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Matéria escura pode estar por trás de cânceres e até de extinções em massa

18:14 · 25.04.2015 / atualizado às 18:18 · 25.04.2015 por
Imagem: John  Dubinski
De acordo com cosmólogos, essas partículas teóricas (aqui representadas artisticamente) sem luz, impregnam o universo e mantém as galáxias juntas Imagem: John Dubinski

No começo deste ano, a Dra. Sabine Hossenfelder, física teórica de Estocolmo, na Suécia, fez a sugestão surpreendente de que a matéria escura pode causar câncer. De acordo com cosmólogos, essas partículas teóricas, sem luz, impregnam o universo e mantém as galáxias juntas.

Embora ainda necessite ser detectada diretamente, presume-se que a matéria escura exista porque nós podemos ver os efeitos de sua gravidade. À medida que suas partículas invisíveis passam por nossos corpos, elas podem provocar mutações no DNA, assegura a teoria, somando-se em uma escala muito baixa ao índice total de câncer.

Foi perturbador ver dois reinos aparentemente diferentes, cosmologia e oncologia, de repente serem justapostos. Porém, esse foi apenas o começo. Logo após Hossenfelder ter puxado o assunto em ensaio publicado na internet, Michael Rampino, professor da Universidade de Nova York, acrescentou geologia e paleontologia ao cenário. Em artigo para a Real Sociedade Astronômica, ele propôs que a matéria escura é responsável pelas extinções em massa que periodicamente varreram a Terra, incluindo a que matou os dinossauros.

A ideia é baseada em especulações de outros cientistas segundos os quais a Via Láctea é fatiada horizontalmente pelo centro por um disco fino de matéria escura. À medida que o Sol, viajando pela galáxia, sobe e desce através desse plano escuro, ele gera ecos gravitacionais capazes de deslocar cometas distantes de suas órbitas, enviando-os em rota de colisão com a Terra. Uma versão anterior dessa hipótese foi apresentada no ano passado pelos físicos Lisa Randall e Matthew Reece, de Harvard. Porém, Rampino acrescentou outro toque: durante a viagem galáctica da Terra, a matéria escura se acumula em seu núcleo. Ali, as partículas se autodestroem, gerando calor suficiente para provocar erupções vulcânicas mortais. Atacados por cima e por baixo, os dinossauros sucumbiram.

É surpreendente ver algo tão abstrato quanto a matéria escura ganhar tanta solidez, ao menos na mente humana. A ideia foi criada no começo da década de 1930 como um mecanismo teórico – um meio de explicar observações que de outra forma não fariam sentido. As galáxias parecem estar girando tão rápido que elas deveriam ter se separado há muito tempo, arremessando as estrelas como se fossem fagulhas de fogos de artifício. Simplesmente não existe gravidade suficiente para manter uma galáxia unida, a não ser que ela esconda uma quantidade enorme de matéria invisível – partículas que não emitem nem absorvem luz.

Alguns independentes propõem alternativas, tentando ajustar as equações da gravidade para explicar o que parece ser massa desaparecida. Porém, para a maioria dos cosmólogos, a ideia da matéria invisível se enraizou tanto que é quase impossível viver sem ela.

Superabundância

Supostamente cinco vezes mais abundante do que as coisas vistas, a matéria escura é um componente crucial da teoria por trás da lente gravitacional, segundo a qual grandes massas como as galáxias podem curvar raios de luz e fazer as estrelas aparecerem em partes inesperadas do céu.

Essa foi a explicação para a observação espetacular de uma “Cruz de Einstein” informada no mês passado. Funcionando como lentes enormes, um conglomerado de galáxias defletiu a luz de uma supernova em quatro imagens – uma miragem cosmológica. A luz de cada reflexo tomou um caminho diferente, gerando relances de quatro momentos diferentes da explosão.

Entretanto, nem sequer um conglomerado galáctico exerce gravidade suficiente para curvar a luz tão gravemente a menos que se defenda que a maior parte de sua massa seja formada pela hipotética matéria escura. Na verdade, os astrônomos têm tanta certeza de que a matéria escura existe que adotaram a lente gravitacional como ferramenta para mapear sua extensão.

Trocando em miúdos, a matéria escura é utilizada para explicar a lente gravitacional, e esta é tida como outro indício da existência da matéria escura.

Tentativas de detecção

Embora sua identidade continue desconhecida, a maioria dos teóricos aposta que a matéria escura seja formada por partículas maciças fracamente interagentes – conhecidas pela sigla inglesa, Wimp. Se elas realmente existirem, pode ser possível ter um vislumbre delas quando interagirem com matéria comum.

Baseados nessa esperança, cientistas construíram detectores subterrâneos numa tentativa de medir o impacto das partículas à medida que voam pela Terra e, ocasionalmente, colidem com átomos de xenônio, argônio ou alguma outra substância. Porém, até agora não aconteceram choques. Segundo as estimativas de Hossenfelder, entre dez a alguns milhares de vezes por ano as Wimps podem atingir alguns dos nossos átomos, incluindo os que compõem o DNA. A energia seria forte o bastante para quebrar os elos moleculares e provocar mutações.

Quando se trata de câncer, essa é uma ameaça insignificante. Dois colegas de Hossenfelder, Katherine Freese e Christopher Savage, estimaram que os raios cósmicos cortando o corpo humano causem mais dano por segundo do que a matéria escura numa vida inteira.

Todavia, o efeito da matéria escura ainda é forte a ponto de cientistas cogitarem usar moléculas de DNA ou RNA como detectores de Wimps.

Com informações: The New York Times/UOL Ciência

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