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Categoria: Medicina


20:23 · 02.07.2018 / atualizado às 20:23 · 02.07.2018 por
O Mal de Parkinson é um transtorno neurodegenerativo que afeta o sistema nervoso de maneira crônica e progressiva Foto: The Health Site

Um remédio desenvolvido de forma experimental por pesquisadores da Universidade Johns Hopkins (Baltimore, nos Estados Unidos) conseguiu desacelerar a progressão e os sintomas do Mal de Parkinson, segundo informou o centro universitário.

Os cientistas, que em experiências com cultivos celulares do cérebro humano e um modelo pré-clínico da doença de Parkinson em ratos descobriram que o chamado NLY01 detém “a degeneração neuronal”, pretendem usar ainda este ano o medicamento em testes clínicos.

“O medicamento protege de uma forma realmente assombrosa as células-alvo do sistema nervoso”, explicou Ted Dawson, diretor do Instituto de Engenharia Celular e professor de Neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins, com sede em Baltimore (Maryland).

Se os testes clínicos forem bem-sucedidos, o NLY01 seria um dos primeiros tratamentos farmacológicos cuja ação não só estaria encaminhada a melhorar a rigidez muscular, os tremores e a demência, entre outros sintomas do Parkinson, mas também deter a progressão da doença, destacou Dawson. Os resultados do estudo foram publicados na revista científica digital Nature Medique.

Contra o diabetes

Em comunicado, a Universidade Johns Hopkins informou que o NLY01 atua de forma similar aos compostos usados para aumentar os níveis de glicemia das pessoas que sofrem de diabetes.

Embora os resultados de pesquisas anteriores em animais tenham permitido conjecturar o potencial neuroprotetor deste tipo de medicamento contra o diabetes, não foi possível demonstrar concretamente como funcionava este mecanismo no cérebro.

Com o objetivo de descobri-lo, Dawson e sua equipe testaram o fármaco NLY01 em três tipos de células cerebrais de grande relevância: os astrócitos, a micróglia e os neurônios.

Células destruidoras

Os astrócitos, células que permitem a comunicação sináptica, quando se transformam em “reativos” devido a um sinal químico enviado pela micróglia, se “rebelam” e começam a “devorar os pontos de contato das células do cérebro, o que, por sua vez, causa a morte neuronal”. Em uma experiência preliminar com células do cérebro humano reproduzidas in vitro, a equipe de Dawson usou o NLY01 na micróglia humana e descobriu que o sinal de ativação não se produzia e que os astrócitos não se transformavam em células destruidoras e conseguiam conservar sua função neuroprotetora.

Depois testaram a eficácia do fármaco em ratos que, por modificação genética, sofriam de uma versão do Parkinson.

Primeiro experimento

Em um primeiro experimento, a equipe de Dawson injetou a proteína alfa-sinucleína, que, acredita-se, é a principal causa do Parkinson, em dez ratos que posteriormente receberam o NLY01. Além disso, os pesquisadores injetaram a alfa-sinucleína em outro grupo de ratos similares, que depois não receberam o fármaco.

Este segundo grupo de ratos apresentou uma deterioração motora significativa em testes de comportamento, enquanto os ratos tratados com o NLY01 conservaram tanto suas funções físicas normais como os neurônios dopaminérgicos, uma clara indicação do efeito protetor do medicamento em relação ao desenvolvimento da doença de Parkinson.

Segundo experimento

Em um segundo experimento, os cientistas estudaram um grupo de ratos que, por modificação genética, produzia, de forma natural, uma proteína alfa-sinucleína mais análoga à humana.

Em condições normais, os ratos transgênicos deveriam morrer em 387 dias, mas a equipe de Dawson observou que o tratamento com o NLY01 prolongou a sobrevivência dos 20 ratos tratados com o fármaco em mais de 120 dias. Após realizar uma análise mais exaustiva, os pesquisadores perceberam que o cérebro dos ratos tratados com o fármaco NLY01 apresentavam poucos indícios das caraterísticas neurodegenerativas do Parkinson.

O Mal de Parkinson é um transtorno neurodegenerativo que afeta o sistema nervoso de maneira crônica e progressiva. Segundo a Fundação contra o Parkinson, esta doença afeta aproximadamente 1 milhão de pessoas nos Estados Unidos.

Com informações:Agência Brasil

18:04 · 25.06.2018 / atualizado às 18:04 · 25.06.2018 por
Medicamento experimental coloca a insulina dentro de um líquido, contido em uma cápsula de polímero que resiste aos ácidos do estômago Foto: Bel Marra Health

Estudos com ratos abriram a possibilidade para a elaboração de um novo tipo de comprimido de insulina que poderia evitar que milhões de diabéticos se submetam às injeções diárias, informaram pesquisadores nesta segunda-feira (25).

