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UM DIA – 18 julhos, um dia 15 por ano

Publicado em 06/01/2012 - 10:03 por | 2 Comentários

Categorias: CRÍTICAS DE FILMES

 

Emocionante jornada pela tristeza, Um Dia, de Lone Scherfig, com base no romance de David Nicholls, trata da natureza do amor e suas formas e mostra o destino como um implacável agente incapaz de perdoar diante do desperdício da oportunidade de agarrar a felicidade

 

Em uma sociedade na qual a divisão de classes ainda é empecilho para a concretização dos sentimentos do amor, um filme como Um Dia, rodado na Inglaterra, país que agasalhou a cineasta dinamarquesa Lone Scherfig, encanta ao oferecer uma visão diferente das relações humanas entre classes. Mas, se a temática central é a amizade e o seu cerne é a não correspondência do amor. Dito isso, resta explicar. Um Dia se serve das diferenças sociais para situar o comportamento e a visão da existência de seus personagens, Emma Morley (Anne Hathaway, de Amor e Outras Drogas e a nova Mulher-Gato de Batman: o Cavaleiro das Trevas Ressurge) e Dexter Mayhew (Jim Sturges, de Across the Universe). Ela, garota da classe operária, moldada por princípios e motivada pela esperança, anseia ascender a um mundo melhor. Ele, rico e popular como apresentador de um programa de televisão de variedades através do qual desfruta da facilidade de caçador bem sucedido.

Eles se conhecem após a formatura da faculdade, em 15 de julho de 1988. Naquela mesma noite têm uma experiência sexual que não se concretiza e que os determina a uma amizade que se estenderá ao longo de 18 anos. Os princípios e o respeito de Emma pelo acordo de amizade irão enveredá-la por um torturante processo de sofrimento contido em seu amor, platônico, mudo e manifestado apenas pelo olhar. Esse período de 18 anos de relação de amizade ligada pela distância e a espera, encontros e reencontros, erros, alegrias e frustrações, se estabelece, na narrativa, ano a ano, em cada dia 15 de julho. É a data na qual se encontram e reencontram.

Para Emma, cada reencontro representa um renovar do sofrimento de uma espera angustiante de que, um dia, o amigo perceba que o que ela sente por ele é amor. Dexter, no entanto, continua mantendo a consciência e a percepção sob o formol das conquistas inócuas ao passar dos meses e anos. A vida de ambos segue rumos diversos e em relações que não expressam ou vivenciam a devida plenitude e dimensão do amor.

Em Um Dia, Lone Scherfig nos faz refletir sobre o passar inexorável do tempo. O tempo que corre e encurta a duração da existência em comum e feliz que Emma e Dexter poderiam vivenciar.  A cada encontro, a cada reencontro, o semblante e o olhar de Emma Morley se desmancha em dor de um amor em ebulição, o qual, quando manifestado, encontra em Dexter uma rejeição. O rapaz mimado e incapaz de perceber a felicidade à sua frente faz, sempre, essa ebulição se desfazer em dor, decepção e sofrimento, obrigando-a a retornar ao seu estado de mudez.

Pelo menos duas sequências memoráveis expressam a angústia do amar de Emma por Dexter. Carregadas de emoção, trafegam pela reflexão nas afirmações dolorosas de uma mulher prestes a explodir com os sentimentos contidos. Ambas expressam, também, uma forma do amor moldada em plena angústia. “Eu te amo Dex. Só não gosto mais de você”, diz Emma, pregando, finalmente, a separação entre amor e amizade. O amor, interno, resiste. A amizade, revela, está indo embora. Nesse processo, quando ela lhe diz, mais tarde, “não sou solitária, apenas sozinha”, revela-se a decepção de não tê-lo como o preenchimento de sua existência.

Confira o trailer de Um Dia.

Imagem de Amostra do You Tube 

Um Dia pode ser visto como um filme sobre o sofrimento e a dor: o sofrimento de amar, a dor do amor platônico, o sofrimento da espera, a dor da perda, a sofrimento da decepção para consigo mesmo, o dor da ausência, o sofrimento da reparação do impossível. Daí, esse belo e melancólico poema sobre as relações humanas não é um romance feito ao estilo de Hollywood. De Hollywood, apenas os atores. Na tela, realidade e emoção que nos leva a refletir sobre o que queremos da vida.

Scherfig, que nos deu o irônico Italiano Para Principiantes e o brilhante Educação, endereça o seu filme na residência da realidade, nos convida para entrar e embarcar em uma reflexão sobre a temporalidade da vida, as escolhas que fazemos, a necessidade de aproveitar a oportunidade de agarrar a felicidade e, por fim, nos deixa uma pergunta: o que queremos da vida? 

Como uma resposta, o seu Um Dia diz que a felicidade está sempre ali, pertinho e visível o tempo todo. Perdê-la, representa o perigo de levar uma vida infeliz – afinal, dor e sofrimento estão logo ali, do outro lado, à espera para ocupar o lugar vazio.

Mais informações

Um Dia (One Day, Inglaterra-EUA, 2011), de Lone Scherfig, com Anne Hathway e Jim Sturges. 107 minutos. 12 anos.

-EUA, 2011), de Lone Scherfig, com Anne Hathway e Jim Sturges. 107 minutos. 12 anos.

Agora, aprecie a canção-tema de Um Dia, uma das mais belas do Cinema.

Imagem de Amostra do You Tube

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