Blog de Cinema

Busca


O FILME DOS ESPÍRITOS – entre a filosofia e a louvação

Publicado em 11/10/2011 - 15:32 por | Comentar

Categorias: CRÍTICAS DE FILMES

Está no Caderno 3 do Diário do Nordeste de ontem, segunda, 10, a análise que fiz de O Filme dos Espíritos, de André Marouço e Michel Dubret. Considero importante voltar ao filme, mesmo porque várias questões técnicas e temáticas ficaram de fora e algumas imperfeições do texto geraram dubiedade

O Filme dos Espíritos levou 3 anos para ser concretizado. O seu projeto surgiu a partir de 8 roteiros de documentários curtos sobre O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, premiados de uma leva de 200 trabalhos. A união dos roteiros gerou o longa, o qual contou com a participação da Estação Luz, produtora de Bezerra de Meneses – o Diário de um Espírito e As Mães de Chico Xavier, para obter a finalização. Superados os 3 anos de dificuldades, a Paris Filmes, distribuidora de As Mães de Chico Xavier, também entrou no projeto e o está colocando nos cinemas.

A película de José Marouço e Michel Dubret, trafega pela doutrina kardecista através das histórias de vários personagens em crise e outros em equilíbrio, definindo-os em narrativas paralelas que se fragmentam como um mosaico em processo de montagem, cujo intuito é uma revelação final, o grande impacto como desfecho. Ao longo da história de seu personagem central, Bruno Alves, a qual puxa e se entrelaça a de outros, o filme procura colocar para o espectador alguns dos maiores enigmas da existência humana: quem somos nós? De onde viemos e para aonde vamos? O que é a morte? O que é a reencarnação? E, a mais importante delas: o que é Deus? Ele existe?

Para melhor expressar ao entendimento do grande público sobre esses temas, o roteiro faz de três personagens as suas pilastras: o já citado Bruno (Reinaldo Rodrigues), um homem que de 40 anos que mergulha em um estado de decadência ao perder a mulher para uma doença fatal; o psiquiatra Levy (Nelson Xavier), o seu mentor que se dedica a uma entidade que atende às pessoas com deficiência e sabe ter pouco tempo de vida; e de uma jovem (Alethea Miranda), que acompanha com sofrimento o drama da mãe enferma. Outros personagens se somam à narrativa, como um jovem que trabalha numa funerária e vê e conversa com os espíritos, e o seu ajudante homossexual, entre outros.


A grande virtude O Filme dos Espíritos é separar devidamente as temáticas e colocá-las ao longo de sua narrativa sob a ótica de cada um dos personagens centrais. Até aí corretíssimo. Mas o filme padece em dois aspectos: o roteiro promove uma excessiva fragmentação das narrativas paralelas, as quais não têm uma unidade de tempo desigual e se desenvolvem em uma lentidão estarrecedora. Tudo bem que esteja justamente nessa lentidão a residência para a busca de uma reflexão por parte do espectador, como os rápidos tempos mortos, mas ela se dá demasiadamente arrastada. O segundo é a quebra da dramaticidade pelo entrelaçamento das histórias.

Explicando melhor: a fragmentação excessiva das narrativas de cada personagem, cuja execução se posta como as peças que vão montando cada uma das histórias a fim de obter um fechamento posterior em um só contexto, leva o filme, como um todo, a não alcançar a dramaticidade desejada, criando a incapacidade de envolver o espectador nos dramas dos citados personagens. Além disso, alguns deles ficam perdidos e apenas passam pela história, como médium e seu assistente na funerária, o maquiador de cadáveres. Para este último, a solução encontrada para o seu progresso pessoal após perdoar ao pai que rejeitou a sua homossexualidade é insuficientemente estabelecida quando ele cita ter sido contratado como “maquiador de novelas”. Entende-se que a intenção dos roteiristas seja a de mostrar o valor e o poder do perdão, mas no filme está forçado. Não faria mal se fosse retirado ou reformulado. Menos mal se sai a figura do garçom, personagem simples e bem definido em termos de exposição existencial e espiritual, entre os demais secundários.

