A primeira década do século ensjou a realização de obras mais ousadas e provocantes. A família se tornou um dos alvos e alguns cineastas carregaram nas imagens agressivas para chocar as pessoas como que clamando para dizer aquilo era real, estava ocorrendo. Sexo, religião, dinheiro e a história em seu processo de intolerância. Aliás, a partir desta década o cinema está sendo intolerante até consigo mesmo…

KEN PARK, de Larry Clark e Ed Lachman.
Década de 2000
KEN PARK (Ken Park, EUA-Holanda-França, 2002), de Larry Clarke e Edward Lachman, com Adam Chubbuck, James Bullard e Seth Grey. 96 minutos.
A abordagem nada convencional e incomum da vida de 3 adolescentes e suas famílias disfuncionais causou indignação nos EUA e em vários outros países, nos quais acabou proibido. A rejeição se deu, também, pelas cenas de sexo explícito e violência doméstica – adolescente pratica sexo oral na mãe da namorada, outro que se masturba antes de matar os avós e um pai que violenta o próprio filho enquanto este dorme. Hoje, é visto como um marco pela coragem de ser cru e realista - um filme denúncia da disfuncionalidade da família. Foi exibido aqui em Fortaleza pelo Cinema de Arte, com debate ao final da sessão.

AMÉM, de Kostantin Costa-Gavras
AMÉM (Amen, França, 2002), de Costa-Gavras, com Matthieu Kassovitz e Ulrich Tukur. 132 minutos.
Qual foi o papel da Igreja Católica durante a Segunda Guerra Mundial? Ela foi colaboracionista dos nazistas pelo fato de perseguir os judeus? Para o diretor grego Konstantin Costa-Gavras sim e este filme é o seu instrumento de denúncia. Ao narrar a história em que produtos químicos são usados para exterminar os judeus com a complacência da igreja, obteve protestos. Até mesmo o pôster do filme foi alvo de processos na justiça francesa. Aqui, também exibido e debatido pelo Cinema de Arte.

IRREVERSÍVEL (Irreversible, França 2002), de Gaspar Noé, com Mônica Bellucci, Vincent Cassel e Albert Dupontel. 109 minutos.
Narrado de trás para a frente, acompanha a trajetória de 2 homens em desesperada perseguição ao homem que violentou a mulher de um deles. E foi justamente essa cena, que dura 9 minutos, a causa de toda uma polêmica que estigmatizou o filme como controverso e perturbador. Exibido no Brasil sem alardes.

BROWN BUNNY, de Vincent Gallo
THE BROWN BUNNY (EUA, 2003), de Vincent Gallo, com Chloe Sevigny e Vincent Gallo. 90 minutos.
A história de um competidor de corridas de motocicleta que vaga pelas estradas e não consegue através das mulheres que conquista esquecer a mulher de sua vida causou uma grande confusão em Cannes não por causa do enredo, mas de uma cena de sexo oral explícito entre o diretor-ator e a atriz Chloe Sevigny (ex-namorada dele). As vaias entoadas pelo público e um bate-boca entre o diretor e o crítico Roger Ebert (que o filme como o pior já exibido no festival) marcaram o filme, embora depois os brigões tenham se desculpado – e Roger, após ver a versão reduzida deu-lhe a cotação de ótimo. O cartaz do filme também foi alvo de confusão, pois remetia à cena de felação. A atriz, por sua vez, perdeu a agência que lhe indicava os filmes nos quais trabalhar e teve a carreira estagnada.

OS SONHADORES, de Bernardo Bertolucci
OS SONHADORES (The Dreamers, Itália, 2003), de Bernardo Bertolucci, com Michael Pitt, Eva Green e Louis Garrel. 115 minutos.
As cenas de sexo e nudez (especialmente da estreante Eva Green) causaram polêmica neste drama evocativo da revolução estudantil na França dos anos 60 (a história é ambientada em 1968). Em Fortaleza, foi exibido e debatido pelo Cinema de Arte.

FAHRENHEIT 11 DE SETEMBRO, de Michael Moore
FAHRENHEIT 11 DE SETEMBRO (Fahrenheit 9/11, EUA, 2004), de Michael Moore. 122 minutos.
As causas e consequências dos atentados em 11 de setembro de 2001. Através deste filme denuncia, Michael Moore questiona a ação do então presidente George W. Bush em sua guerra contra o terrorismo, o ataque da Al Quaeda ao World Trade Center, em 2001, e as consequentes invasões do Afeganistão (2001) e Iraque (2003), lançando luzes sobre as relações da família Bush com Osama Bin Laden – que trabalhara para os EUA no passado. Obteve protestos dos grupos e entidades da extrema direita e mexeu com a opinião pública. Embora tenha suas ressalvas, trata-se de um registro histórico.

O storyboard de PAIXÃO DE CRISTO, de Mel Gibson
PAIXÃO DE CRISTO (Passion of the Christ, EUA, 2004), de Mel Gibson, com Jim Caviezel, Maia Mogenstern e Monica Bellucci. 127 minutos.
Recebido pelos judeus como uma ofensa e incentivador do anti semitismo, este terceiro trabalho oe diretor Mel Gibson provocou protestos pelo mundo inteiro ao mostrar o sofrimento de Cristo ante às chibatas dos soldados romanos. A exarcebação da violência foi entidada como uma acusação direta do sofrimento de Jesus Cristo por culpa dos judeus. Mas, não impediu que fosse um imenso sucesso de público. Nos anos seguintes ao filme, Gibson demomnstrou comportamento antisemita e violento, fato que afetou o seu relacionamento com os estúdios e alguns colegas de profissão, muitos deles recusando-se a trabalhar com ele. O filme, ainda hoje, mexe com os religiosos, intelectuais, críticos e o público.

