Desenroladas

Categoria: SPFW


19:00 · 06.11.2013 / atualizado às 12:26 · 06.11.2013 por

Por Naiana Rodrigues

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A cadência arrastada da poesia árida de João Cabral de Melo Neto; a fantasia realista do “Grande sertão” de Graciliano Ramos e o cangaço de José Lins do Rego conceberam as mulheres fortes e reluzentes de Ronaldo Fraga. Paridas da aridez, do chão rachado, da luz do sol estourada, elas são resistes como o couro que protege seus corpos e têm almas adornadas por arabescos e pespontos saídos do imaginário do artesão Espedito Seleiro.

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O estilista mineiro Ronaldo Fraga com sua coleção “Carne seca ou um turista aprendiz em terra áspera” mostrou que a moda pode ser uma produção esteticamente elevada e culturalmente embasada, colocando assim mais lenha na fogueira das discussões sobre o benefício da atividade por meio da Lei Rouanet. Porém, deixando o pagamento da conta da moda à parte, o que vale ressaltar é a destreza desse criador em construir uma leitura sublime de um tema que de tão recorrente na história nacional e, sobretudo, nordestina, teria tudo para ser um espinho sígnico, que te marca com a dor da repetição e da mesmice.

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Mas na verdade, o que se observou, em quase 20 minutos de apresentação, foi a vivacidade inventiva de um homem que sente à flor da pele e foi capaz de perceber as minúcias e idiossincrasias de uma região em que o ambiente se encarrega de elaborar uma cartela de cores simples, matizada em associações singelas como o azul do céu, o verde do mandacaru e o marrom da terra.

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Ronaldo Fraga, também um filho do semiárido, mostrou que sua heroína sertaneja é uma mulher de pele empoeirada (e não lânguida como as europeias das terras frias), uma batalhadora que precisa de mobilidade para pegar na enxada ou na espingarda, mas que não é “mulher-macho”, pois ostenta sua feminilidade em saias assimétricas de comprimento midi, em bolsas com crochês delicados e em cintos sofisticados que mostram muito bem onde a cintura fica, seja por sobre vestidos ou calças, para que não se tenha dúvidas sobre o gênero em questão.

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Essa Severina pós-moderna não almeja ser diva, ela aparece sorrateira, em passos lentos que mimetizam o próprio tempo arrastado da vida no sertão, e quando percebe que é o centro dos olhares, se mostra altiva, veloz, acompanhando o ritmo acelerado da poesia popular. Seu “príncipe” não é encantado, mas valente, usa gibão de couro e não “bomber jacket”, agasalha-se com o que há de mais rústico para proteger-se, o couro e as linhas, elementos oferecidos pela própria natureza – e esta nem sempre é generosa no sertão.

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Esses protagonistas seguem suas desventuras de forma improvisada, com lenços no pescoço e gravetos de árvore no cabelo, e não carecem de final feliz, pois sua odisseia pela sobrevivência é uma verdadeira história sem fim, que se atualiza em cada descendência, em cada herdeiro da seca, em cada alma sensível como a de Ronaldo Fraga. Este que, em breve, deverá apresentar um novo capítulo de sua fábula, que, a cada desfile, a meu ver, aproxima seus signos da moda da linguagem universal do afeto.   

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E o sertão virou Ronaldo…

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Por Karine Zaranza

Que alegria voltar a escrever aqui. Que alegria voltar a falar sobre Ronaldo Fraga. A Gabi e a Clara deixaram eu matar a saudade sabendo que escreveria não uma resenha do desfile que só assisti pela TV, mas sobre a emoção de ver o trabalho de um grande e querido artista brasileiro. Este ano, o dono do traço mais brasileiro da moda, homenageou o Nordeste com “Carne Seca ou Um Turista Aprendiz em terra áspera”.

