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HISTÓRIAS CRUZADAS – segregação e escravidão em história emocionante

Publicado em 28/01/2012 - 8:08 por | Comentar

Categorias: CRÍTICAS

Melhor estréia da semana, Histórias Cruzadas promove um retorno aos EUA da década de 60 para relatar as histórias das empregadas negras que dedicaram suas vidas a educar as crianças brancas. Para se entender bem a exposição racial que a escritora Kathryn Stockett faz em seu romance The Help e que o diretor Tate Taylor mantém em seu segundo longa, urge recordar o passado de segregação racial nos EUA, pois Histórias Cruzadas reflete, com vigor, essa história de horror que mancha, como uma nódoa, a grande nação do norte da América e está longa de ser extirpado de suas entranhas

Mississipi e Alabama fixam-se na história dos EUA como os estados mais segregacionistas do sul do país e evocam para si a criação da maior das guerras civis do século XIX, a Guerra da Secessão. Esse conflito durou de 1861 a 1865, tirou a vida de 970 mil pessoas – cerca de 3% da população do país à época –, levou ao primeiro assassinato de um presidente – Abraham Lincoln (1809-65) e tem a sua origem no racismo. Essa guerra, gerada entre os estados do sul aristocrata e latifundiário que necessitava da escravidão para se manter economicamente e os do Norte industrializado foi o primeiro passo para a libertação dos negros no País. Na continuidade do processo histórico, Alabama e Mississipi se constituíram nos estados mais racistas da nação com as suas histórias de opressão, assassinatos e impunidade.

O enredo de Histórias Cruzadas se desenvolve quase 10 anos depois do episódio da costureira Rose Parks (1913-2005), ocorrido em 1º de dezembro de 1955, quando ela se recusou a deixar o assento reservado aos brancos no ônibus que os separava. Iniciava-se, ali, o movimento pelos Direitos Civis no país, o qual se estenderia até 1965 quando o Congresso aprovou a Lei de Direito ao Voto, e que deu passagem aos negros para a política; sem esquecer, evidentemente, de outro episódio memorável, o de James Meredith, o primeiro negro a ingressar numa Universidade, no caso a do Mississipi. Os movimentos Black Power, Panteras Negras e a Ku-Klux-Klan nasceram em seguida.

A escritora estreante Kathryn Stockell, nascida naquele estado e formada na Universidade do Alabama, escreveu Histórias Cruzadas como homenagem à empregada negra Demetrie – a qual, durante a sua infância de ausência dos pais, a criou e educou –, como uma forma de encontrar respostas às suas perguntas que sua mente fazia sobre o paradeiro dela. Ela ouviu relatos de várias mulheres negras que tinham se dedicado a trabalhar nas fazendas dos brancos e uma delas chegou processá-la, segundo ela, por ter relatado a sua história sem sua autorização, mas perdeu a causa nos tribunais.

Stockett começou a escrever The Help, sua obra de estréia, logo após os atentados de 2001, levou cinco anos para concluí-lo e, em seguida, recebeu 60 recusas de agentes literários. Editado em 2009, o romance ficou no Ranking do The New York Times por 120 semanas, no do Publishers Weekly (para  conhecê-lo, acesse > http://www.publishersweekly.com/pw/home/index.html) por 80, foi eleito um dos melhores livros do ano pela então apresentadora de TV Oprah Winfrey e se tornou o favorito dos atores, diretores e roteiristas de Hollywood nos dois anos seguintes. Até agora, vendeu mais de cinco milhões de exemplares. Está sendo lançado no aqui pela Bertrand Brasil (451 páginas, R$ 39,90), com o título de A Resposta.

Para saber mais sobre a escritora, acesse o site de katryn stockett http://www.kathrynstockett.com/

A escritora entregou a adaptação do romance a Tate Taylor, seu amigo de infância e adolescência, o qual conheceu nos anos 70. Essa proximidade facilitou a que o diretor pudesse fazer as mudanças estruturais no enredo, já que o romance tem, segundo os que o leram, uma história complexa com dezenas de personagens e prima pela exposição dos contrastes entre as mulheres negras e brancas. Há, aí, uma particularidade: a criação das filhas das patroas e o empenho dessas mulheres de cor em estabelecer em cada uma a afirmação e a auto-estima frente ao desleixo e ausência de amor entre mães e filhas.

Ambientado em 1962, Histórias Cruzadas se desenvolve em um ambiente particularmente racista do Mississipi enquanto pelo país se alastrava o Movimento Pelos Direitos Civis com a sua pregação de igualdade perante a lei – daí a necessária situalização histórica a qual nos referimos. O filme trata de dois temas distintos: a confiança, desenvolvido na relação da jovem pretendente a escritora, e a coragem, estabelecida na decisão das senhoras de cor em revelarem as suas vidas atreladas ao fechado mundo da sociedade branca. O outro tema libertário do enredo é a literatura como reduto do processo e registro da história.

Histórias Cruzadas reúne esses temas e os coloca no ambiente das relações humanas, estabelecendo a diversidade como destino de nossa capacidade de amar e odiar os semelhantes. Tate cria vários momentos em que prevalece a emoção e em outras provoca a reflexão – como aquele em Aibileen (Viola Davis) diz educar as crianças em suas fases mais dependentes para depois se transformarem em “tiranos brancos”.

Eugenia Skeeter Phelan (Emma Stone), Aibileen e Minny (Octavia Spencer), expressadas por Tate como são personagens históricas, as promotoras das mudanças que geram a evolução para uma sociedade mais justa e efetivamente humana. Daí que este filme é para assim ser visto, como um momento do processo da história em evolução, com todas as matizes humanas que marcam o embate entre o velho e o novo.

Observem, por exemplo, Stuart Whitworth (Chris Lowell), o qual é empurrado para a vida de Eugenia pela mãe a as amigas, as quais querem vê-la casada – o que representa o “status quo” da condição feminina. Ele representa essa geração de homens que se perdeu no tempo e ainda, até hoje, não atinou que a mulher está há pelo menos duas gerações à sua frente.  

Exame histórico da escravidão e do racismo, Histórias Cruzadas é um desses filmes que necessitam ser descobertos. Promove uma reflexão em nossa condição humana e fundamenta a mulher como instrumento propulsor do processo de mudança do mundo. Não apenas um grande, mas um belíssimo filme.

Mais informações

Histórias Cruzadas (The Help, EUA, 2011), de Tate Taylor. Com Emma Stone, Viola Davis, Octavia Spencer e Jessica Chastain. 146 minutos. 12 anos.

Confira o trailer A de Histórias Cruzadas.

Imagem de Amostra do You Tube

 

 

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