desencontrando

Categoria: Pessoal


20:04 · 12.03.2012 / atualizado às 20:10 · 12.03.2012 por
Cerveja e Internet. Ainda vão proibir o uso dos dois. Separado ou em conjunto.

Lendo um texto do Superbeta, retorno a pensar num dos problemas renitentes de nossa modernidade: a super tutela do Estado. E como isso ainda há de interferir sobremaneira no uso das mídias sociais por parte da sociedade.

Para o bem ou para o mal, saliente-se. Onde quer que pisemos, há o dedo do Estado. Seja na hora de nos cobrar uma carga tributária desigual, seja na hora de interferir em nossa livre escolha, como por exemplo, ao tentar comprar um remédio para curar uma garganta inflamada. Você não conseguirá mais, pois recente decisão da Anvisa proibiu a comercialização de antibióticos sem a prescrição de um médico. Convivo com essa imposição sempre. Uma otite que me ataca por causa da natação me obriga agora a voltar ao mesmo médico em busca do mesmo remédio.

Ao mesmo tempo em que conseguimos desbravar e mudar o mundo através do alcance das mídias sociais, vivemos também uma paradoxal época de tutela excessiva. O Estado (lato sensu) já proíbe quase tudo ao cidadão moderno. Nas mídias sociais, agora quer demarcar também a livre manifestação do pensamento, impedindo que perfis no Twitter como os de Lei Seca, existam. Eu, sempre bato nessa tecla, sou contra a divulgação e não sigo ou retuito tais perfis. Mas sou ainda mais contra a censura a eles. É direito da população de noticiar que existem blitze do Estado em determinado lugar. O preceito ali abrigado é ainda maior que um eventual mau uso por parte de quem quer que seja. O assunto é polêmico, mas já remonta ao policiamento que se busca implantar à Internet. Vide, por exemplo, a roupagem que dão à tentativa de censura ao Wikileaks, que só veio à tona como grande “Satã” moderno, após denunciar vários desmandos militares dos EUA no Oriente Médio, até então encobertos pela máscara do “Top Secret”. Neste aspecto, Julian Assange não tem nada de vilão, muito pelo contrário.

Estamos em tempos complicados. E aqui segue um desabafo pessoal sobre mídias sociais e o Estado. Elas irão, cada vez mais, dar trabalho, causar e incomodar muita gente. E é importante que o façam mesmo, pois a base do próprio constitucionalismo e da democracia sempre foi o homem se insurgindo contra o poder estatal.

No caso específico do texto citado acima no Superbeta, onde questiona uma nova deliberação da ANVISA contra cigarros, vale lembrar que a proibição do fumo em locais públicos – da qual sou favorável – já foi uma violência aos fumantes, muitos dos quais se viram vítimas do uso do fumo por anos a fio de uma complacência histórica do Estado Brasileiro. De uma hora para outra, o mesmo Estado se torna um algoz impiedoso e joga os fumantes à horda da chamada opinião pública, que sempre acaba por aderir a qualquer discurso de massa, sem ao menos exercitar o direito de questionar-lhes o motivo. Agora, a mesma ANVISA que me proíbe de tratar a minha otite com um antibiótico me obrigando a ir ao médico para receber a mesma receita de sempre, resolve ir contra os fumantes com mais uma votação: do componente dos cigarros.

Eu não sei onde isso irá acabar. Se acabará, mas pela primeira vez eu me vejo com pena dos fumantes que acabam sendo tratados a toque de caixa dessa super tutela do Estado. Particularmente odeio cigarro, mas quando esse mesmo Estado começa a querer se meter até na composição do produto que a gente consome, isso me preocupa. Imaginem quando se virarem para a composição química da minha Cerveja. Espero que ainda reste alguém com pensamento crítico para poder dar um grito.

E La Nave va…

12:01 · 11.09.2011 / atualizado às 15:13 · 11.09.2011 por
Foto no Topo do WTC, tirada no dia 09.09.2001

Este texto é um complemento ao que escrevi em 2002, um ano após ter passado pela experiência emblemática de estar em NYC durante os ataques às torres gêmeas. O texto anterior está hospedado no meu antigo blog, Anomia.