Quando vi as primeiras imagens do desfile sorri de canto de boca e pensei: “Sabia que Seu Expedito Seleiro seria a inspiração para seu inverno 2014”.  Quando Fraga veio aqui no último Maxi Moda, ele falou empolgado sobre um projeto que estava desenvolvendo com alguns curtumes do Brasil e falou cheio de admiração sobre o mestre do couro de Nova Olinda. Batata! Seu Expedito estava lá, numa coleção cuja matéria prima principal foi o couro (que pela primeira vez ganhou tanto destaque com Ronaldo Fraga), nos sapatos, no trabalho festivo e colorido.

O estilista  estampou o Nordeste da terra rachada, do galho seco, do azul do céu sem nuvem, do verde do cacto e da esperança do sertanejo. Ele homenageou mais uma vez o escritor Mário de Andrade e fez referência ao cangaço, aos trabalhadores que carregam suas marmitas, a vegetação e a fauna do Sertão.

Ronaldo apresentou um olhar bonito, crítico e poético para o Nordeste castigado não apenas pela seca, mas também pelas promessas políticas não cumpridas. Trouxe uma modelagem mais justa, feminina e com uma cintura marcada com cintos largos e trabalhados em detalhes, saia lápis, vestidos longos e midis e mais uma porção de peças em couro. Difícil até dizer o que mais me conquistou.  Acho que foi o vestido azul com estampa de carcaça com um cinto largo de couro.

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Vídeo e fotos: FFW

 

19:00 · 31.10.2013 / atualizado às 10:48 · 31.10.2013 por

Por Naiana Rodrigues

Jo‹o Pimenta

Muito se fala na ditadura da moda, que ela estipula padrões rígidos e praticamente inalcançáveis. Mas os próprios estilistas reconhecem que os tempos mudaram e não há mais designers hitllerianos ou fascistas, que criam na ilusão de influenciar toda uma massa de consumidores ávidos por estilo. Os estilistas estão hoje  mais para curadores do que para ditadores. Oferecem sugestões de cores, formas e combinações. Deixando a cargo do próprio consumidor de moda, a responsabilidade por definir o que lhe é agradável e, sobretudo, o que lhe cai bem.

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Porém, há estilistas que não se conformam em apenas sugerir, eles empenham toda sua energia e inventividade em incluir aqueles que possivelmente poderiam ser excluídos por esses padrões que ainda nos rodeiam. Foi com esse intuito que João Pimenta, a partir de seus trabalhos sob medida, percebeu a necessidade de incluir homens com silhuetas diferentes no universo da elegância, dando um passo em direção à democracia fashion.

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De forma extremamente sagaz, o estilista mineiro desenvolveu uma modelagem particular construída a partir de suas experiências de produção sob medida. “Com meu trabalho aprendi a deixar tudo alinhado. Com apenas a medida do ombro sou capaz de fazer uma roupa“, explicou o próprio João Pimenta.

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E, por incrível que pareça, revertendo toda a simbologia do feitio da moda, o designer apresentou peças sem costuras laterais, apenas com costuras nos ombros. Essa nova modelagem, batizada por ele de tubular, é democrática, quer atender a todas as silhuetas, afinal, como o próprio estilista reconheceu, os homens  reais são bem diferentes dos homens das passarelas, do cinema ou da TV.

Jo‹o Pimenta
Pensando nessa democracia das formas, Pimenta brincou com modelagens amplas e slim, com tonalidades cruas e xadrez, com tecidos leves e a lã e o algodão pesados. Um jogo de extremos que tenta agregar e não apenas distinguir os diferentes. Inspirado em um Brasil que foge do tropicalismo, ele relembrou a elegância dos imigrantes italianos que povoaram, principalmente, a região Sul, berço da moda nacional pela presença forte da indústria têxtil e calçadista.

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Dessa forma, o estilista conseguiu unir o passado ao presente, este último caracterizado pela inovações executadas com teares manuais, do jeito de antigamente. Uma produção híbrida que tenta alcançar a todos, mas sem ser massificada, levando em consideração, sobretudo, que somos uma nação em que há frio, calor, corpos esbeltos, porém corpos também mais voluptuosos, um país que tenta maturar sua democracia política e que engatinha na liberdade da moda.

desfile-joaopimenta-spfw-inv2014-312Fotos: FFW

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08:52 · 30.10.2013 / atualizado às 08:52 · 30.10.2013 por

Metro na Moda

A São Paulo Fashion Week começou essa semana com a proposta de discutir da mobilidade urbana e a sustentabilidade. Na abertura, um desfile no metrô chamou a atenção e trouxe o tema à tona: levar a moda cada vez mais às ruas

Metro na Moda

Uma semana de moda é capaz de envolver uma cidade de ponta a ponta. Prova disso é a São Paulo Fashion Week, evento capitaneado por Paulo Borges, que deu início à edição desse ano com um desfile promovido na linha verde do metrô paulistano.