Essa galeria de personagens, cada um com função em temáticas específicas na história, deveria dar ao filme, como um todo, uma complexidade temática – o que, infelizmente, não consegue, justamente por não obter a devida estrutura dramática. Estou falando em quebra da dramaticidade pela fragmentação e entrelaçamento das histórias. A estrutura,  muito fragmentada, leva a uma dificuldade de ligação entre as partes, que se promovem como se fossem estanques. Sem a obtenção da complexidade para a história, ou seja, uma unidade de suas partes, o filme não se fecha como uma obra encorpada e enxuta.


Não há dúvida que o filme obtém o seu melhor resultado, em termos de exposição da doutrina espírita, na figura do psicólogo e doutrinador Levy, o homem dedicado aos semelhantes e que pratica a sua herança maior: a caridade. Através de Levy são dadas as explicações, entre outros temas, das causas das pessoas com deficiências, os motivos de seus sofrimentos em vida, como se dá as sessões mediúnicas, a comunicação com os espíritos, o processo de reencarnação e a prática do perdão.

A conversão do personagem central, Bruno, da decadência à sobriedade, conduz o filme em busca da dramaticidade. Nele fica evidente a perda de alguém íntimo como um dos instrumentos da dor humana cuja dimensão pode causar tanto a decadência como a superação. No caso do personagem, a dor da perda o leva a decadência moral ao recorrer ao suicídio e à bebida como soluções para o sofrimento. Infelizmente, o mergulho do personagem nessa decadência moral tem duas falhas que devem ser citadas. Uma na sua condição de alcoolatra, a qual é expressada em sequências longas e closes persistentes que se arrastam por um tempo além do necessário; e a outra, na ausência de uma exposição das conseqüências espirituais do ato de tirar a própria vida. Com isso, o filme até expressa ambas as condições, alcoolismo e suicídio, como instrumentos de sofrimento, mas que esquece de colocá-las que ambas são frutos do desequilíbrio, através do qual são vistos como soluções dos problemas pessoais. Cada ser é responsável pelos seus atos e a queda advém da fraqueza que caracteriza a condição humana, mas não numa visão maniqueísta de que o corpo material seja o mal de todas as coisas.

Há, ainda, outro problema. Assim como em As Mães de Chico Xavier há o erro de uma citação anti-aborto, O Filme dos Espíritos abre um espaço para louvação a Deus nas sequências em que pai e filho conversam sobre o processo de criação das coisas. Uma inserção desnecessária, pois o desfecho do filme, mesmo com o comprometimento da dramaticidade, remeteria a uma reflexão sobre os temas explorados em seus 101 minutos de duração. A sequência de louvação divina quebra a reflexão filosófica e  remete o filme à religião pura.

No cinema, as questões que ficam implícitas remetem a uma reflexão maior junto ao espectador e garantem aos filmes uma qualidade de inteligência e sabedoria. Obras como Bezerra de Meneses – o Diário de um Espírito (2007), mesmo com as suas deficiências técnicas, Chico Xavier – o Filme (2010) e Nosso Lar (2010), abordaram o espiritismo com discrição e discernimento e com isso ganharam status respeitoso como obras de referência cinematográfica.

Obra de qualidade em alguns setores e com avarias em sua estrutura, O Filme dos Espíritos poderia ter optado pela exposição dos questionamentos da doutrina espírita numa narrativa que pudesse levar o espectador à reflexão. Afinal de contas, como Kardec textualmente expressa o espiritismo, a “sua força está na filosofia, no apelo que faz à razão, ao bom senso”.

Mais informações

O Filme dos Espíritos (Brasil, 2011), de André Marouço e Michel Debret. Com Nelson Xavier, Reinaldo Rodrigues e Alethea Miranda. 101 minutos. Paris Filmes. 10 anos.

Confira entrevista do diretor André Marouço sobre O Filme dos Espíritos.

