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Crítica/A PERSEGUIÇÃO – Carnahan filosofa na natureza selvagem

Publicado em 27/04/2012 - 20:42 por | 18 Comentários

Categorias: CRÍTICAS DE FILMES

Ainda impactado pelo vigor e a reflexão que fazem de A Perseguição um dos 3 melhores filmes que assisti neste ano, resolvi ampliar a análise publicada no Caderno 3 do Diário do Nordeste. Filmada em locações no Canadá ao custo US$ 25 milhões, A Perseguição, projeto pessoal do diretor Joe Carnahan, trata do homem em confronto com a natureza em seu reduto selvagem tendo como cenário uma região gelada e inabitada do Alasca na qual uma matilha de lobos move implacável perseguição a 8 sobreviventes de um desastre aéreo. Atente: não saia do cinema quando os créditos descerem. Aguarde a cena final, a qual amplia as discussões existenciais e teológicas de uma história arrebatadoramente filosófica

“Ultrapassamos a superficialidade do mundo. Enfrentamos a dor e a fome, e triunfamos. Caímos e rastejamos e alcançamos a glória. Contemplamos a face de Deus em todo o seu esplendor e escutamos a voz do coração da natureza. Atingimos a essência pura e nua da alma humana”. Esta frase, contida no livro Sul (Editora Alegro, R$ 73,00), por Sir Ernest Shackleton, poderia ser o letreiro final de A Perseguição, o notável filme de Joe Carnahan, em estreia na cidade.

Imagine a situação: perdidos em uma selva cercada pelo gelo de uma região remota do Alasca, atormentados pela fome, perseguidos pelo frio e o tempo que corre célere, ávidos para fugir à caçada empreendida por uma matilha de lobos ferozes que os ataca e sem uma bússola e a visão das estrelas para estabelecerem uma rota rumo à civilização, oito homens sobreviventes de um desastre aéreo empreendem uma luta pela sobrevivência. Esse é, em síntese, o enredo de A Perseguição.

Shackleton (1874-1922) foi um explorador inglês que, por três vezes, fracassou em suas tentativas de chegar ao Polo Sul. Em 1914, acompanhado de 28 homens, empreendeu uma jornada, inicialmente no navio Endurance (que afundou após ficar preso e ser esmagado pelo gelo) e posteriormente a pé, conseguiu sobreviver, sem perder um só de seus aventureiros, após empreender uma jornada no gelo e no mar por 497 dias, enfrentando o frio, a solidão e a fome, em uma odisseia que o tornou um dos maiores nomes da exploração polar. E a sua epopeia tem tudo para ser cinematográfica.

 A história de A Perseguição não se conclui tão feliz quanto à jornada épica de Shackleton, mas a respira em cada fotograma de seus 117 minutos de duração. Podemos dizer que o “espírito” do texto de Shackleton está lá, remetido à filosófica jornada que propõe inquietas reflexões sobre existência humana, a esperança humana em Deus e de que vivemos um mundo o qual ainda não conhecemos direito.

 

Adaptação do conto Ghost Walker (“Fantasmas Ambulantes”), de Ian MacKenzie Jeffers, A Perseguição acompanha a tragédia de oito petroleiros que sobrevivem à queda do avião em uma região deserta, remota e gelada do Alasca e nem de longe antevêm o que terão de enfrentar para continuarem vivos, tendo como adversários a natureza hostil e uma matilha de lobos praticamente pré-históricos em tamanho e ferocidade.

Racionalidade x natureza selvagem

De Nanook, o Esquimó (1922), o clássico de Robert J. Flaherty, passando por Dersu Uzala (1975), de Akira Kuroswa, Na Natureza Selvagem (Into the Wild, 2007), de Sean Penn, O Homem Urso (Grizzly Man, 2005), de Wernaer Herzog, até o recente Loup, uma Amizade Para Sempre (Loup, 2010), de Nicolas Vanier, a relação homem x natureza selvagem tem sido pouco explorada. A Perseguição se insere nesta lista como um dos grandes do gênero. 

 

O que torna A Perseguição um filme especial entre os demais relacionados acima é o caráter filosófico com o qual o diretor Joe Carnahan conduz a história na linha fina que separa a natureza em estado selvagem e implacável e a tentativa desesperada do homem em vencê-la com a sua racionalidade. E explora, como poucos, os problemas existentes nessa complexa relação.

O primeiro deles reside no fato de John Ottway (Liam Neeson), personagem central da trama, ser o vigia da refinaria que, como atirador de elite, mata os animais que ameaçam os trabalhadores. Claro, o elemento maior para os humanos é serem vistos pelos animais como “invasores” de seu território e, portanto, competidores em sua cadeia alimentar, mas, no desenrolar do filme, perpassa a sensação de que os animais os perseguem por vingança.