O uso inusitado do espaço público aconteceu no último domingo e mostrou à população looks que marcaram a história do maior evento de moda do País.

Metro na Moda
Em um camarim cenográfico montado nas estações do metrô, os 40 modelos receberam os últimos retoques de maquiagem e ajustes de roupa. O público também participou dessa equação, compondo figurinos com peças e acessórios disponibilizados pelo SPFW nas “Estações de Estilo”.

O styling foi feito pela dupla Flávia Pommianosky e Davi Ramos, que selecionaram peças de acervo de marcas como Herchcovitch; Alexandre, André Lima, Ellus, Gloria Coelho, Huis Clos, Neon, Osklen, Reinaldo Lourenço e Samuel Cirnansck.

Metro na Moda

Ocupação

A cearense Alexandra Thomaz, que mora atualmente em São Paulo, participou da produção de moda do evento e contou sua experiência com exclusividade para a coluna.  “Foi muito interessante visitar todos os acervos das marcas e ter a oportunidade de ver e tocar peças que marcaram a história da moda do País“, conta a produtora.

Metro na Moda
Os looks montados para o desfile tinham foco conceitual, para que visualmente o efeito fosse o mais impactante possível. “O metrô seguiu a rota e os horários normais, então tivemos essa preocupação que os modelos se destacassem, levando uma alegria lúdica aos transeuntes“.

Promover a acessibilidade da moda não é uma questão nova para Alexandra. Até 2009 ela promoveu o Projeto Palco, evento de moda e outras artes que aconteceu em diversos espaços de Fortaleza, como o Passeio Público, a Praça Portugal e o Mercado dos Pinhões.

Projeto_Palco_20071209_0229 Projeto_Palco_20071209_0081Fotos: Tariana Mara

Naquela época, algumas pessoas tiveram oportunidade de ver um desfile de perto pela primeira vez“, comenta a produtora que acredita que a moda deve ir cada vez mais para as ruas.  Esse pensamento é também a proposta da SPFW que apresenta o tema “Deslocamentos”, com o objetivo de discutir a mobilidade urbana e a sustentabilidade.

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19:30 · 29.10.2013 / atualizado às 16:00 · 29.10.2013 por

Por Naiana Rodrigues

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A moda enquanto segunda pele sempre foi devota da aparência, da construção de uma mensagem visual agradável aos olhos do outro, de quem avalia e julga esse corpo vestido. Mas ontem, essa mesma moda tão preocupada com a estética do vestir, voltou-se para a ética do viver em um desfile que questionou nossa condição de seres da urbe.

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A estilista Raquel Davidowicz, que assina a marca UMA, mostrou, logo no dia de abertura da edição Inverno 2014 da SPFW, que a moda não vive ou existe sem o corpo. Nossa primeira mídia, esse corpo está imerso em um ambiente tecnológico e, sobretudo, urbano. A estilista escolheu então os bailarinos da São Paulo Companhia de Dança para construir esse diálogo sobre o conceito de urbanidade da marca em um desfile-performance que é uma metáfora de nossas relações nas grandes metrópoles, marcadas pelos conflitos com o espaço e com nós mesmos.

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A preocupação em se vestir, estar bonito e também para si foram pontos questionados”, explicou o bailarino Rafael Gomes, que assinou a coreografia do desfile. Na passarela, os bailarinos em movimentos dramáticos e orgânicos libertavam-se da opressão da vida urbana em peças de modelagens amplas e tecidos leves. Porém, perdiam-se na multidão ao travestir seus corpos com cores como branco, preto, cinza e encontravam seu lugar de individualidade em um azul forte. Já as camisas e blusas com buracos denotam a espontaneidade, os percursos incertos que construímos em nossos trajetos cotidianos.

