MEMÓRIA – 13 anos sem Stanley Kubrick
Categorias: CINEASTAS
Dia 7 de março de 2012: fazem exatos 13 anos que Stanley Kubrick faleceu em sua casa no interior da Inglaterra. Kubrick foi um marco de sua geração e seu legado continua influenciando não só a comunidade cinematográfica, como a cultura pop em geral
Em homenagem aos 13 anos de morte de Kubrick, postarei ao longo das sextas-feiras do mês de março um especial de análise à sua obra completa, de A Morte passou por perto até De olhos bem fechados, serão doze filmes no total, portanto, serão analisados 4 filmes por semana.
Mini Biografia
Stanley Kubrick nasceu no dia 26 de julho de 1928 em Nova Iorque, e, por mais que tenha passado o fim de sua vida na Inglaterra, para seus amigos e familiares, Kubrick nunca deixou de ser novaiorquino. Cresceu no Bronx (Bairro periférico de Nova Iorque) e desde a epigênese da infância apresentou problemas escolares. Kubrick não era um bom aluno, mas sua mente inventiva foi sempre reconhecida pelos seus pais que lhe davam uma liberdade artística semelhante ao que chamamos de “licença poética”. Na adolescência, se interessou pelo xadrez e pela fotografia, ganhou sua primeira câmera fotográfica de seu pai e mais tarde começou a ganhar a vida entre campeonatos de xadrez e como fotógrafo da revista americana Look.
Seu primeiro longa metragem data de 1953, Kubrick dirigiu Fear and desire aos 25 anos com uma ajuda financeira generosa de seu pai. O filme encontra-se até hoje fora de catálogo por opção do próprio cineasta. Em 1955 Kubrick dirige seu primeiro longa de notoriedade razoável, A Morte passou por perto (Killer’s Kiss) foi um filme bem comentado pela crítica americana, apesar de ter sido exibido em circuitos restritos e não ter sido acessível ao grande público – até mesmo por razões logísticas-. Foi com O Grande golpe (The Killing) que Stanley ganhou a atenção dos produtores que viram nele potencial para dirigir seu próximo filme que seria um sucesso comercial e de crítica, Glória feita de sangue (Paths of Glory) foi o filme que pôs Kubrick na posição de autor de cinema, filme de primeira guerra mundial, Glória feita de sangue é referência entre o gênero guerra, evidenciando tudo o que o ser humano tem de mais miserável em sua condição, aliado ao talento do jovem astro Kirk Douglas, Kubrick produziu um grande manifesto anti bélico em plena década de 50, tal ‘atrevimento’ lhe custou a censura do filme em diversos países, inclusive na França, devido ao retrato que faz dos soldados franceses.
Em 1960, Kubrick foi chamado por Kirk Douglas para assumir o projeto do épico Spartacus, que estava sem diretor após a demissão de Anthony Mann. Apesar de ter um pé atrás quanto à realização de um filme no qual não teria total controle criativo, Kubrick sabia que uma grande produção como aquela sua grande oportunidade de dar uma alavancada em sua carreira, portanto, mesmo incomodado, aceitou a proposta de Douglas. O resultado de Spartacus foi brilhante – mesmo tendo desavenças com Kirk Douglas em meio às filmagens – , entretanto, mesmo tendo rendido premiações e boas críticas, Kubrick decidiu que a partir daí, só se envolveria em projetos nos quais pudesse ter total controle criativo.
Seu próximo filme foi lançado em 1962, Lolita, adaptado da obra homônima de Vladimir Nabokov foi controverso desde o início, o romance original era até pouco tempo censurado em diversos países pela sua temática sexual – que hoje nos parece tão antiquada – forte. O resultado não poderia ser outro, Kubrick mesmo afirmou que se soubesse que sua obra seria tão censurada nunca teria se dado ao trabalho de dirigi-la. Lolita foi – controversamente – um sucesso de crítica e público. Em 1964, aliado aos ícones da comédia na época: Peter Sellers e George C. Scott, Stanley dirigiu a comédia de humor negro Dr. Fantástico (Dr. Strangelove) que logo virou um clássico no que se diz respeito a filmes de guerra fria. A paranoia vivida pelos governantes, militares e cidadãos americanos durante o embate entre EUA e URSS não poderia ser tratado de outra forma pelo diretor senão através da comédia de tão absurdo que era o seu roteiro.