O segundo detalhe é o fato dos “invasores” não conhecerem o ambiente. Na região desconhecida eles se tornam presas da natureza em suas vertentes mais selvagens: no gelo, o frio implacável, na floresta as suas armadilhas perigos e, no complemento desse ambiente hostil, os lobos ferozes. No contexto sobrevivência, eles precisarão – na necessidade de adaptação ao ambiente – daquilo o que menos vai lhes restando: o tempo.

 

A Perseguição trata do confronto homem x natureza. A diferença, aqui, reside no fato do homem utilizar a sua maior diferença, a racionalidade, para superá-la. Mas as coisas não decorrem satisfatoriamente conforme as pretensões dos sobreviventes. Tudo estaria resolvido caso não houvesse uma interpretação filosófica para a questão da racionalidade e a falha dos sentidos.

Nossos sentidos são falhos

Levantada pelo francês René Descartes, a tese segundo o qual “não devemos confiar nos nossos sentidos porque eles são falhos” é aplicada com sabedoria em A Perseguição. Na formulação da história, a premissa cartesiana deixa de ser uma especulação para se tornar fundamental. E se levarmos em consideração de que John Ottway e seus companheiros empreendem uma jornada não apenas de confronto e sobrevivência, mas também de conhecimento da natureza, o fato de vivenciarem uma experiência inusitada na qual as únicas armas que possuem são a racionalidade e os sentidos, o filme amplia essa dimensão filosófica.

 A Perseguição não se trata de um simples “jogo entre presas e predadores”. Em sua grandiosidade, é um filme generoso na oferta de elementos reflexivos. Um puro exercício filosófico, adentrando temas pertinentes à existência do homem em sua maior necessidade: a de conhecer a si próprio e o mundo no qual vive. Há outros elementos: provocar as suas memórias e sentimentos, entender as suas limitações, vasculhar a sua alma e, acima de tudo, compreender a sua racionalidade. Que ele, o homem, conserva, também, o seu lado natureza, mas que ela mudou ao longo de sua evolução com ser racional. A natureza puramente selvagem não é mais o seu lar. Quanto a isso, os humanos, percebem os lobos com “algo mais” do que apenas instinto. Há, também, algo de racional em seus ataques.

Mesclando elementos de thriller, terror e drama, A Perseguição explora com maestria essas filosóficas questões existenciais. Eu tinha lido que Carnahan tinha levado 4 anos para finalizar o roteiro. Considerei muito tempo. Mas, somente após a visão do filme, foi que entendi o sentido de ter levado tanto tempo para ser concluído. E A Perseguição me deixou impactado.

Unindo Shackleton e Descartes

Como não conheço o livro de Jeffers, procurei na Internet algum resumo ou trecho da história, de preferência traduzida. Nada. Encontrei apenas entrevistas de Carnahan revelando que só finalizou o roteiro quando se deu por satisfeito de ter colocado tudo o que a história exigia. Quais os elementos? Inserir na história de Jeffers as questões existenciais que atormentam o homem em momentos cruciais em que se encontra entre a vida e a morte.

Na minha busca de juntar os elementos existenciais, teológicos e filosóficos contidos no filme, me lembrei do livro de Schackleton, o qual li há anos atrás. Cai como uma benção em A Perseguição por duas vias: a luta pela sobrevivência dos sobreviventes e as questões existenciais-filosóficas que a pontuam. Fiquei fascinado quando o personagem John Ottway de Liam Neeson se agarra à racionalidade para vencer as adversidades e buscar uma “rota” em direção à civilização. Impossibilitado de se orientar pelo céu em função do tempo fechado e que neva continuamente, ele segue um destino que julga ser seguro e que o levará à civilização.

 

Essa questão, a da racionalidade e a falha dos sentidos, peças-chaves do filme, remetem a René Descartes, o filósofo que introduziu o homem como sujeito central da filosofia e da história. Penso, logo existo. Para saber mais sobre René Descartes e a filosofia, acesse aqui > http://artigos.netsaber.com.br/resumo_artigo_16284/artigo_sobre_o_despertar_da_cr%C3%8Dtica:_do_racionalismo_cartesiano_ao_criticismo_kantiano

Assim, prefiro analisar o filme de Carnahan, além do contexto existencial, também sob o ângulo filosófico. Vejo que estão lá a determinação motivadora da sobrevivência de Shackleton e seus homens e a filosofia de Descartes com o seu discurso da racionalidade e a fragilidade de nossos sentidos. Mais adiante, Carnahan vai inserir a teologia, ampliando as discussões. O resultado é um filme capaz de provocar a reflexão sobre a existência, a divindade e a morte.

