“Conhecer para preservar; preservar para conhecer”.
O antigo ditado ambientalista serviu de inspiração para a primeira sequência de reportagens do Ceará Científico.
Trata-se da série “Fauna: o Ceará (ainda) tem disso sim!”, que tem como base de partida a matéria Ceará tem 55 espécies animais ameaçadas de extinção, publicada, também nesta quarta-feira (08), na versão online do caderno Regional.
Nos próximos quatro dias, nosso blog apresentará 55 espécies animais listadas como ameaçadas de extinção pelo Ministério do Meio Ambiente e que têm ocorrência observada ou prevista em nosso Estado.
São sete espécies de mamíferos, quinze de aves, quatro de répteis, duas de anfíbios, sete de peixes, uma de inseto, três de crustáceos, três de moluscos, duas de cnidários e onze de equinodermos. A cada dia vamos trazer informações sobre um ou mais grupos de animais e as espécies ameaçadas que vivem em terras alencarinas.
Hoje, vamos conhecer mamíferos e répteis ameaçados de extinção. Quinta-feira é a vez das aves. Já na sexta-feira, mostraremos os anfíbios e os peixes. E para fechar, na segunda-feira (13), conheceremos os invertebrados que correm mais risco de desaparecer no Ceará.
Mamíferos, nossos parentes mais próximos

A espécie Hadrocodium wui, pode ser um dos mais antigos mamíferos; fósseis foram datados como sendo de 195 milhões de anos atrás. Imagem: American Association for the Advancement of Science
Os mamíferos são animais vertebrados, que se caracterizam pela presença de glândulas mamárias e pêlos. Já foram catalogadas pouco mais de 5,5 mil espécies.
Os mamíferos atuais descendem dos sinapsídeos, répteis que surgiram no Carbonífero Superior (há aproximadamente 300 milhões de anos). Mas os primeiros mamíferos verdadeiros apareceram no período Triássico (há 220 milhões de anos atrás).
No entanto, foi só após a extinção em massa de dinossauros (ocorrida há 65 milhões de anos) e outros grandes grupos que os mamíferos puderam alcançar seu auge.
Apesar disso, um pouco antes (há 70 milhões de anos) já existiam os primeiros primatas, nossos ancestrais mais proximos.
O homem moderno surgiu entre 200 e 400 mil anos atrás, mas os primeiros hominídeos podem ter surgido perto de 4 milhões de anos no passado.
No Ceará, vivem (ou transitam em nosso território) sete mamíferos ameaçados de extinção. Há um canídeo (recém-descoberto), três felídeos, um sirênio, um quiróptero e um cetáceo.
Vamos conhecê-los um pouco melhor:
Cachorro-vinagre (Speothos venaticus)

Foto: UFPB/Divulgação
É o mais recentemente descoberto em terras cearenses, mais precisamente no município de Aratuba. Trata-se de um canídeo com corpo atarracado, orelhas, pernas e cauda bem curtas.
Seu comprimento médio é de 86,6 cm e o peso fica entre 5 e 7 kg. A coloração varia entre o marrom claro e o escuro. A gestação é de 67 dias, após a qual nascem de 3 a 4 filhotes. A espécie é encontrada até 1.500 m de altitude. A dieta é altamente carnívora.
Está ameaçado pelo desmatamento, pela fragmentação e alteração de habitats, por doenças e pela caça. A espécie é classificada como vulnerável quanto ao risco de extinção, mas as populações no Ceará devem ser extremamente raras.
Gato-maracajá (Leopardus tigrinus)

Imagem: Animal Earth
É a menor espécie de felino (ou felídeo) encontrada no Brasil e também uma das menos conhecidas. Tem porte semelhante ao do gato doméstico, podendo atingir de 60, 4 cm até 82, 9 cm de comprimento e pesar de 1,5 a 3,5 kg.
A cor de fundo da espécie varia entre o amarelo-claro e o castanho-amarelado, sendo que não é incomum encontrar indivíduos completamente negros. As manchas são encontradas com grandes variações em suas formas e tamanhos, assim como na coloração de fundo.
Os filhotes nascem após uma gestação de 73 a 78 dias, podendo chegar a até 4. Ocorre desde o nível do mar a até 3.353 m de altitude. A dieta inclui pequenos mamíferos e lagartos.
Está ameaçado principalmente pela perda/fragmentação do habitat e tráfico ilegal e está em situação vulnerável, quanto ao grau de risco de desaparecer.
Jaguatirica (Leopardus pardalis mitis)

