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À BEIRA DO CAMINHO/Crítica – a estrada como a vida

Publicado em 22/08/2012 - 7:27 por | Comentar

Categorias: CRÍTICAS DE FILMES

Com um roteiro de primeira qualidade, uma narrativa pontificada pela emoção e sublinhada pelas canções de Roberto Carlos, Breno Silveira faz de À Beira do Caminho uma bela jornada pela redenção dos erros humanos

“Viver é como desenhar sem borracha”. Esta primeira frase destacada no para-choque do caminhão de João, o personagem central de À Beira do Caminho, expressa o sentido da jornada por ele empreendida. A estrada se torna metáfora da existência, o trajeto no qual as escolhas vão estabelecendo a qualidade do asfalto que se percorre na vida. À Beira do Caminho trata justamente disso, das consequências das escolhas, nas quais estão contidos os acertos e os erros. No filme, os erros ganham uma dimensão de efeitos danosos e de trágicas consequências, e, por isso, expostos comodifíceis de serem apagados, esquecidos ou superados.

A história de autoria de Léa Penteado e roteirizada por Patrícia Andrade, em um trabalho não menos do que notável, trafega justamente nessa temática existencialista relativa aos erros que desestruturam e da necessidade de redenção para o reencontro do equilíbrio e da felicidade. Esta, a base dramática de À Beira do Caminho.

A temática central se divide em duas partes: a primeira, estabelecida na dor e sofrimento do João (João Miguel, em atuação memorável), e a segunda, na abertura da possibilidade de sua redenção. Em suma, o direito a uma segunda chance. Curiosamente, essa segunda chance não se desenvolve, dramaticamente, como o “passar uma borracha no passado”, como costuma dizer o ditado popular – algo impossível na temporalidade da vida –, mas como uma procura de reparação moldada na superação psicológica e na grandeza do reconhecimento dos atos. Erros, existência e redenção, narrados em cadeia, fazem de À Beira do Caminho o mais brilhante filme nacional da temporada.

Há um detalhe importante no filme de Breno Silveira, o qual vai de encontro a minha visão de cinema: a emoção. Em entrevista, o cineasta afirmou que “como diretor, sempre achei que meu dom é o de emocionar a plateia, se não for um filme emotivo, não me interessa fazer. Acho que jamais vou fazer uma comédia, uma ficção ou um thriller”.

Emoções genuínas

Raros cineastas conseguem, como Breno, transmitir a emoção de uma história para a plateia. Dois Filhos de Francisco deu-lhe a possibilidade de provar isso e, pulando o fracasso de Era uma Vez, o cineasta reencontra a sua redenção com À Beira do Caminho, um filme que transmite emoções genuínas. Curiosamente, são justamente os cineastas que impregnam seus filmes de emoção, os mais alvejados pela crítica.

Há alguns dias li um comentário do crítico italiano Antonio Bracco, do site “Coming Soon”, no qual ele chama a atenção para o fato de que cineastas e críticos “tendem a esquecer que o público comum precisa de histórias as mais simples possíveis, que toquem seus acordes emocionais e sejam capazes de despertar as duas reações mais genuínas da infância à velhice, as quais acompanham a vida de todo ser humano: o riso e as lágrimas”. Essa percepção do crítico se encaixa na obra de Breno Silveira.

A história escrita por Léa, adaptada por Patrícia e levada ao cinema por Breno oferece esses pequenos e simples requisitos tratados por Bracco. As lágrimas, então, são um problema sério porque a obra passa a ser identificada como “lagrimenta” e “Chorosa”. Claro, há cineastas que planejam meticulosamente seus filmes para a obtenção desse efeito na plateia – exemplo disso é o horrroso A Vida é Bela, de Roberto Benigni, o qual conseguiu enganar muita gente ao transformar os guetos nazistas em ambientes de grandiloquente poesia.

À Beira do Caminho não trata de uma história pomposa e grandiloquente, com grandes lances de dramaticidade. A virtude, encontra-se em seu enredo simples, com uma contida dramaticidade moldada na angústia de um personagem atormentado pelo sentimento de culpa e que não vê a possibilidade da obtenção do perdão. Daí, as suas dores criadas no passado que não se desgrudam dele no presente.

A distância, outra temática presente no filme sublinhada pelas canções de Roberto e Erasmo Carlos, dimensiona o “peso na consciência” que conduz o conturbado João em um processo de “fuga da realidade”, a ponto de abandonar a música para se tornar um caminhoneiro que, entre a solidão e o tormento, passa a viver à beira do suicídio.

Paternidade: o grande tema

Esse enfoque na distância da família, amigos e dos próprios semelhantes como um ato de penitência, ganha dimensão marcante. Penitência, na visão religiosa, uma busca de arrependimento, uma forma de pagamento pelos pecados cometidos, ou seja, o pedido de perdão. A imagem da santa, na boleia do caminhão, em close, numa das imagens iniciais, expressa essa condição.