Ainda é necessário fazer mais pesquisas para que a pílula, criada por especialistas da Universidade de Harvard, possa ser testada em humanos, ou esteja disponível em escala mundial. Até agora, o principal desafio para a sua elaboração tem sido encontrar um modo de preservar a proteína da insulina uma vez que entre em contato com os ácidos no estômago.

O medicamento experimental coloca a insulina dentro de um líquido, contido em uma cápsula de polímero que resiste aos ácidos do estômago, segundo descrição da Academia de Ciências. Essa proteção se dissolve quando entra em contato com um ambiente alcalino no intestino delgado, permitindo que o líquido que contém a insulina seja liberado.

“Uma vez ingerida, a insulina deve atravessar uma corrida de obstáculos antes que seja efetivamente absorvida pela corrente sanguínea”, assinalou o autor do estudo Samir Mitragotri, professor de Bioengenharia em Harvard.

“Nossa abordagem é quase como um canivete suíço, já que o comprimido tem ferramentas para enfrentar cada um dos obstáculos que encontra”. A pílula é de “fácil produção e pode ser conservada por até dois meses à temperatura ambiente sem se degradar”, indicou o estudo. Os pesquisadores não detalharam quanto tempo levaria para iniciar os testes em humanos, mas podem ser anos. Ainda são necessários mais estudos em animais, além de análises sobre os possíveis efeitos tóxicos por seu uso em longo prazo.

Quarenta milhões de pessoas no mundo têm diabetes tipo 1, uma condição que requer a aplicação diária de injeções com insulina, uma substância que seu organismo não pode produzir por si só. Segundo Mark Prausnitz, chefe de Química e Engenharia Molecular no Georgia Institute of Technology, a busca por doses de insulina para ser ingerida tem sido considerada o “Santo Graal” nas pesquisas de diabetes. “As implicações deste trabalho na medicina podem ser enormes se as descobertas puderem ser transformadas em comprimidos que podem administrar segura e efetivamente a insulina e outras drogas nos humanos”.

Com informações: AFP

18:55 · 22.06.2018 / atualizado às 18:55 · 22.06.2018 por
Embora a organização reconheça os esforços do país para melhorar o acesso a serviços de saúde, ressalta a redução de sua capacidade de resposta em emergências e surtos de doenças diante das crises social, política e econômica Foto: La Nación

A Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) pediu nesta semana à Venezuela que contenha o avanço do sarampo e da difteria e que reduza a mortalidade produzida pela malária, assim como abordar a atual “fragmentação e segmentação” dos serviços de saúde.

A Venezuela deve “elaborar e executar urgentemente um plano de ação para deter a transmissão do sarampo e da difteria”, “reduzir a morbidade e a mortalidade por malária” e “acelerar os esforços para melhorar a integração dos serviços de saúde (…) a fim de abordar a fragmentação e a segmentação atual”, disse a Opas.

Essas recomendações estão em um relatório sobre a Venezuela e países vizinhos apresentado durante a 162º sessão do comitê executivo do organismo, que termina nesta sexta-feira (22) em Washington.

O documento ressalta que a Venezuela, com mais de 30 milhões de habitantes, enfrenta uma situação sociopolítica e econômica que afetou “negativamente” os indicadores de saúde.

Mais de 1,6 milhão de venezuelanos migraram em 2017 a outros países “o que causou preocupações de saúde pública”, destacou a Opas, ao mencionar especialmente Colômbia, Brasil, Equador, Guiana, Peru e Trinidade e Tobago.

Na Venezuela, além dos surtos de difteria, sarampo e malária que se ampliaram “com rapidez”, a Opas ressalta sua preocupação com as infecções por HIV e tuberculose, o aumento da mortalidade materna e de crianças menores de um ano, e as dificuldades de acesso aos medicamentos e de atenção de pessoas com doenças crônicas potencialmente fatais.

Embora reconheça os esforços da Venezuela para melhorar o acesso a serviços de saúde, ressalta a redução de sua capacidade de resposta em emergências e surtos de doenças, e em prevenção e redução do impacto das doenças transmissíveis. “Devem-se tomar medidas imediatas para abordar as necessidades de curto prazo, reduzir o impacto da migração dos funcionários de saúde e racionar os recursos existentes, enquanto se mobilizam recursos adicionais”, apontou a Opas.

Durante uma visita a Caracas na semana passada, a diretora da organização, Carissa Etienne, expressou sua preocupação com os surtos crescentes de sarampo e difteria, que segundo a Opas resultaram em 75 mortes desde meados de 2017.