Elementos para você perceber

Desde a queda do avião (uma sequência de impressionante realismo) que Ottaway convive com a morte, vendo dezenas de corpos, aos quais promove uma rápida cerimônia de funeral. O sentido da história decorre ao longo da fuga dos homens e a perseguição movida pelos lobos, manifestando, aí, a onipresença da morte. Dramaticamente, o filme atinge o seu ápice a partir do momento em que um dos sobreviventes, John Diaz (Frank Grillo), exausto e sem forças para continuar caminhando, resolve sentar-se num pedaço de árvore à beira de um rio. Ali, diante de um belíssimo cenário da natureza, resolve, ali mesmo, desistir da vida.“Quero descansar. Agora eu percebo que estou morto. Estamos mortos”, lamenta. Em vão Ottaway e Henrik tentam demovê-lo da decisão.

 

“A morte… é quente?”, pergunta. “Sim”, responde John. “Olhe para lá” – e aponta para o esplendor da natureza, “tenho a sensação de que tudo é para mim. Como eu poderia resistir? Onde poderia se poderia morrer melhor?”, se questiona. Quando os amigos se vão, entregando-se ao destino final, Diaz finaliza o seu diálogo em monólogo: “eu não tenho medo”. Ele opta pela morte na contemplação. Toda essa sequência extraordinária dura exatamente 7 angustiantes minutos.

Clamando pela salvação divina

A cena em que Ottway perde o amigo Pete Henrik (Dallas Roberts) quando uma das pernas deste fica presa entre pedras na corredeira, um dos momentos mais dramáticos, expressa o impacto da conscientização. Ele cai na real: está só. Seu semblante, de desolação é o impacto da realidade. Todos os seus companheiros estão mortos. Agora por conta própria e com a única opção de seguir adiante, ele se escora num banco de neve. Pela primeira vez, bate-lhe o medo. E chora. É aí, Carnahan cria um dos momentos mais brilhantes de A Perseguição. O cineasta, que é católico, abre o filme para além das questões existenciais e traz a teologia para dentro do filme, se fixando em uma das mais inquietantes buscas do homem: a sua relação com o divino, Deus. Se ele é o Pai, aonde está?

O cineasta recorre à tese de que o homem só pensa em Deus quando se vê diante de uma condição crucial, de morte. Nesse estado de medo, a sua atitude tanto pode ser de submissão e aceitação de sua condição de mortal, ou, movido pelo desespero, desafiá-lo. Esta é a escolhida. “Faça alguma coisa”, apela Ottway, olhando para o céu. No contraplano, o céu e as nuvens antecedendo o universo infinito.

“Faça alguma coisa”, exige Ottaway. ”Vamos lá. Prove que existe!”. Entre pausas, “Para o inferno com a fé!”, “Venceu!”, “Vamos, mostre-me algo real, eu o quero agora. O mais tardar, agora!”. E também sobram palavrões. “Mostre-me e acredito em você, até fim. Eu Juro!”. Ottway é pura racionalidade. Exige a manifestação aos seus pedidos. Entre ele e o céu infinito, o silêncio. Mas, como se dá a manifestação divina? Para alguns teólogos, fé envolve confiança e compromisso. E ela pode manifestar-se internamente no indivíduo. Uma relação invisível, espiritual. É o que parece acontecer com Ottway quando ele, descendo à serenidade, para, reflete e afirma: “Pode ser feito! Vou fazer isso sozinho!”. Ele sabe que seu destino está traçado. Sair ou não dali depende única e exclusivamente de si.

Não há mais desespero ou medo. Com isso, Ottway raciocina que ele, o homem, é também natureza, e que ali, na natureza hostil, ele está no lugar que já não é mais o seu e que a interferência divina apenas se resume em milagre – o qual nem sempre aparece. E como natureza cada um segue o seu destino. Ele tem que criar o seu. Curiosamente, Ottway não segue o curso do rio, mas sim, adentra à floresta gelada e, ao parar, percebe que seus sentidos o levaram à direção errada. Está no lugar aonde não quereria, nem deveria, mas os seus falhos sentidos o levaram até ali.

Evite o Spoiler

Vale recordar que, no início do filme, que é narrado por Ottway. Ele se diz um criminoso e fugitivo da justiça. Você pensou no motivo? Ao longo do filme, ele recorda os últimos instantes com a mulher. E aí, se você não viu o filme, ainda, pare e não leia o texto a seguir, pois vou expor, também, o desfecho. Por isso peço-lhe só retornar a este após assistir ao filme, e, também, só sair da sala de projeção após os créditos finais, a fim de apreciar uma última cena, a qual fecha o filme. Essa cena é fundamental para um posicionamento seu quanto ao desfecho da história. Ou pule os 3 próximos parágrafos.

O desfecho

Qual o significado do pedido da mulher de Ottway para que “não tenha medo”. De que ele não deve ter medo? Ligando a frase à descrição dele de ser um criminoso e fugitivo, só pode ser por ter desligado os aparelhos médicos. Pode ser aberta, aqui, uma discussão sobre a eutanásia. E, após esta, outra, a da sobrevivência ou não de Ottway, como resultado da última cena do filme pós-créditos, a qual mostra o corpo arquejante do lobo em primeiríssimo plano, mas não mostra se Ottway está vivo ou não. Como foi mostrado antes do corte do ataque do lobo, Ottway se armou com uma faca na mão direita e vidros de álcool na esquerda. É possível ter sobrevivido ao ataque do líder da matilha? Sim, é possível.

