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A CASA DOS SONHOS – cadê o espanto?

Publicado em 12/11/2011 - 20:19 por | Comentar

Categorias: CRÍTICAS DE FILMES

Em seu país, a Irlanda, Jim Sheridan construiu uma filmografia sólida e a reputação de um dos melhores cineastas da Europa em obras de impacto como Meu Pé Esquerdo (1989), Terra da Discórdia (1990), Em Nome do Pai (93), O Lutador (97) e Terra dos Sonhos (2002). Em 2005 partiu para Hollywood, onde dirigiu Get Rich of Die Tryin, biografia do jovem negro 50 Cent, que deixou o tráfico de drogas para se tornar um dos maiores rappers dos EUA, e Entre Irmãos (2009), drama familiar estrelado por Jake Gyllenhaal, Tobey MaGuire, Nathalie Portman e Sam Shepard. Radicado desde 2005 em Hollywood, o cineasta irlandês dirige A Casa dos Sonhos, terror que consegue se destacar pelo absurdo de sua história e em comprovar estar o gênero em plena decadência

 

Após dois anos sem filmar, Sheridan aceitou realizar A Casa dos Sonhos, obra de terror escrito pelo roteirista David Lockha, autor de De Médico e Louco Todo Mundo Tem um Pouco (1989) e Bordeline (2002), o qual estava em desenvolvimento no médio estúdio Morgan Greek. Essa história se divide em duas. A primeira reside no fato de Loucka desenvolveu o roteiro de A Casa Dos Sonhos baseado em dois filmes: O Iluminado (1980), de Stanley Kubrick, e Os Outros (2001), de Alejandro Amenabar. Ao reunir as duas histórias e mesclá-las, qualquer um que conheça os dois filmes vai matar a charada montada pelo roteirista. Essa informação, básica para a compreensão do trabalho de Lockha foi escondida, a fim de não dar pistas das reviravoltas do enredo. A segunda trata do relacionamento conturbado entre Sheridan e o chefão da Morgan Greek, James G. Robinson, o qual interferiu diretamente no trabalho do diretor, a ponto deste, ao ver o filme adulterado na sala de montagem à sua revelia, ter ingressado na justiça para retirar o seu nome da produção. Ele perdeu a ação.

Há, ainda, o inacreditável caso do treiler, o qual simplesmente entrega a grande revelação e reviravolta da história. Com todos esses problemas realmente não tinha como A Casa dos Sonhos escapar do desastre. E veio a galope ao entrar em exibição e se deparar com os números das bilheterias: US$ 21,1 milhões em seis semanas, arrecadação insuficiente para recuperar o orçamento de US$ 55 milhões. Resultado: é um dos “canos” do ano, assim quase todos os outros filmes do gênero lançados ao longo da temporada.

O talento de Sheridan é grande demais para ser avaliado em um filme como A Casa dos Sonhos. Em função da interferência do produtor e as adulterações comprovadamente feitas, torna-se impossível afirmar se a pretensão de Lockha em mesclar os enredos de dois daria certo e se Sheridan faria outro trabalho convincente. O que resta é a obra que está em exibição nas telas. Apenas para você se orientar, A Casa dos Sonhos conta a história de um publicitário (Daniel Craig) que abandona o trabalho para se tornar escritor e vai se encontrar com a mulher (Rachel Weisz) e as duas filhas (Taylor Gere e Claire Geare) na Nova Inglaterra, onde compraram uma nova casa. A alegria pela nova moradia, ampla e confortável, logo cede lugar à apreensão dos pais quando as filhas dizem ver vultos dentro e do lado de fora. Aí, é um filme de terror. Em seguida, ele vem a saber, através da vizinha (Naomi Watts), que a casa foi palco de uma tragédia, quando o dono da mesma matou a mulher e as duas filhas. Até aí o filme se desenvolve de forma intrigante, mesclando horror e suspense e um sóbrio clima de mistério.

Tudo bem que a revelação faça o espectador lembrar-se de O Iluminado e transforme o andamento de terror para suspense. Sem problemas. Mas, o problema reside quando, de repente, logo em seguida, o enredo dá uma guinada radical, sem explicação para o campo de psicologia. É a segunda revelação (aquela que está inadvertidamente no treiler) sobre a identidade do personagem, a qual muda os rumos da história, dando-lhe uma guinada que a remete para o terror psicológico. Aí é quando entra Os Outros, de Amenabar.