Mas, a grande temática em desenvolvimento em À Beira do Caminho, a paternidade, recebe um tratamento sensível e cuidadoso. E esse é um dos grandes temas em discussão da sociedade brasileira, com milhares de ações de testes de paternidade perambulando pelos tribunais. A questão, aqui, não é do homem que “pulou fora” ou “desapareceu”, mas a do homem abalado pela perda e amargurado pelo sentimento de culpa.

A paternidade, em À Beira do Caminho, desenvolve-se duas frentes. A primeira, pelo garoto Duda (a revelação Vinícius Nascimento) em sua busca pelo pai; e a segunda, em João, pela dor e a vergonha pelo abandono da filha. A determinação e a esperança de Duda em encontrar e conhecer o pai são instrumentos que passam a questionar a cabeça do caminhoneiro , cuja dor e sofrimento são amenizadas ao ouvir as canções na voz de Roberto Carlos. Elas, as canções, formam um vivo personagem que emoldura dramaticamente a história de esperança, sofrimento e redenção de Duda e João.

No outro lado da estrada situam-se as duas principais personagens femininas do enredo, Rosa (Dira Paes) e Helena (Ludmilla Rosa), pelas quais a vida de João trafega em meio aos tormentos. Na observação dos tormentos gerados pelos erros, destaca-se a figura da sexualidade, aquela difícil de ser segurada. Em um segundo plano, o destino que parece manter a vida humana sob curtas rédeas. Rosa, pela qual a vida de João também perpassa, expressa o perdão feminino em sua capacidade de amadurecer e de projetar o futuro – a consciência em estado latente. Entre Duda e Rosa, resta a João juntar os cacos de sua existência e mostrar alguma grandeza.

O desfecho feliz de À Beira do Caminho – e sou fã incondicional de um final feliz – é um dos mais belos que o cinema brasileiro já criou. Erros, sofrimento e redenção formam o trio do sentido da existência humana. Existência que, no fime de Breno Silveira, se expressa com realismo, lirismo e emoção de conceder aos seus personagens a humildade em entender o perdão como processo da vida e na grandeza de concedê-lo a si próprio. Afinal, a estrada não tem fim. Um belo filme.

Ficha Técnica

À BEIRA DO CAMINHO (Brasil, 2012), de Breno Silveira. Com João Miguel, Vinícius Nascimento, Dira Paes e Ludmille Rosa. Fox. 102 minutos. 12 anos.

Veja o trailer de À Beira do Caminho.

Imagem de Amostra do You Tube

 

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À BEIRA DO CAMINHO/Crítica – um road movie ao som de Roberto Carlos

Publicado em 09/08/2012 - 18:35 por | 1 Comentário

Categorias: CRÍTICAS DE FILMES

Um transbordar de emoções. É o que aguarda o espectador que se permitir emocionar com À Beira do Caminho (2012), de Breno Silveira. Quem viu 2 Filhos de Francisco (2005) sabe do que o diretor é capaz quando une música e cinema. E tendo Roberto Carlos como trilha sonora, então, é preparar-se para muitas emoções

Claro que gostar ou não do filme depende do grau de tolerância do espectador ao sentimentalismo, que Silveira não se envergonha em abraçar. O cineasta afirmou que seu dom é o de emocionar a plateia. “Se não for um filme emotivo, não me interessa fazer”, disse ele.

A história é simples, mas sua condução e seus personagens aquebrantados por tragédias pessoais fazem a diferença. Há um caminhoneiro (João Miguel) que perdeu a esposa (Ludmilla Rosa) em um acidente e que vive atormentado por memórias do passado, sejam as boas, sejam as aterrorizantes. Ele procura fuga através do trabalho e da bebida. E de vez em quando fica remoendo o passado, ouvindo canções de Roberto Carlos em seu caminhão. A primeira delas, “A distância”, já sintetiza a situação do personagem, com a dor da saudade da amada o atormentando.

Por destino ou acaso, ele encontra um garotinho escondido em seu caminhão. Duda (Vinicius Nascimento), o garoto, diz que sua mãe morreu e que ele procurará o pai que nunca conheceu, em São Paulo. A relação entre os dois, a princípio, é de difícil comunicação, até porque João não é uma pessoa muito sociável. Não é preciso ser nenhum gênio para saber que o sentimento entre os dois crescerá ao longo do filme. Ambos têm a perda e a saudade como sentimentos comuns; e isso pode ser o suficiente para uma aproximação.

A história guarda algumas similaridades com Central do Brasil, de Walter Salles, mas tem identidade própria. Embora possamos classificá-lo como um melodrama, há alguns momentos de suave alívio cômico, como nas frases de parachoques de caminhão. Uma delas diz: “Viver é como desenhar sem borracha”. Essa frase ajuda a resumir em poucas palavras o drama do personagem, já que, não à toa, ele vive escrevendo e riscando num caderninho. Suas anotações têm mais riscos do que exatamente palavras aceitas por ele. O riscar as palavras carrega essa metáfora da vida, esse desenhar (ou escrever, no caso) sem borracha.

