Blog de Cinema

Busca


TITANIC – a volta do colosso

Publicado em 15/04/2012 - 19:38 por | 7 Comentários

Categorias: CRÍTICAS DE FILMES

15 anos depois, Titanic, o filme de James Cameron, retorna aos cinemas. Ampliado em suas qualidades pela tecnologia do 3D, história e ficção se unem em um filme magistral

 Há quem ressalte que o relançamento de Titanic se deve à pretensão de James Cameron de ganhar mais dinheiro com a data que marca os 100 anos da tragédia do navio inglês fabricado por irlandeses, ocorrida na noite de 14 para 15 de abril de 1912. Pergunto eu: e isso é argumento para desmerecer as qualidades da obra cinematográfica?

Esse detalhe não pode e nem deve interessar aos críticos de cinema que se pautam pela seriedade e que exercem a profissão como uma missão de unicamente promover a análise da obra cinematográfica e abri-la para o entendimento do espectador em suas qualidades e defeitos. Não é da competência do crítico analisar se um filme foi feito ou não com a pretensão de fazer dinheiro ou se foi fracasso ou seu sucesso junto ao público. Essas são questões pouco relevantes e podem ser utilizadas apenas como informações adicionais para o público. Como qualquer outro investimento, a produção cinematográfica visa o sucesso financeiro. São as grandes produções, os chamados blockbusters, que garantem a feitura das pequenas produções e os filmes de arte, os quais rendem prestígio ao estúdio e a seus realizadores.

Amado e odiado

Titanic está nos filmes mais amados e odiados da História do Cinema. Há quem o odeie por seu sucesso, há quem o odeia por sua trilha sonora e, principalmente, por ser uma produção de Hollywood e até mesmo por seu final espiritual. Mas, analisado sem o olhar do preconceito e da ideologia cega, é uma das obras mais perfeitas já feitas até hoje.

Há 15 anos, a obra pela qual James Cameron trabalhou por quase uma década, custou 200 milhões de dólares. A primeira versão tinha quase cinco horas. A montagem final a definiu com três horas e 14 minutos. Cameron sofreu pressões por todos os lados dos chefões da Fox. Essa duração daria para os cinemas contarem apenas com 3 sessões diárias. Mais sessões, claro, mais dinheiro. Renda total do filme ao final de 1998: 1,8 bilhões de dólares, valor esse só superado em 2010 por Avatar, também de Cameron.

Roteiro, a base

A base do sucesso de Titanic está no seu roteiro, o qual concilia, harmoniosamente, história e ficção, personagens verdadeiros e outros inventados. São os personagens de ficção que se interagem aos fatos e personagens reais. Estão nessa interação, elementos levantados pela extensa pesquisa levada a efeito por Cameron e sua equipe. Detalhes sobre os lautos jantares reservados aos passageiros da primeira classe, assim como as reuniões masculinas após as sobremesas, os assuntos discutidos, as cervejadas e a descontração dançante dos passageiros da terceira classe, as presença de Bruce Ismay e Thomas Andrews, respectivamente, o presidente da White Star Line e o engenheiro construtor do Titanic, as conversas entre os tripulantes, as decisões tomadas pelo Capitão Edward James Smith, a atuação da banda de músicos britânicos, o despreparo e a falta de equipamentos dos vigilantes no alto do posto de observação, tudo foi reconstituído conforme obtido pelas pesquisas.

Outros personagens reais trafegam pelos acontecimentos, como o multimilionário John Jacob Astor (Eric Braeden) e esposa Madeleine (Charlotte Chatton), o empresário estadunidense Benjamin Guggenheim (Michael Ensigh), seu motorista René Pernot (eles desceram com o navio tomando conhaque e fumando charutos) e sua jovem amante Leontina Aubart (que sobreviveu), a poliglota e pioneira do feminismo Margareth Molly Brown (Kathy Bates), a Condessa de Rothes (Rochelle Rose) o coronel Gracie (Bernard Fox), entre outros. Molly, que queria que o seu bote voltasse para resgatar os sobreviventes, foi impedida. Mas a bordo do Carpathia deu total apoio a cada um deles e criou uma associação de assistência aos que escaparam do naufrágio, assumindo uma função de liderança e proteção legal em termos jurídicos.