Com informações: AFP

11:24 · 07.04.2018 / atualizado às 11:24 · 07.04.2018 por
Atualmente, cerca de 34 mil brasileiros fazem uso do medicamento, que é um imunossupressor, ou seja, reduz a atividade do sistema imunológico para que não haja rejeição dos órgãos após o transplante Foto: Farmanguinhos/Fiocruz

O Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos) finalizou, nesta semana, a produção dos primeiros lotes do medicamento tacrolimo, utilizado continuamente por pacientes transplantados de rim e fígado.

A medicação era produzida pela indústria privada nacional Libbs Farmacêutica, mas por meio de um acordo de transferência de tecnologia passou a ser produzida por Farmanguinhos, que é vinculada à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Mesmo antes de iniciar a produção em Farmanguinhos, a Fiocruz e a Libbs já tinham desenvolvido uma parceria de desenvolvimento produtivo do medicamento que gerou, em cinco anos, uma economia de R$ 980 milhões para os cofres públicos, por tornar a medicação mais acessível aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).

A expectativa é de que a economia possa ser ainda maior com a continuidade da produção, após o credenciamento de Farmanguinhos na Anvisa como local de fabricação do remédio.

Beneficiados

Segundo a Fiocruz, atualmente cerca de 34 mil brasileiros fazem uso do medicamento, que é um imunossupressor, ou seja, reduz a atividade do sistema imunológico para que não haja rejeição dos órgãos após o transplante.

São realizados mais de 6 mil novos transplantes de rins e mais de mil de fígado anualmente no Brasil. O tacrolimo é usado por toda a vida de uma pessoa transplantada.

Outros medicamentos

Ainda de acordo com a Fiocruz, espera-se que outros medicamentos da mesma categoria terapêutica passem também a ser produzidos por Farmanguinhos.

Um deles é o everolimo, utilizado em pacientes com câncer renal e que, assim como o tracolimo, consta na lista de medicamentos estratégicos do SUS.

Com informações: Agência Brasil

18:13 · 23.03.2018 / atualizado às 18:13 · 23.03.2018 por
Ideia dos pesquisadores é fornecer a técnica de forma gratuita pelo Sistema Único de Saúde (SUS) Foto: Ribamar Neto/UFC

Pesquisadores do grupo de pesquisa Biotecnologia Molecular do Látex Vegetal, da Universidade Federal do Ceará, encontraram uma alternativa para tratar lesões causadas pela hanseníase: uma biomembrana desenvolvida a partir de proteínas vegetais com alto poder de cicatrização.

Em alguns dos testes com voluntários com sequelas de hanseníase, ferimentos abertos há mais de 15 anos apresentaram cicatrização de aproximadamente 80% da lesão apenas três meses após o início do tratamento. Um dos fatores que dificultam a cura da lesão da hanseníase é seu constante estado de inflamação. Isso faz as bordas do ferimento adquirirem forma semelhante à de calos, impedindo o processo de cicatrização do tecido epitelial. A membrana produzida na pesquisa age como um princípio ativo quando aplicada diretamente na pele dos pacientes, quebrando essa barreira e estimulando o processo de recuperação.

O grupo é coordenado pelos professores Márcio V. Ramos, do Programa de Pós-Graduação em Bioquímica, responsável por todas as etapas relacionadas à obtenção da proteína; e Nylane Nunes de Alencar, do Programa de Pós-Graduação em Farmacologia, que acompanha todas as ações ligadas à área médica.

Essas ações são realizadas no Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM), da UFC, em parceria com a médica Maria Araci Pontes Aires, do Centro Dermatológico Dona Libânia, referência em hanseníase no Estado do Ceará.

No Centro, os pacientes considerados pós-hansênicos (que se curaram, mas ainda apresentam lesões) recebem tratamento apenas para evitar infecções, uma vez que as feridas estão abertas. A rede pública, no entanto, não disponibiliza um tratamento que favorece a cicatrização. A ideia dos pesquisadores, portanto, é fornecer a biomembrana de forma gratuita pelo Sistema Único de Saúde (SUS), algo que seria viabilizado pela criação de um laboratório totalmente destinado a essa produção. Esse laboratório seria voltado não apenas para tratamento da hanseníase, mas para outras doenças de sequelas semelhantes, como a diabetes.