Como expus no início desta análise, Shackleton conseguiu algo humanamente impossível: sobreviver por 497 dias em meio ao frio glacial e a fome em meio a um ambiente que não era o seu. É muito tempo. Exatamente, 1 ano, 4 meses e 12 dias, nas piores condições possíveis. E, para escrever que “atingimos a essência pura e nua da alma humana”, ou seja, o conhecimento do sentido da vida, a frase se torna uma metáfora teológica para explicar a sobrevivência dele e de seus homens através da superação da morte? A possibilidade de algo transcendente.

Acreditar no homem

Particularmente, sou otimista e acredito no homem. No nosso poder de superação – às vezes inexplicável existencialmente -, e a racionalidade me leva ao entendimento de que estamos, ainda, aprendendo sobre nós mesmos e do mundo no qual vivemos. Nossos sentidos podem ser falhos, nosso destino pode ser uma incógnita, nossa relação com Deus pode derivar de uma escolha pessoal, mas temos o maior prêmio que poderíamos ter como meros mortais: a capacidade de pensar. Daí, aceito o homem em vez do lobo.

Liam Neeson, o grande

Para sustentar esse enredo e suas inquietações filosóficas, Carnahan tem em Liam Neeson o seu grande suporte. O ator irlandês, aos 60 anos, esbanja maturidade e talento em uma interpretação vigorosa que sustenta a dramaticidade do filme em todo o seu decorrer. Injustiça não ter sido indicado ao Oscar.

Não esquecendo de que A Perseguição o remeteu diretamente à morte de sua mulher, a atriz Natasha Richardson, falecida em 2006, aos 45 anos, em um acidente de esqui em um “resort” canadense. Seu personagem, Ottway, conforme já citado, sofre com as lembranças constantes da esposa. É com essa dor que Neeson tem uma atuação simplesmente memorável.

Pense, filosofe

Ao concluir A Perseguição com uma cena inquietante do resultado da verdadeira luta entre o homem, o maior predador do planeta, com o seu adversário e perseguidor selvagem em seu ambiente demarcado, Joe Carnahan concede um convite à reflexão. Particularmente, amarro a descrição de Shackleton quanto a “essência pura e nua da alma humana” ao desfecho da última cena de A Perseguição. Há, o poema que simboliza Ottway e sua vida de guerreiro: “Mais uma vez na batalha. Jamais saberei se será a maior luta de todas. Viver ou morrer neste dia. Viver ou morrer neste dia”. Ele a recita antes do embate.

Ambos, Shackleton e Ottway, assim, utilizam-se da construção da escrita, uma forma de arte, evidenciando a evolução do homem não apenas enquanto construtor de uma civilização, mas também  quanto as suas possibilidades relativas ao conhecimento e a superação do sofrimento, dos limites e dos seus medos. Aí, escrevi que a pergunta correta não é “quem vencerá?”, mas sim, “qual a forma da ‘essência?”. Shackleton e Ottway, a meu ver, enveredam pela sobrevivência pela força da superação, tendo, claramente, um caráter teológico-filosófico-espiritual.

Joe Carnahan, nas entrevistas as quais eu li, se nega a comentar tanto a discurso teológico envolvendo Ottaway e Deus quanto o desfecho em aberto. Para ele cada espectador é quem tem de pensar e encontrar “a sua resposta”. Nesse sentido, ele abre o seu filme às possibilidades, também, de um caráter teológico-filosófico-espiritual.

É uma possibilidade? Sim, há uma possibilidade de que Ottaway tenha sobrevivido. Observe que ele reúne as carteiras dos colegas que morreram. Cada uma traz fotos, as quais são… histórias. As histórias não ficam perdidas. Daí, ser a vitória de Ottaway a versão que eu defendo. Com isso, Carnahan está premiando a racionalidade do homem.

Mas, enfim, o filme continua em aberto às diversas interpretações com a sua cena intrigante. Instiga a que cada um reflita, busque uma resposta, não deixe o pensar vago ou isso mesmo, e force a sua racionalidade para encontrar o seu desfecho. Encontre e determine, também, a sua conclusão, exige o filme.

A Perseguição tem, desde já, um lugar garantido entre os meus 10 melhores filmes do ano.

Ficha técnica

A PERSEGUIÇÃO (The Grey, Canadá-EUA, 2011), de Joe Carnahan. Com Liam Neeson, Frank Grillo, Dermot Mullroney e Dallas Roberts. Universal. 117 minutos. 14 anos.

Veja um vídeo de “behind the scene” de A Perseguição.