Imagem de Amostra do You Tube

Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

O FILME DOS ESPÍRITOS – a resenha e a humilhação

Publicado em 11/10/2011 - 14:57 por | Comentar

Categorias: CRÍTICOS DE CINEMA

O exercício da crítica de cinema exige postura, conhecimento e, sobretudo, a eterna vigilância, ou seja, o crítico deve se colocar sempre em questão. Quando eu tinha 16 anos e Lustosa da Costa me convidou para escrever sobre cinema no Correio do Ceará, sentenciou. “O que é que você quer fazer? É escrever sobre cinema, exercer a atividade de crítico?, então, se dedique a isso, angarie o conhecimento de cinema, estude, continue estudando sempre e seja o melhor que você pode ser. O jornalismo, no futuro, será o dos bons articulistas, dos analistas e daqueles que conquistarem a credibilidade dos leitores”

Relembro as palavras de meu mestre no jornalismo devido a um espanto e uma coincidência – não acaso, coincidência. O tema é a crítica e O Filme dos Espíritos. Mais propriamente, a reação da crítica em relação ao filme. Li, na manhã desta segunda, 10, críticas do filme em vários jornais nacionais, mas não consegui tempo para visitar os poucos, pouquíssimos sites de cinema que merecem ser visitados. Li, rapidamente, alguns textos e, com lamento, digo que raros críticos fizeram uma análise digna do filme – seja ele ruim ou bom. Infelizmente, a grande maioria das “críticas” não precisaram sequer de 8 ou 10 linhas para arrasar o filme de forma implacável e até mesquinha. E aí, vem a coincidência. Na edição do Caderno 3 do Diário do Nordeste de ontem, domingo, 9, dedicado ao exercício da crítica, Nelson Hoineff, em entrevista a repórter Mayara de Araújo, trata justamente desse tema ao se referir a avaliação de um filme em poucas linhas, 8 ou 10, no máximo, a qual, para ele, se torna “humilhante para quem se esforçou em produzir uma película”.

Hoineff, eu não sabia, também luta para diferenciar resenha de crítica – um contexto o qual insisto, há anos, em separar, e que Dellano Rios, editor do Caderno 3 do Diário do Nordeste disse estar disposto a sabiamente adotar -, pois a crítica é uma análise do filme – ou de um livro, de uma peça – em seus vários setores e se fecha na obra como um todo. Uma resenha, na minha concepção, trata-se de um texto curto, de apresentação da sinopse e de detalhes da produção do filme, o qual não foi visto ainda e, por isso, sem caráter de crítica. Ou seja, no exercício da crítica não podemos ser tão simplórios e vazios. Não é justo nem o filme e nem com que o realiza. E especialmente conosco mesmo.

Concordo planamente com a colocação de Hoineff. E, dentro desse contexto, o que li de diversos colegas em relação a O Filme dos Espíritos foi simplesmente resenhas arrasadoras de um filme. Não há uma sequer que aponte os defeitos sob um critério de análise. Apenas afirmações. Não por menos, há quem defenestre a crítica e os críticos. Mas, é bom separar e não julgá-los em bloco. Assim como há cineastas e cineastas, filmes e filmes, existem críticos e críticos.

A reação visceral e agressiva contrária ao filme, me “pegou”. E ainda estou chocado. Como já tinha presenciado isso antes com Bezerra de Meneses – o Diário de um Espírito e As Mães de Chico Xavier, afora algumas desabonadoras a Nosso Lar e Chico Xavier, fico matutando se não se trata de uma reação aos chamados “filmes espíritas”. Pode também ser o medo do conhecimento de algo que, pessoalmente, prefira ficar desconhecida ou, quem sabe?, resvale numa questão moral. Afinal de contas, espíritos não existem, não é verdade?

O teor do e-mail despachado pelo diretor André Marouço na tarde de sábado, 08, e que li na manhã desta segunda, me promoveu esse pensar. Escreveu o cineasta: “Ontem estreou O Filme dos Espíritos e como não poderia deixar de ser, nossos irmãos críticos estão qualificando o filme como dispensável. Eu os entendo e respeito. Certamente aprenderemos muito com o que eles nos apontam e haveremos de melhorar nos próximos filmes. Porém, tenho para mim, que filmes como estes sempre serão mal vistos pela crítica, pois estes amigos vão analisar apenas e tão somente a peça como obra de entretenimento e, no caso dos filmes espíritas, sempre existirá uma forte mensagem educativa, filosófica e porque não dizer doutrinária, digo doutrinária, mas não proselitista”.

