Diário Científico

Categoria: Evolução


20:09 · 09.12.2016 / atualizado às 20:11 · 09.12.2016 por
Foto: Snow Brain
Alteração genética deve ter acontecido antes de 500 mil anos atrás, porque não é exclusiva do DNA do Homo sapiens Foto: Snow Brain

Uma mutação aparentemente insignificante no DNA dos ancestrais da humanidade pode ter contribuído para que nosso cérebro alcançasse o tamanho descomunal que tem hoje (três vezes maior que o dos grandes macacos).

Bastou inserir o gene que contém essa mutação em fetos de camundongo para que dobrasse o número de células que dão origem aos neurônios do córtex, a área cerebral mais “nobre”. A pesquisa, conduzida por cientistas do Instituto Max Planck (Alemanha), é um dos primeiros frutos da tentativa de usar o genoma para entender como a evolução humana se desenrolou.

Por enquanto, isso não tem sido fácil –tanto que o gene estudado pelos pesquisadores no novo estudo, designado pela indigesta sigla ARHGAP11B, é o único específico da linhagem humana a ser associado com a proliferação das tais células do córtex cerebral. “Ainda não sabemos qual o mecanismo que leva a essa proliferação aumentada”, disse à Folha o coordenador do estudo, Wieland Huttner.

O certo é que parece haver um efeito direto da presença do gene sobre as chamadas BPs (progenitoras basais, na sigla inglesa). As BPs possuem uma vantagem importante quando a questão é produzir mais e mais neurônios: elas ficam numa região do cérebro em desenvolvimento em que há bastante espaço. Com isso, conseguem se multiplicar mais, conduzindo, portanto, a um aumento mais vigoroso do órgão.

Origem da mudança

Desde quando esse fenômeno acontece no cérebro dos membros da linhagem humana? “A mutação deve ter acontecido antes de 500 mil anos atrás”, diz Huttner -isso porque ela não é exclusiva do DNA dos seres humanos modernos.

Os colegas do pesquisador no Max Planck estão entre os responsáveis por resgatar o genoma de dois parentes extintos da nossa espécie, os neandertais e os denisovanos. Ao desvendar o DNA completo de ambas as espécies, os cientistas identificaram o gene ARHGAP11B -mas nada de encontrá-lo em outros primatas ou mamíferos. Segundo o pesquisador alemão, uma possibilidade é que essa mutação tenha acontecido no DNA do Homo erectus, primeiro ancestral do homem a ter passado por um grande aumento de sua capacidade cerebral. O estudo saiu na revista especializada “Science Advances”.

Com informações: Reinaldo José Lopes/Folhapress

21:39 · 18.10.2016 / atualizado às 21:39 · 18.10.2016 por
Foto: WWF
“Bisão de Higgs” foi o ancestral do bisão-europeu moderno, cuja origem até hoje era considerada incerta Foto: WWF

Uma misteriosa espécie pré-histórica de bisões intrigava os cientistas há anos: certos sinais genéticos de fósseis desses animais mostravam que eles eram totalmente diferentes de qualquer outra espécie de bisão – moderna ou extinta.

Um novo estudo finalmente desvendou o mistério da espécie que ficou conhecida pelos cientistas como “bisão de Higgs”, em alusão ao bóson de Higgs, partícula cuja existência era prevista pelos físicos desde a década de 1960, mas só foi confirmada em 2012.

A pesquisa revelou que o “bisão de Higgs” teve origem há 120 mil anos, a partir da hibridização entre duas espécies extintas: o auroque, ancestral dos bovinos modernos e o bisão da estepe, que viveu na Era do Gelo na Europa e na América do Norte. Além disso, o estudo concluiu que o “bisão de Higgs” foi o ancestral do bisão-europeu moderno, cuja origem até hoje era considerada incerta.

De acordo com os autores do estudo, as pinturas rupestres da Era do Gelo, que retratam bisões em inúmeras cavernas na Europa, são coerentes com a descoberta e mostram, ao longo do tempo, modificações na aparência dos animais que coincidem com o aparecimento do bisão-europeu. Em outras palavras, os artistas pré-históricos documentaram a evolução do bisão.

Liderado por cientistas da Universidade de Adelaide, na Austrália, o estudo foi publicado nesta terça-feira, 18, na revista Nature Communications. Para chegar a suas conclusões, os cientistas combinaram análises de DNA antigo e análises de pinturas rupestres. “Descobrir que a hibridização levou a uma espécie completamente nova foi uma verdadeira surpresa, já que isso não acontece normalmente com mamíferos”, disse o autor principal do estudo, Alan Cooper, diretor do Centro Australiano de DNA Antigo, da universidade australiana. “Os sinais genéticos encontrados em ossos de bisões antigos eram muito estranhos, mas ninguém tinha muita certeza se essa espécie existia de fato – então nos referíamos a ela como ‘bisão de Higgs'”, explicou Cooper.