Imagem de Amostra do You Tube

 

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A INVENÇÃO DE HUGO CABRET – precisamos de uma arte a nos guiar

Publicado em 02/03/2012 - 8:25 por | Comentários desativados

Categorias: CRÍTICAS DE FILMES

O novo filme de Martin Scorsese, Hugo, no Brasil, A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scoorsese, me proporcionou uma noite de namoro com um filme cativante, envolvente com o seu visual arrebatador tal qual  um perfume, exalando idéias novas sobre o processo de criação da arte e, à reboque, o destino de seus criadores. O filme trata ainda da literatura, o cinema e o teatro como sublimes instrumentos do poder de criação humana embalados pela imaginação, a fantasia e a criatividade como propulsores do progresso. Por sua vez, a História surge como registro de nossas conquistas culturais e elemento construtor da nossa civilização

 

A fantasia, as lendas e as tradições são conquistas da criatividade e propulsores do progresso, servem à História como registro da evolução construtora da nossa civilização. A afirmação é filósofo italiano Gianbatistta Vico (1668-1744) ao confrontar o racionalismo puro do francês René Descartes (159-1650). A Invenção de Hugo Cabret nos fala também da arte como fábrica de sonhos, de agregação familiar, de registro das memórias e edificador da cultura de cada um de nós. Através da cultura, podemos nos apaixonar por uma arte, admirar um artista e até impedi-lo de ser relegado ao esquecimento da voracidade do tempo em aceleração. E, finalmente, que entre a infância e a adolescência reside o período mais importante de nossas existências porque somos tão infantis e dispostos a aprender… com a imaginação e a fantasia… o que as artes têm a nos ensinar. A arte como encantamento, como criação do desejo de ser, também, um artista…

A Invenção de Hugo Cabret recria esse tempo e essa época única em uma história terna e melancólica sobre as marcas do passado que trazemos na mente e no corpo enquanto caminhamos, trabalhamos, sofremos e amamos. Lembra que a família e a amizade são os únicos redutos de nossas relações de paz, evolução pessoal e de entendimento do outro. A base de nosso relacionamento como ser social e animal político – o homem conforme pensado por Aristóteles (384-322 a.C). Martin Scorsese expõe esse processo do conhecimento e do desenvolvimento nas raízes do encanta e fascínio que as artes podem proporcionar.

O relógio se parece com uma máquina de projetar filmes: metáfora cinematográfica

A Invenção de Hugo Cabret resgata o passado do cinema em seu enredo, e, de forma genial, ele próprio que se apresenta e como o resultado da evolução do  cinema em 110 anos de existência. O cinema do futuro. O Cinema de hoje é o expressado no início de A Invenção de Hugo Cabret: a tecnologia da terceira dimensão, o som perfeito, o dinamismo e a renovação da imagem do plano sequência, a elegância dos grandes planos e os movimentos de câmera, a realidade e a temporalidade no corte da montagem e personagens capazes de interagir com o público. Impressionante, quase como um personagem, a estação de trem com os seus relógios sinalizando a eterna e irrefreável passagem do tempo. Em suma, o cinema moderno ao processo da evolução conforme a passagem do tempo.

No entrecho dos acontecimentos, no entanto, é a literatura que trafega por A Invenção de Hugo Cabret. A literatura de Jules Verne (1828-1905), Da Terra à Lua (1865), nossa porta de entrada para a literatura, reina suprema, seguida de outro francês, Alexandre Dumas (1802-70), destacado quando Robin Hood – o Proscrito (1863), quando presenteado à Hugo por Monsieur Labisse (Christopher Lee), o dono de uma livraria na estação.

Mas, antes mesmo de chegar ao meio dos 126 minutos de duração de Hugo Cabret, o Cinema já reina como primeiro elemento da arte como a fábrica de sonhos e promulgadora da imaginação em realidade pelas imagens reais na tela capaz de fazer um trem amedrontar as pessoas como se fosse sair da tela. É a fantasia tocada com a magia que expressão da realidade.

O que entusiasma em A Invenção de Hugo Cabret é o resgate do processo de criação do cinema. Esse novo meio de contar histórias a partir de seus reais criadores, os franceses Irmãos Lumière (Auguste, 1862-1954, e Louis-Jean, 1864-1948), e não Thomas Edison (1847-1931), o ladrão de idéias e inventor do caça-níquel que os estadunidenses alardeiam como criador do cinema – uma mentira de nariz tão cumprido quanto a dos irmãos Wright serem os inventores do avião e não Santos Dumont (1873-1932).

Scorsese tem o mérito de registrar a verdade, reconhecer os verdadeiros criadores do cinema. A Invenção de Hugo Cabret só não revela que George Mélies (1861-1938) foi à falência porque seus filmes foram pirateados para os EUA e ele nunca conseguiu receber um tostão de direito autoral – o processo o qual Hollywood paga agora como uma sangria via torrents e downloads.

