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IMORTAIS – esculhambando a mitologia

Publicado em 14/01/2012 - 7:54 por | Comentar

Categorias: CRÍTICAS DE FILMES

Produção de 75 milhões de dólares, Imortais é mais uma produção de Hollywood a investir na mitologia grega, mas com o agravante de tentar “recriá-la” ao instituir uma outra versão aos textos originais e aos seus personagens, modificando-os conforme ao seu modelo de contrafação

 

Quando Fúria de Titãs (Class of Titans), de Louis Leterrier, estreou aqui em 2010, destacamos a alteração das características da mitologia grega segundo os interesses de Hollywood. Aquele texto, publicado em 25 de maio sob o título “Mitologia Modificada”, bem que poderia ser transposta para a análise de Imortais, já que a questão central, a forma da adaptação, não teve qualquer alteração. Tróia (2004), de Wolfgang Pettersen, 300 (2007), de Zack Snyder, e o citado Fúria de Titãs, de Leterrier, foram às derradeiras produções de Hollywood a adaptar a mitologia grega. Dificílimo apontar, qual das três é a campeã de incorreções quanto às histórias mitológicas que põem na tela. Neste princípio, nenhuma delas merece servir como estudo do cinema e muito menos ser vista em sala de aula.

Caso a memória não me pregue uma peça, o último filme de Hollywood a abordar a mitologia grega com fidelidade foi Os 300 de Esparta (The 300 Spartans), uma produção da Fox datada de 1962, dirigida por Rudolph Maté (1898-1964), com Richard Egan (no papel de Leônidas), Diane Baker (Ellas, mulher de Leônidas) e David Farrar (Xerxes). Maté teve a sorte de contar com a sóbria adaptação que George St George fez de um roteiro fiel à mitologia escrito pelos italianos Gian Paolo Callagari, jornalista, crítico de cinema e dramaturgo, e os respeitáveis roteiristas Remigio Del Grosso, Giovanni D’Eramo e Ugo Liberatore. Lá se vão 40 anos e nada de significativo foi produzido.

Interessante notar, naqueles anos 60, o cinema italiano produzia dezenas de filmes com temas mitológicos gregos, romanos e afins – Teseu e o Monotauro, Os Heróis da Babilônia,  A Guerra de Tróia, O Leão de Tebas, entre outros -, afora aventuras de heróis como Hércules (como o ótimo Hércules e a Conquista da Atlântida), e eram recebidos às pedradas pelos críticos da época.Segundo Aurélio, o infalível, contrafação significa falsificação, produto sem valor, imitação fraudulenta e aí vai. Para uma cambada de críticos dos anos 60, os faroestes e os mitológicos feitos na Itália (e muita gente boa esculhambava os “spaghetti westerns” de Sérgio Leone, Sérgio Sollima, Sérgio Corbucci, Florestano Vancini, entre outros) eram imitações grosseiras do Oeste épico e da mitologia grega. Vistos hoje, dezenas  dessas “contrafações” italianas mostram que honraram os textos mitológicos, mesmo com uma leva de coisas estapafúrdias tipo Hercules, Sansão, Maciste e Ursus, que ousou reunir heróis de épocas diferentes.

Henry Cavill (Perseu) e Hyperion (Mickey Roourke): reinventados em IMORTAIS

 Na análise de Fúria de Titãs citei que “a Hollywood de hoje se tornou o terror da correção histórica”. Dois anos após, constatamos que Hollywood manteve a mesma postura. Fatos e personagens ganham adaptações pomposas em grandes investimentos milionários, mas que, nas telas, fazem ressurgir uma das palavras mais utilizadas pelos críticos nos anos 60 quando analisavam faroestes e aventuras mitológicas italianas: a contrafação.

E o que podemos afirmar, hoje, de filmes como Tróia, 300, Rei Arthur, Fúria de Titãs, e agora, Imortais? A afirmação correta seria, são contrafações. Mas, estranhamente, mesmo chutando a “veracidade mitológica” esses filmes ganham elogios e são recordistas de bilheteria. E por que isso ocorre? Não se ensina mais história e nem se fala mais de mitologia nas escolas?

Imortais é ainda mais pretensioso. Simplesmente, quer “recriar” a mitologia grega. Assim como ocorrera nos filmes citados acima, profecias, vinganças e deuses antropomórficos que interferiam na sociedade humana formam as principais características da mitologia grega que Imortais utiliza para tornar o seu enredo ainda mais espetacular. Mas o “espetacular” em Imortais resume-se a um visual de qualidade, mas cuja envergadura é desprovida de vida e de elementos mitológicos e filosóficos. Tudo ali é falso. Para confirmar isso, vale contar um pouco da história da guerra em que os Titãs foram derrotados.

Zeus (Luke Evans) e a sacerdotisa Fedra (Freida Pinto)

 Deuses x Titãs

O poeta grego Hesíodo (que viveu no fim do século VIII a.C), a fonte histórica, afirma que os primitivos senhores do universo, Gaia (a Terra) e Urano (o Céu) eram os pais dos 12 titãs: Oceano, Ceo, Crio, Hipérion, Jepeto e Cronos, masculinos; e as femininas Téia, Réia, Tâmis, Mnemósine, Febe e Tétis. Hipérion, portanto, era um dos titãs, e no filme aparece como um rei humano que pretende libertá-los para desmoralizar os deuses. A revolta dos titãs contra o pai promoveu uma série de linhagens até culminar em uma guerra de Zeus e os deuses do Olimpo contra os titãs, os quais a perderam e foram encarcerados e tornando-se divindades primitivas.

Em Imortais, Hyperion é um rei humano que quer libertar os Titãs. Se sabe que, nos textos originais, os deuses, como não podiam interferir diretamente na sociedade humana, burlavam a regra através dos elementos da natureza (Zeus era o mestre em disfarces). No filme dirigido pelo indiano Tarsem Singh, eles descem mesmo a Terra e salvam o seu protegido, Perseu, que de ateu passa a venerá-los. Teseu, famoso por ter derrotado o monstro Minotauro, aqui enfrenta uma cópia dele, um humano vestido como roupa estranha e uma ridícula cabeça de touro. Por fim, o Arco de Épiro, instrumento de disputa entre o rei Hypérion, Teseu e os deuses, não existe na mitologia grega, sendo uma invenção do autor do enredo, Charley Parlapanides.

 

Produzido pelos mesmos produtores de 300, Gianni Nunnari e Mark Canton, Imortais custou US$ 75 milhões. Diferentemente de 300, que custou US$ 65 milhões e arrecadou US$ 456 milhões de bilheteria mundial, Imortais está coletando apenas US$ 207,7 milhões. Com essa grana, dificilmente a contrafação de Nunnari e Canton, conforme anuncia nas cenas finais, irá cumprir a promessa de uma continuação. A mitologia grega agradece.

Mais informações

Imortais (Immortals, EUA, 2011), de Tarsem Singh, com Henry Cavill, Freida Pinto, Mickey Rourke e John Hurt. Imagem Filmes. 110 minutos. 16 anos.

Veja o trailer de Imortais.

Imagem de Amostra do You Tube

 

 

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