À BEIRA DO CAMINHO/Crítica – a estrada como a vida
Categorias: CRÍTICAS DE FILMES
Com um roteiro de primeira qualidade, uma narrativa pontificada pela emoção e sublinhada pelas canções de Roberto Carlos, Breno Silveira faz de À Beira do Caminho uma bela jornada pela redenção dos erros humanos
“Viver é como desenhar sem borracha”. Esta primeira frase destacada no para-choque do caminhão de João, o personagem central de À Beira do Caminho, expressa o sentido da jornada por ele empreendida. A estrada se torna metáfora da existência, o trajeto no qual as escolhas vão estabelecendo a qualidade do asfalto que se percorre na vida. À Beira do Caminho trata justamente disso, das consequências das escolhas, nas quais estão contidos os acertos e os erros. No filme, os erros ganham uma dimensão de efeitos danosos e de trágicas consequências, e, por isso, expostos comodifíceis de serem apagados, esquecidos ou superados.
A história de autoria de Léa Penteado e roteirizada por Patrícia Andrade, em um trabalho não menos do que notável, trafega justamente nessa temática existencialista relativa aos erros que desestruturam e da necessidade de redenção para o reencontro do equilíbrio e da felicidade. Esta, a base dramática de À Beira do Caminho.
A temática central se divide em duas partes: a primeira, estabelecida na dor e sofrimento do João (João Miguel, em atuação memorável), e a segunda, na abertura da possibilidade de sua redenção. Em suma, o direito a uma segunda chance. Curiosamente, essa segunda chance não se desenvolve, dramaticamente, como o “passar uma borracha no passado”, como costuma dizer o ditado popular – algo impossível na temporalidade da vida –, mas como uma procura de reparação moldada na superação psicológica e na grandeza do reconhecimento dos atos. Erros, existência e redenção, narrados em cadeia, fazem de À Beira do Caminho o mais brilhante filme nacional da temporada.
Há um detalhe importante no filme de Breno Silveira, o qual vai de encontro a minha visão de cinema: a emoção. Em entrevista, o cineasta afirmou que “como diretor, sempre achei que meu dom é o de emocionar a plateia, se não for um filme emotivo, não me interessa fazer. Acho que jamais vou fazer uma comédia, uma ficção ou um thriller”.
Emoções genuínas
Raros cineastas conseguem, como Breno, transmitir a emoção de uma história para a plateia. Dois Filhos de Francisco deu-lhe a possibilidade de provar isso e, pulando o fracasso de Era uma Vez, o cineasta reencontra a sua redenção com À Beira do Caminho, um filme que transmite emoções genuínas. Curiosamente, são justamente os cineastas que impregnam seus filmes de emoção, os mais alvejados pela crítica.
Há alguns dias li um comentário do crítico italiano Antonio Bracco, do site “Coming Soon”, no qual ele chama a atenção para o fato de que cineastas e críticos “tendem a esquecer que o público comum precisa de histórias as mais simples possíveis, que toquem seus acordes emocionais e sejam capazes de despertar as duas reações mais genuínas da infância à velhice, as quais acompanham a vida de todo ser humano: o riso e as lágrimas”. Essa percepção do crítico se encaixa na obra de Breno Silveira.
A história escrita por Léa, adaptada por Patrícia e levada ao cinema por Breno oferece esses pequenos e simples requisitos tratados por Bracco. As lágrimas, então, são um problema sério porque a obra passa a ser identificada como “lagrimenta” e “Chorosa”. Claro, há cineastas que planejam meticulosamente seus filmes para a obtenção desse efeito na plateia – exemplo disso é o horrroso A Vida é Bela, de Roberto Benigni, o qual conseguiu enganar muita gente ao transformar os guetos nazistas em ambientes de grandiloquente poesia.