Mas, A Invenção de Hugo Cabret não trata apenas os conjuntos da arte – literatura, teatro, desenho, etc – que fazem a magia do cinema. É um filme sobre a luz encaminhada aos olhos humanos (é belíssima a cena em que Hugo, na biblioteca, olha para um quadro na parede – que lembra A Criação de Deus, de Michelangelo – no qual uma figura humana irradia luz pelos dedos e Scorsese transmuta essa luz em feixes que transmite a imagem cinematográfica do projetor para as telas – e lá está, mais uma vez, o grande espanto haideggeriano causado aos espectadores que assistiam a A Chegada do Trem à Estação de Ciotat. E lá estão Harold Lloyd (outra cena bellíssima, a do lanterninha expulsando os jovens penetras), o clássico Viagem à Lua colorizado pela tecnologia que chegou ao futuro.

Sobram, ainda, dois temas em A Invenção de Hugo Cabret. Um deles, a solidão, e o outro, o esquecimento pela passagem do tempo e o resgate pela história. Daí, chamamos a atenção do espectador para a condição de solidão e anonimato dos personagens, cuja estação ferroviária é o recanto dessa condição humana. Os que lá trabalham são puramente solitários, e os anônimos, os seus transeuntes e passageiros.

Hugo (Asa Butterfield), vivendo solitariamente na área de manutenção dos relógios da estação, de onde observa uma Paris igualmente solitária, busca encontrar o pai (Jude Law0 através de autômato; George Mélies (Ben Kingsley) se resigna ao anonimato; o inspetor de polícia (Sacha Baron Cohen) ferido na alma na infância e na perna pela guerra, tenta vingar-se das crianças pelo orfanato no qual viveu; Lisette (Emily Mortimer), uma florista solitária que se torna alvo do flerte do inspetor – cujo ato o demonstra também ser capaz de amar;  e monsieur Labisse com a companhia de seus livros.

A passagem do tempo se sobressai em Hugo Cabret como a expressão da existência: vivemos porque estamos no tempo. Ele estabelece passado, presente e futuro. “O Tempo é tudo”, diz um dos personagens. O processo que empurra o passado cada vez mais para trás e abre espaço para o progresso que, mais tarde, também será passado. É preciso saber existir, viver, no tempo.  

Ligada à temporalidade, surge, como fecho de A Invenção de Hugo Cabret, a história – o único processo criado pelo homem capaz de “amarrar” o tempo. Mèlies, com a falência de sua fábrica de sonhos e perda das obras, julga-se esquecido e perdido na memória das pessoas. A história o resgata.

George Mèlies e Ben Kingsley, seu intérprete em A INVENÇÃO DE HUGO CABRET

Enganam-se aqueles que relegam A Invenção de Hugo Cabret a um simples filme sobre a infância. Não é sobre a infância em si, mas como podemos manter dentro de nós a infância que nos transformou em amante das artes. Sim, precisamos de uma arte a nos guiar. Agora somos adultos saudosos de nossos bons tempo de infância. A Invenção de Hugo Cabret nos proporciona esse encantador e fascinante reencontro.

Ficha técnica

A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, EUA, 2011), de Martin Scorsese. Com Asa Butterfield, Chloé Grace Moretz, Ben Kingsley,  Sacha Baron Cohen e Emily Mortimer. Paramount. 126 minutos. Livre.

 

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UM SONHO DE AMOR – o poder transformador da mulher

Publicado em 16/12/2011 - 18:04 por | 2 Comentários

Categorias: CRÍTICAS DE FILMES

Candidato italiano ao Oscar-2011 de Melhor Filme Estrangeiro, o brilhante Um Sonho de Amor expõe o mundo em transformação eliminando velhos valores e a mulher como o principal instrumento dessas mudanças em nome da liberdade. O drama, dirigido por Luca Guadagnino,  será debatido neste sábado, 17

 

Assim como o universo está se expandindo em altíssima velocidade, a sociedade humana também segue o mesmo ritmo. O passado cada vez mais está ficando para trás, levando consigo as antigas tradições sociais, as relações familiares e os sistemas políticos e econômicos seguidos ao longo dos séculos. À luz da abertura do século XXI, o processo de mudanças se acelera, não mais sendo possível prever aonde essa expansão poderá levar o homem e a sua sociedade, assim como não se sabe como e aonde o dinâmico processo de expansão do universo acabará. Tudo está em movimento, tudo está em transformação. Certamente se estivesse de passagem pela Terra nesse momento, o filósofo italiano Jeanbattista Vico (1668-1774) estaria perplexo com o mundo moderno, o destino atroz reservado às tradições, a avassaladora capacidade de renovação da ciência e dos elementos culturais cada vez mais universais – valores esses que utilizara como instrumentos de combate ao método racionalista de René Descartes (1596–1650).