Há 10 anos, eu não tinha toda a parafernália tecnológica para compartilhar o meu sofrimento com seguidores, amigos ou parentes. Não tinha ainda conta no Twitter ou Facebook, até mesmo porque ambos não existiam ainda. Não havia ainda Nextel que pudesse ser utilizada a qualquer momento com o Brasil.
Pensando bem, talvez tivesse sido menos perturbador poder compartilhar com mais pessoas o drama que passamos, eu, minha esposa e minha irmã, naqueles dias que vieram a ficar históricos.

Era terça-feira, noite do dia 10 de Setembro, na minha primeira viagem a Nova York. Estávamos Vanessa (minha irmã), Beatriz (minha esposa) e eu, na casa de Jazz Blue Note, onde encontramos a atriz Mel Lisboa (que fizera sucesso no seriado A Presença de Anita). Eu tinha tomado todas os whiskies a que tinha direito curtindo um som magnífico.

Vanessa Maria, Beatriz Damasceno, Mel Lisboa e eu no Blue Note, na noite do 10 de Setembro de 2001

Na volta para o Hotel (que também ficava em Manhattan), já madrugada do dia 11 de Setembro, nosso taxista era um paquistanês. Lembro com exatidão porque nos dias seguintes eu iria me lembrar dele bastante.
O meu papo com o taxista (já que eu sempre fui apaixonado por geopolítica), era sobre a região da Caxemira (disputada por eles com a Índia). E lembro que ele me tentava justificar porque muitos apelavam para o terrorismo. A corrida era curta, mas uma das posições que ele me perguntava era essa:
– se invadem o teu país, sequestram as tuas mulheres e filhos, você não tem que se defender?
Eu, claro, que poderia ficar calado, me saí com esta:
– Bem, se for assim eu entendo a sua posição, mas aí tudo seria justificável, até o terrorismo, como querem os Palestinos na briga com Israel e isto seria o fim do mundo. – Disse, tentando ver se o radical veria que nós brasileiros, não apoiávamos o terrorismo. Em vão, claro, o nosso querido “driver”, no curto tempo que levamos, apenas justificava o terror como forma de defesa. Bem, nesse nível aí a conversa na madrugada do dia 11 de Setembro.

Voltando um pouco mais no tempo, exatamente para o dia 9 de Setembro, eu havia acabado de alterar nosso roteiro de viagem. Em vez de irmos às torres no dia 11 e para as compras no dia 9, eu como todo bom marido, acabara de jogar mais para frente uma chatíssima viagem para um Outlet em New Jersey e decidira ir às Torres Gêmeas com minhas companheiras de viagem. Sob os protestos das duas, diga-se de passagem, que queriam mesmo ir no dia 09, mas eu consegui convencê-las à troca de datas.
Na entrada do complexo WTC, me chamou a atenção a segurança do local, que fora, claro, reforçada após o primeiro atentado que havia sofrido anos antes. Quando a gente ia passar pelos scanners, a Vanessa havia perguntado porque tanta segurança.
– É que eles já sofreram um atentado a bomba aqui.
– BOMBA? – Gritou alto minha descuidada irmã, chamando a atenção de um dos seguranças, o que me fez dar um “carão” nela: – Tá doida? Os caras aqui são paranóicos com isso, nem fale essa palavra, lembro de ter dito pra ela.

E olha que a gente nem imaginava o que viria ainda. Lembro de ter subido ao topo da Torre e contemplado como se fosse a última vez. Sem saber que era.

