
Nova espécie de gralha descoberta vive apenas no sul do Amazonas e corre risco de extinção Foto: Luciano Moreira Lima / Pesquisa Fapesp
A ornitologia brasileira fez sua maior descoberta desde 1871: 15 novas espécies de aves da Amazônia foram descobertas e serão formalmente descritas numa série de artigos científicos que serão publicados em julho num volume especial do Handbook of the birds of the world, da editora espanhola Lynx Edicions. Essa é uma coleção de 17 livros que é adotada como fonte de consulta por ornitólogos profissionais e amadores de todo o mundo.
Os autores das descrições pertencem a três instituições nacionais de pesquisa – Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZ-USP), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), de Manaus, e Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), de Belém – e ao Museu de Ciência Natural da Universidade Estadual da Louisiania (LSUMNS), Estados Unidos. Onze das novas espécies são endêmicas do Brasil e quatro podem ser encontradas também no Peru e na Bolívia.
Oito delas ocorrem somente a oeste do rio Madeira, na parte ocidental da Amazônia; cinco habitam exclusivamente terras situadas entre esse curso d’água e o rio Tapajós, no centro da região Norte; e duas vivem apenas a leste do Tapajós, no Pará, na porção mais oriental da floresta tropical. No entanto, até que o livro seja oficialmente publicado, o nome científico e alguns detalhes sobre a anatomia e o modo de vida das novas espécies não podem ser divulgados. Dessas aves até agora desconhecidas e sem registro na literatura científica, a maior e mais espetacular é uma espécie de gralha (foto), do gênero Cyanocorax, com cerca de 35 cm de comprimento, que vive apenas na beira de campinas naturais situadas, entre os rios Madeira e Purus, no Amazonas.
“Essa gralha está ameaçada de extinção. Seu hábitat está em perigo e podemos perder a espécie antes de ter tido tempo de estudá-la a fundo. A nova gralha também ocorre numa zona de campos naturais no sul do Amazonas, próximo a Porto Velho, onde há muitos colonos do Sul do país, que a confundem com a gralha-azul [um dos símbolos do Paraná”, diz Mario Cohn-Haft, curador da seção de ornitologia do Inpa, principal descobridor do cancão-da-campina, nome popular da ave. Sua principal região de ocorrência fica próxima à rodovia BR-319, que liga a capital amazonense a Porto Velho. A estrada está sendo reformada e os pesquisadores temem que o acesso facilitado ao local coloque em risco o hábitat da espécie.
Com exceção de uma ave da ordem dos Piciformes, que inclui tucanos e pica-paus, as demais espécies amazônicas agora apresentadas à comunidade científica pertencem à ordem dos Passeriformes. Popularmente chamados de passarinhos, os membros desse grupo representam aproximadamente 55% das espécies de aves conhecidas, como os pardais, canários, bem-te-vis e tantas outras. Além da gralha e do parente distante dos tucanos, serão descritos no livro cinco espécies da família Thamnophilidae (na qual se incluem os papa-formigas), quatro da família Dendrocolaptidae (todas novas formas de arapaçus), três da vasta família Tyrannidae (que compreende 400 espécies presentes do Alasca à Terra do Fogo) e uma da pequena família Polioptilidae (composta por menos de 10 espécies, em geral aves vulgarmente denominadas balança-rabo).

Nova espécie de Arapaçu só foi descoberta com a ajuda do Exército, devido a ameaça do garimpo ilegal Foto: Zig Koch / Pesquisa Fapesp
Biodiversidade conhecida com ajuda do Exército e ameaça do garimpo
Em termos numéricos, as novas espécies amazônicas representam um acréscimo de quase 1% na biodiversidade nacional de aves. “Somos o segundo país com maior número de espécies de aves conhecidas, cerca de 1.840. Apenas a Colômbia tem mais espécies do que nós, aproximadamente 1.900. Mas, daqui a uma década, devemos chegar às 2 mil espécies de aves conhecidas no Brasil. Há vários exemplares de aves desconhecidas nos museus brasileiros, oriundos de diversos biomas, que serão descritos nos próximos anos”, afirma Luís Fábio Silveira, curador do setor de ornitologia do Museu de Zoologia da USP, um dos coordenadores da iniciativa.
Para conseguir a façanha, os cientistas precisaram até do apoio de proteção armada para entrar em regiões que poderiam abrigar novas formas de aves. A localidade em que vivia um tipo de arapaçu-de-bico-torto (foto), é a Floresta Nacional de Altamira, próxima à rodovia BR-163, no sul do Pará. A área é uma unidade de conservação. “Para podermos trabalhar com seguranç, tivemos de ser escoltados por soldados. Havia um garimpo ilegal em funcionamento na unidade. A tensão de trabalhar num lugar assim é grande e, não fosse a presença do Exército, não teríamos conseguido”, conta Alexandre Aleixo, da seção de ornitologia do MPEG.
Rios da Amazônia “criam” novas espécies
De cada ave descoberta, os pesquisadores também sequenciaram alguns milhares de pares de bases de genes presentes no DNA nuclear e nas mitocôndrias, organelas celulares responsáveis pela produção de energia que têm genoma próprio, independente. O material genético foi comparado com o DNA de espécies já conhecidas a fim de averiguar sua singularidade e montar, quando possível, relações de parentesco ou uma árvore filogenética. “Para boa parte das novas aves que estamos descrevendo, a confirmação de que se tratava de espécies diferentes foi obtida com a inclusão do aspecto genético”, comenta Aleixo.
Os estudos genéticos são capazes de revelar informações preciosas sobre as origens das espécies. A história evolutiva de duas novas aves agora descritas, dois chorozinhos do gênero Herpsilochmus, é bem ilustrativa do tipo de contribuição que pode ser obtida com essa abordagem. Ambas as espécies são quase iguais do ponto de vista morfológico, mas suas vocalizações são nitidamente distintas. Uma das aves habita um trecho da margem direita do rio Madeira e outra vive apenas na margem esquerda. Nesse caso, o Madeira funciona como uma barreira natural entre as duas populações de aves, que não mantêm contato uma com a outra.
A separação prolongada dos dois grupos de chorozinhos levou ao processo evolutivo que os biólogos denominam especiação: o surgimento de uma nova espécie, no caso de duas, originadas da fragmentação de uma população ancestral comum e que hoje ocorrem em ambientes sem comunicação (efeito vicariante). Apesar das enormes semelhanças morfológicas entre as duas populações de chorozinhos, os estudos genéticos relevaram – e esse é o dado realmente surpreendente – que elas foram isoladas pelo Madeira há 2 milhões de anos atrás.
Com informações da Pesquisa Fapesp