Obviamente, Um Sonho de Amor não trata da expansão do universo, mas sobre o processo de mudança na sociedade humana levada a cabo por uma nova lógica da realidade e necessidades humanas nesse mundo em veloz universalização. E quem não estiver sintonizado nesse processo fatalmente sucumbirá. É disso que trata o filme: a sociedade em transformação. Projeto idealizado pela atriz inglesa Tilda Swinton, 51, e o cineasta italiano Luca Guadagnino, 40, o qual levou sete anos para ficar pronto, Um Sonho de Amor tem a Itália atual como ambiente, mas o cenário é o de uma aldeia global. Guadagnino surgiu em 2005 com o polêmico 100 Escovadas Antes de Dormir (Melissa P.), a adaptação do livro autobiográfico no qual a jovem Melissa Panarello descreveu a sua descida aos prazeres carnais na adolescência. No filme, já se visualizava a preocupação do cineasta em expressar o caráter da realidade dos tempos modernos através da sexualidade.

Um Sonho de Amor trata da libertação feminina. Claro, o campo continua sendo o da sexualidade, mas não se limita a ele. Amplia-se para o direito da mulher sobre o seu corpo e a sua mente e a escolha dos caminhos que a levem à felicidade. Sem dúvida, a sexualidade é o campo frontal de Guadagnino. Em Um Sonho de Amor, ela é tratada como o elemento motivador da mudança, aquilo que costuma mexer com os sentimentos e que definimos como amor: o amor a si mesmo, o amor que chega, o amor que se vai, o amor que se renova. O cineasta Guadagnino sabe do que fala pois, hoje, pode revelar abertamente ser gay, atitude impossível até algum tempo atrás. E esse tema, a sexualidade, integra o enredo como a idealização da liberdade feminina.

Em Um Sonho de Amor Tilda Swinton, que também aparece como produtora, interpreta Emma, uma mulher russa que, apaixonada pelo viajante italiano Tancredi (Pippo Delbono), segue-o para casar-se na Itália e ampliar a grande, rica e, com dois rapazes, a antiga e tradicional família Recchi. Em imenso casarão, ele tem o seu lugar reservado, mas tão reservado que sexualmente pouco interessa ao marido e ao longo do tempo, como ela afirma, “esqueceu até o seu nome de origem”. Ou seja, nem italiana e nem russa, uma mulher sem identidade.

Cena do jantar de O LEOPARDO, de Luchino Visconti

Cena do jantar em UM SONHO DE AMOR, de Luca Guadagnino

 

É impossível se falar de Um Sonho de Amor sem a citação de dois filmes, o obrigatório O Leopardo (1963), de Luchino Visconti (1906–76), e o nem tanto O Poderoso Chefão (72), de Francis Coppola. Podemos citar ainda um terceiro, As Pontes de Madison (94), de Clint Eastwood. Os primeiros 20 minutos de Um Sonho de Amor são dedicados a preparação de um jantar, rígido e requintadamente servido como tem sido conservado há séculos. O velho dentro do novo, a exposição do passado, da resistência do tradicionalismo na sociedade moderna expressada sob a influência de Visconti em sua obra referência. Nesse jantar a família promoverá as suas mudanças para continuar a mesma. A fábrica passará para outras mãos da família, mas sob as orientações do patriarca recém aposentado. Nada mudará, assim como expressado por Coppola em sua obra-prima sobre as famílias mafiosas.

Há, ainda, a condição da mulher em uma terra estrangeira. Emma aprendeu a ser italiana e, por isso, sua alma russa encontra-se aprisionada em um castelo medieval, lembrando a italiana Francesca Johnson de Meryl Streep da poética obra de Eastwood que, levada para os EUA, torna-se uma dona de casa nos confins de um lugar qualquer no oeste estadunidense.  

Um Sonho de Amor passa a tratar das mudanças a partir da entrada em cena de Elisabetha (Alba Rohrwacher), a filha de Emma, a qual lhe afirma ser homossexual. A revelação é entendida por Emma mais como mulher do que como mãe. E elas, as mudanças, continuam quando Antônio Biscaglia (Edoardo Gabbriellini), o amigo e sócio de seu filho, surge na trama.

Ninguém é dono do próprio destino, mas os rumos dessa história de recuperação do amor próprio, de por um fim às incertezas e angústias da existência se desfecha na afirmação de uma certeza: a de que a vida exige ser exercida na beleza do amor e na plenitude da felicidade.

Mais informações

Um Sonho de Amor (Io sono l’amore, Itália, 2009), de Luca Guadagnino, com Tilda Swinton, Edoardo Gabbriellini e Pippo Delbono e Alba Rohrwacher. 120 minutos. Paris Filmes. 16 anos.

Confira o trailer de Um Sonho de Amor.