Registros fósseis apontavam que na pré-história havia duas formas principais de bovinos na Europa: os auroques, extintos no século 17, e o bisão da estepe. Mas as origens do bisão-europeu – que têm história evolutiva bastante distinta do bisão-americano -, eram bastante obscuras graças à falta de registros fósseis. Até agora, a única certeza sobre o bisão-europeu era que ele surgiu subitamente há cerca de 11,7 mil anos, logo após o desaparecimento do bisão da estepe.

Alternância

Os cientistas liderados por Cooper analisaram o genoma antigo extraído dos ossos e dentes de 64 bisões em quatro cavernas na Europa, nos Urais e no Cáucaso, a fim de rastrear a história genética desses animais.

Os sinais genéticos encontrados nesses fósseis eram totalmente diferentes dos encontrados no bisão-europeu e em qualquer outra espécie conhecida. Fazendo datação dos fósseis com radiocarbono, os cientistas mostraram que o “bisão de Higgs” dominou a Europa por milhares de anos, mas essa predominância era alternada, ao longo do tempo com o bisão da estepe – que até agora era considerada a única espécie de bisão presente na Europa no fim da Era do Gelo.

“Os ossos datados revelaram que nossa nova espécie e o bisão da estepe revezaram a dominância na Europa por várias vezes, variando de acordo com alterações ambientais causadas por mudanças climáticas”, disse o autor principal do estudo, Julien Soubrier, da Universidade de Adelaide. “Quando fomos perguntar a opinião de pesquisadores que estudam a arte em cavernas na França, eles nos disseram que, de fato, havia duas formas distintas de representação de bisões nas cavernas, durante a Era do Gelo. A idade dessas pinturas se encaixa perfeitamente com a alternância das duas espécies. Nunca tínhamos imaginado que os artistas das cavernas tinham deixado para nós úteis retratos de ambas as espécies.”

Retratos

Nas cavernas, as pinturas mais antigas, com mais de 18 mil anos, retratam os bisões com longos chifres e a parte dianteira proeminente – uma aparência semelhante à do bisão-americano, que descende do bisão da estepe. Em pinturas mais recentes – de 12 mil a 17 mil anos -, o animal é retratado com chifres curtos e costas pequenas, como o bisão-europeu moderno.

“Assim que se formou, a nova espécie híbrida parece ter sido bem-sucedida em encontrar um nicho na paisagem e conseguiu assim se manter geneticamente”, disse Cooper. Segundo ele, o “bisão de Higgs” predominou em períodos mais frios, em paisagens que se assemelhavam à tundra. Segundo Cooper, o “bisão de Higgs” é o ancestral do bisão-europeu, mas parece ser uma espécie totalmente nova, porque o animal moderno sofreu consideráveis modificações em tempos recentes. “No entanto, o bisão-europeu moderno parece bem distinto geneticamente, porque essa espécie passou por um gargalo genético muito estreito, que quase os levou à extinção: apenas 12 indivíduos existiam na década de 1920.”

Beth Shapiro, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz – que também participou do novo estudo -, foi a primeira cientista a detectar o “bisão de Higgs”, em sua pesquisa de doutorado orientada por Cooper na Universidade de Oxford (Reino Unido), em 2001. “Quinze anos depois, é ótimo finalmente desvendar a história inteira. Foi com certeza um longo caminho, com um surpreendente número de reviravoltas”, afirmou Beth.

Com informações: Estadão Conteúdo

23:25 · 29.09.2016 / atualizado às 23:25 · 29.09.2016 por
Foto: The New York Times
A organização e a defesa de territórios são importantes motivos de conflitos. A combinação desses fatores leva, por exemplo, a uma forma embrionária de guerra entre chimpanzés, nossos “primos” Foto: The New York Times

Guerra, assassinato e outras formas de agressão letal são parte importante do legado evolutivo da espécie humana, numa proporção muito maior do que ocorre com outros animais planeta afora.

A conclusão, aparentemente desanimadora, vem de um monumental estudo comparativo conduzido por pesquisadores espanhóis, mas há também uma boa notícia: a taxa de mortes violentas pode variar muito de acordo com a época e a cultura, e os tempos atuais são os mais pacíficos de todos.