Mas, em vez dessas revelações impactarem a história e consequentemente o espectador, o efeito é contrário. É o começo do desmoronamento do enredo, o qual não se sustenta como crível. Mas, se você pensa que as “revelações” para aí, está enganado. Há uma outra, a qual enterra o filme de vez, chutando-o para o gênero policial. A intenção do enredo era mostrar a trajetória de um homem que vence o seu infortúnio do passado e alcança como brinde o sucesso com escritor. Mas, antes de chegar lá, o absurdo e o ridículo se unem em uma história repleta de equívocos.

A Casa dos Sonhos é um desses filmes desastres, resultado dos momentos em que os produtores de Hollywood decidem brincar de fazer cinema.

Em tempo: Sheridan não está “queimado” em Hollywood. Ele está filmando um dos episódios de Shangai, I Love You, com Emilie Ohana, ainda sem data de lançamento em 2012.

Mais informações

A Casa dos Sonhos (Dream House, EUA, 2011), de Jim Sheridan, com Daniel Craig, Rachel Weisz e Naomi Watts. Warner. 14 anos.

 

Confira o treiler de A Casa dos Sonhos.

Imagem de Amostra do You Tube

 

 

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THOR – quadrinhos em movimento

Publicado em 05/05/2011 - 21:57 por | 1 Comentário

Categorias: CRÍTICOS DE CINEMA

Thor, a herói mitológico-modernista de Stan Lee, ganha uma adaptação de qualidade relevante e perfeita em quase todos os seus aspectos cinematográficos graças ao roteiro respeitoso ao original e a direção de Kenneth Branagh, o qual trata a mitologia e a fantasia como elementos filosóficos e instrumentos da realidade

Mitologia + Fantasia + Shakespeare + Filosofia = realidade. Certo? Tudo é possibilidade. Mas uma coisa é certa: desde Avatar este é o filme a melhor condensar as possibilidades da tecnologia e colocá-la a serviço do cinema. E mesmo que não se trate, ainda, “daquele filme” de super-herói oriundo dos quadrinhos, assume uma posição de liderança em relação aos demais justamente por ter, sob o seu comando, um sujeito shakespereano chamado Kenneth Branagh.

Thor não se trata de um mero blockbuster feito com milhões de dólares para ganhar outras centenas de milhões de dólares. Primeiro, há um fundamental respeito à obra original; depois uma expressão do mundo clássico como espelho do mundo humano – justamente o sentido da mitologia grega, a qual assim o expõe com os seus deuses antropomórficos; depois, uma busca de expor mitologia, lenda e fantasia como instrumentos da realidade e dar tratamento filosófico a determinadas questões do enredo – a traição, a arrogância, a ânsia pelo poder, entre outras.

A mais relevante delas, no entanto, a condutora dramática da história, centra-se em Odin – em habilidosa interpretação humanística de Anthony Hopkins – e seu drama íntimo e familiar, o qual puxa todos os demais temas da história – a rivalidade entre irmãos, a expulsão do filho da casa paterna, a busca da identidade e o amadurecimento, a arte de aprender com a convivência, etc.

Vico e as tradições
Reafirmando, a clara intenção do filme é tratar mitologia, lenda e fantasia como instrumentos da realidade. Essa idéia não é nova. Ela veio do filósofo italiano Gianbattista Vico (1668-1744), o qual, com sua Ciência Nova confrontava Descartes e instruía que os elementos clássicos e culturais do passado – lendas, fantasias, mitologia, a imaginação, a criatividade, a memória, as tradições e a própria história, entre outros – integram a construção da sociedade humana e, portanto, impossíveis de serem desassociadas do homem racional do filósofo francês.

Essa é a idéia geral na qual Kenneth Branagh conduz o filme e está presente em vários momentos da narrativa. Ela se expressa principalmente no confronto inicial entre os cientistas, Jane Foster (Nathalie Portman), a mocinha da história, e seu mentor, o Dr. Erik Selvig (Stellan Skarsgärd). Notem que, a partir dessas discussões com o aparecimento de Thor, as revistas em quadrinhos surgem como fonte de conhecimento daquilo no qual não se acredita. A ponte entre fantasia, lendas e a realidade.
 
O drama de Odin, o deus maior da mitologia nórdica, é a fonte filosófica e shakespeareana explorada por Branagh. Como um mortal qualquer, esse deus da sabedoria, da guerra e da morte, comete um erro atroz, o de ter raptado Loki (Tom Hiddleston), o filho de Laufey (Colm Feore), o inimigo da terra dos Gigantes de Gelo, e o adotado como seu, dominado pela idéia de, através dele, no futuro, alcançar a paz entre os dois reinos.

