Produzido por Oren Peli, Chernobyl utiliza-se do acidente nuclear na Rússia há 25 anos para criar uma história de terror na qual o susto é o principal ingrediente

Oren Peli tornou-se o novo Midas de Hollywood quando a Paramount lançou, em 2009, um pequeno filme de terror que ele tinha feito em 2007 com apenas 14 mil dólares. Gravado durante dez dias em sua própria casa com uma câmera digital, com amigos assumindo o papel de atores (Katie Featherston e Micah Sloat) com um cachê de 500 dólares e depois transposto para o celuloide, Atividade Paranormal se tornou um fenômeno de público tanto dentro quanto fora dos EUA.
Nos dois anos de hiato entre produção e lançamento, Peli mostrou o seu filme a Steven Spielberg, que sugeriu a mudança do desfecho da história, a qual ele criou quando uma caixa de sabão em pó caiu de uma prateleira e ele a encontrou em um lugar onde seria impossível ela ter ido parar. Spielberg encaminhou o filme a Paramount, que, por sua vez, conseguiu o apoio de Christopher Chacon, renomado especialista em fenômenos paranormais para ser o promotor e divulgador quando do seu lançamento nos cinemas. A jogada de marketing deu certo, tanto que arrecadou US$ 107 milhões nos cinemas dos EUA e mais US$ 83 milhões no mercado internacional.
Três anos depois, com duas sequências de Atividade Paranormal (a segunda custou US$ 3 milhões e rendeu US$ 177 milhões; e a terceira, US$ 5 milhões, renda mundial de US$ 205 milhões) e um longa independente, Sobrenatural (Insidious, 2010, custo de US$ 1,5 milhão e renda mundial de US$ 97 milhões), Peli, como um produtor de sucesso, agora pode projetar e financiar os seus próprios enredos.
Assim, escreveu e produziu a telesérie The River (que depois de oito episódios foi cancelada pela NBC), acaba de concluir as filmagens da ficção científica Área 51, produz The Lords of Salem, de Rod Zombie, com Maria Conchita Alonso e Clint Howard (estreia no Brasil em 26 de outubro), e Atividade Paranormal 4, dirigido por Henry Joost e Ariel Schulman, que será lançado em 19 de outubro próximo.
Com os seus filmes de terror de baixo orçamento e cujos enredos são parecidos uns com os outros, Peli pode ser considerado o novo Roger Corman. Ele tem uma perspicácia para colocar seus enredos em lugares famosos: The River se ambienta no Amazonas; Área 51 no famoso e desconhecido laboratório militar onde, dizem, são desenvolvidas pesquisas científicas com a colaboração de extra-terrestres; e Salém é a famosa cidade estadunidense de Massachuchets que ficou famosa por, supostamente, abrigar atos de bruxarias.
O mais recente produto saído da mente de Oren Peli se intitula Chernobyl (no título original, Chernobyl Diaries, Diários de Chernobyl na tradução). Como se sabe Chernobyl é a cidade localizada no norte da Ucrânia que abrigava uma usina nuclear com quatro reatores e, em 26 de abril de 1986, um deles explodiu, gerando uma nuvem de vapor radioativo que contaminou 200 mil quilômetros (atualmente o governo russo reduziu para 30 quilômetros a área proibida ao acesso de pessoas) da Ucrânia, e afetou a Rússia e a Biolorússia, além de Suécia, Holanda, Bélgica, Reino Unido, Escandinávia, Eslováquia, Romênia, Bulgária, Grécia, Turquia, Polônia e outros países da Europa. Estima-se que 200 mil pessoas tenham perecido no acidente.
Confira um vídeo reconstituindo, historicamente, os acidentes nucelares, de Three Mile Island, nos EUA, passando pela contaminação do Céaio 137 no Brasil, Chernobyl, na Rússia, e mais recentemente, Fukushima, no Japão.
Peli apropria-se desse cenário de tragédia para criar um enredo no qual três casais de jovens turistas estadunidenses decidem, conduzidos por um guia russo, adentrar a cidade fantasma de Pripyat (a qual abrigava os trabalhadores da usina nuclear) e de lá obter acesso à área proibida de Chernobyl a fim de conferir a dimensão do desastre e o cenário de desolação.
Na região que circunda as cidades não existem maus espíritos ou fantasmas, nem sobreviventes deformados pela radiação e cachorros de tamanhos descomunais que se alimentam de carne humana. E é justamente isso o que Peli coloca em Chernobyl, o filme.

Desta vez, como originalidade, Peli não coloca os acontecimentos sob o estilo found footage (filmagem encontrada, como em A Bruxa de Blair) ou no estilo câmera na mão (como em Cloverfield – o Monstro, A Filha do Mal), embora, no início, ameace, quando um dos personagens filma a si mesmo em um espelho.
Encarregado de dirigir os percalços dos três casais que se perdem na cidade e tentam sair de lá de todas as formas, o estreante Bradley Parker, ex-diretor de segunda unidade, efeitos visuais (Planeta Vermelho, Peter Pan) e assistente de direção de Matt Reeves em Deixe-me Entrar, utiliza como principal recurso a colocação da câmera em ambientes fechados e o mais perto possível dos atores para transformar a apreensão de todos em dramaticidade. E essa a tônica a e constância do filme.
Parker tenta conseguir dramaticidade, também, com a onipresença da câmara em alguns momentos chaves - como a da morte do guia, quando a câmara não o acompanha – e, ficando no interior do carro, cria um clima de apreensão e suspense. Claro, isso pode levar o público a se identificar com o filme, efeito esse que teve seu efeito positivo na série Atividade Paranormal.

Mas isso se revela, ao longo do filme, como um recurso pobre, à medida na qual cada um dos personagens vai desaparecendo de cena. Nota-se que esse recurso se dá, também, em razão do baixo orçamento (e revelam alguns sites, o custo total teria ficado em torno dos 5 milhões), apesar das filmagens terem sido feitas na Sérvia e na Hungria.
Resta a Chernobyl apelar para outro recurso, o da exposição da violência, a qual, aqui, se dá de forma moderada. As mortes vão se sucedendo como elementos de motivar a apreensão do espectador. E apesar de uma câmera incessantemente trêmula durante 90 anos, a narrativa cansa com as mesmices dos acontecimentos ao longo de um enredo pobre, cuja ação se desenvolvea com uma arrastada sensação de deja vu.

Chernobyl demonstra que este modelo de filme já deu o que tinha de dar. Mas, claro, Oren Peli não vai se dar por vencido e vai continuar insistindo, pois afinal, há quem goste desse tipo de filme. Assim como Cloverfield, REC, A Filha do Mal e outros menos votados, Chernobyl não vai colar nas bilheterias: tanto que, nos EUA, só rendeu, até agora US$ 18 milhões. Peli, claro, não vai ter prejuízo e até terá lucro com a renda internacional. Mas isso não vai livrar Chernobyl da marca de um filme obsoleto.
Ficha técnica
CHERNOBYL (Chernobyl Diaries, EUA, 2012), de Bradley Parker, com Alex Feldman, Devin Kelley e Ingrid Bolso Berdai. 90 minutos. 14 anos. Paris Filmes.
Confira o trailer.