Publicado na “Nature”, o levantamento coordenado por José María Gómez, da Universidade de Granada, apresenta uma visão das “raízes filogenéticas da violência letal humana”, conforme diz o título do trabalho. Trocando em miúdos, os pesquisadores tentaram investigar até que ponto a filogenia do Homo sapiens -ou seja, o parentesco do homem com outros seres vivos- influenciou o padrão de interações violentas entre membros da nossa espécie que resultam em mortes.

Ou seja, estamos falando apenas da chamada violência letal intraespecífica: não contam, por exemplo, os casos de morte por predação nos quais um animal de determinada espécie mata um membro de outra para comê-lo, que caracteriza a chamada violência interespecífica.

Milhões de mortes

O primeiro passo foi criar um banco de dados gigantesco: informações sobre mais de 4 milhões de mortes em 1.024 diferentes espécies de mamíferos como o ser humano.

O primeiro resultado importante é que, embora mortes violentas tenham sido registradas em 40% dessas espécies, a taxa costuma ser relativamente baixa, numa média 3 para cada 1.000 mortes (0,3%). Baleias e morcegos são especialmente pacíficos, ao menos nesse sentido. O problema é que a taxa vai aumentando progressivamente conforme o parentesco fica mais próximo dos primatas, o subgrupo que inclui os macacos e a humanidade. Entre essas criaturas, a média da violência letal fica em torno de 2% -seis vezes superior à dos mamíferos como um todo.

De fato, embora existam exceções, espécies de parentesco mais próximo tendem a ter comportamento violento mais parecido, o que, segundo os cientistas, corrobora a ideia de que há um componente evolutivo influenciando esse fator. Dois elementos acabam colaborando para o aumento da violência letal em certos grupos de mamíferos ao longo de sua trajetória evolutiva: a vida em grandes grupos e a territorialidade (ou seja, o hábito de tomar posse de um território específico).

A organização em bandos, por um lado, facilita a agressão grupal contra inimigos, que é quase sempre mais mortífera do que brigas na base do mano a mano, enquanto a defesa de territórios é um importante motivo de conflitos. A combinação desses fatores leva a uma forma embrionária de guerra entre chimpanzés, nossos “primos”.

Guerra e paz

O passo seguinte foi examinar os dados sobre a espécie humana moderna, presentes em cerca de 600 estudos que vão do Paleolítico (a popular Idade da Pedra Lascada) aos dias de hoje.

Tais dados muitas vezes não têm a mesma qualidade: nos últimos séculos, basta compilar certidões de óbito mundo afora, enquanto no caso da Pré-história é preciso procurar marcas de violência em esqueletos antigos (e nem sempre um assassinato vai deixar vestígios no esqueleto do defunto).

Feitas essas ressalvas, os dados sugerem que durante dezenas de milhares de anos as mortes violentas ficaram estáveis, na casa dos 2% ou pouco acima dela -ou seja, nossa espécie estava se comportando mais ou menos da maneira esperada, como qualquer outro grande primata. A coisa, porém, encrespou para valer a partir da Idade do Ferro (pouco mais de 3.000 anos atrás), possivelmente por conta do surgimento de Estados e impérios que desenvolveram classes de guerreiros e conquistadores, cujo papel de elite dependia justamente da habilidade de cortar a cabeça alheia.

Nos últimos 500 anos, porém, fortaleceu-se uma tendência lenta, segura e gradual de queda da proporção de mortes violentas, em parte porque os Estados modernos passaram a controlar cada vez mais os conflitos entre cidadãos, em parte porque os conflitos entre Estados foram se tornando mais raros.

A taxa atual está abaixo da média dos mamíferos, aliás -apesar de conflitos étnicos e religiosos e do terrorismo. Em média, a paz está vencendo, ao menos por enquanto.

Com informações: Reinaldo José Lopes/Folhapress

19:58 · 01.09.2016 / atualizado às 19:58 · 01.09.2016 por
Foto: University of Wollongong
Estudo australiano revela a existência de fósseis que datam de ao menos 3,7 bilhões de anos Foto: University of Wollongong

A vida na Terra se originou 220 milhões de anos antes do que se pensava até agora, indicaram cientistas australianos em um estudo publicado nesta quinta-feira (1º) na revista Nature, que revela a existência de fósseis que datam de ao menos 3,7 bilhões de anos.

Estas pequenas estruturas, chamadas de estromatólitos, foram encontradas na Groenlândia e emergiram à superfície após o degelo de uma placa no maciço de Isuea, no sudoeste desta grande ilha. Estes estromatólitos – estruturas fossilizadas “de origem biológica”, de 1 a 4 centímetros – demonstram que a vida emergiu pouco depois da formação da Terra (há 4,5 bilhões de anos), destaca o pesquisador Allen Nutman da Universidade de Wollongong, na Austrália.