 

A verdadeira Molly Brown e Kathy Bates, a sua intérprete em TITANIC

Reconstituição histórica

Cameron chegou ao ponto de conseguir com a antiga White Star Line a planta original do Titanic (que é mostrada após o abalroamento do navio no gelo), mandar refazer todos os móveis e até a prataria original, tendo ainda reconstruído o Titanic, item por item, numa versão 80% menor. Um trabalho memorável.

Detalhes da pressão de Ismay sobre o capitão para dar mais velocidade ao navio, os atos de Smith desconsiderando os alertas de gelo naquela época do ano, as informações sobre a estrutura do navio, as tentativas desesperadas para salvá-lo após o abalroamento no gelo que provocou um rasgo de 90 metros em seus 274 metros de cumprimento, o desalento de Thomas Andrews anunciando o afundamento do navio em pouco mais de uma hora, a incompetência dos oficiais encarregados de colocar a quantidade correta de passageiros nos botes salva-vidas, está tudo lá, conforme aconteceu.

Há ainda as questões técnicas sobre o progressivo afundamento do gigante de aço pela proa, a sua inclinação em direção ao fundo do oceano, a água encobrindo a meia nau e a consequente elevação da popa, o que levou o Tatanic a ser praticamente partido ao meio, estão igualmente lá, reconstituídos em detalhes, concedendo uma visão dantesca de uma tragédia provocada por uma série de atos irresponsáveis.

 

Chama a atenção, ainda, o som. A partir do abalroamento no gelo, passa a se ouvir o ranger da estrutura do navio tal qual uma agonia de morte. Começa baixo e vai aumentando progressivamente, até se estrondar com o rompimento total das emendas de aço, com as torres e chaminés caindo sobre os que tentavam fugir da embarcação a nado.

Inseridos na realidade do Titanic, os fictícios Jack Dawson (Leonardo Di Caprio) e seu amigo Fabriizio (Danny Nucci), Rose De Witt Bukatter (Kate Winslett), sua mãe Ruth (Frances Fisher), seu violento noivo Cal Hockley (Billy Zane) ensejam que a história seja reconstituída com seus pequenos e grandes detalhes. Mas, esses personagens não têm apenas com essa função. Eles são os responsáveis pela efetivação da dramaticidade, do romance, da aventura e da ação no desenvolvimento da história. Assim, em Titanic, realidade e ficção se mesclam para reconstruir uma história que até hoje tem novos detalhes a contar, conforme se desenvolvem as pesquisas.

Uma época em mutação

Os personagens também marcam a época do Titanic, o início do século XX. Enquanto o navio é exposto como o orgulho do progresso e da conquista da tecnologia pelo homem, criação arrogante capaz até de ser desafiadora e superior à própria divindade, Ruth e Cal representam os últimos representantes de uma tradição social em decadência. Por sua vez, Jack e Rose são expressos como a juventude mudando as antigas regras, quebrando as tradições e ensejando caminhar com suas próprias decisões. Claro, isso só veio a acontecer a partir dos anos 60, mas o processo começou bem antes.

O relançamento de Titanic proporciona, além da revisão da obra, a qual se mostra perene à passagem do tempo, uma análise da conversão do 35mm para a tecnologia digital do 3D. E novamente, assim como tinha executado em Avatar, Cameron faz uso do 3D em função do filme. A relevância do 3D aparece nas cenas do Titanic deslizando sobre o oceano, em toda a longa sequência da reconstituição do desastre, nas cenas interiores dos corredores e nas cenas noturnas do navio, e, principalmente, na memorável sequência do jantar.

Perspectiva, nação de tamanho e distância e profundidade de campo proporcionam o caráter da tridimensionalidade e a sensação de imersão dentro do filme. Cameron não utiliza objetos na direção de câmera. Ao contrário. Na sequência do afundamento do Titanic posta a câmera sempre na direção oposta à queda dos corpos, acentuando a dimensão de distância e tempo. 

Titanic, o filme, resgata o fato histórico em seu status e dimensão, e, como obra de arte, acrescenta-lhe a dramaticidade e a emoção. Nada mais, nada menos, do que uma obra-prima.

Mais informações

Titanic (Titanic, 1998-2012), de James Cameron. Com Kate Winslet, Leonardo Di Caprio, Kathy Bates, Frances Fisher e Billy Zane. Fox. 195 minutos. 10 anos.

Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,


Páginas

Facebook

Editora Verdes Mares Ltda.

Praça da Imprensa, S/N. Bairro: Dionísio Torres

Fone: (85) 3266.9999