O filme poderia ter mais canções do Roberto, mas o Rei não autorizou boa parte delas, embora curiosamente tenha sido dele a ideia de incluir “A distância”. Tanto essa canção quanto a que encerra o filme (“O portão”) se integram perfeitamente à história. Mas nem só de Roberto se faz a trilha: há também Márcio Greyk com “Impossível acreditar que perdi você”, Bartô Galeno com “No toca-fita do meu carro”, e Antônio Marcos com a sua versão de “Como vai você”.

À Beira do Caminho foi o grande vencedor do último Cine PE, faturando os prêmios de melhor filme, melhor roteiro, melhor ator (João Miguel), ator coadjuvante (o menino Vinicius Nascimento) e melhor filme pelo júri popular. Espero que essa representatividade junto ao público popular do festival se reflita no circuito comercial.

O filme entra em cartaz nesta sexta-feira, 10.

Ficha técnica

À BEIRA DO CAMINHO (Brasil, 2012), de Breno Silveira. Com João Miguel, Vinicius Nascimento, Dira Paes, Ângelo Antônio, Ludimila Rosa, Denise Weinberg. Fox. 90 min. 14 anos.

Veja o trailer oficial:

Imagem de Amostra do You Tube

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CINE CEARÁ-2012/Mostra Lucy Barreto – AMOR BANDIDO

Publicado em 02/06/2012 - 19:37 por | Comentar

Entre os filmes produzidos por Lucy Barreto, Amor Bandido (1981), de Bruno Barreto, é um dos mais interessantes e um dos menos badalados do diretor. O diretor de Dona Flor e seus Dois Maridos (1976) mostra o mundo cão que era comum nas produções nacionais do período em trama de amor e crime. O filme está disponível em DVD e merece ser descoberto

A Mostra Lucy Barreto, exibida na Casa Amarela Eusélio Oliveira, sempre às 15 horas, tem em sua programação seis filmes produzidos por Lucy Barreto: Amor Bandido, de Bruno Barreto; Bye Bye, Brasil (1980), de Cacá Diegues; Índia, a Filha do Sol (1984), de Fábio Barreto; O Que É Isso, Companheiro? (1996), de Bruno Barreto; O Quatrilho (1995), de Fábio Barreto; e o documentário Grupo Corpo, 30 Anos – Uma Família Brasileira (2006), dirigido pela própria Lucy Barreto.

Amor Bandido, exibido no sábado, dia 2, é um retrato de sua época, início da década de 1980, em um mundo pré-AIDS, ainda influenciado pela discoteca e o estilo de vida dos anos 1970, com uma liberdade maior nos costumes. O filme também antecipava o neon que caracterizaria o cinema pós-moderno produzido na década de 1980. Aliás, um dos aspectos do pós-modernismo, que é a citação, aparece em um momento em que o casal do filme passa em frente a um cinema de rua que está exibindo Chuvas de Verão, de Cacá Diegues, com o nome de Cristina Aché escrito em destaque.

Na trama, Paulo Gracindo é um detetive da polícia que sofre com o fato de sua filha Sandra (Cristina Aché) dançar seminua e em espetáculos sensuais em uma boate do Rio de Janeiro. Ele também está sendo atormentado por uma série de crimes que vem acontecendo na cidade: um assassino tem matado taxistas. A pressão de seu chefe, que não respeita seus cabelos brancos, também é motivo para mais uma humilhação.

Enquanto isso, a vida de Sandra muda, depois do suicídio do travesti que dividia o quarto com ela. O sujeito com quem o suicida estava saindo (Paulo Guarnieri) aparece em sua casa para pegar uma fotografia e acaba iniciando um relacionamento com ela. Principalmente depois que ele mostra ter dinheiro. Assim, na boate, ela se entrega ao rapaz, ao som de “Amada Amante”, de Roberto Carlos. Aliás, o Rei não aparece só neste momento: ele surge na tela do cinema no filme que eles vão assistir, na capa do disco em seu quarto, nos diálogos, e em mais duas outras canções que tocam ao fundo, na boate ou em algum boteco.

Quem já viu outros filmes de Barreto do período, como Dona Flor e Seus Dois Maridos e O Beijo no Asfalto (1981), sabe que ele tinha também um domínio em se tratando de cenas sensuais. Que, aliás, não era exclusividade dele. O nosso cinema foi bem mais sensual nesse período. O gênero policial também ganhou um contorno bem próprio no cinema brasileiro do período. E o lado policial do filme, representado principalmente pelo personagem de Paulo Gracindo, torna-o merecedor de reconhecimento.

Lucy Barreto, homenageada do festival

Ficha técnica:

AMOR BANDIDO (Brasil, 1981), de Bruno Barreto. Com Cristina Aché, Paulo Gracindo, Paulo Guarnieri, Ligia Diniz, Flávio São Thiago, José Dumont.

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