O cientista acrescenta que isso aumenta a esperança de que uma forma muito básica de vida pode, em algum momento, ter existido no Planeta Marte. “Esta descoberta representa um novo ponto de referência sobre a mais antiga prova de vida na Terra”, afirma o professor Martin Julian Van Kranendonk, especialista em geologia da Universidade de Nova Gales do Sul e um dos coautores do estudo.

A estrutura e a geoquímica da rocha na qual os estromatólitos foram encontrados forneceram pistas de uma origem biológica para os microfósseis, o que “aponta para um rápido aparecimento da vida na Terra”, disse o especialista. Os estromatólitos são formados quando microorganismos, como determinados tipos de bactérias, agrupam pedaços de sedimentos em forma de camadas. Estas camadas se acumulam ao longo do tempo, formando rochas sólidas.

A sua existência sugere que os organismos muito simples unicelulares que as criaram estavam presentes na Terra centenas de milhões de anos antes do que se pensava, disse a equipe.

Ceticismo

Outros cientistas se mostraram mais céticos.

Estruturas parecidas com estromatólitos podem se formar sem a presença de qualquer organismo vivo, afirmou Abigail Allwood, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, em um comentário sobre o estudo.

“A interpretação das estruturas similares aos estromatólitos tem sido notoriamente difícil nas rochas mais antigas da Terra”, escreveu Allwood, afirmando que os resultados do estudo iriam “gerar controvérsia”.

“A conjetura para uma origem biológica das estruturas da Gronelândia é limitada pela informação disponível no pequeno afloramento”, argumentou. Mas Vickie Bennett, da Universidade Nacional Australiana, que também trabalhou no estudo, disse que a pesquisa “vira o estudo da habitabilidade planetária do avesso”.

“Em vez de especular sobre possíveis ambientes primitivos, pela primeira vez temos rochas que sabemos que registraram as condições e ambientes que sustentaram o início da vida”, acrescentou.

Vida em Marte

Esta descoberta pode ajudar na busca de vida em Marte, considerado o planeta do sistema solar mais propício para a existência de formas de vida microbianas.

Acredita-se que o Planeta Vermelho em algum momento teve água e uma atmosfera, que, juntamente com o calor, poderiam fornecer as condições adequadas para a vida bacteriana.

“Há 3,7 bilhões de anos, Marte provavelmente ainda era úmido e provavelmente ainda tinha oceanos”, explica Allen Nutman. “Se a vida se desenvolveu tão rapidamente na Terra, permitindo a formação de coisas como estes estromatólitos, poderia ser mais fácil detectar sinais de vida em Marte”, acrescenta.

“Em vez de estudar unicamente a ‘assinatura’ química do planeta, talvez possamos ver coisas como os estromatólitos nas imagens de Marte”, explica. Até hoje, a mais antiga prova de vida na Terra foi descoberta em 2006 por pesquisadores australianos e canadenses, nas rochas de Strelley Pool Chert, na região Pilbara na Austrália. Tinha 3,5 bilhões de anos.

Com informações: AFP

23:13 · 19.07.2016 / atualizado às 23:21 · 20.07.2016 por
Foto: Oregon State University
Estudando o supervulcão de Toba, na Indonésia, que entrou em erupção pela última vez há 74 mil anos, os pesquisadores revelaram que ele é alimentado por um profundo sistema de bombeamento de magma Foto: Oregon State University

Um novo estudo feito por cientistas da Rússia desvendou o mecanismo que controla os supervulcões – classificação atribuída aos vulcões que causaram as erupções mais devastadoras na Terra. Os pesquisadores conseguiram explicar por que eles têm tanto magma, mas entram em atividade muito raramente.

Estudando o supervulcão de Toba, na Indonésia – que entrou em erupção pela última vez há 74 mil anos, produzindo uma catástrofe global -, os pesquisadores revelaram que esse tipo de vulcão é alimentado por um complexo e profundo sistema de bombeamento de magma.

A mais de 150 quilômetros de profundidade, sob as placas tectônicas sobrepostas, esse sistema envia gases e magma, que ficam armazenados em um imenso reservatório a 75 quilômetros da superfície. O mesmo tipo de sistema foi identificado também no supervulcão de Yellowstone, nos Estados Unidos.

Quando o reservatório de magma atinge um nível crítico e pressão por causa dos gases armazenados, o reservatório se esvazia, produzindo uma erupção de grande escala.

O estudo, publicado na revista científica Nature Communications, foi liderado por Ivan Koulakov, chefe do Laboratório de Sismologia do Instituto de Geologia e Geofísica de Petróleo da Rússia.