Estará Marouço correto em sua colocação? Afinal, o preconceito está dentro de nós mesmos e precisamos lutar contra ele, racionalmente, todos os dias. Pode haver um preconceito aos filmes de temática espírita? A questão fica em aberto para discussão. Quanto ao exercício da crítica, voltaremos ao assunto. E quanto a entrevista de Nelson Hoineff, confira-a no link abaixo http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1053599

Tags: , , , , , , , , ,

ÁREA Q – compete em 3 festivais internacionais

Publicado em 18/08/2011 - 17:52 por | 3 Comentários

Categorias: VEM POR AÍ

Finalizado e em negociação com uma distribuidora estadunidense para exibição no mercado brasileiro e no exterior, a ficção científica Área Q, co-produção EUA-Brasil dirigida por Gerson Sanginitto e co-produzida por Halder Gomes, Estação da Luz, Boa Vontade Filmes, Reef  Pictures, ATC Entretenimentos e a Sophia Filmes, vai disputar a Mostra Competitiva do Hollywood Film Festival, além de 2 outros festivais nos EUA


É grande a minha expectativa para conferir Área Q, a ficção científica rodada nos interior do estado, mais propriamente nos municípios de Quixadá e Quixeramobim, além de ter cenas filmadas em Los Angeles nos EUA. Conversando com Hálder Gomes, o produtor, ele disse que o filme já está pronto e em negociação com uma “major”, uma das grandes distribuidoras estadunidenses aqui instaladas. Lembrando que a Estação da Luz teve o seu Bezerra de Meneses – Diário de um Espírito distribuído pela “major” Fox. É apenas uma aposta pessoal, mas ele, relutante, não revela. Halder se mostrou contentíssimo com  a ótima repercussão obtida pelo filme, em abril passado, no Los Angeles Brazilian Film Festivasl. Área Q teve uma ótima acolhida popular quando apenas uma sessão não foi suficiente para atender o grande público interessado em assisti-lo e os organizadores tiveram de abrir outra sala para abrigar quem ficou de fora. Mais expressivo ainda o fato da co-produção estadunidense-cearense ter encantado e emocionado as duas platéias, as quais o aplaudiram fervorosamente. A ótima receptividade abriu as portas para que Área Q agora participe de 3 outros festivais – e competindo por prêmios.

A primeira participação será no Hamptons Black International Film Festival, de 16 a 18 de setembro. O evento, criado para celebrar o cinema independente de vários países, neste ano vai a abrigar produções inéditas do Brasil, Burkina Faso e Irlanda, além, obviamente dos EUA. Uma das atrações será a exibição do documentário Barack’s Obama Irish Roots (As Raízes Irlandesas de Barack Obama), que começou a ser produzido em 2009 com o orçamento de 10 milhões de dólares sob a direção de Gabriel Murray e somente agora ficou pronto.

Saiba mais sobre o festival clicando aqui > http://www.hbiff.org/

Em seguida, Área Q participa do Internacional Black Film Festival of Nashville - a decantada cidade musical celebrada por Robert Altman em Nashville (1975) -, de 05 a 09 de outubro. O Festival tem importância pela presença de distribuidoras e exibidores e já revelou vários cineastas, além de ter descoberto filmes que se deram bem tanto nos circuitos de arte quanto nas salas comerciais.

Confira o site oficial do Festival clicando aqui > http://www.nowplayingnashville.com/event/detail/441153459/2011_International_Black_Film_Festival_of_Nashville

Fechando a participação em festivais nos EUA, Área Q será uma das atrações em competição no Hollywood Film Festival, de 20 a 24 de outubro.

Para conferir e saber mais sobre o Festival, clique > http://hollywoodfest.com/

Área Q tem como cenários principais os municípios de Quixadá e Quixeramobim (daí o título), onde se sucedem aparecimentos de objetos voadores não identificados e até casos de contatos imediatos de primeiro (apenas o avistamente), segundo (avistamento e provas físicas) e terceiro graus (comunicação com o OVNI). Para cobrir o caso, chega ao estado o jornalista estadunidense Thomas Matthews (Isaiah Washington), o qual anda amargurado com o desaparecimento do filho Peter, motivo do declínio de sua carreira. Ao estabelecer amizade com um morador local, João Batista (Murilo Rosa), este lhe revela uma série de informações sobre eventos em desenvolvimento que mudarão a vida de várias pessoas, incluindo a sua.

