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Categoria: aventura


19:56 · 18.10.2016 / atualizado às 19:56 · 18.10.2016 por
Casal viajou a pé de Osasco (SP) por três anos para encontrar parentes em Iguatu. Chegada à Antonina do Norte. Foto de J Guedes
Casal viajou a pé de Osasco (SP) por três anos para encontrar parentes em Iguatu. Chegada à Antonina do Norte. Foto de J Guedes

O casal, Francisco Welington dos Santos, 30 anos, e Silvia Renata Nunes (Carina), 29 anos, viajou de São Paulo a Iguatu, num percurso de 2.726 quilômetros para encontrar parentes. A viagem demorou três anos.

Renata é iguatuense, a família dela reside em Iguatu, e Wellington é paraibano da cidade de Souza.

O casal chegou a Iguatu na manhã da quinta, 13. Marido e mulher viajaram a pé, puxando um carro artesanal (ferro, madeira e lona, com duas rodas, pesando 500 quilos) para transportar a bagagem, feito pelo próprio Welington. Os dois tinham a companhia da cadela da cadela Sabrina.

O local da partida foi Osasco, interior de São Paulo, até o município de Saboeiro, onde um caminhão reboque enviado pelo empresário iguatuense Assis Couras, foi apanhá-los, a cerca de 80 quilômetros do destino final.

Os vizinhos fizeram festa para receber o casal. Foram momentos de muita emoção, choro, abraços e ressentimentos contidos, esquecidos, amortecidos pelo tempo longe, a saudade do reencontro. “Pensei que nunca mais ia ver minha filha, imaginei morrer sem ela aqui, e hoje ela chega, é uma alegria que não sei explicar”, disse a mãe de Carina.

Wellington estava com os pés feridos e inchados e Carina muito cansada. Ela chorou ao ver os pais, hoje já velhos e doentes, que ela deixou para trás há 14 anos.

Carina está grávida de três ou quatro meses. Nem mesmo ela sabe ao certo. Por ter ficado tanto tempo na estrada o casal perdeu a noção do tempo, relógio, calendário, datas, dia, mês e ano. Ela vai precisar iniciar o pré-natal do bebê urgentemente, pois não sabe como a criança está, não sabe o sexo, peso, nem o tempo da gestação.

Recomeço

Para Welington e Carina, Iguatu é o recomeço, mais do que isso, o ponto de partida, a chegada, o aconchego, o começo de tudo. “Quero trabalhar, quero construir, quero refazer minha vida com ela, perto da família dela, porque a minha perdi lá em Osasco”, disse ele com lágrimas nos olhos.

No relato de Francisco Welington, a explicação mais plausível. Ele e Carina se conheceram em Iguatu em 2002. Ele, paraibano, trabalhava num parque de diversões que estava em Iguatu na festa da exposição. Era o mês de setembro daquele ano. Se apaixonaram e Carina, na época com 13 anos, resolveu acompanhar Welington. Segundo ele, recebeu um pouco de dinheiro do trabalho no parque comprou uma bicicleta para ele, outra para ela e se lançaram na estrada rumo à Osasco. “Tudo que eu queria é apresentar minha família para ela”.

No Estado do Piauí uma comunidade sensibilizada com o sofrimento deles se cotizou para comprar duas passagens de ônibus e os dois conseguiram chegar a São Paulo.

Tregédia em Osasco

Welington relatou que estava bem com Carina em Osasco onde residiam seus familiares paraibanos, quando uma catástrofe virou a vida deles pelo avesso. Uma enxurrada que varreu a cidade repentinamente numa madrugada fatídica matou os pais dele, o avô e um filho de 8 anos, da união com Carina. Ele ainda tem na testa as marcas de uma pancada violenta que sofreu atingido por objeto cortante. “Fiquei 24 anos agarrado num fio da rede telefônica, eu e minha esposa, até que fomos resgatados pelos bombeiros”, disse.

Além da família a chuva destruiu o que eles haviam construído ao longo da estada em São Paulo; casa, transporte, móveis. Ficaram sem nada.

Foi também no mês de setembro de 2013 quando eles resolveram deixar São Paulo e retornar ao Ceará numa viagem a pé. Ficaram três anos e um mês na estrada.

O tempo que levaram para chegar também tem uma explicação: O casal fez diversas paradas durante a viagem para descansar e trabalhar. Wellingtom fazia bicos, catava lixo reciclável para vender, capinava mato, lavava carro, fazia entregas. Era com o dinheiro que ganhava que eles seguiam viagem usando principalmente para comprar comida. “Quando eu não arranjava trabalho eu pedia comida, não tenho vergonha de dizer, só nunca quis tirar nada de ninguém”, afirmou.

Em 37 meses de caminhada sobre o asfalto das rodovias, enfrentando o calor causticante durante o dia, e o frio da noite, eles foram escudos humanos das situações mais inusitadas. Sofreram tentativa de homicídio, quando alguém disparou na direção deles, no município de Luiz Eduardo Magalhães, na Bahia, tiveram os documentos roubados, passaram fome, levaram chuva, ouviram xingamentos, mas nunca desistiram de chegar ao destino final Iguatu.

PROTEÇÃO DE DEUS 

Welington faz questão de mencionar o nome de Deus o tempo todo. “Foi tudo ele que nos protegeu, com sua graça e misericórdia, porque se não fosse a gente não tinha chegado aqui, é muito difícil alguém enfrentar o que enfrentamos”.