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BATMAN – O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE – a intolerância dos contrários

Publicado em 29/07/2012 - 6:06 por | Comentar

Categorias: REFLEXÃO

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Os dois trágicos acontecimentos que marcaram o filme Batman – o Cavaleiro das Trevas Ressurge, de Christopher Nolan, nesta semana, nos EUA, revelam o somatório de fatos que descem à origem da nação e a neurose que a dissemina, aliada a crescente incapacidade humana de lidar com o outro e o direito de expressão

Da observação da irredutibilidade das crenças últimas, extraí a maior lição de minha vida. Aprendi a respeitar as ideias alheias, a deter-me diante do segredo de cada consciência, a compreender antes de discutir, a discutir antes de condenar. E já que estou em veia de confidências, faço uma ainda, talvez supérflua: detesto os fanáticos com toda a alma (Norberto Bobbio, filósofo italiano em O Tempo da Memória – De Senectute e outros escritos autobiográficos).

Há uma semana que leio textos sobre o massacre ocorrido na cidadezinha de Aurora, em Denver. Nunca um massacre chamou tanto a atenção da mídia mundial quanto ao que deu fama imediata ao seu autor, James Holmes, 24, um estudante de neurociência da Universidade do Colorado, e, ao mesmo tempo, gerou tantas análises e buscas de explicações. A minha busca se dava através de uma pergunta: o que está acontecendo na sociedade estadunidense?.

O cinema de Aurora: palco do massacre

O massacre promovido por Holmes desfechou um rápido e instantâneo esquecimento de outra ação de massacre, ocorrida no início da semana passada, quando fãs extremados do personagem dos quadrinhos ameaçaram de morte os críticos Marshall Fine, do site Hollywood & Fine Reviews, e Christy Lemire, da Associated Press, por não gostarem das análises críticas negativas ao filme dirigido por Christopher Nolan.

FINE & LEMIRE: AMEAÇAS

Para se ter uma ideia da gravidade das ameaças, foram postadas frases como morra queimado, você é um babaca, queria colocá-lo em coma ao bater em você com uma mangueira de borracha. Rapidamente, em poucas horas, cerca de 480 comentários negativos e ameaçadores inundaram a área de comentários do filme sitiado no site, obrigando seus diretores a retirá-lo do ar.

Fine, em artigo intituladoGrandioso, não grande, inicia a sua análise falando de Bane, o vilão, que apareceu nos quadrinhos do herói no início dos anos 90 e do qual poucos devem dele se lembrar.

“Agora vem The Dark Knight Rises trazendo o personagem de Bane (interpretado, com minhas condolências, por Tom Hardy) e mulher-gato (Anne Hathaway, um dos poucos destaques do filme). Nolan fazum apanhado na criação de uma aventura épica que eleva o “épico” e que negligencia um componente crucial: a aventura”.

Afora outras colocações, o que deixou os fãs furiosos com Fine foi a comparação com Transformers. Apesar do crítico ter escrito que “eu não estou destruindo a totalidade de The Dark Knight Rises – eu estou dizendo que o seu potencial é tal que, em última análise, decepciona, graças à decisão de Nolan de fazer um filme grande, maior, maior”, não teve jeito: os fãs não tiveram complacência, postando dezenas de impropérios e ameaças ao crítico.

 Confira aqui a análise (original, em inglês) do crítico de cinema Marshall Fine
aqui > http://hollywoodandfine.com/reviews/the-dark-knight-rises-grandiose-not-grand/

Christy Lemire é crítica Associated Press e seus textos são reproduzidos por vários jornais, entre eles o “The Washingtion Post” e sites de cinema como o “Rotten Tomatoes”. Com o título de Série “Batman termina com épica decepção, a jornalista começa destacando que Nolan “conclui sua trilogia de modo espetacular e com The Dark Knight Rises, mas o sentimento de frustração e desapontamento é inabalável”. Lastima que o director e seu irmão Jonathan, roteiristas, tenham sobrecarregado o filme com excesso personagens e temas, cita que a ausência do Coringa de Heath Ledger é sentida e que o filme chega a ser chato em alguns momentos.

“Fazendo uma comparação, The Dark Knight Rises tem uma trama pesada, é obcecado com o processo, carregado com diálogos expositivos e flashbacks que atrapalham o ímpeto (no sentido de energia) e – posso ousar em dizer? – se torna completamente chato em alguns momentos. Sim, o mundo do Batman pela perspectiva de Nolan é para ser melancólico e introspectivo; deve-se admirar o fato de que ele está nos desafiando dessa maneira, quando quase sempre o que se vê são blockbusters chamativos e vazios (NT – ela usou “ocos”). E ainda assim, ao mesmo tempo, é necessário alguns passos gigantescos com seus personagens que, ou não fazem sentido algum, ou não conseguiram as emoções que estão buscando, ou os dois”, analisa, em um trecho. “É toda uma cadeia de desgraça e tristeza e nenhum coração. Não há nenhuma razão para se preocupar com esses personagens que funcionam mais como engrenagens de uma máquina (…) do que como pessoas reais cujas almas estão em jogo”, acrescenta a analista.

E concede uma explicação lógica fechando a sua análise, referindo-se a Nolan, tido como um gênio: “Este é o problema quando você é um cineasta visionário excepcional. Quando você dá às pessoas algo extraordinário, eles esperam por isso o tempo todo. Qualquer coisa menos do que isso é sentido como uma decepção”.