A tal ponto, Kubrick já tinha sido indicado ao Oscar de melhor diretor, foi então que se dedicou ao lado do escritor de ficção Arthur C. Clarke no desenvolvimento de 2001: uma odisseia no espaço (2001: a space odyssey, 1968)considerado até hoje uma de suas grandes obras primas ao lado de O Iluminado (The Shining,1980) e Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971). Uma odisseia no espaço foi controverso em sua estrutura de roteiro e inovador em seus efeitos especiais – que inclusive lhe rendeu o Oscar na categoria -, e, apesar de não ter sido bem recebido pela crítica, foi um sucesso comercial.
Para quem achava que Lolita havia sido uma obra pagã e digna de repulsa, o filme que sucedeu 2001, Laranja mecânica, de 1971, foi com certeza o filme mais mal recebido de Kubrick, tanto pelo público como pela crítica, tendo inclusive de ser retirado de circulação na Inglaterra pelo próprio diretor – que nessa altura já morava na terra da rainha – devido às inúmeras ameaças hostis que recebeu do público expectador, sendo acusado, entre outras coisas, de “incentivador de atos violentos”. Laranja mecânica é uma obra à frente de seu tempo – tanto que é reconhecida por muitos como a obra prima máxima de Kubrick -, e seu valor só foi reconhecido após anos de controvérsia. A atuação de Malcom McDowell é até hoje elogiada por todos os que são ou se intitulam cinéfilos, assim como pela crítica especializada.
Em 1975 Kubrick dirigiu o clássico de época Barry Lyndon, obra que apesar de esteticamente impecável – Kubrick solicitou à NASA que realizassem alterações em suas lentes para a realização de determinadas cenas que requeriam iluminação especial de velas – foi recebida amistosamente e não obteve o resultado que o diretor esperava, até mesmo pelo seu esforço técnico em realiza-lo. Barry Lyndon levou 4 premiações técnicas do Oscar e é para Martin Scorsese o melhor filme de Kubrick.
O próximo filme dirigido por Kubrick seria um absoluto sucesso mundial, considerado um clássico instantâneo, O Iluminado marca a parceria do diretor com o ator Jack Nicholson. Baseado na obra homônima do escritor americano Stephen King, é um suspense psicológico absolutamente genial do qual não pode ser comparado ao seu romance original. O filme foi severamente criticado por Stephen King e pelos leitores discípulos do mesmo.
Nascido para matar (Full Metal Jacket, 1987), foi o penúltimo filme de Kubrick, que voltara à temática da guerra, só que agora no Vietnã. Retrato violento da guerra, é considerado por muitos uma versão de Apocalypse Now de Francis Ford Coppola ao próprio estilo de Kubrick. O diretor realizou grande parte das filmagens em uma cidade abandonada no interior da Inglaterra, onde pôde explodir prédios ao seu bel desejo.
Antes de começar a desenvolver o projeto de seu último filme, Kubrick estava imerso na produção de A.I: Inteligência Artificial. Stanley estava decidido em produzir o filme que seria dirigido não por ele, mas por Steven Spilberg. Em entrevista concedida no documentário Stanley Kubrick: Imagens de uma vida, Spilberg afirma ter perguntado à Kubrick o porque de sua escolha por ele para dirigir o projeto, segundo ele, Kubrick respondeu com as seguintes palavras: Esse parece mais com o seu estilo de filme, não do meu. Stanley sabia que tinha nas mãos um grande projeto, mas decidiu aguardar alguns anos até que a tecnologia cinematográfica estivesse desenvolvida a ponto de condizer com o nível do filme.
Foi nesse meio tempo que Kubrick se envolveu na produção daquele que foi seu último filme, De olhos bem fechados, de 1999, teve seu elenco encabeçado por Nicole Kidman e Tom Cruise, seu desenvolvimento foi um processo longo e árduo, a Warner Pictures deu ao diretor pleno controle criativo e financeiro para a realização do filme. De olhos bem fechados é visto por muitos apenas como o último filme de Kubrick, mas para mim é também um de seus maiores filmes, um clássico thriller psicossexual de roteiro e direção impecável. O filme demorou mais de 2 anos para ser concluído e poucos dias após a sua primeira exibição, Stanley Kubrick morreu no dia 7 de março de 1999 enquanto dormia. Ele parecia ter se livrado de um peso enorme em suas costas disse um amigo de Kubrick em entrevista ao documentário Stanley Kubrick: Imagens de uma vida, quando o diretor entregou o filme pronto a Warner que o recebeu com muito otimismo.
Controverso, perfeccionista, gênio. Stanley Kubrick é inegavelmente um dos maiores diretores de todos os tempos desde a invenção da câmera de vídeo. Talvez por estar à frente do seu tempo, sua obra foi ainda mais cultuada após a sua morte.
Há 13 anos morreu Stanley Kubrick, há 13 anos o cinema está de luto.
STANLEY KUBRICK: 1928 – 1999
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