O FILME DOS ESPÍRITOS – entre a filosofia e a louvação
Categorias: CRÍTICAS DE FILMES
Está no Caderno 3 do Diário do Nordeste de ontem, segunda, 10, a análise que fiz de O Filme dos Espíritos, de André Marouço e Michel Dubret. Considero importante voltar ao filme, mesmo porque várias questões técnicas e temáticas ficaram de fora e algumas imperfeições do texto geraram dubiedade
O Filme dos Espíritos levou 3 anos para ser concretizado. O seu projeto surgiu a partir de 8 roteiros de documentários curtos sobre O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, premiados de uma leva de 200 trabalhos. A união dos roteiros gerou o longa, o qual contou com a participação da Estação Luz, produtora de Bezerra de Meneses – o Diário de um Espírito e As Mães de Chico Xavier, para obter a finalização. Superados os 3 anos de dificuldades, a Paris Filmes, distribuidora de As Mães de Chico Xavier, também entrou no projeto e o está colocando nos cinemas.
A película de José Marouço e Michel Dubret, trafega pela doutrina kardecista através das histórias de vários personagens em crise e outros em equilíbrio, definindo-os em narrativas paralelas que se fragmentam como um mosaico em processo de montagem, cujo intuito é uma revelação final, o grande impacto como desfecho. Ao longo da história de seu personagem central, Bruno Alves, a qual puxa e se entrelaça a de outros, o filme procura colocar para o espectador alguns dos maiores enigmas da existência humana: quem somos nós? De onde viemos e para aonde vamos? O que é a morte? O que é a reencarnação? E, a mais importante delas: o que é Deus? Ele existe?
Para melhor expressar ao entendimento do grande público sobre esses temas, o roteiro faz de três personagens as suas pilastras: o já citado Bruno (Reinaldo Rodrigues), um homem que de 40 anos que mergulha em um estado de decadência ao perder a mulher para uma doença fatal; o psiquiatra Levy (Nelson Xavier), o seu mentor que se dedica a uma entidade que atende às pessoas com deficiência e sabe ter pouco tempo de vida; e de uma jovem (Alethea Miranda), que acompanha com sofrimento o drama da mãe enferma. Outros personagens se somam à narrativa, como um jovem que trabalha numa funerária e vê e conversa com os espíritos, e o seu ajudante homossexual, entre outros.

A grande virtude O Filme dos Espíritos é separar devidamente as temáticas e colocá-las ao longo de sua narrativa sob a ótica de cada um dos personagens centrais. Até aí corretíssimo. Mas o filme padece em dois aspectos: o roteiro promove uma excessiva fragmentação das narrativas paralelas, as quais não têm uma unidade de tempo desigual e se desenvolvem em uma lentidão estarrecedora. Tudo bem que esteja justamente nessa lentidão a residência para a busca de uma reflexão por parte do espectador, como os rápidos tempos mortos, mas ela se dá demasiadamente arrastada. O segundo é a quebra da dramaticidade pelo entrelaçamento das histórias.
Explicando melhor: a fragmentação excessiva das narrativas de cada personagem, cuja execução se posta como as peças que vão montando cada uma das histórias a fim de obter um fechamento posterior em um só contexto, leva o filme, como um todo, a não alcançar a dramaticidade desejada, criando a incapacidade de envolver o espectador nos dramas dos citados personagens. Além disso, alguns deles ficam perdidos e apenas passam pela história, como médium e seu assistente na funerária, o maquiador de cadáveres. Para este último, a solução encontrada para o seu progresso pessoal após perdoar ao pai que rejeitou a sua homossexualidade é insuficientemente estabelecida quando ele cita ter sido contratado como “maquiador de novelas”. Entende-se que a intenção dos roteiristas seja a de mostrar o valor e o poder do perdão, mas no filme está forçado. Não faria mal se fosse retirado ou reformulado. Menos mal se sai a figura do garçom, personagem simples e bem definido em termos de exposição existencial e espiritual, entre os demais secundários.