Confira a crítica (original em inglês) de Christy Lemire no “The Washington Post” aqui > http://www.washingtontimes.com/news/2012/jul/16/review-batman-series-ends-as-epic-letdown/

“Você é uma vaca idiota e quero que morra!”, postou Johnny G., em uma das centenas de comentários irados. A direção do site retirou a página de comentários do ar e abriu uma outra no facebook – mas lá os insanos não teriam como se esconder no anonimato.

NOLAN: COMENTÁRIO INFELIZ

Vindo a publico, o director Christopher Nolan, tentando fazer uma média desnecessária, defendeu a reação dos fãs, alegando que eles têm muita paixão por Batman, salientando que este “existe “ (as aspas são minhas) há 70 anos, “razão pela qual as pessoas são “apegadas” (também são minhas) a ele”. Nolan, infelizmente, não sabia que o episódio seria apenas um trailer do que estava por vir.

Neste primeiro episódio fica flagrante a existência de um grau de fanatismo sem sentido por heróis que não existem. Este é um dado. Nolan não percebeu esse fantasma, daí em momento algum deveria ter trocado as bolas ao minimizar e dar ar de ficção ao drama dos jornalistas e conceder realidade aos heróis de papel. Não é de estranhar porque as coisas estão indo à loucura nos EUA.

Fomento da intolerância, desprezo aos semelhantes, cerceamento à liberdade de expressão e a propagação do medo são alguns dos perigos estampados nas reações dos fã(naticos) adoradores de Batman. Isso pode ser resumo em uma só palavra: terrorismo. Seus condutores: os fanáticos.

Daí, retomo e torno minhas as palavras de Norberto Bobbio: Da observação da irredutibilidade das crenças últimas, extraí a maior lição de minha vida. Aprendi a respeitar as ideias alheias, a deter-me diante do segredo de cada consciência, a compreender antes de discutir, a discutir antes de condenar. E já que estou em veia de confidências, faço uma ainda, talvez supérflua: detesto os fanáticos com toda a alma.

Podemos – e devemos – refletir sobre isso. O fanatismo espalha-se por todo o mundo e em vários lugares da nossa sociedade. E espalha-se em várias formas através dos atos humanos. E onde está a sua origem: em casa, na escola, na solidão, nas religiões, na diferença do outro, no desconhecimento de que moramos no espaço, na insensibilidade dos políticos, na sexualidade reprimida, na falta de perspectivas, na ausência da espiritualidade.

O jornalista estadunidense Michael Kepp, há 29 anos morando no Brasil e articulista da Folha de São Paulo, em artigo Alienação Social faz dos EUA um Terreno Fértil para as Chacinas”, assinala que “alguns podem dizer que o fato de o atirador parecer um soldado é um reflexo de todas as guerras que minha pátria vem travando, do Vietnã ao Iraque e ao Afeganistão, e de quão fortemente armados estão os seus cidadãos. Mas há fatores menos óbvios que também fazem dos Estados Unidos um terreno fértil para chacinas. Acho que a alienação social e a pobreza espiritual necessárias para cometer assassinatos em massa são um produto da cultura americana, mais que de qualquer outra. É uma sociedade altamente competitiva e individualista, com pouco sentimento de comunidade. Cerca de 25% dos americanos vivem sós. Não surpreende que as chacinas, incluindo a de ontem no Colorado, sejam quase sempre cometidas por homens brancos de classe média, o segmento da população mais pressionado a ter sucesso e que tem o menor senso de comunidade”.

Leia na íntegra o comentário de Michael Kepp, aqui > http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/55685-alienacao-social-faz-dos-eua-um-terreno-fertil-para-chacinas.shtml

Roger Ebert, crítico de cinema do The New York Times, destaca que “parece que há uma relação entre violência e publicidade e pessoas como Holmes querem se ver no noticiário”. E salienta, “com o muitas pessoas cujo sofrimento se reflete na violência”, talvez tenha sido simplesmente atraído para um evento que recebeu enorme publicidade e seria visto por uma grande multidão”. Para Ebert, Holmes apenas aguardava um momento de ganhar publicidade.

O analista critica o excesso de exposição dos assassinos pela mídia. E preconiza que Holmes não será o último. Isso, porque o comércio de armas é livre e tem um ‘lobby’ atuante. “Mas será que esse jovem podia comprar armamento, munição e explosivos? O lobby desta indústria diz que sim. E o interminável debate sobre o controle das armas de fogo recomeçará, os lobistas da National Rifle Association terão bastante trabalho, os pensadores das colunas de opinião dos jornais exporão como sempre suas posições, a direita espalhará alarmes e nada mudará. E haverá mais um massacre”, finaliza.

Leia na íntegra o comentário de Roger Ebert (em português), aqui > http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,ja-vimos-este-filme-antes-,904511,0.htm 

Daí que, na grande da América do Norte, as armas não se desgrudam do próprio processo de origem da nação. Em que questões? No desbravamento do Oeste através do Winchester 43, na fomentação de golpes e guerras, no sonho americano de riqueza e poder, no incentivo ao consumo fixado na economia capitalista, no desconhecimento tem outras nações no planeta, na louvação da violência por Hollywood.

Esse processo não é apenas de um povo, mas de milhares espalhados sobre um planeta. Paz, cordialidade e consciência de que estamos todos interligados ainda é uma realidade distante. É a reflexão que fica para pensarmos sobre a infelicidade.

- Ávila Sousa colaborou na tradução  dos textos.

 

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