A CASA DOS SONHOS – cadê o espanto?
Categorias: CRÍTICAS DE FILMES
Em seu país, a Irlanda, Jim Sheridan construiu uma filmografia sólida e a reputação de um dos melhores cineastas da Europa em obras de impacto como Meu Pé Esquerdo (1989), Terra da Discórdia (1990), Em Nome do Pai (93), O Lutador (97) e Terra dos Sonhos (2002). Em 2005 partiu para Hollywood, onde dirigiu Get Rich of Die Tryin, biografia do jovem negro 50 Cent, que deixou o tráfico de drogas para se tornar um dos maiores rappers dos EUA, e Entre Irmãos (2009), drama familiar estrelado por Jake Gyllenhaal, Tobey MaGuire, Nathalie Portman e Sam Shepard. Radicado desde 2005 em Hollywood, o cineasta irlandês dirige A Casa dos Sonhos, terror que consegue se destacar pelo absurdo de sua história e em comprovar estar o gênero em plena decadência
Após dois anos sem filmar, Sheridan aceitou realizar A Casa dos Sonhos, obra de terror escrito pelo roteirista David Lockha, autor de De Médico e Louco Todo Mundo Tem um Pouco (1989) e Bordeline (2002), o qual estava em desenvolvimento no médio estúdio Morgan Greek. Essa história se divide em duas. A primeira reside no fato de Loucka desenvolveu o roteiro de A Casa Dos Sonhos baseado em dois filmes: O Iluminado (1980), de Stanley Kubrick, e Os Outros (2001), de Alejandro Amenabar. Ao reunir as duas histórias e mesclá-las, qualquer um que conheça os dois filmes vai matar a charada montada pelo roteirista. Essa informação, básica para a compreensão do trabalho de Lockha foi escondida, a fim de não dar pistas das reviravoltas do enredo. A segunda trata do relacionamento conturbado entre Sheridan e o chefão da Morgan Greek, James G. Robinson, o qual interferiu diretamente no trabalho do diretor, a ponto deste, ao ver o filme adulterado na sala de montagem à sua revelia, ter ingressado na justiça para retirar o seu nome da produção. Ele perdeu a ação.
Há, ainda, o inacreditável caso do treiler, o qual simplesmente entrega a grande revelação e reviravolta da história. Com todos esses problemas realmente não tinha como A Casa dos Sonhos escapar do desastre. E veio a galope ao entrar em exibição e se deparar com os números das bilheterias: US$ 21,1 milhões em seis semanas, arrecadação insuficiente para recuperar o orçamento de US$ 55 milhões. Resultado: é um dos “canos” do ano, assim quase todos os outros filmes do gênero lançados ao longo da temporada.
O talento de Sheridan é grande demais para ser avaliado em um filme como A Casa dos Sonhos. Em função da interferência do produtor e as adulterações comprovadamente feitas, torna-se impossível afirmar se a pretensão de Lockha em mesclar os enredos de dois daria certo e se Sheridan faria outro trabalho convincente. O que resta é a obra que está em exibição nas telas. Apenas para você se orientar, A Casa dos Sonhos conta a história de um publicitário (Daniel Craig) que abandona o trabalho para se tornar escritor e vai se encontrar com a mulher (Rachel Weisz) e as duas filhas (Taylor Gere e Claire Geare) na Nova Inglaterra, onde compraram uma nova casa. A alegria pela nova moradia, ampla e confortável, logo cede lugar à apreensão dos pais quando as filhas dizem ver vultos dentro e do lado de fora. Aí, é um filme de terror. Em seguida, ele vem a saber, através da vizinha (Naomi Watts), que a casa foi palco de uma tragédia, quando o dono da mesma matou a mulher e as duas filhas. Até aí o filme se desenvolve de forma intrigante, mesclando horror e suspense e um sóbrio clima de mistério.
Tudo bem que a revelação faça o espectador lembrar-se de O Iluminado e transforme o andamento de terror para suspense. Sem problemas. Mas, o problema reside quando, de repente, logo em seguida, o enredo dá uma guinada radical, sem explicação para o campo de psicologia. É a segunda revelação (aquela que está inadvertidamente no treiler) sobre a identidade do personagem, a qual muda os rumos da história, dando-lhe uma guinada que a remete para o terror psicológico. Aí é quando entra Os Outros, de Amenabar.
Mas, em vez dessas revelações impactarem a história e consequentemente o espectador, o efeito é contrário. É o começo do desmoronamento do enredo, o qual não se sustenta como crível. Mas, se você pensa que as “revelações” para aí, está enganado. Há uma outra, a qual enterra o filme de vez, chutando-o para o gênero policial. A intenção do enredo era mostrar a trajetória de um homem que vence o seu infortúnio do passado e alcança como brinde o sucesso com escritor. Mas, antes de chegar lá, o absurdo e o ridículo se unem em uma história repleta de equívocos.
A Casa dos Sonhos é um desses filmes desastres, resultado dos momentos em que os produtores de Hollywood decidem brincar de fazer cinema.
Em tempo: Sheridan não está “queimado” em Hollywood. Ele está filmando um dos episódios de Shangai, I Love You, com Emilie Ohana, ainda sem data de lançamento em 2012.
Mais informações
A Casa dos Sonhos (Dream House, EUA, 2011), de Jim Sheridan, com Daniel Craig, Rachel Weisz e Naomi Watts. Warner. 14 anos.
Confira o treiler de A Casa dos Sonhos.
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