Efeito devastador

O supervulcão de Toba produziu um efeito devastador no clima global e na biosfera, quando literalmente explodiu pela última vez, há 74 mil anos, lançando pelos ares 2,8 mil km³ de material.

Para se ter uma ideia da escala, basta fazer uma comparação com os 4 km³de material ejetado pela conhecida erupção do Monte Vesúvio, no ano 79 – que destruiu as cidades de Pompeia e Herculano, matando cerca de 16 mil pessoas – que liberou uma energia térmica mil vezes maior que a da bomba de Hiroshima.

Alguns cientistas defendem a chamada Teoria da Catástrofe de Toba: a erupção devastadora há 74 mil anos teria obscurecido a luz solar, fazendo as temperaturas caírem mais de cinco graus Celsius por alguns ano – o que teria acabado com várias espécies quase extinguindo os ancestrais dos humanos. A catástrofe de Toba explicaria, portanto, um dos principais mistérios da genética.

Estudos genômicos mostram que os genes de todos os seres humanos atuais têm origem em apenas algumas milhares de pessoas que viveram há alguns milhares de anos, em vez de fazerem parte das linhagens humanas muito mais antigas, como seria coerente com os registros fósseis. Todos os seres humanos seriam descendentes dos sobreviventes da erupção do Toba.

O poder das erupções vulcânicas é medido com o Índice de Explosividade Vulcânica (VEI, na sigla em inglês). A escala vai de 1 a 8, sendo que cada ponto significa uma erupção 10 vezes maior que o precedente. Só os supervulcões, como o de Toba e o de Yellowstone, têm erupções de magnitude 8. Nenhum deles explodiu nos últimos 20 mil anos.

Com informações: Agência Estado

18:16 · 08.06.2016 / atualizado às 18:17 · 08.06.2016 por
Foto: National Museum of Nature and Science of Tokyo
Medindo apenas 1,1 metro, os chamados Homo floresiensis (nome derivado da ilha de Flores, seu local de origem) causam dores de cabeça nos especialistas em evolução humana desde 2004 Foto: National Museum of Nature and Science of Tokyo

As dúvidas que ainda pairavam sobre a identidade dos misteriosos “hobbits” da Indonésia devem ser dissipadas, ao que tudo indica.

Novas descobertas na mesma ilha onde esses hominídeos diminutos foram achados originalmente revelaram seus prováveis ancestrais, os quais já eram pequeninos há 700 mil anos.

Medindo apenas 1,1 metro, os chamados Homo floresiensis (nome derivado da ilha de Flores, seu local de origem) causam dores de cabeça nos especialistas em evolução humana desde 2004, quando sua existência foi revelada ao público pela primeira vez nas páginas da prestigiada revista científica “Nature”.

Ocorre que nenhum dos outros membros da linhagem humana jamais teve tamanho tão modesto, e o cérebro dos espécimes de Flores, equivalente ao de um chimpanzé, também é surpreendentemente pequeno (a pequenez, obviamente, foi o que levou os cientistas a comparar os exemplares com os hobbits de “O Senhor dos Anéis”).

Os dados aparentemente malucos levaram alguns especialistas a argumentar que a equipe australiano-indonésia responsável por desencavar os primeiros H. floresiensis na caverna de Liang Bua tinha errado feio: os hobbits não passariam de Homo sapiens com algum problema severo de desenvolvimento, talvez de origem genética.

Isolamento

O fato de que todos os indivíduos da suposta nova espécie achados até hoje vinham de uma única caverna ajudou a sustentar tal hipótese até hoje, já que as características peculiares poderiam ser consideradas anomalias ligadas a um único grupo familiar, por exemplo.

Mas os descobridores dos hobbits argumentavam que a morfologia do crânio e dos demais ossos do H. floresiensis tinha traços primitivos que não tinham nada a ver com patologias modernas -e tudo a ver com o Homo erectus, hominídeo que já andava pelo Sudeste Asiático há cerca de 1,5 milhão de anos.

Para eles, portanto, o cenário mais provável era o seguinte: ao se espalhar pela atual Indonésia, alguns grupos de H. erectus teriam ficado isolados em Flores. A partir daí, desencadeou-se um processo conhecido como nanismo de ilhas, no qual a relativa falta de recursos e território em áreas insulares leva a seleção natural a favorecer versões miniaturizadas de uma espécie.

Parece coisa de ficção científica, mas é algo tão comum que aconteceu de forma independente diversas vezes: as ilhas do Mediterrâneo abrigavam elefantes anões (alguns medindo apenas 1,5 m) na pré-história, e a própria Flores foi lar de parentes extintos do elefante chamados Stegodon, que também eram versões “pocket” de seus ancestrais.