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Os 22 bailarinos em cena narraram um pouco do que é sentir e experimentar o underground, os espaços onde os outsiders da metrópole se encontram. Esse lugar, em São  Paulo, segundo o coreógrafo, é a baixa Augusta. Mas toda grande cidade tem seus inferninhos, suas tribos, seus territórios simbólicos, onde a moda pode atuar como link para que estes sujeitos não se sintam mais tão isolados, deixem de ser bichos urbanos acuados.

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13:51 · 01.11.2012 / atualizado às 13:51 · 01.11.2012 por

Encerrando a SPFW, Naiana Rodrigues escreve sua última contribuição direto da semana de moda. Para fechar a temporada, a jornalista caprichou no texto sobre o belíssimo desfile de Alexandre Herchcovitch.

 

Era madrugada e, sem sono, zapeava pelos canais de TV,  até que um documentário na rede SESC SENAC me chamou a atenção. Assim conheci Alexandre Herchcovitch, falando sobre o fascínio que as caveiras exerciam no seu imaginário, em um tempo em que a imagem do crânio humano não estava tão banalizada no mundo fashion.

Confesso que fiquei fascinada pela história e depois pelo trabalho desse jovem com verve underground. E nessa edição da SPFW, o que pude observar foi que, assim como eu, que ao conhecer Alexandre Hercohcovitch não imaginava muito menos ambicionava cobrir uma semana de moda desse porte, o designer amadureceu.

Abrindo o terceiro e último dia de desfiles, o paulista apresentou uma coleção consistente, singela e elegante. A segurança e domínio desse homem da moda são tantas que ele já trabalha na perspectiva de desconstrução de modelagens e parâmetros.

Enveredar pela alfaiataria, mais do que seguir as tendências, é uma forma de Hercochovitch mostrar seu domínio do feminino. Com peças em que os traços retos das saias envelopes adquirem volume com uma camada na altura da cintura, dando movimento ao corpo e até mesmo o aspecto de flor para as mulheres, mostram a versatilidade criativa do designer.

Além de desafiar a modelagem clássica, Alexandre deixa sua assinatura conceitual para o inverno 2013 com as listras, que surgem tanto em calças secas quanto em vestidos armados de cintura marcada, que tinham de tudo para serem românticos, mas que gritam contemporaneidade quando se percebe a presença de um complemento, aparentemente fora do lugar, parasitário, ali jogado por sobre a cintura das modelos. Na verdade, essa é a grande lição que o estilista nos deixa, de que não há perfeição e que os fios fora de lugar, os cortes enviesados e as descombinações também são  indícios de elegância.

A inventividade e destreza de Herchcovitch vêm apenas confirmar seu lugar, não mais marginal e tampouco mainstream convencional, no cenário criativo brasileiro. Ele ocupa uma posição segura, de quem sabe o que está fazendo e não teme as mudanças do calendário da moda, ou melhor, não perde o sono nem a criatividade por causa delas e continua, a despeito das intempéries, dando o melhor de si.

08:18 · 31.10.2012 / atualizado às 08:18 · 31.10.2012 por

Naiana Rodrigues continua acompanhando de perto tudo o que acontece na São Paul Fashion Week. A jornalista nos conta todos os detalhes do desfile de  João Pimenta, um dos destaques de ontem.

Nada de comer quieto, como se costuma falar do jeitinho dos mineiros. Abrindo o segundo dia de desfiles na SPFW,  João Pimenta subverte essa ordem levando ousadia para o guarda-roupa masculino.

Inspirado no homem dos anos 30, mais precisamente no malandro, o estilista apresentou uma alfaiataria correta,  com cintura bem marcada (sim, estamos falando de homens) e calças com comprimentos que acabam acima do tornozelo, ora secas ora com bocas que se alargam.