Imagem: Feline Conservation Trust
A jaguatirica tende a ser a espécie de felino dominante nas áreas de cobertura vegetal mais densa, especialmente nas matas úmidas que ocorrem desde o nível do mar até 3.800 m.
Tem corpo esbelto, cabeça e patas grandes e cauda pouco curta, caracterizada pela presença de manchas, numa pelagem de fundo amarelo-ocráceo. O comprimento pode atingir até 1,46 metros e o peso até 15,1 kg.
O período de gestação varia entre 70 e 85 dias, após o qual nascem de 1 a 4 filhotes. O potencial reprodutivo máximo de uma fêmea de sete anos, em vida livre, é de 5 a 7 filhotes. São solitários e noturnos. Carnívora, come em média cerca de 700 g por dia.
Assim como as duas espécies anteriores é classificada como vulnerável ao risco de extinção e está ameaçada principalmente pela erda/alteração de habitat e pela caça.
Onça parda (Puma concolor greeni)

Imagem: ICMBio
É um felino de grande porte com coloração variando do marrom-acinzentado mais claro ao marrom-avermelhado mais escuro, com a ponta da cauda preta, podendo também apresentar uma linha escura na extremidade dorsal (costas).
O comprimento total para a espécie pode chegar até 2,30 metros, sendo que a cauda representa cerca de 35% deste total. O peso para animais adultos varia entre 34 a 48 kg para fêmeas e de 53 a 72 kg para machos.
Tem hábito crepuscular /noturno e é um dos carnívoros mais generalistas, apresentando uma dieta variada. Come desde pequenos mamíferos, répteis e aves, até presas maiores, como a capivara, e animais domésticos, como eqüinos, ovinos, bovinos e suínos.
A espécie ocorre em grande diversidade de biomas, do nível do mar até 5.800 m de altitude, em quase toda a América. Mas essa subespécie que ocorre no Ceará e em outras partes do Brasil também está vulnerável à extinção e é ameaçada pela perda/degradação de habitat e caça.
Morcego do nariz-achatado (Platyrrhinus recifinus)

Imagem: BoldSystems
São morcegos pequenos, têm coloração marrom-clara, sendo que o dorso é, mais escuro do que a parte ventral (barriga). Possuem um par de listras no rosto e uma listra nas costas, todas brancas.
Há ainda poucas informações sobre os hábitos dessa espécie, mas sabe-se que ela ocorre nos biomas de caatinga, cerrado e Mata Atlântica.
Pode ser considerada como vulnerável à extinção e ameaçada pela perda/fragmentação de habitat e pela própria falta de conhecimento da comunidade científica sobre ela.
Peixe-boi marinho (Trichechus manatus)

Imagem: Aquasis / Divulgação
É de longe entre as espécies de mamíferos que ocorrem no Ceará, a que está mais ameaçada de extinção, sendo classificada como criticamente em perigo. Os principais fatores de ameaça são a caça, as capturas acidentais, a perda do hábitat, o assoreamento, o desmatamento e o trânsito de embarcações.
Pode medir, quando adulto, entre 2,5 e 4 m e pesar de 200 a 600 kg. É a espécie mais conhecida entre os sirênios. Estudo de determinação da idade do peixe-boi marinho, feito com base na contagem de crescimento do osso tímpano-periótico, indica que o animal mais velho tem idade superior a 50 anos.
A coloração do corpo é acinzentada e o couro é áspero. Apresenta unhas nas nadadeiras peitorais e alimenta-se de algas, capim marinho, folhas de mangue entre outros. Os animais passam de 6 a 8 horas diárias se alimentando.
O intervalo médio entre o nascimento de filhotes é de três anos, que medem entre 0,80 e 1,60 m ao nascer. A fêmea permanece com o filhote por até dois anos.
Cachalote (Physeter macrocephalus )

Imagem: MarineBio
É uma espécie que pouco aparece no Ceará (principalmente no verão e no outuno) e tem distribuição geográfica muito ampla nos oceanos do planeta. Apesar disso está vulnerável à extinção, devido a fatores como caça, captura em redes de deriva e atropelamentos por embarcações.
É a maior baleia com dentes e apresenta grande diferença física entre os sexos. Os machos podem chegar a 18 m e pesar 57 toneladas, enquanto as fêmeas não ultrapassam os 12 m.
A espécie possui o espiráculo (equivalente às narinas por onde respiram) voltado para a parte anterior do corpo e desviado para a esquerda, assim o seu borrifo é diagonal. A cabeça é retangular e grande, podendo representar 1/3 do total do corpo.
A nadadeira dorsal é pequena e triangular. Sua coloração varia de preta a marrom, com regiões brancas ao redor da boca. A pele é enrugada a partir da cabeça para a região posterior do corpo.
Répteis, ancestrais um pouco mais distantes