9 CANÇÕES (9 songs, Inglaterra, 2004), de Michael Winterbottom, com Kieran O’Brien e Margo Stilley. 66 minutos.
Polêmico e controverso em função das cenas de sexo explícito entre os atores centrais – uma delas de ejaculação via sexo oral –, o jornal britânico The Guardian o citrou como “filme de sexo explícito mais popular da atualidade”. O enredo desenvolve uma história de amor ao longo de 12 meses a partir da visão pessoal do personagem masculino. Muita gente deixou o filme antes do fim de sua projeção. Devido a polêmica a atriz Margo Stilley pediu ao diretor que mudasse o seu nome para Lisa nos boletins para a imprensa. A carreira está estagnada.

ÀS MARGENS DO RIO SAGRADO (Water, Índia, 2005), de Deepah Mehta, com Lisa Ray, John Abraham e Seerma Biswas. 117 minutos.
A atriz Deepah Mehta, 62, como cineasta, já tinha provocado reboliço na Índia e nos países da religião hindu com o primeiro filme de sua trilogia, Fogo e Desejo (Fire, 1996), sobre a relação íntima de duas mulheres, sofreu tenaz perseguição dos fundamentalistas hindus ao longo da produção deste filme, que começou em 2000 e só veio a se concretizar 5 anos depois. No dia anterior ao início das filmagens, Metha recebeu informação de que havia problemas com a autorização das locações, e, ao chegar ao local, o “set” tinha sido queimado e o equipamento de filmagem jogado no Ganges por 2 mil manifestantes hindus. Somente 3 anos depois a cineasta conseguiu recompor as filmagens, e, aí, anunciou que era outro filme – cujo título era Moon River – e outro elenco. E qual a causa da revolta contra o filme? O enredo, mais uma vz, aborda a questão da mulher indiana, agora sob uma severa luz crítica ao hinduísmo. Water, em 2007, concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, conquistado por A Vida dos Outros, de Florian Henckel Von Donnersmarck. Não chegiou aos cinemas, está disponível em vídeo.

O CÓDIGO DA VINCI, de Ron Howard
O CÓDIGO DA VINCI (The Da Vinci Code, EUA, 2006), de Ron Howard, com Tom Hanks , Audrey Tautou e Jean Reno. 149 minutos.
O livro de Dan Brown já tinha causado a revolta do Vaticano quando, 3 anos depois, o filme começou a ser filmado em Roma, o que fez a Igreja Católica convocar os fiéis a não o assistirem. A revolta contra o filme se dá em função de questionar a divindade de Deus e que teria se casado com Maria Madalena. A Opus Dei, entidade religiosa ligada ao Vaticano, é exposta como uma entidade de questionável religiosidade. Alvo de protestos nos países católicos, rendeu mais US$ 700 milhões no mercado mundial.

SHORTBUS, de John Cameron Mitchell
SHORTBUS (EUA, 2006), de John Cameron Mitchel, com Sook-Yin Lee, Paul Dawson e Lindsay Beamish. 101 minutos.
Uma terapeuta que nunca teve um orgasmo, um casal com problemas sexuais e uma “dominadora” sexual que mantém a sua vida em segredo são os principais personagens, os quais se encontram em um clube underground na qual política, arte e música se misturam. A controvérsia se dá em torno das cenas de sexo explícito. Mas, inesperadamente, se tornou uma obra cultuada.

ANTICRISTO, de Lars von Trier
ANTICRISTO (AntiChrist, Dinamarca, 2009), de Lars von Trier, com Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg. 108 minutos.
Com cenas de sexo explícito e mutilações, chocou a todos no Festival de Cannes. Bem ao feitio das obras do provocador Von Trier, o enredo gira em torno de um casal devastado pela morte do filho que vai passar uma temporada na cabana isolada numa floresta e não consegue se ajustar. As cenas de mutilações em close chocaram a plateia de Cannes e em muitos países elas foram eliminadas ou podadas. Mas no Brasil estão intactas e o filme, exibido pelo Cinema de Arte, foi debatido por psicólogos e filósofos.

A CENTOPÉIA HUMANA, de Tom Six
A CENTOPÉIA HUMANA (The Human Centipede, EUA, 2009), de Tom Six, com Dieter Lasser e Ashlynn Yennie.
Um dos filmes mais chocantes feitos até hoje, fez, no entanto, enorme sucesso junto ao público jovem, tanto que foi feita uma sequência no ano passado e o diretor já está filmando a terceira para lançamento em 2013. A história é de um puro trash: médico louco cria uma centopeia humana com pessoas presas umas às outras. Considerado obsceno, foi proibido em diversos países e está disponível nos torrents da internet.

RUN BITCH, RUN!, de Joseph Guzman
RUN BITCH, RUN (EUA, 2009), de Joseph Guzman, com Yvet Corvea, Cheryl Lionne e John C. Corvo. 90 minutos.
Ao tratar da história de duas meninas que batem de casa em casa para vender artefatos religiosos a fim de comprarem livros de estudo e acabam sendo violentadas, o enredo adentra a dois temas: o estupro infantil e a vingança. Houve protestos, mas o filme era pequeno demais para fazer barulho.
Confiram o relevante trabalho universitário de Paulo Roberto Alves Teles intitulado A Intolerância no Cinema no Século XI, acessando, aqui > http://www.tempopresente.org/index.php?option=com_content&view=article&id=5466:a-intolerancia-no-cinema-do-seculo-xxi&catid=41&Itemid=127