“Há drogas no mercado que promovem cicatrização, mas com preço inacessível aos pacientes. E quem tem hanseníase geralmente são pessoas pobres”, conta o Prof. Márcio Ramos, coordenador do Laboratório de Plantas Laticíferas, responsável pela extração e caracterização das proteínas ativas. Um fator que torna a membrana viável para o sistema público é justamente o barateamento da produção, uma vez que ela seria feita sem as margens de lucro da indústria convencional. Os pesquisadores estimam que, com isso, o custo do tratamento poderia ser reduzido de 50% a 70% em relação à terapia disponível no mercado. “Por isso a importância de criar um laboratório de produção”, defende a Profª Nylane Alencar.

A criação desse setor de produção ganha ainda outra justificativa considerando-se a gama de aplicações possíveis da membrana. Além do uso em pacientes pós-hansênicos e diabéticos, já há expectativa de utilização em enfermos com úlcera venosa, cuja cirurgia não tem cicatrização total. “Começamos com a hanseníase, mas temos potencial de ampliar o atendimento para outros problemas igualmente graves, mas negligenciados”, diz o Prof. Márcio Ramos.

Efeito cicatrizante

O estudo teve início ainda em 2013, quando os pesquisadores já haviam constatado o efeito cicatrizante dessas enzimas em modelos animais. Com o início das aplicações em humanos no ano passado, a biomembrana se mostrou igualmente eficiente, com resultados que variavam de acordo com o paciente.

As doutorandas do Programa de Pós-Graduação em Farmacologia da UFC responsáveis pelo trabalho experimental, Marília Nunes e Tamiris Goebel, explicam que a porcentagem de cura da lesão depende, por vezes, de fatores externos ou de apoio médico. “É preciso acompanhamento de neurologista, ortopedista e até uso de um calçado adequado, por exemplo. Às vezes há pacientes que não cicatrizaram por conta de fatores básicos”, explica Marília.

Naquelas pessoas tratadas que atendiam a necessidades simples, como o exemplo citado, o efeito acelerador da cicatrização ocorreu sem problemas, garantindo a recuperação das lesões nos três meses em que as doutorandas aplicaram a pesquisa.

Princípio ativo

As proteínas usadas na produção da biomembrana são extraídas do látex da planta Calotropis procera, conhecida popularmente como ciúme ou algodeiro-de-seda, típica de regiões áridas como o Nordeste brasileiro.

Após a extração, essas proteínas são separadas e purificadas. Na UFC, a equipe do grupo de pesquisa de Biotecnologia Molecular de Látex Vegetal já conseguiu aplicá-las em processos que vão da produção de um “queijo vegetariano” até a criação de um produto para depilar couro animal.

No processo de separação, materiais como borracha e compostos secundários são removidos, para que as proteínas possam ser recuperadas, desidratadas e transformadas em pó. Esse pó é homogeneizado em uma solução de álcool polivinílico (PVA) até a formação de um líquido branco, que, quando seca, se torna quase um filme transparente: a biomembrana.

Ao ser colocado na pele em ferida aberta, o filme é progressivamente absorvido e promove a ação cicatrizante. “É uma liberação controlada”, diz a Profª Nylane. “As proteínas vão saindo aos poucos. Quando são aplicados géis, às vezes a pele não absorve, mas isso não ocorre com a membrana.” A pesquisa foi financiada com recursos do Programa de Pesquisa para ao SUS (PPSUS) e da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap).

Com informações: Agência UFC

15:02 · 22.02.2018 / atualizado às 15:05 · 22.02.2018 por
Exame, baseado em algoritmos, pode ser realizado em poucos minutos e permite observar as diversas camadas da retina, identificar alterações causadas por doenças que podem causar perda de visão Foto: Healing The Eye

Por Gabriel Alves

É possível que, em breve, o leitor possa ser atendido por um androide médico, tal qual no filme “Star Wars”, ou ter seu tratamento decidido por um poderoso algoritmo na nuvem.

A “consulta” seria barata e rápida e estaria baseada em uma tecnologia que já deixou de ser embrionária -a inteligência artificial baseada em deep learning, uma espécie de aprendizado de programa de computador por conta própria.

Equipamentos médicos com finalidade diagnóstica já são vendidos com programas baseados em algoritmos que podem ajudar, por exemplo, um ortopedista a detectar alguma anormalidade em um raio-X ou e em outros exames de imagem, como aqueles que mapeiam a retina em busca de degenerações.

Foi justamente com exames como esses que cientistas dos EUA, China e Alemanha mostraram que a máquina -na verdade um programa de computador- pode se igualar e até superar o homem quando o assunto é saber quem é doente e quem não é. Um algoritmo desenvolvido pelos pesquisadores foi treinado com um gigantesco banco de imagens de exames -mais especificamente, tomografias de coerência óptica.

