Estruturado em uma história complexa, desnecessariamente longa e com excesso de temas, ação e personagens centrais, Batman – o Cavaleiro das Trevas Ressurge não chega a ser um bom filme

Batman – o Cavaleiro das Trevas Ressurge, o filme de Christopher Nolan que encerra a trilogia dedicada ao Homem-Morcego criado por Bob Kane (1915-98) em 27 de maio de 1939, recebeu nada menos de 92% de aprovação da crítica estadunidense, expressada por 37 análises positivas, 6 mistas e duas negativas do site Metacrítica; e das 255 compiladas pelo site Rotten Tomatoes, 220 positivas e apenas 35 negativas – 86% de aprovação. Na avaliação do público, segundo o site, 93% da plateia que viu o filme o aprovou.
Sem me deixar influenciar pelas estatísticas, polêmicas e eventos trágicos que se seguiram ao lançamento da película nos EUA, conferi Batman – o Cavaleiro das Trevas Ressurge em uma sessão fechada, a qual me credenciou a uma tranquila avaliação da obra de mister Nolan sem a influência do público ou de companheiros de profissão. E o filme me decepcionou, por vários motivos.

A primeira constatação é de que Nolan quis encerrar a trilogia com uma obra épica, no sentido de grandeza, enfocando e aliando vários temas em só história. Aí ele cometeu o seu grande erro, o maior dos excessos. Essa questão referente ao tempo de duração, aparentemente irrelevante, posta-se, no entanto, como fundamental. Em Batman Begins, Nolan deu o seu recado em 2h20 minutos; e em O Cavaleiro das trevas, chegou a 2h32 minutos. Em ambos, a longa duração flui como um rio tranquilo.
Em 2h46 minutos Batman – o Cavaleiro das Trevas Ressurge mostra-se como um filme “inchado”. A complexa história armada por Nolan com a colaboração de seu irmão Jonathan e o roteirista David S. Goyer preocupa-se muito com a ação e não tem tempo suficiente para desenvolver a contento os diversos temas pelos quais perpassa através de vários gêneros e, principalmente, pela dramaticidade, o elemento de sustentação da narrativa.
Em sua estrutura, o roteiro agrega o exílio voluntário de Bruce Wayne (Christian Bale) e seu drama pessoal, a motivação de sua ausência como Batman; o surgimento de uma ladra, Selina Kyle (Anne Hathaway), que depois se assume como a Mulher-Gato; um vilão com uma máscara de ar chamado Bane (Tom Hardy) e seu plano para desmoronar a democrática sociedade de Gotham City, transformando-a em um caos que a remete ao passado das barbáries humanas; a luta do Comissário Gordon (Gary Oldman) para organizar uma polícia esfacelada; a coragem e a integridade do detetive John Blake (Joseph Gordon-Levitt) e o seu empenho em vasculhar a vida de Bruce Wayne.

Perpassando por gêneros
O que se vê na tela é um filme longo que começa como uma aventura de ação (a sequência do avião e o aparecimento do vilão Bane), passa a drama com requintes de Ladrão de Casaca (a relação de Bruce com Selina), depois derrapa no “thriller” de assalto (à Bolsa de Valores), trafega pela ficção científica (o reator atômico, o Bat-Pod, a devastação de Gotham), envereda pelo romance (entre Bruce e Miranda Tate, vivida pela francesa Marion Cotillard), adentra à trama política (a derrubada do governo democrático, a supressão dos direitos constitucionais do povo), retorna a aventura com as sequências do poço, chega ao policial (a rebelião dos policiais comandada por Foley (Matthew Modine), que acaba morrendo; e se conclui novamente como um drama com elementos de suspense e abertura para a retomada em um “reboot”. Não é pouco.

A conclusão aqui é óbvia: Nolan e seus colaboradores estruturaram um roteiro que trafega por diversos gêneros sem se fixa em nenhum deles. Esse é o sentido épico ao contar a história de Gotham e seus personagens, centrais e secundários.
Quanto a estes, os personagens centrais, o enredo é dividido em pedaços a fim de cada um deles tenha a sua cota de participação. Na trama, não são apenas as figuras de Bruce Wayne e Batman postadas como heróis. O Comissário Gordon (mesmo ferido deixa o hospital, reúne os policiais sem comando e desarma a bomba), o detetive Blake (com sua postura moral e íntegra) e a Mulher-Gato (salvadora da vida de Batman) têm sua cota de participação como heróis. Este é outro aspecto da intenção “épica” do filme.
Entre todos esses personagens o que mais se sobressai é a do detetive John Blake. Vivido com desenvoltura por Joseph Gordon-Levitt, já no meio da trama se sente que, pelo exemplar comportamento e comprometimento com a ética, bem que poderia ser o substituto de Bruce Wayne e o homem com todas as condições de assumir a vestimenta do Homem-Morcego. Tiro e queda.