Essa galeria de personagens, cada um com função em temáticas específicas na história, deveria dar ao filme, como um todo, uma complexidade temática – o que, infelizmente, não consegue, justamente por não obter a devida estrutura dramática. Estou falando em quebra da dramaticidade pela fragmentação e entrelaçamento das histórias. A estrutura, muito fragmentada, leva a uma dificuldade de ligação entre as partes, que se promovem como se fossem estanques. Sem a obtenção da complexidade para a história, ou seja, uma unidade de suas partes, o filme não se fecha como uma obra encorpada e enxuta.

Não há dúvida que o filme obtém o seu melhor resultado, em termos de exposição da doutrina espírita, na figura do psicólogo e doutrinador Levy, o homem dedicado aos semelhantes e que pratica a sua herança maior: a caridade. Através de Levy são dadas as explicações, entre outros temas, das causas das pessoas com deficiências, os motivos de seus sofrimentos em vida, como se dá as sessões mediúnicas, a comunicação com os espíritos, o processo de reencarnação e a prática do perdão.
A conversão do personagem central, Bruno, da decadência à sobriedade, conduz o filme em busca da dramaticidade. Nele fica evidente a perda de alguém íntimo como um dos instrumentos da dor humana cuja dimensão pode causar tanto a decadência como a superação. No caso do personagem, a dor da perda o leva a decadência moral ao recorrer ao suicídio e à bebida como soluções para o sofrimento. Infelizmente, o mergulho do personagem nessa decadência moral tem duas falhas que devem ser citadas. Uma na sua condição de alcoolatra, a qual é expressada em sequências longas e closes persistentes que se arrastam por um tempo além do necessário; e a outra, na ausência de uma exposição das conseqüências espirituais do ato de tirar a própria vida. Com isso, o filme até expressa ambas as condições, alcoolismo e suicídio, como instrumentos de sofrimento, mas que esquece de colocá-las que ambas são frutos do desequilíbrio, através do qual são vistos como soluções dos problemas pessoais. Cada ser é responsável pelos seus atos e a queda advém da fraqueza que caracteriza a condição humana, mas não numa visão maniqueísta de que o corpo material seja o mal de todas as coisas.
Há, ainda, outro problema. Assim como em As Mães de Chico Xavier há o erro de uma citação anti-aborto, O Filme dos Espíritos abre um espaço para louvação a Deus nas sequências em que pai e filho conversam sobre o processo de criação das coisas. Uma inserção desnecessária, pois o desfecho do filme, mesmo com o comprometimento da dramaticidade, remeteria a uma reflexão sobre os temas explorados em seus 101 minutos de duração. A sequência de louvação divina quebra a reflexão filosófica e remete o filme à religião pura.
No cinema, as questões que ficam implícitas remetem a uma reflexão maior junto ao espectador e garantem aos filmes uma qualidade de inteligência e sabedoria. Obras como Bezerra de Meneses – o Diário de um Espírito (2007), mesmo com as suas deficiências técnicas, Chico Xavier – o Filme (2010) e Nosso Lar (2010), abordaram o espiritismo com discrição e discernimento e com isso ganharam status respeitoso como obras de referência cinematográfica.
Obra de qualidade em alguns setores e com avarias em sua estrutura, O Filme dos Espíritos poderia ter optado pela exposição dos questionamentos da doutrina espírita numa narrativa que pudesse levar o espectador à reflexão. Afinal de contas, como Kardec textualmente expressa o espiritismo, a “sua força está na filosofia, no apelo que faz à razão, ao bom senso”.
Mais informações
O Filme dos Espíritos (Brasil, 2011), de André Marouço e Michel Debret. Com Nelson Xavier, Reinaldo Rodrigues e Alethea Miranda. 101 minutos. Paris Filmes. 10 anos.
Confira entrevista do diretor André Marouço sobre O Filme dos Espíritos.
Tags: Alethea Miranda, Allan Kardec, André Marouço, As Mães de Chico Xavier, Bezerra de Meneses - o diário de um espírito, Caderno 3, Chico Xavier - o Filme, De onde viemos e para onde vamos?, Diário do Nordeste, doutrina kardecista, Michel Dubret, Nelson Xavier, O Filme dos Espíritos, O que é a morte?, o que é Deus?, O que é reencarnação?, quem é Deus?, Quem Somos Nós?, Reinaldo Rodrigues