Esse exame, que é realizado em poucos minutos, permite observar as diversas camadas da retina e identificar alterações causadas por doenças que podem causar perda de visão, como a degeneração macular relacionada à idade (DMRI), e outras provocadas pelo diabetes, como a retinopatia diabética ou o edema macular diabético. De modo simplificado, o programa aprendeu, por conta própria, a “ler” alguns aspectos das imagens que julgou importantes para a definição do diagnóstico. Foi fundamental nesse processo a não interferência de um “raciocínio humano”, o que permitiu que o algoritmo encontrasse os melhores caminhos para chegar a um veredito sobre cada paciente.

O resultado do treinamento com mais de 200 mil imagens foi surpreendente: o programa chegou a superar experts em retina na taxa de diagnósticos corretos, errando apenas 6,6% dos casos em um dos testes.

Redução de custo de tratamento

Segundo estimativas, ao menos 1 milhão de pessoas no Brasil, entre diabéticos e idosos, têm risco elevado de apresentar doenças degenerativas da retina.

Em muitos casos, porém, por causa da distância dos centros de diagnóstico e pela desinformação, essas pessoas podem perder a visão. Hoje em dia, muitas desses casos seriam tratáveis com injeções intraoculares mensais, por exemplo, explica o professor titular de oftalmologia da UFG Marcos Ávila, que já foi presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO).

Talvez a principal vantagem de ter uma inteligência artificial assinalando os diagnósticos é o custo do exame, que tende a cair. Provavelmente o paciente não precisaria mais passar por dois ou três especialistas até ter o diagnóstico final, argumentam os autores do estudo. Na opinião de Rubens Belfort Jr., professor titular de oftalmologia da Unifesp, é notório também o de qualidade.

“Mesmo em países ricos a qualidade da análise nem sempre é boa, seja por despreparo, falta de tempo ou até mesmo por desleixo. Assim, com um processo mais inteligente, não só haveria redução de custos do exame e da interpretação mas também de tratamentos ineficazes ou desnecessários dessas doenças de retina ou de qualquer outra que possa ser diagnosticadas via exame de imagem, como tomografia, ressonância magnética e raio-X.”

Máquina X Homem

Paulo Schor, que também é professor de oftalmologia da Unifesp, lembra que já houve outros avanços importantes na área.

Com uma simples imagem do fundo de olho, um outro programa consegue identificar inúmeros fatores de risco cardiovascular, como idade, se a pessoa fuma, se tem pressão arterial elevada e se a pessoa já sofreu algum evento cardiovascular grave. Tudo isso com razoável acurácia.

O professor afirma que é muito provável que cada vez mais as máquinas se encarreguem de selecionar aqueles que têm alguma chance de estarem doentes, deixando para os médicos a filtragem final, que descartariam os casos que não são graves e tratando os demais. Já Kang Zhang, autor do estudo e pesquisador na Universidade Médica de Guangzhou (China) e da Universidade da Califórnia em San Diego, é mais otimista.

Para ele, no futuro espera-se que a inteligência artificial seja capaz de fazer um diagnóstico completo, encaminhar pacientes e até mesmo decidir qual tratamento é o mais adequado. Seria necessário, porém, uma espécie de “período de adaptação”, com inteligência artificial e médicos humanos trabalhando lado a lado, diz o pesquisador à reportagem.

Acompanhamento automatizado

Para Ávila, um outro possível ganho é automatizar o acompanhamento de pacientes de alto risco ou que estão em tratamento.

O único trabalho para o paciente seria ter de ir até uma clínica e realizar o exame periodicamente, desafogando, assim, os consultórios médicos. Belfort explica que o Brasil ainda engatinha na área. “Precisamos ainda de uma base de dados confiável, de um número enorme de exames”. E esses exames de imagem têm de estar bem rotulados, ou seja, tanto a quantidade quanto a precisão de informações associadas a eles são fundamentais para um bom desempenho da inteligência artificial.

“É possível que, no futuro, médicos briguem com a máquina. Ambos vão ter que aprender onde estão errando; vai ter que haver ‘diálogo'”, diz Belfort. “Não pode haver competição. Todos estão buscando a inteligência artificial, mas a inteligência natural não pode ficar de lado.” Para Zhang, que também é oftalmologista, não dá para fugir do futuro: “Penso que a chegada dos sistemas de diagnósticos baseados em inteligência artificial é inevitável. A nós, médicos, resta trabalhar e interagir com a IA para fazer o futuro da medicina mais custo-efetivo e, além disso, prover um melhor cuidado.”