Não posso afirmar com certeza absoluta (mesmo porque o absoluto pode não ser), mas deverá ser este o caminho do “reboot” que Nolan estaria compromissado em comandar para uma nova trilogia, a qual deverá ser iniciada em 2015 (uma última notícia dá conta de que ele está acertando contrato com a Sony para um reboot de 007). O Cinema seguindo os passos dos quadrinhos na reformulação de seus super heróis.
Dramaticidade esfacelada
Percebam que, nos filmes anteriores, a dramaticidade estava acima de todas as ações das histórias. Era o drama angustiante de Bruce Wayne, a sua dor e a solidão que serviam de desenvolvimento às tramas, tendo como pano de fundo uma Gotham “dark” e melancólica, na qual se desenvolve uma luta silenciosa entre a corrupção e a marginalidade e a lei e a honra.
Era o Bruce Wayne traumatizado que ditava as ações em luta contra a marginalidade. O Espantalho (Cillian Murphy) era o louco da hora em Batman Begins; em O Cavaleiro das Trevas era um anárquico Coringa o vilão de questionamentos filosóficos envolvendo crime, ética e honra, além de um político, Harvey Dent (Aaron Eckhart) mostrando como qualquer humano pode se tornar um Duas Caras.

Essa dramaticidade viva, latente e condutora dos filmes anteriores não está presente em O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Nem o drama de Bruce, tampouco o do vilão Bane se impõem ao longo da trama, a qual apela para as reviravoltas a fim de, em vão, sustentá-la, mesmo com a incisiva e excepcionalmente funcional trilha sonora de Hans Zimmer.
Bane, inclusive, não é aquele vilão capaz de se impor, sequer pela extremada maldade, tampouco pela falta de astúcia em roubar o filme do herói, como fez o Coringa de Heath Ledger. Não há dúvida: sente-se falta de um vilão fascinante como o Coringa de Ledger. Christy Lemire tem razão na observação.

O Cavaleiro das Trevas Ressurge se sustenta graças a momentos isolados marcados pela presença de alguns personagens, como Anne Hathaway como a Mulher-Gato, a do Espantalho como o juiz louco dos julgamentos ilegais comandados pelos aliados de Bane em uma Gotham envolta pelo caos, a filantropa Miranda Tate (Marion Cotillard) em seu romance com Bruce Wayne e, posteriormente, revelando em qual lado está, e, claro, John Blake.
Todos esses aspectos sofrem a influência da ação incessante dada a Batman – o Cavaleiro das Trevas Ressurge. Nada se torna empolgante, a trama não é capaz de puxar o espectador para dentro da história e, por conta disso, impossível o filme alcançá-lo com a emoção. O filme é justamente isso: sem emoção.
Batman – o Cavaleiro das Trevas Ressurge detém uma excelente qualidade técnica (embora algumas cenas de ação deixem a desejar), principalmente quanto aos efeitos especiais. Quanto a esses, são responsáveis pelo melhor momento do filme, o do processo de devastação de Gotham – um primor de tecnologia.

O elenco também trata de dar relevância ao filme, brindando o espectador com interpretações extraordinárias. E os responsáveis por isso são os veteranos. Do Alfred de Michael Caine, passando pelo Comissário Gordon de Gary Oldman, o genial Lucius Fox de Morgan Freeman, até o medroso Foley de Matthew Modine, todos estão soberbos.

No entanto, um ator, entre todos, se sobressai em Batman – o Cavaleiro das Trevas Ressurge: Joseph Gordon-Levitt. Dono e ladrão das cenas nas quais intervém, concede uma justa e angustiante dimensão humana ao seu personagem Blake, em sua preocupação com os rumos da sociedade, com a morte lenta e gradual da integridade humana e dos perigos que cercam a liberdade e a democracia.
Concluindo, Batman – o Cavaleiro das Trevas Ressurge não é um filme ruim, mas tem sérios problemass estruturais. E vejo como lamentável que tenha resultado em uma obra tão irregular, repleta de boas ideias, mas que tenha falhado justamente em sua estrutura dramática, preterida pelo excesso em tudo aquilo que contém – de temas, gêneros, personagens centrais e de uma ação incessante (e para lá de barulhenta), que poderá agradar aos fãs do herói, mas sinceramente não sei se capaz de contentar a todos, principalmente aqueles mais exigentes.
Ficha técnica
Batman – o Cavaleiro das Trevas Ressuirge (Batman the dark night rises, EUA, 2012), de Christopher Nolan, com Christian Bale, Anne Hathaway, Joseph Gordon-Levitt. 164 minutos. 12 anos. Warner.
Confira o trailer.