O filme tem a direção do carioca radicado em Los Angeles Gerson Sanginitto, e, no elenco, além de Washington e Rosa, Ricardo Conti, Tânia Kalil e um grupo de atores cearenses como Sol Moufet, Karla Karenina, Rodger Rogério, Hiramisa Serra, Lauda Bandeira, Adriana Borba e o grande Haroldo Serra.

Conheça o treiler de Área Q.

Imagem de Amostra do You Tube

Ficha técnica de Área Q.

Diretor/Produtor – Gerson Sanginitto
Produtores – Halder Gomes, Isaiah Washington, Carina Sanginitto.
Produtor Executivo – Halder Gomes
Produtores Executivos: Eduardo Girao, Luciano Duarte Pereira, Alziro Paiva.
Co-Produtores Executivos – Sidney Girao, Glauber Filho, Leonardo Mello.
Produtor Associado – Ric Halpern
Argumento: Gerson Sanginitto, Carina Sanginitto, Halder Gomes
Roteiro: Júlia Câmara, Gerson Sanginitto
Direção de Fotografia: Carina Sanginitto
Direção de Produção: Dayane Queiroz
Diretor de Arte: Fábio Vasconcelos
Figurino: Tarsila Furtado
Som direto: Alfredo Guerra
1a Assistente de Direção: Mikaela Ayres
Diretor de 2a Unidade: Ric Halpern
Montagem: Helgi Thor
Efeitos Visuais: Marcio Ramos
Desenho de som e mixagem: Jeffery Allan Jones
Score: Perry La Marca
Musica Original: Claudia Albuquerque
Casting: David Glanzer

Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

HOMENS COM CHEIRO DE FLOR – o cheiro da morte

Publicado em 13/06/2011 - 13:30 por | 1 Comentário

Categorias: CRÍTICAS DE FILMES

Entre os tantos filmes integrantes da Mostra Competitiva de longa-metragem do Cine Ceará, o que mais surpreendeu tem uma história empolgante e um título irreverente: Homens com Cheiro de Flor. Mas, cheiro de flor que nada, os caras exalam mesmo é o cheiro da morte, com seus revólveres, espingardas e facas. Na história de pistoleiros de aluguel e políticos corruptos, nem as mulheres têm o cheiro de flor. Joe Pimentel fez um filme empolgante, moderno, dinâmico

Homens com Cheiro de Flor surpreende, auspiciosamente, porque, finalmente, vejo um filme cearense com andamento dinâmico, com movimentos de câmera e um montagem que privilegia a linguagem cinematográfica moderna. De Bezerra de Meneses – o diário de um espíritoFilme, passando por O Grão, As Mães de Chico Xavier e até a Mãe e Filha, assistimos a filmes paradões, com poucos movimentos de câmera, longas cenas e cortes convencionais de montagem. Com isso, não estou dizendo que se trata de filmes ruins. Não é isso, apenas estou falando do ritmo narrativo lento no qual o dinamismo da imagem não existe. Eu já tinha conversado sobre isto com o Gláuber Filho e o Hálder Gomes – que tem um curta admiravelmente dinâmico, O Astista Contra o Caba do Mal.

Independente disso, há o aspecto do crescimento de qualidade do cinema feito aqui. Tudo bem, Bezerra de Meneses não acompanha os demais em qualidade, mas tem a sua importância por ter aberto um novo gênero no cinema brasileiro. E O Grão, de Petrus Cariry, é uma obra prima, não me canso de escrever.

Agora, com o filme de Joe Pimentel estamos frente a um thriller policial de primeira categoria. Roteiro, montagem, direção de atores, a atuação destes, tudo funciona em uníssono. Temos um filme com a estampa dos irmãos Coen e com o perfume conquistador de Sérgio Leone… e até a trilha sonora lembra quem? Ennio Morricone. O acorde musical de abertura é de alta criatividade, a mescla perfeita dos Coen de Onde os Fracos não têm Vez (vamos ficar somente com esta obra-prima) com o Sérgio Leone da trilogia dos dólares (Por um Punhado de Dólares, 1964; Por uns Dólares Mais, 1965; Três Homens em Conflito, 1966) e principalmente de uma obra-prima chamada Era uma Vez no Oeste (1968).