Sítio a céu aberto

A importância da nova pesquisa, também publicada na “Nature”, vem justamente do fato de que os novos fósseis foram achados a 74 km de Liang Bua, num sítio arqueológico a céu aberto conhecido como Mata Menge.

A equipe liderada por Gerrit van den Bergh, da Universidade de Wollongong (Austrália), também teve a sorte de datar com relativa precisão os restos (um fragmento de mandíbula e alguns dentes), porque eles estavam recobertos por uma camada de material vulcânico, cujas propriedades radioativas permitem uma boa estimativa de idade.

Os fósseis foram analisados pelo antropólogo japonês Yousuke Kaifu, do Museu Nacional de Natureza e Ciência de Tóquio. “Fiquei tão surpreso com o tamanho minúsculo da mandíbula e dos dentes que cheguei a achar que eram de uma criança”, contou Kaifu. No entanto, imagens de tomografia computadorizada do osso mostraram que ele tinha características típicas de indivíduos adultos.

O exame detalhado da morfologia dos fragmentos revelou grandes semelhanças com os da caverna de Liang Bua (embora os de Mata Menge sejam entre 20% e 30% menores, na verdade). E, como os restos da gruta foram todos datados entre 200 mil e 50 anos atrás -contando aí tanto artefatos quanto ossos-, a equipe postula que os habitantes de Mata Menge são os prováveis ancestrais dos hobbits que foram encontrados primeiro.

“Isso finalmente encerra o debate sobre a validade do H. floresiensis como espécie separada”, diz Aida Gómez-Robles, da Universidade George Washington (EUA), que comentou o novo estudo a pedido da “Nature”.

Como há artefatos de pedra em Flores com idade estimada em 1 milhão de anos, os autores da pesquisa argumentam que isso reforça a hipótese de que os H. erectus aportaram por lá mais ou menos nessa época.

Com informações: Reinaldo José Lopes/Folhapress

23:30 · 20.03.2015 / atualizado às 23:30 · 20.03.2015 por
Foto: SVT
Com 2,75 metros, o Carnufex carolinensis tinha a aparência de um crocodilo, mas andava sobre as patas traseiras Foto: SVT

Cientistas anunciaram a descoberta de um ancestral de jacarés e crocodilos que foi o grande predador da América do Norte, antes de os dinossauros aparecerem no continente. Com 2,75 metros, o animal tinha a aparência de um crocodilo, mas andava sobre as patas traseiras.

O novo réptil, que viveu há mais de 230 milhões de anos, foi descoberto no Estado da Carolina do Norte (EUA) e recebeu o nome de Carnufex carolinensis, que significa “carniceiro da Carolina”. De acordo com os autores do estudo, o Carnufex provavelmente era o predador de animais menores que viviam nos ecossistemas da região, como os primeiros ancestrais dos mamíferos e répteis dotados de carapaças.

A descoberta, feita por paleontologistas da Universidade Estadual da Carolina do Norte e do Museu de Ciências Naturais da Carolina do Norte, foi publicada na Scientific Reports, uma revista científica de acesso aberto mantida pelo grupo que edita a Nature. Os cientistas descobriram partes do crânio, da coluna vertebral e dos membros superiores do Carnufex na Formação Pekin, na Carolina do Norte.

Como o crânio estava em pedaços, era difícil visualizar como deveria ter sido sua aparência em vida. Os pesquisadores, portanto, escanearam cada osso com uma tecnologia de alta resolução. Com base nessa técnica de última geração e em crânios mais bem preservados de parentes do Carnufex, foi possível criar um modelo tridimensional do crânio reconstruído do réptil.

Começo do fim da Pangeia 

A Formação Pekin contém sedimentos depositados há 231 milhões de anos, no início do período Triássico Superior, que é conhecido como Idade Carniana. Na época, a Carolina do Norte era uma região úmida, quente e equatorial, que começava a se separar do supercontinente Pangeia.

“Os fósseis desse período são extremamente importantes para os cientistas, porque eles registram o mais primitivo aparecimento dos crocodilomorfos e dos dinossauros terópodes, os dois grupos que primeiro evoluíram no período Triássico e conseguiram sobreviver até os dias de hoje, na forma de crocodilos e aves”, disse a autora principal do estudo, Lindsay Zanno, professora da Universidade Estadual da Carolina do Norte.

“A descoberta do Carnufex, um dos maiores e mais primitivos crocodilomorfos, acrescenta informação inédita sobre a competição entre os grandes predadores da Pangeia”, declarou Zanno. Os típicos predadores que vagavam pela Pangeia incluíam os Rauisuchideos e os Poposaurideos, temidos parentes dos crocodilos primitivos que foram extintos no período Triássico.