À Beira do Caminho não trata de uma história pomposa e grandiloquente, com grandes lances de dramaticidade. A virtude, encontra-se em seu enredo simples, com uma contida dramaticidade moldada na angústia de um personagem atormentado pelo sentimento de culpa e que não vê a possibilidade da obtenção do perdão. Daí, as suas dores criadas no passado que não se desgrudam dele no presente.
A distância, outra temática presente no filme sublinhada pelas canções de Roberto e Erasmo Carlos, dimensiona o “peso na consciência” que conduz o conturbado João em um processo de “fuga da realidade”, a ponto de abandonar a música para se tornar um caminhoneiro que, entre a solidão e o tormento, passa a viver à beira do suicídio.
Paternidade: o grande tema
Esse enfoque na distância da família, amigos e dos próprios semelhantes como um ato de penitência, ganha dimensão marcante. Penitência, na visão religiosa, uma busca de arrependimento, uma forma de pagamento pelos pecados cometidos, ou seja, o pedido de perdão. A imagem da santa, na boleia do caminhão, em close, numa das imagens iniciais, expressa essa condição.
Mas, a grande temática em desenvolvimento em À Beira do Caminho, a paternidade, recebe um tratamento sensível e cuidadoso. E esse é um dos grandes temas em discussão da sociedade brasileira, com milhares de ações de testes de paternidade perambulando pelos tribunais. A questão, aqui, não é do homem que “pulou fora” ou “desapareceu”, mas a do homem abalado pela perda e amargurado pelo sentimento de culpa.
A paternidade, em À Beira do Caminho, desenvolve-se duas frentes. A primeira, pelo garoto Duda (a revelação Vinícius Nascimento) em sua busca pelo pai; e a segunda, em João, pela dor e a vergonha pelo abandono da filha. A determinação e a esperança de Duda em encontrar e conhecer o pai são instrumentos que passam a questionar a cabeça do caminhoneiro , cuja dor e sofrimento são amenizadas ao ouvir as canções na voz de Roberto Carlos. Elas, as canções, formam um vivo personagem que emoldura dramaticamente a história de esperança, sofrimento e redenção de Duda e João.
No outro lado da estrada situam-se as duas principais personagens femininas do enredo, Rosa (Dira Paes) e Helena (Ludmilla Rosa), pelas quais a vida de João trafega em meio aos tormentos. Na observação dos tormentos gerados pelos erros, destaca-se a figura da sexualidade, aquela difícil de ser segurada. Em um segundo plano, o destino que parece manter a vida humana sob curtas rédeas. Rosa, pela qual a vida de João também perpassa, expressa o perdão feminino em sua capacidade de amadurecer e de projetar o futuro – a consciência em estado latente. Entre Duda e Rosa, resta a João juntar os cacos de sua existência e mostrar alguma grandeza.
O desfecho feliz de À Beira do Caminho – e sou fã incondicional de um final feliz – é um dos mais belos que o cinema brasileiro já criou. Erros, sofrimento e redenção formam o trio do sentido da existência humana. Existência que, no fime de Breno Silveira, se expressa com realismo, lirismo e emoção de conceder aos seus personagens a humildade em entender o perdão como processo da vida e na grandeza de concedê-lo a si próprio. Afinal, a estrada não tem fim. Um belo filme.
Ficha Técnica
À BEIRA DO CAMINHO (Brasil, 2012), de Breno Silveira. Com João Miguel, Vinícius Nascimento, Dira Paes e Ludmille Rosa. Fox. 102 minutos. 12 anos.
Veja o trailer de À Beira do Caminho.
Tags: À Beira do Caminho, a beira do caminho crítica, a estrada como a vida, a vida é bela, Breno Silveira, cinema/crítica - à beira caminho, cinema/crítica a estrada como a vida, Dira Paes, dois filhos de francisco, Era uma Vez, fuga da realidade, João Miguel, léa penteado, ludmilla rosa, paternidade, patricia andrade, roberto benigni, Roberto Carlos, roberto e erasmo carlos, Vinicius Nascimento