Com informações: Folhapress

13:34 · 20.02.2018 / atualizado às 16:20 · 20.02.2018 por
Pesquisadores têm estudado os sistemas de manutenção e reparo do material genético de humanos e outros animais e algumas moléculas têm se mostrado promissoras para conseguir melhorias na redução de danos causados pelo processo de divisão celular Foto: FaderMex

Por Reinaldo José Lopes

Dá para levar a sério a ideia de estender a longevidade humana e, quem sabe, produzir pessoas potencialmente imortais? São raríssimos os cientistas dispostos a responder que sim na lata, mas um progresso (muito) modesto já tem acontecido.

Por enquanto, apareceram alguns candidatos interessantes a “alvo molecular” da longevidade. Ou seja, moléculas, ou conjuntos de moléculas, que poderiam ser manipuladas para alterar os sistemas celulares que acabam levando ao envelhecimento. Várias delas tem alguns pontos em comum: estão associadas à maneira como o organismo lida com o excesso de recursos e com o crescimento.

Outra via que está sendo explorada tem a ver com os sistemas de manutenção e reparo do material genético. Problemas no DNA frequentemente desencadeiam câncer, e também há uma importante relação entre a diminuição das estruturas chamadas telômeros (as “pontas de segurança” dos cromossomos, onde o DNA está armazenado) e o envelhecimento celular. Boa parte dos dados que apoiam esses dois ramos da pesquisa vem do estudo de animais de laboratório. Intervenções em espécies de vida relativamente curta, como vermes nematoides, camundongos e ratos, já obtiveram aumentos substanciais da expectativa de vida e da saúde mesmo em idade avançada.

E também há pistas intrigantes vindas do organismo de animais que vivem muito mais do que o esperado considerando seu tamanho e seus parentes -em geral, criaturas pequenas vivem pouco, são muito predadas e se reproduzem velozmente (caso dos roedores), enquanto animais de grande porte e relativamente livres de inimigos naturais (caso dos seres humanos) tendem a ser longevos.

Segredo do morcego

Considere, porém, o caso dos morcegos, e em especial o dos morceguinhos do gênero Myotis, que pesam apenas algumas dezenas de gramas. Eles “deveriam” viver apenas alguns anos, como os roedores, mas a capacidade de voar diminuiu muito a pressão que eles sofreriam por partes dos predadores e permitiu que eles tivessem um ciclo de vida bem mais relaxado, morrendo por volta dos 40 anos (outros morcegos morrem na casa dos 20 anos ou 30 anos).

Um estudo que acaba de ser publicado na revista científica “Science Advances” por Emma Teeling e seus colegas do University College de Dublin (Irlanda) investigou justamente os telômeros do Myotis e de outros morcegos. Teeling explicou à reportagem o resultado: “Não é exatamente que o Myotis tenha telômeros mais compridos, mas o de que eles não encurtam com o passar da idade, conforme o esperado. Seres humanos com mais de 60 anos e telômeros mais curtos têm probabilidade três vezes maior de morrer de alguma doença ligada ao envelhecimento”.

Essa estrutura dos cromossomos diminui com as sucessivas divisões das células. Quando esse encurtamento alcança um nível crítico, chega-se ao estado chamado de senescência celular. A célula não se divide mais, mas pode produzir uma série de substâncias (com capacidade inflamatória, por exemplo) que parecem contribuir para os efeitos negativos do envelhecimento. “Eles também reparam melhor o seu DNA, têm níveis mais altos de controle de tumores e mecanismos anti-inflamatórios rápidos e eficientes”, diz Teeling. A julgar pelos estudos com animais, porém, alguém poderia achar que a intervenção definitiva não poderia ser mais simples: fechar a boca. Os estudos com restrição calórica -às vezes cortando 40% das calorias consumidos pelos bichos- foram os mais bem-sucedidos com espécies pequenas. Resultados preliminares com macacos e humanos, porém, nem chegaram perto desse êxito.

O jeito, porém, talvez seja contornar isso com medicamentos que reproduzem parte dos efeitos moleculares da boca fechada sem fazer as pessoas passarem fome de verdade. Uma delas é a rapamicina, droga originalmente usada para controlar a rejeição de transplantes (veja infográfico). Ela afeta um circuito molecular da célula chamado mTOR que, quando ativado, leva ao crescimento e à divisão celular. Desligá-lo parece colocar a célula em “modo de segurança”, estendendo a longevidade.

Outra possibilidade é a metformina, droga muito usada para controlar o diabetes. Ainda falta muito antes que haja evidências claras de que essas e outras abordagens similares funcionem, porém.