A lágrima shakespereana
Traição e dor. Assim como no mundo humano, pela dor da traição os deuses também choram. A lágrima que escorre na face de Odin é uma das maiores expressões do filme. A dor do erro, de ver o filho tombando para o mal e colocando tudo em desequilíbrio expressa a paternidade em crise. Um autêntico universo de William Shakespeare.
 
Outro aspecto relevante, trazido da mitologia nórdica é expor Midgard, a Terra, como um mundo inferior e de expiações. Thor (o australiano Chris Hemsworth), é enviado pelo pai para essa terra de sofrimento a fim de se despojar da arrogância e aprender sobre a humildade com os humanos. Assim a Terra é vista por Platão (como um reflexo do mundo espiritual) e pela doutrina espírita (um mundo de sofrimento e expiação para resgate das dívidas).

Fascina em Thor , dois aspectos. O fato de ser, também, um filme no qual as personagens femininas têm relevância. Syf (Jaimie Alexander), a guerreira determinada, vê o amor de Thor ser desviado para a cientista Jane Foster. Um sofrimento por amor, o qual, mais tarde, também será partilhado pela humana. E, mais expressivo ainda, a concepção de tempo e mundos paralelos – o mundo mitológico como sentido cósmico e o material terreno -, na qual a narrativa alternada constrói a concepção das coisas estarem ocorrendo simultaneamente, em sintonia no presente e interligando os dois universos no espaço-tempo. Ou seja, dentro de uma concepção de realidade.

Igualmente fascinante, o fato de Branagh levar o público para o interior da história, envolvê-lo com os efeitos especiais, os quais, a serviço da história e do filme – e não ao contrário, como é o usual -, concede uma dimensão cósmica do mundo mitológico, expressando-o como uma possibilidade – afinal, está estamos vendo-o na tela. É outro caráter de realidade perpassado pelo filme.

Humor e Filosofia
Há, ainda, outras questões filosóficas, como a luta entre o bem e o mal pela supremacia das coisas, a amizade e o trabalho em equipe como conceito de superação e progresso e a ânsia pelo poder como o desequilíbrio da existência. Também funciona e faz Thor ser o belo filme é, o delicioso bom humor que relaxa a narrativa no contraste à busca do herói pelo que “ele é” ou o “compreender a si mesmo”, cuja mudança só se pontifica quando ele passa a entender o mundo humano com suas diferenças – ele próprio passa a ser uma delas. Reparem na engraçada referência a espada do rei Arthur com o martelo Mjolnir, o qual Thor não consegue retirar entrar no recinto guardado pelos militares. É a primeira frustração de Thor como desprovido de seus poderes.

A arrogância, o descontrole pelo estado de “loucura do guerreiro” e sentir-se superior ao semelhante identificam a personalidade de Thor. Mas, é entre os humanos “imperfeitos” onde ele encontra o seu processo de equilíbrio emocional e a descoberta de outras qualidades mais relevantes e nobres que as suas. Entre os humanos, vivencia o entendimento dos limites, a formação da amizade e o sentimento do amor. A cena em que Thor e o Dr. Selvig competem na bebedeira expressa a descoberta pelo herói da necessidade e o poder da amizade – em mundo de exílio.

Confira o treiler 2 de Thor

Imagem de Amostra do You Tube

Um dos trunfos de Thor, o filme, é inegavelmente o elenco de qualidade. Chris Hemsworth, 27, encarna o herói com tanta fidelidade que parece ter saído de algum Olimpo mitológico australiano direto para a tela. Anthony Hopkins, Tom Hiddleston, Nathalie Portman e Stella Skarsgärd dão sobriedade e vida a seus personagens, assim com o elenco de coadjuvantes.

A grande virtude de Branagh é fazer de Thor um filme desenvolvido como uma HQ que pode ser “lida” na tela. Thor é uma HQ em movimento paginada pelos efeitos especiais. Com isso, o filme nos passa a certeza de que, cada vez mais o ser humano precisa da fantasia para alcançar uma compreensão melhor do mundo e da existência. Desprovida da imaginação e da arte, a existência humana, com toda a certeza, não seria a mesma e não teria a menor graça.

Thor (Thor, EUA, 2011), de Kenneth Branagh, com Chris Hemsworth, Nathalie Portman, Anthony Hopkins e Tom Hiddleston.130 minutos. Paramount. 10 anos.

Conferi o mein theme de Thor, da autoria de Rolf Meyer.

Imagem de Amostra do You Tube

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