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NÃO TENHA MEDO DO ESCURO – entre a curiosidade e o mal

Publicado em 27/10/2011 - 13:35 por | Comentar

Categorias: CRÍTICAS DE FILMES

Em Não Tenha Medo do Escuro, Guillermo Del Toro volta a investir na existência de seres da fantasia como figuras reais que existem em um mundo paralelo ao nosso, na escuridão dos porões daquilo o qual não conhecemos verdadeiramente

 

Um filósofo italiano chamado Gianbattista Vico (1668-1744), confrontando o excesso de racionalismo de francês René Descartes (1596–1650), aquele do “penso, logo existo!”, afirmou ser impossível a constituição do entendimento do mundo sem a história, as tradições, a mitologia, a fantasia, a filosofia, e por aí vai. Se há um cineasta mais afeito diretamente ao pensamento vicciano, este se chama Guillermo Del Toro. O mundo do realizador mexicano é o racional, histórico (lembrem-se de O Labirinto do Fauno estabelecido na época do franquismo espanhol) e no qual o bem o mal convivem em conflituosa existência – mas não é o único. Paralelo a ele existe um outro mundo, repleto de seres místicos e fantásticos, surgidos nas histórias da ancestralidade mitológica e das sombras da imaginação e do medo humano. E eles estão e em constante interação com o nosso o plano de existência. Afinal, para essas criaturas, o tempo é algo a ser aguardado, pois não tem fim.

Não Tenha Medo do Escuro, em cartaz nos cinemas, não tem a direção de Guillermo, mas ele é o produtor e responsável pela adaptação da história original do escritor e roteirista estadunidense Nigel McKeand, autor da série Os Waltons (1972-74). Realizado em 1973 e dirigido por John Newland, com Kim Darby e Jim Hutton, Não Tenha Medo do Escuro foi feito diretamente para a televisão, filmado em duas semanas e muito bem recebido pela audiência e a crítica. Já exibido nas emissoras abertas do Brasil, ainda não foi lançado no mercado de vídeo. O enredo se centrava em um decorador encarregado de recuperar uma mansão vitoriana e na qual a sua neurótica mulher, ao desconhecer o aviso de não abrir a sala de trabalho de seu antigo dono, passa a ver pequenas e malévolas criaturas, sem que ninguém acredite nela.

Del Toro fez substanciais mudanças na adaptação do enredo original, sendo a mais expressiva a inserção da garotinha Sally (Bailee Madison), de 12 anos, filha do decorador Alex Hurst (Guy Pearce), a qual cria com a namorada dele, Kim (Katie Holmes), um processo inicial de rejeição e, depois, proteção. Ou seja, Del Toro transferiu os tormentos sobrenaturais para a criança, adicionando-lhe a solidão e a curiosidade como instrumentos que a faz comunicar-se com os seres sobrenaturais que, inicialmente, se apresentam como bons, mas posteriormente revelam a sua impiedosa maldade.

Enredos em que crianças entram em contato com o mundo das trevas e do sobrenatural, ensejadas ou não pela solidão e a curiosidade (vide Poltergeist, 1982, de Tobe Hooper, e uma infinidade de outros filmes), tendem a chamar a atenção do público e até chegam a render uma boa grana. Mas não foi o que ocorreu com Não Tenha Medo do escuro. Em termos de cenários e das figuras do sobrenatural possibilitadas pelos efeitos de CGI, o filme funciona, cumprindo a sua função, com Troy Nixey, o canadense estreante em Hollywood, criando momentos de tensão e suspense. O problema do filme é que, mesmo com a dramaticidade gerada em torno do drama da criança, a qual não consegue ser ouvida por um pai preocupado em recuperar a carreira e encontra apoio na madrasta, o enredo não consegue sair do “deja vu”.

Mas, o desastre intitulado Não Tenha Medo do Escuro reside justamente em seu desfecho, quando Del Toro joga pelo ralo a sua própria visão da relação de sua pequena heroína com o mundo sobrenatural: a curiosidade. E ela, a curiosidade, é histórica, pois é a mesma que tem movido o homem em direção ao progresso desde que ele olhou para o céu e viu a Lua e estrelas e criou a ciência para saber o que eram.

A aí vai um necessário “spoiler” (se pretende assistir ao filme, não leia): ao dar um desfecho atroz à única personagem lúcida do filme, Kim, e encerrá-lo com a restauração da casa que fica a venda e os gnomos confabulando para aguardar as próximas vítimas, Del Toro dá um tiro no pé. Ou seja, o filme acaba ali, com a aceitação simples do desaparecimento da mulher por um buraco na parede. O roteirista del Toro troca a lógica da história – o contato com o mundo sobrenatural – e a virtude humana que é a curiosidade por um impacto que, como desfecho, não funciona e se reverte em decepção. Não Tenha Medo do Escuro é, por isso, um filme decepcionante e sem nada a declarar. Não é de se estranhar o seu fracasso junto ao grande público.

Mais informações

Não Tenha Medo do Escuro (Don’t be Afraid of the Darl, EUA, 2010), de Troy Nixey, com Katie Holmes, Guy Pearce e Bailee Madison. Cinemas e horários no Caderno Zoeira. 110 minutos. Vinny Filmes. 12 anos.

 

Veja o treiler de Não Tenha Medo do Escuro.

Imagem de Amostra do You Tube

 

 

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