Primeiras diferenças Norte-Sul

De acordo com Zanno, no Hemisfério Sul esses animais caçavam na companhia dos primeiros dinossauros, gerando uma sobreposição de predadores. A descoberta do Carnufex indica que no norte os grandes crocodilomorfos – e não os dinossauros – estavam no topo da cadeia de predadores.

“Já sabíamos que havia vários lutando pelo domínio no início do Triássico Superior. Mas, até decifrarmos a história por trás do Carnufex, não estava claro que os primeiros ancestrais dos crocodilos estavam competindo pelo topo da cadeia”, afirmou Zanno.

À medida que o Triássico se aproximava do fim, a extinção dizimou essa miríade de predadores e apenas crocodilomorfos pequenos e terópodes sobreviveram.

Com informações: Agência Estado

23:05 · 19.03.2015 / atualizado às 23:16 · 19.03.2015 por
Foto: Dinopedia
A macrauquênia, de compleição leve, tinha pernas longas, um pescoço comprido e um tronco aparentemente pequeno, lembrando um camelo sem corcova e com tromba similar a de um de seus parentes mais próximos, a anta Foto: Dinopedia

Para o naturalista britânico do século 19 Charles Darwin, eles eram os animais mais estranhos já descobertos, um parecido com uma mistura de hipopótamo, rinoceronte e roedor e outro lembrando um camelo sem corcova com uma tromba de elefante.

Desde que Darwin coletou seus fósseis cerca de 180 anos atrás, os cientistas viviam se perguntando onde estas estranhas criaturas sul-americanas, extintas 10 mil anos atrás, se encaixavam na árvore genealógica dos mamíferos. Agora, o mistério foi solucionado.

Nesta quarta-feira, pesquisadores disseram que uma análise bioquímica sofisticada de colágeno de osso extraída de fósseis dos dois mamíferos, o toxodonte e a macrauquênia, demonstraram que eles tinham relação com o grupo que inclui cavalos, antas e rinocerontes, os perissodáctilos,  que são ungulados (animais com casco) com número ímpar de dedos nas patas.

Alguns cientistas acreditavam que os dois mamíferos herbívoros, os últimos de um grupo bem-sucedido chamado de ungulados sul-americanos (ou meridiungulados), tinham relação com mamíferos de origem africana como os elefantes e os porcos-da-terra, ou outros mamíferos sul-americanos como os tatus e as preguiças.

“Desvendamos um dos últimos grandes problemas ainda sem solução da evolução mamífera: as origens dos ungulados sul-americanos nativos”, disse o biólogo de evolução molecular Ian Barnes, do Museu de História Natural de Londres, cuja pesquisa está na revista Nature.

Primeiras ideias sobre evolução

O toxodonte, que tinha cerca de 2,75 metros, possuía um corpo semelhante ao do rinoceronte, a cabeça como a de um hipopótamo e molares sempre em crescimento, como os de um roedor. A macrauquênia, do mesmo tamanho, mas de compleição mais leve, tinha pernas longas, um pescoço comprido e um tronco aparentemente pequeno.

“Algumas das primeiras ideias de Darwin sobre a evolução por meio da seleção natural foram concebidas contemplando os restos de toxodonte e macrauquênia, que lembravam de maneira tão confusa os traços de uma série de outros grupos, mas que tinham desaparecido muito recentemente”, explicou o paleomamiferologista Ross MacPhee, do Museu de História Natural de Nova York.

Os pesquisadores tentaram sem sucesso obter DNA dos fósseis, mas conseguiram obter o colágeno, que é mais resistente, dos restos mortais. O colágeno é a principal proteína estrutural de vários tipos de tecido, incluindo ossos e pele.

Os cientistas compararam o colágeno com uma ampla variedade de mamíferos vivos e alguns extintos para posicionar as criaturas corretamente na árvore genealógica dos mamíferos.

Origem geográfica dos meridiungulados

MacPhee afirmou que este grupo provavelmente chegou à América do Sul pela América do Norte aproximadamente 65 milhões de anos atrás, época em que os dinossauros foram exterminados em uma calamidade que permitiu aos mamíferos se tornarem os maiores e mais prevalentes animais terrestres.

Uma gama eclética de mamíferos, como preguiças do tamanho de elefantes e marsupiais de grandes presas, surgiu na América do Sul.