Com informações: Folhapress

18:03 · 03.01.2018 / atualizado às 18:06 · 03.01.2018 por
As novas substâncias regulamentadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) geram uma imunidade maior e requerem menos doses Foto: Tiny Step

A Organização Mundial da Saúde (OMS) aprovou a primeira vacina contra a febre tifoide que pode ser ampliada em crianças maiores de 6 meses.

A informação foi divulgada pelo organismo nesta quarta-feira (3). As vacinas conjugadas contra a febre tifoide (TCV, na sigla em inglês) são inovadoras por gerarem uma imunidade maior do que as mais antigas, requerem menos doses e podem ser administradas em crianças pequenas por meio de programas rotineiros de imunização.

Outras vacinas também foram aprovadas internacionalmente para serem usadas em humanas, mas só a partir dos dois anos. O aval da OMS faz com que a vacina possa ser adquirida pelas demais agências da ONU, como o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e a Gavi, a Aliança Mundial para Vacinas.

A decisão foi tomada depois de o grupo de especialistas de assessoria estratégica sobre imunização, que aconselha a OMS, ter recomendado em outubro de 2017 a TCV para uso rotineiro em crianças maiores de seis meses em países onde a febre tifoide é endêmica.

O grupo de especialistas recomendou, além disso, a introdução da vacina conjugada de maneira prioritária em países com as taxas mais elevadas de febre tifoide ou de resistência antibiótica à bactéria Salmonella Typhi, que causa a doença.

O uso da vacina também deve ajudar a conter o uso frequente de antibióticos contra a doença e, portanto, auxiliar a reduzir o “alarmante aumento” da resistência da bactéria aos medicamentos.

Pouco depois da recomendação do grupo de especialistas, o conselho da Gavi aprovou um financiamento de US$ 85 milhões para adotar o uso da TCV a partir de 2019. A febre tifoide é uma infecção grave, às vezes mortal, contraída através da água ou alimentos contaminados. Entre os sintomas da doença estão febre, cansaço, dor de cabeça, de estômago, diarreia e resfriados.

Para milhões de pessoas em países pobres, a doença é uma realidade diária. A cada ano são registrados entre 11 milhões e 20 milhões de casos, além de cerca de 161 mil mortes.

Com informações: Agência Brasil

17:05 · 13.11.2017 / atualizado às 17:05 · 13.11.2017 por
Ambas as enfermidades são transmitidas pela mesma espécie de mosquito, o Aedes aegypti Foto: Alexandre Carvalho

A imunidade adquirida por uma infecção pelo vírus da dengue pode proteger contra o zika vírus. Ambas as enfermidades são transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti.

Em síntese esta foi a conclusão de um estudo realizado pelo Instituto de Arboviroses da Universidade de Wenzhow na China, em parceria com outras instituições. Além disso, a pesquisa não encontrou evidências de interações entre as duas doenças. As conclusões do estudo foram publicadas nesta segunda-feira (13) pela revista Nature Communications.

A revista é parte da Nature Research – um banco de dados internacional que reúne autores e trabalhos científicos de todo o mundo. Segundo o artigo, a pesquisa tem um valor importante na busca por vacinas contra os vírus dengue e zika. O estudo utilizou camundongos como cobaias e observou que os animais que tiveram dengue desenvolveram a chamada proteção cruzada – termo utilizado para referir-se à transferência de microrganismos. Além disso foram observadas a presença de linfócitos – T CD8 – células de defesa que se formaram após a combinação dos vírus da dengue e da zika. Os animais foram divididos em dois grupos: um que havia sido infectado inicialmente com o vírus da dengue, após recuperados foram infectados com o vírus da zika; e um segundo grupo foi infectado pelo zika sem ter tido uma infecção prévia de dengue.

Nos resultados, o grupo com infecção anterior de dengue apresentou uma carga reduzida de zika no organismo: sangue nos tecidos e no cérebro. A imunidade adquirida em cobaias que tiveram o vírus da dengue, e depois foram expostos ao vírus da zika, também mostrou que a dengue não seria potencializadora de infecções mais graves de zika. A tese de que a interação entre as duas doenças provocaria casos graves de zika foi levantada no início da epidemia de zika no Brasil, em 2015.

A hipótese caiu por terra e agora os pesquisadores acreditam que uma infecção anterior por dengue pode impedir casos graves de contaminação pelo zika ou até mesmo a microcefalia em bebês gerados por mães que tiveram zika na gestação.

Conclusões

Uma das conclusões dos pesquisadores é que a presença de anticorpos por uma infecção de dengue, pode explicar por que nem toda mulher com zika transmite a doença para o bebê e também por que algumas pessoas podem ter sido infectadas com zika e nunca terem desenvolvido a doença.