Essa brincadeira de extensão e largura, combinada com as botas de cano alto, dá um ar meio rural a esse malandro que é, sem sombra de dúvidas, urbano.  O linho, que reinou por excelência, cedendo um pouco da atenção para o lurex com fios dourados, também completa essa atmosfera de migração urbana.

Situado historicamente numa fase de industrialização e desenvolvimento, o vestir do malandro brasileiro ainda carrega as marcas do guarda-roupa dos coronéis da agricultura, com tecidos naturais, cores claras, garbo e elegância.

O tradicional paletó, porém, nas mãos de Pimenta, ganha nova temporalidade com cortes assimétricos, pregas e brilho.  O malandro sambista do designer mineiro é clássico. Ao som da canção “Camisa Listrada”, gravada por Carmen Miranda ainda nos anos 30, os modelos desfilam charme com flores vermelhas na lapela, chapéus com bordados, boleros, calcas skinnies, e alguns elementos que não são propriamente do universo da testosterona, mas que, maestralmente, são incorporados a ele pelo estilista.

Para ser um malandro aos moldes de João Pimenta, é preciso ter atitude, afinal, esse rapaz não trabalha com um masculino intransigente, e sim com a maleabilidade do próprio conceito de homem. Essa é uma das marcas do trabalho do designer que a cada coleção repete a mesma mensagem: inovação e criatividade não combinam com padrões rígidos.

E viva a malemolência e traquejo de João Pimenta com a moda!

08:12 · 30.10.2012 / atualizado às 08:13 · 30.10.2012 por

A jornalista  e professora Naiana Rodrigues nos empresta, mais uma vez, a sua visão e leitura do SPFW aqui para as Desenroladas. Durante a cobertura, Naiana  conta aqui suas impressões do desfile mais cheio de poesia do evento: Ronaldo Fraga

 

Ronaldo Fraga mostrou, mais uma vez, porque é um “quirido” no mundo da moda. Em um desfile singelo e marcante, ele fez a roda viva da cultura girar em torno de tecidos e cortes assimetricamente perfeitos.

Para entender a proposta do mineiro, vale começar pelo fim, pelo encerramento do desfile, quando as modelos dançaram uma ciranda no meio da passarela. A brincadeira popular expressa bem o movimento circular da moda e da criação de Ronaldo Fraga: uma energia cíclica de renovação, de movimento continuo entre o que já foi feito e o que ainda se pode fazer.

Para orquestrar essa dança de cores e formas, ele foi, como de praxe,  buscar inspiração no universo popular, nas suas raízes. Ronaldo Fraga levou para a passarela os traços tipográficos e imaginários de Paulo Marques de Oliveira, um “astrofísico, teólogo e prefulgenciado” que vive na cidade de Salinas, no norte de Minas.

Paulo Marques escreveu o livro “Ô Fim do Cem, Fim…”  ainda nos anos 50, em que expressa seu contexto histórico-social por meio de uma escrita singular e de ilustrações poéticas. Apropriando-se dessas referências, Ronaldo Fraga mostra que o universo de artistas populares como Paulo Marques de Oliveira ou mesmo de Bispo do Rosário (cujas obras estão em cartaz na Bienal de Artes) não é tão surreal assim.

A moda apresenta-se nas tessituras do designer de Minas Gerais como o lugar por excelência para a materialização de sonhos, devaneios e, claro, das minúcias da nossa cultura, sem modismos, estrangeirismos, mas com diálogos entre o novo e o que se foi, entre o global, que influencia as tendências, e os aspectos locais da nossa cultura nacional, a exemplo das mulheres de tranças, que lembram damas mais rústicas.

Dessa forma, Ronaldo Fraga faz o mercado da moda conversar com a cultura, produzindo um grande novelo de sentidos em que formas secas e lânguidas abrem caminho para modelos volumosos e no qual a seda se entende perfeitamente com o linho.

E, assim, tem início mais uma edição da SPFW

13:47 · 16.06.2012 / atualizado às 13:47 · 16.06.2012 por

Os cabelos foram realmente destaque nessa edição do São Paulo Fashion Week. Depois da Karine mostrar os cachos e o black power que dominaram as passarelas, mostro também as tranças que ganharam meu coração.