Com informações: Reuters

 

18:22 · 05.02.2015 / atualizado às 18:22 · 05.02.2015 por
Imagem: Nature
Ilustração representando espécies de primatas que existiam nos dois continentes no fim do Eoceno, bem como a configuração de terras emersas e oceanos há 36 milhões de anos Imagem: Nature

Os “macacos do Novo Mundo”, ou platirrinos, cuja origem sempre foi um mistério, viveram na América do Sul muito tempo antes do que se pensava e devem mesmo ter tido ascendência africana, segundo um estudo divulgado pela revista “Nature”.

“A primeira conclusão deste estudo é que os macacos do Novo Mundo viveram na América do Sul milhões de anos antes do que se pensava pelos registros fósseis encontrados até então”, disse à Agência Efe Kenneth Campbell, paleontólogo do Museu de História Natural de Los Angeles (Estados Unidos).

Até o momento, os registros fósseis mais antigos dos macacos do Novo Mundo – 26 milhões de anos atrás – haviam sido encontrados na região onde atualmente fica a Bolívia. Nesta nova pesquisa, os cientistas encontraram dentes fósseis que aparentemente datam de 36  milhões de anos no passado e que pertencem a uma nova espécie de primatas pequenos, denominada Perupithecus ucayaliensis.

“A segunda descoberta tem a ver com a forma de seus dentes, que são muito similares aos dos macacos africanos, o que indica uma possível ascendência da África”, explicou Campbell. Os novos exemplares descritos neste estudo têm “semelhanças surpreendentes” com os primatas africanos primitivos, o que sugere que esses símios da América do Sul tiveram sua origem na África.

De acordo com a pesquisa, os dentes encontrados não apresentam muitas semelhanças com os dos primatas sul-americanos (extintos ou não), mas com os africanos da época do período Eoceno (entre cerca de 55 milhões de anos e 36 milhões de anos atrás).

O paleontólogo explicou as etapas do estudo. “Primeiro achamos os novos fósseis, depois os identificamos como procedentes de macacos e mais tarde os comparamos com os registros fósseis já existentes e, por último, os interpretamos”, afirmou.

Esses achados sugerem que o Perupithecus ucayaliensis estava relacionado com os primatas africanos, mas os pesquisadores afirmaram que mais amostras são necessárias para que esta hipótese seja confirmada.

Navegadores acidentais

Evolucionistas já suspeitavam da origem africana dos macacos do continente americano.

As duas teorias mais aceitas para essa migração são as “jangadas de vegetação” ou as “pontes de terra”.

No período Eoceno, a África e a América do Sul já estavam separadas, embora a uma distância menor que a atual.

Assim, pequenos macacos africanos  podem ter viajado acidentalmente em árvores lançadas ao mar por tempestades (que formariam verdadeiras jangadas naturais) e chegado até o outro lado do Atlântico.

Essa é a hipótese mais provável, de acordo com a maioria dos pesquisadores, que já observaram esse fenômeno acontecer em tempos modernos com animais como lagartos e pequenos roedores.

Outra possibilidade, é que naquele período, em momentos de redução dos níveis do mar, tenha surgido um maior número de ilhas entre os dois continentes e, menos provavelmente, uma ligação por terra, hoje desconhecida, que permitiu a disseminação do grupo.

19:22 · 30.01.2015 / atualizado às 22:14 · 30.01.2015 por
Foto: America Herald
Pesquisadores chegaram à conclusão, a partir de análise que envolveu o uso de tomografia computadorizada, para analisar os ossos das mãos de membros da nossa espécie, dos neandertais, de chimpanzés e dos australopitecos Foto: America Herald

A capacidade tipicamente humana de fazer movimentos complexos unindo o polegar aos demais dedos, como girar uma chave, já estava presente em ancestrais do homem com 3 milhões de anos de idade, diz um novo estudo. O dado vem da análise dos ossos das mãos do hominídeo Australopithecus africanus.

No artigo publicado na revista “Science”, cientistas tentam resolver uma polêmica antiga. Embora quase todos os especialistas concordem que o uso de ferramentas de pedra já era uma característica do primeiro membro do nosso gênero, o Homo habilis, que viveu há cerca de 2,5 milhões de anos, ancestrais mais antigos têm um mosaico de traços “primitivos” e “avançados” nas mãos, o que deixa os cientistas em dúvida.

Os pesquisadores então usaram tomografia computadorizada para analisar os ossos das mãos de membros da nossa espécie, dos neandertais, de chimpanzés e dos australopitecos.

A chave aqui é o chamado osso trabecular, um tipo esponjoso de tecido ósseo que é remodelado de acordo com o tipo de esforço realizado.

A “pegada” típica do polegar humano leva a uma maior densidade desse osso na base do polegar.

E foi isso que os pesquisadores viram no caso dos australopitecos.

Com informações: Reinaldo José Lopes/Folhapress

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