A descoberta da ação dos linfócitos T CD8 presente na defesa das infecções pelos vírus dengue e zika pode dar novos rumos às pesquisas com vacinas em andamento. Até agora, segundo o artigo a maioria dos testes com vacinas, atuam somente contra os linfócitos B – que produzem anticorpos após o contato com uma infecção. As células do tipo T têm uma ação direta sobre o microrganismo, agindo antes da infecção.

O trabalho foi desenvolvido por um grupo de pesquisadores chefiado por Jinsheng Wen, da Universidade de Wenshou e teve parceria de outras universidades como o Instituto La Jolla de Alergia e Imunologia da Califórnia.

Com informações: Agência Brasil

19:05 · 09.10.2017 / atualizado às 19:05 · 09.10.2017 por
Os cientistas utilizaram o 5-MeO-DMT, que está presente em drogas psicodélicas como o chá de ayahuasca – uma planta da Amazônia utilizada ritualmente por indígenas para produzir estados alterados de consciência Foto: Aya Healing Retreats

Com estudos feitos em organoides celulares conhecidos como “minicérebros”, um grupo de cientistas brasileiros mostrou como uma substância psicodélica produz alterações benéficas em circuitos cerebrais associados à neuroplasticidade, à inflamação e à neurodegeneração.

A pesquisa, publicada nesta segunda-feira (9), na revista científica Scientific Reports, é a primeira a revelar as alterações que drogas psicodélicas causam no funcionamento molecular do tecido neural humano. De acordo com os autores, os resultados ajudam a explicar os efeitos antidepressivos e anti-inflamatórios que as substâncias psicodélicas vêm mostrando em diversos outros estudos.

No experimento, os cientistas utilizaram o 5-MeO-DMT, um composto da família da dimetiltriptamina, que está presente em drogas psicodélicas como o MDMA, o LSD e o chá de ayahuasca – uma planta da Amazônia utilizada ritualmente por indígenas para produzir estados alterados de consciência.

“Pela primeira vez pudemos descrever mudanças relacionadas a psicodélicos no funcionamento do tecido neural humano”, disse o autor principal do estudo, Stevens Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino.

Ganho de espaço

As drogas psicodélicas estão cada vez mais ganhando espaço nos laboratórios de pesquisas. Diversos grupos internacionais têm feito estudos e experimentos com essas substâncias a fim de desenvolver terapias para problemas psiquiátricos como ansiedade, depressão, estresse pós-traumático e para a dependência de drogas como álcool, cocaína, heroína e crack.

Apesar dos resultados promissores em um número cada vez maior de pesquisas, a identificação dos circuitos moleculares envolvidos com a ação dos psicodélicos no cérebro era limitada pelas restrições para estudos com essas substâncias e pela falta de ferramentas biológicas apropriadas. Para estudar os efeitos do DMT, Vania Dakic, do Idor e Juliana Minardi Nascimento, do Idor e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) expuseram os organoides cerebrais – que são culturas de células neurais tridimensionais que imitam um cérebro em desenvolvimento – a uma única dose do psicodélico.

Depois de receber o psicodélico, os “minicérebros” foram submetidos a uma análise proteômica – isto é, um mapeamento do conjunto de proteínas neles presentes – com uma técnica espectrometria de massas. Eles conseguiram assim observar alterações na expressão de cerca de mil proteínas – e conseguiram identificar qual o papel dessas proteínas no cérebro humano.

Proteínas

Os cientistas descobriram que proteínas importantes para a formação das sinapses tiveram uma regulação positiva – entre elas, proteínas relacionadas aos mecanismos celulares de aprendizado e memória, que são componentes centrais do funcionamento do cérebro. Por outro lado, proteínas envolvidas em inflamação, degeneração e lesão cerebral tiveram uma regulação negativa, sugerindo que a substância psicodélica tem um potencial papel de proteção neural. “Os resultados sugerem que os psicodélicos clássicos são poderosos indutores da neuroplasticidade – uma ferramenta de transformação psicobiológica sobre a qual sabemos muito pouco”, disse outro dos autores do novo estudo Sidarta Ribeiro, diretor do Instituto do Cérebro, ligado à UFRN.

“”O estudo sugere possíveis mecanismos pelos quais essas substâncias exercem seus efeitos antidepressivos, que temos observado em nossas pesquisas. Nosso estudo reforça o potencial clínico escondido dessas substâncias que estão hoje sob restrições legais, mas que merecem total atenção das comunidades médica e científica”, afirmou outro dos autores, Draulio Araújo, professor da UFRN.

Com informações: Estadão Conteúdo