Não, não quero saber de influências, quero saber de resultados. Porque um novo realizador pode ter admiração por seus cineastas, demonstrar em seus filmes essa influência e, mais tarde, postadas e passadas as homenagens, dar by by a eles e criar as suas obras de forma intrinsecamente pessoal. É, mas tem outros que não se livram nunca e assumem, aí sim, a influência de vez. Por isso se vê ainda uns sub-Glauber Rocha por aí.

Escrevi para o Caderno 3 do Diário do Nordeste de hoje, 13, que Homens com Cheiro de Flor me empolgou pelo roteiro enxuto e redondo que expõe o mundo dos pistoleiros de Aluguel, por sua história envolvente e a envergadura técnica irrepreensível que trafega pelo cinema dos irmãos Coen e Sérgio Leone.

Confira galeria de imagens do filme

Destaquei 3 frases, em 3 momentos distintos do filme:

“Quem morre dormindo não sabe o que aconteceu. Vira assombração”. Com esta frase, o pistoleiro de aluguel Deodato (Joelson Medeiros) acorda uma mulher e dá-lhe dois tiros, em meio às implorações dela.

“Quem nasceu para matar já nasceu sabendo”, afirma, mais tarde, o pistoleiro Zé Gallego (Dérnick Lopes), enquanto dirg=ige o carro para mais uma missão para matar.

“Para ganhar eleição, tem que contar com os defuntos, inclusive o da minha sogra”, afirma o político e fazendeiro político Belizário (ZéCarlos Machado), à sua prima Maria Calaça (Fabíola Liper), comemorando o sucesso das execuções de adversários, líderes sociais e radialistas.

Esses diálogos são algumas das pedras preciosas contidas na narrativa, e se sobressaem no roteiro de Emmanuel Nogueira, o qual já tinha demonstrado talento com As Mães de Chico Xavier.

Joe Pimentel tem na filmografia vários curtas notáveis, mas o meu preferido é Retrato Pintado (2001). Ele foi diretor de fotografia e ex-assistente de direção de José Araújo em Sertão das Memórias, de Nirton Venâncio em no curta Um Cotidiano Perdido no Tempo, no longa de Oropa, França, Bahia, de Gláuber Filho, de Zelito Viana em Vila Lobos – uma vida de paixão, e de  Wolney Oliveira em Milagre em Juazeiro.

Homens com Cheiro de Flor é o primeiro longa-metragem “solo” de Joe, que co-dirigiu Bezerra de Menezes – diário de um espírito, com Gláuber Filho. Deste drama espírita para Homens com Cheiro de Flor Joe demonstra um imenso – mas bota imenso nisso -, crescimento e amadurecimento como cineasta. A estrutura do filme parte de um roteiro enxuto e redondo ambientado no sertão cearense (ou em qualquer lugar caracterizado pela caatinga nordestina), enfocando três pistoleiros, Deodato Viscaíno (Joelson Medeiros), Custódio da Cruz (Aury Porto) e o novato Zé Gallego (Demick Lopes), os quais trabalham para o prefeito e fazendeiro corrupto Belizário (Zé Carlos Machado), cujo maior aliado é a sua prima Maria Calaça (Fabíola Liper). Outros dois personagens fecham a galeria, Romana (Simone Iliescu) e Miguel (Guilherme Tortólio), respectivamente, mulher e filho de Deodato, os quais terão função fundamental na trama, ela como objeto do desejo e moeda de troca, ele como um personagem aparentemente solto que, no entanto, reserva uma das surpresas do filme. Sem perigo de errar: é, até agora, o melhor filme do Cine Ceará.

Homens com Cheiro de Flor (Brasil-CE, 2011), de Joe Pimentel, com Joelson Medeiros, Aury Porto, Dérnick Lopes e Simone Iliescu. 90 minutos.

Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,


Páginas

Facebook

Editora Verdes Mares Ltda.

Praça da Imprensa, S/N. Bairro: Dionísio Torres

Fone: (85) 3266.9999