Voltando para a manhã do dia 11, quando eu tinha tido (era o que pensava) pesadelos com sirenes de carros, minha irmã me acordou dizendo que o seu namorado (hoje esposo), ligava do Brasil (dessa vez ligou mesmo, pois eles já tinham sido um dos primeiros casas que eu vira utilizar as conferências via internet. Nota: Não sei se já era o Skype, mas na época meu pai se orgulhava de que o Fábio havia “conseguido uma fórmula super barata de ligar para a Vanessa em NYC pela Internet”. Era o “máximo”.
Eu pensei que fosse uma sacanagem das duas para me acordar cedo, pois minha irmã disse que o Fábio falava que um avião acabara de se chocar contra o WTC. – Ah, inventem outra!
– Não, Emerson, é sério. Ele mandou ligar na CNN.
Eu só acordei mesmo quando vi as mesmas imagens que o mundo tudo via naquele momento, uma das torres em chamas.
Num salto, peguei a pochete de Roland Garros que eu tinha com todo o nosso dinheiro e passaporte e gritei – Todos fora do Hotel!
Nosso hotel ficava a 10 quadras do WTC e quando chegamos à rua em poucos minutos, vimos a mesma imagem que estava na tv. Pânico nas ruas. Era o começo do caos que tomaria NYC nos próximos dias (se olharmos bem a preocupação com segurança hoje em dia, os anos seguintes também). O segundo avião batendo com a outra torre, pânico generalizado, sirenes intermináveis (que até hoje me deixam nervoso), as duas torres tombando e Manhattan sendo coberta por uma nuvem de fumaça de cheiro quase insuportável. Nos dias seguintes, ameças de bomba nos prédios públicos e hotéis (inclusive o nosso que tivemos que desocupar às pressas), boataria e desinformação. Sem falar nos aeroportos todos fechados e vôos cancelados. Era viver naquilo até conseguir regressar para casa.

O relato então praticamente já disse no texto de 2002. Não sei o que teria acontecido se a gente tivesse ido às Torres no dia 11 de Setembro. Talvez nada, enfim, prefiro não pensar apenas agradecer por ter mudado a data por acaso. Vou acrescentar apenas mais poucos detalhes que não esqueço:

-Após as duas torres caírem, um homem que encontrei coberto de pó dos pés à cabeça, ligava para a sua esposa de um telefone público dizendo que estava vivo e bem. Nunca mais esquecerei desse cara.

-Quando um avião sobrevoou Manhattan ouve pânico (estávamos próximos ao Empire State, e como já se sabia que os EUA estavam sob ataque, despertou uma espécie de grito coletivo nas ruas, pensando que fosse um novo avião). Nessa hora eu corro para um bar ainda aberto e peço uma dose dupla de whisky. O barman recusou porque era caso de “terrorismo” e bebida alcóolica não era permitida a venda. – Cara, me vê uma dose dupla, eu tou apavorado aqui man! Disse para ele no meu inglês possível. O cara deve ter tido pena e me vendeu.

– Uma pessoa que havia viajado comigo na mesma excursão, consegui reencontrá-lo dias depois, ainda tentando voltar para o Brasil. Era um senhor de Minas Gerais, apavorado com a situação. Ele fugiu um pouco da esposa e da filha (que conversavam com Vanessa e Beatriz) e veio me falar que estava atônito, pois nunca tinha visto aquilo na vida. E começou a chorar. Eu, que me segurava para demonstrar uma Fortaleza naqueles dias, embarquei no choro contido do patriota, tentando nos consolar: – que é isso rapaz, chorar para que, a gente vai sair daqui…

Enfim, já são dez anos desde aquele fatídico 11 de Setembro. A data sempre mexe comigo. Foram 9 anos para conseguir voltar a NYC (voltei ano passado), acho que ficou uma espécie de stress pós-traumático. Sequer fui ao Marco Zero. Para mim, o ponto central de Nova York é o Strawberry Fields no Central Park. Foi lá onde tive forças para me concentrar e voltar tranquilo para casa em meio ao caos de uma Cidade sitiada. Foi lá onde voltei em 2010 para meditar sobre tudo de bom que aconteceu nestes últimos anos.
Nestes dez anos o mundo mudou. A minha vida também. Após o 9/11, já são três filhos, vários blogs e redes sociais (comecei a blogar no ano seguinte, em 2002), um Ironman e várias provas de triatlo, 10 voltas ao mundo numa carreira acidental de direito desportivo e turista profissional e tantos desafios outros vencidos. Fui morar em São Paulo por 3 anos para salvar a vida de um filho, numa luta hercúlea e vitoriosa. Voltei a morar na minha amada Fortaleza. Sem chavões, mas aqueles dias me mudaram como pessoa. É impossível não sobreviver a uma experiência marcante e não saber tirar uma grande lição dessa experiência.

Esta foto, foi uma das últimas tiradas no alto das Torres Gêmeas. A vista dava para toda Manhattan, ao norte, de onde se via o Empire State Building. A imagem pode ficar gasta com o tempo até, mas a lembrança na minha mente não deve desaparecer nunca:

WTC, 9 de Setembro de 2001, Bia e eu.
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