter sido um grande sucesso não apenas na França, mas em todos os países nos quais tem sido exibido, O Artista, de Michel Hazavenicius, sobrepujou o seu concorrente estadunidense e saiu consagrado com cinco troféus – melhor filme, diretor, ator (Jean Dujardin), trilha sonora e figurino.

Enfraquecido por não ter obtido sucesso junto ao público de seu país e não ter indicações nas principais categorias, como de filme e ator, o estadunidense A Invenção de Hugo Cabret, a obra igualmente mágica de Martin Scorsese, obteve as mesmas cinco estatuetas, mas todas de categorias do segundo escalão, a área técnica. Não se pode dizer que tenha ocorrido injustiças na premiação, mas o Oscar trafega na trilha do Globo de Ouro ao premiar os mesmos filmes. Em Hollywood campeia a reverência ao filme bem sucedido em termos de público.

Uma obra pode ter grandes qualidades, mas se não obter sucesso de bilheteria está arriscada ao ostracismo. A própria indústria marginalizou A Invenção de Hugo Cabret, o melhor filme de Martin Scorsese em anos – desculpem-me, mas não guardo simpatia nem por Os Infiltrados e muito menos por Ilha do Medo – , pelo simples fato de ter custado estimados US$ 170 milhões e, em 14 semanas em cartaz, ter arrecadado menos da metade, US$ 69,4 milhões. Fracassou nos cinemas, fracassa junto à Academia.

Alguém pode se lembrar de Avatar – um marco divisor de águas na História do Cinema – e a premiação de Guerra ao Terror, um mero bom filme de guerra, que em 2010 recebeu da Academia os Oscar de melhor filme e diretor. A única explicação para essa decisão é o fato da entidade ter ojeriza à ficção científica – em 2009 fizeram o mesmo com 2001: uma Odisséia no Espaço, de Stançeu Kubrick, e até hoje ninguém nem sabe onde está um tal de Oliver!, o musical de Carol Reed. De tão envergonhado, o filme sequer se encontra nas locadoras.

A premiação de O Artista representa o reconhecimento de Hollywood à criatividade e a ousadia de um filme criado com estimados US$ 15 milhões, em preto e branco e praticamente mudo e que trata do próprio cinema em um de seus momentos fundamentais: a passagem do mudo para o sonoro. O Artista expressa o talento e a simplicidade em uma obra cativante e que traz de volta a emoção ao público.

A Invenção de Hugo Cabret, expressão do poder financeiro de Hollywood, igualmente criado com talento e profundo conhecimento do cinema do passado, também, da sétima arte em sua origem e do homem que o levou ao conceito de indústria. Hollywood deve isso a George Mèlies. Mas, Hugo, é a própria expressão do cinema de hoje e o projeta para o futuro com o avanço das conquistas tecnológicas dos efeitos especiais e do 3D, do desenvolvimento da tecnologia que tornam as câmeras menores e mais leves e com alta qualidade de som e definição, barateando o custo da produção. Igualmente, uma obra-prima. Ambos expressam e explicam o Cinema como fruto da tecnologia. Não há como negar ser agregado visceralmente à tecnologia. E não apenas aquela que facilita o seu desenvolvimento como criação, mas igualmente aos palcos nos quais é exibida: a sala de cinema.

O que se pode dizer do resultado consagrador de O Artista é que o cinema ganhou do próprio cinema. A obra francesa vem um roteiro consagrador de prêmios em festivais internacionais e de, nos países em que é exibido, eleições que lhe dão título de melhor filme do ano. Agora, quebra a hegemonia de Hollywood e dá à Europa, pelo segundo ano consecutivo, o Oscar de melhor filme – no ano passado o vencedor foi o inglês O Discurso do Rei, de Tom Hopper. No entanto, se de um lado a Academia e os representantes dos sindicatos que o integram reconhecem as qualidades e o que representa O Artista para o cinema e o premia, por outro lado dá outro passo calculado para colocar a sua premiação em constrangedora situação como mero prêmio de reverência às escolhas do Globo de Ouro.

Não estou falando aqui em justiça ou injustiça, de torcer por um ou por outro filme. Estou falando de um fato que vem se repetindo e que já está se tornando incômodo. Tanto que já tem gente de dentro da Academia questionando o tema. A informação é do crítico Steve Pond, do site The Wrap, cuja análise já comentamos na matéria anterior sobre o Oscar.

Oscar de roteiro adaptado para Os Descendentes, de Alexander Payne, Oscar de roteiro original para Meia-Noite em Paris, de Woody Allen, Oscar para a Dama de Ferro Meryl Streep, Oscar para a coadjuvante Octavia Spencer de Histórias Cruzadas, Oscar de coadjuvante masculino para Christopher Plummer pelo pai gay de Toda Forma de Amor, e Oscar de filme estrangeiro para A Separação, de Asghar Farhadi, fazem a Academia concordar com o Globo de Ouro: sim, é isso mesmo. Mas a Academia poderia ter mudado o rumo da premiação, agraciando outros concorrentes. E em nenhum dos casos haveria injustiça.

A Academia poderia ter, também, deixado de ser protecionista e injusto com a animação Rio, de Carlos Saldanha. Enquanto os franceses comemoram 5 Oscar numa tacada só, nós brasileiros lamentamos a injustiça cometida com a animação Rio, que é uma produção de US$ 90 milhões da poderosa Fox. Além de não ser indicado em sua categoria – e olha que o filme foi um sucesso internacional com US$ 484,6 milhões -, ainda perdeu o Oscar de canção para uma canção chinfrim dos bonecos da televisão Os Muppets, um filme sem a menor criatividade. Repete-se a história de Central do Brasil, cuja interpretação soberba de Fernanda Montenegro foi injustamente desconhecida  em detrimento de Gwyneth Paltrow por sua atuação comum em Shakespeare Apaixonado.

Assim é o Oscar. De certa forma, a premiação consecutiva de dois filmes europeus como melhor filme expressa que Hollywood ainda continua com o poder econômico capaz de produzir cerca de 400 filmes por ano, mas não é a produtora dos melhores filmes do ano? Bem, não é bem assim. Hollywood continua sendo praticamente “dona” do mercado internacional de cinema e é quem leva o público para os cinemas. Isso é inegável. Mas está se rendendo ao fato de que seus filmes não são produzidos com a criatividade, a ousadia e a inteligência do cinema europeu, por exemplo. Isso também é inegável.

Portanto, após se render ao cinema estrangeiro, certamente Hollywood terá de aprender a ser tão inteligente e esperto quanto a cinematografia europeia. Um sinal da mudança dos tempos.

 

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