Verão, vento, calor, praia. As tranças tem mesmo tudo a ver com a estação. E na beleza da Água de Coco, um penteado trançado deixou o look super interessante. A trança fazia um topete e fechava com um coque. O desfile era super glamouso e o penteado deixou a mulher elegante sem ser careta.  Uma graça!! Só não encontrei em nenhum lugar um passo a passo desse penteado. Queria muito tentar! Tem por aí alguma expert em cabelos que possa  nos dizer como copiar?

No último dia a Cavalera também apostou nas tranças para compor a beleza do desfile. Mas, para combinar com a maquiagem e os looks mais rock’n’roll, o cabelo era bem “podrinho”. O início do penteado segue a mesma proposta da Água de Coco, um topetinho bacana. Mas aqui são cinco tranças que vão se encontrando no cabelo! Os fios são eriçados e deixa tudo bem moderninho. Também amamos!

00:56 · 15.06.2012 / atualizado às 08:05 · 15.06.2012 por

O quarto do dia do São Paulo Fashion Week começou de uma forma inusitada. Dudu Bertholini e Rita Comparato convidaram o povo da moda para um passeio pelo parque Ibirapuera. E lá fomos todos até o piquenique-desfile da Neon, que trouxe uma coleção inspirada na cultura cigana. Sob  as árvores frondosas do parque, um show de colorido. As roupas e biquínis e maiôs carregavam a identidade da marca que sempre aposta na força das estampas e nas amarrações.

 

Ao mesmo tempo em que a feminilidade das ciganas vaporosas aparecia em saias amplas, cores fortes e pastéis, no volume excessivo de batas, saias e camisas, havia ainda um perfume maculino presente, no melhor estilo boywish. Acessórios exagerados, lenços sob os cabelos volumosos e enrolados ( olha aí os cachos de novo!) e boca em cores fortes. É uma mulher superlativa a que veste Neon. E, sobretudo, uma mulher livre, como as que as modelos representavam passeando em frente aos fotógrafos e convidados.

Um desfile espetáculo do jeito que a Neon gosta de fazer. E que todo mundo gosta de assistir. Até que para isso tenham que sujar o solado de seus sapatinhos de luxo no barro do parque. Nem a grande Costanza Pascolato escapou dessa…

12:25 · 12.06.2012 / atualizado às 12:28 · 12.06.2012 por

Oi gente, estamos aqui na correria do São Paulo Fashion Week. Vou me virar em várias pra fazer uma cobertura para a revista Siará, pra coluna Desenroladas e pro blog, é claro. Então, povo, podem me perdoar se eu nao for muito rápida. É muita fila, muita fila, muita fila e pouco glamour… hahaha. Mas, vamos ao que interessa: informação!

Ontem, no primeiro dia de desfiles os cabelos chamaram muita atenção. É que os cabeleireiros resolveram apostar no poder dos cachos. Nos últimos anos o que a gente viu foi um cabelo super liso e minimalista. Desta vez, eles vieram para roubar a cena. Alexandre Herchcovitch fez uma coleção inspirada em Boy George, com muita referência aos anos 80 tanto nas cores, shape, estamparia e, claro, cabelo. E não foi Celso Kamura (que exibe seu longo e superliso cabelo) que se jogou no baby liss para criar um efeito enrolado e volumoso que lembra os permanentes dos anos 80? Quer, saber? ADOREI!

Logo depois, foi a vez de Fause Haten. Sempre alegre, o desfile trouxe muita cor, estampas gráficas, bordados em pérolas douradas, prateadas e com cristais. Fause queria um perfume africano com os acessórios (colares enormes) e optou por usar uma peruca a lá Diana Ross. Ricardo dos Anjos  fez uma beleza que também veio vibrante com a boca vermelha, combinando com  perucas em três tons: loiro platinado, ruivo e castanho.

Coincidência ou não eu estou com uns cachichos há um tempo. E não tenho dúvida que vai ter gente aposentando uns dias a escova e a pranchinha. O legal é poder ser, cada dia, uma coisa, né?

 

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