O Hylonomus é talvez o fóssil de réptil mais antigo, sendo datado de 315 milhões de anos atrás. Imagem: Karen Carr
Os répteis também são animais vertebrados e deram origem a outros dois grandes grupos, os mamíferos (como vimos acima) e também as aves (que compartilham parentesco com dinossauros e crocodilos).
Surgiram pela primeira vez na Terra há cerca de 315 milhões de anos (o ramo que deu origem aos mamíferos surgiu pouco depois disso).
Foram os primeiros amniotas, ou seja, seus embriões são protegidos pela membrana amniótica (assim como nós), o que permitiu deixar de vez a necessidade de retornar à água ou aos ambientes úmidos para colocar seus ovos e os diferencia de seus ancestrais, os anfíbios.
Ao contrário de seus descendentes são ectotérmicos, ou seja não regulam a temperatura do corpo de forma autônoma. Apesar disso, são um pouco mais diversificados que os mamíferos, sendo registradas pouco mais de 6 mil espécies.
Mas a maior diversificação ocorreu na Era Mesozóica (entre 250 e 65 milhões de anos atrás), quando atingiram seu auge. Muitos dos grupos que viveram naquela era foram extintos após o provável choque da Terra com um asteroide.
Em nosso Estado, existem quatro espécies de répteis ameaçadas pela extinção, dessa vez por culpa do homem. Todas elas são tartarugas, répteis que são considerados por alguns pesquisadores como os descendentes da linhagem mais antiga, a dos anapsídeos.
Vamos conhecê-las mais:
Tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea)

Imagem: SyMBiosIS
É a espécie mais ameaçada de extinção entre os répteis que vivem no Ceará. Está classificado como criticamente em perigo devido a fatores como mortalidade acidental, poluição e perturbação humana.
O número anual de fêmeas que reproduzem no litoral brasileiro, é de no máximo 19 indivíduos. É a maior das espécies de tartarugas marinhas, atingindo de 500 kg até 1.000 kg. Sua carapaça não é ossificada como em outras tartarugas, sendo revestida por um tecido coriáceo, que deu origem ao nome da espécie.
As fêmeas que desovam no Brasil apresentam um comprimento curvilíneo médio da carapaça de 1,6 metros. Em cada desova são depositados entre 70 e 90 ovos. A incubação dura cerca de 60 dias, e o sexo das ninhadas é influenciado pela temperatura de incubação.
Alimenta-se de invertebrados marinhos tais como cnidários, ctenóforos e tunicados. É capaz de mergulhos profundos, atingindo mais de 1.000 m de profundidade, embora a maior parte dos mergulhos não ultrapasse 200 m.
Tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta )

Imagem: Trek Earth
Tem cabeça proporcionalmente grande em relação a seu comprimento total. Onívora, se alimenta de crustáceos, moluscos, peixes, cnidários e vegetais marinhos.
A reprodução ocorre entre os meses de setembro e março. As fêmeas botam ovos a cada dois ou três anos, com postura de 120 ovos em média. O período de incubação é de 50 a 60 dias. Os filhotes eclodem, à noite, rumando para o mar. Assim como a espécie citada anteriormente, o sexo dos filhotes é determinado pela temperatura de incubação dos ovos.
Entre as tartarugas ameaçadas de extinção no Ceará é a que corre menos risco, sendo classificada como vulnerável pela mortalidade acidental, perturbação humana e poluição.
Tartaruga-verde (Chelonia mydas)

Imagem: Starfish.ch
Também conhecida como aruanã, é uma tartaruga marinha distribuída por todos os oceanos, nas zonas de águas tropicais e subtropicais, com duas populações distintas no Oceano Atlântico e no Oceano Pacífico.
Apesar disso está classificada como em perigo de extinção pela mortalidade acidental, perturbação humana e poluição. O nome tartaruga-verde deve-se à coloração esverdeada da sua gordura corporal.
Tem corpo achatado coberto por uma grande carapaça em forma de lágrima e um grande par de nadadeiras. É de cor clara, exceto em sua carapaça onde os tons variam do oliva-marrom a preta.
É principalmente herbívora. Os adultos geralmente habitam lagoas rasas, sendo raramente avistadas em alto-mar. Alimentam-se principalmente de ervas marinhas. Vivem até 80 anos em liberdade.
Tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea )

Imagem: California Herps
Também classificada como em perigo devido à mortalidade acidental, perda/degradação de habitat e poluição, é uma das menores tartarugas marinhas do mundo, com peso entre 35 e 50 kg.
O comprimento curvilíneo médio da carapaça é de 73 cm. Alimenta-se de crustáceos, moluscos, peixes e algas. Apresenta três tipos de comportamento de desova: solitário, em pequenos grupos e em arribada.
Apresenta ciclo reprodutivo anual de 2 a 3 anos. O tempo necessário para atingir a maturidade sexual é de 7 a 30 anos. Desova no máximo três vezes a cada ciclo, com uma média de 100 ovos a cada desova registrada. Os picos de desova ocorrem entre outubro e fevereiro.
O sexo dos filhotes é influenciado pela temperatura de incubação dos ovos, com temperaturas mais altas gerando mais fêmeas, e temperaturas mais baixas gerando mais machos.
Com informações: ICMBio