Diário Científico

Categoria: Paleontologia


18:37 · 14.09.2018 / atualizado às 18:37 · 14.09.2018 por
Concepção artística de como deveria se locomover o Caipirascuhus mineirus, que tinha hábitos terrestres Imagem: Rodolfo Nogueira

Por Reinaldo José Lopes

Um esqueleto de 85 milhões de anos, preservado de modo quase perfeito em rochas do interior de Minas Gerais, corresponde a uma nova espécie de crocodilo pré-histórico, afirmam pesquisadores. Batizado de Caipirasuchus mineirus, o réptil de apenas 70 cm foi apresentado ao público nesta sexta (14).

Os detalhes anatômicos do fóssil, oriundo da Fazenda Três Antas, no município de Campina Verde (MG), deixam claro que ele era muito diferente dos crocodilos modernos. Para começar, era um bicho 100% terrestre -trata-se, na verdade, de uma característica comum da rica fauna desse grupo durante a Era dos Dinossauros.

Além disso, os diferentes formatos de seus dentes, o padrão de desgaste em alguns deles e a maneira como sua mandíbula se articulava indicam que ele deve ter incluído quantidades consideráveis de vegetais em sua dieta, algo impensável para jacarés e crocodilos de hoje. Para completar o rol de esquisitices, suas patas traseiras eram bem maiores que as dianteiras.

“A gente poderia pensar numa postura similar ao dos suricatos”, compara um dos responsáveis pela descoberta, o paleontólogo Thiago Marinho, referindo-se aos pequenos mamíferos africanos que se tornaram conhecidos graças ao personagem Timão, de “O Rei Leão”.

Os suricatos às vezes assumem a postura ereta, e talvez os membros do C. mineirus lhe permitissem fazê-lo também.

Pesquisa

Marinho, que trabalha no Centro de Pesquisas Paleontológicas L.I. Price, da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), assina a descrição formal da nova espécie em artigo na revista científica de acesso livre PeerJ.

O trabalho foi coordenado por Agustín Martinelli, do Museu Argentino de Ciências Naturais Bernardino Rivadavia, e conta ainda com a participação de Luiz Carlos Borges Ribeiro, também da UFTM, e Fabiano Iori, do Museu de Paleontologia Professor Antonio Celso de Arruda Campos (Monte Alto, interior paulista).

O nome latino mineirus é quase autoexplicativo: embora já fossem conhecidas três espécies do gênero extinto Caipirasuchus, todas achadas em rochas do interior de São Paulo, esta é a primeira vez que um animal do grupo aparece do lado mineiro da fronteira interestadual. Portanto, as quatro espécies são bichos com parentesco relativamente próximo entre si, embora uma série de detalhes anatômicos tenha sido suficiente para propor que o C. mineirus deveria ser classificado como uma espécie à parte.

Os pesquisadores ainda estão tentando entender como e por que essa diversidade dentro do gênero se estabeleceu. É possível que houvesse algum tipo de barreira entre as populações, levando-as a seguir caminhos evolutivos ligeiramente distintos durante mais ou menos a mesma época. Ou então, se houver diferença significativa de idade entre os espécimes paulistas e mineiros, pode ser que os paleontólogos estejam vendo o processo de diferenciação do grupo ao longo de alguns milhões de anos.

Para saber qual possibilidade é a mais provável, é preciso avançar nos estudos sobre a idade geológica das camadas de rocha em São Paulo e Minas. Alguns detalhes do esqueleto, como a falta de fusão entre determinados ossos, indicam que se tratava de um indivíduo que ainda não chegara à idade adulta, embora já estivesse quase com o tamanho “final” da espécie, segundo Marinho.

Expectativa por descobertas

Mais descobertas devem vir da região de Campina Verde: desde 2009, o grupo já achou por lá vários exemplares de outro crocodilo extinto, o Campinasuchus dinizi, ovos (de crocodilo), dentes e ossos de dinossauros carnívoros e diversos fósseis de peixes.

O grau de preservação do C. mineirus, mesmo em meio a uma colheita tão rica quanto essa, chama a atenção. “A gente tem o esqueleto da ponta do focinho à ponta da cauda. Certamente está no ‘top 3’ dos mais preservados entre os crocodilos fósseis do Brasil”, estima Marinho.

Com informações: Folhapress

21:59 · 22.08.2018 / atualizado às 21:59 · 22.08.2018 por
Concepção artística da Eorhynchochelys que viveu há 228 milhões de anos na China. A espécie pode ser um elo perdido na história evolutiva dos quelônios Imagem: Nature

Como a tartaruga obteve seu casco é um dos quebra-cabeças que durante anos perseguiu os cientistas, e graças a uma pesquisa sobre um novo esqueleto fóssil publicada na revista Nature, algumas pistas começam a aparecer.

A maneira como as tartarugas evoluíram até sua forma atual, com um casco incorporado a seu esqueleto e uma cabeça em forma de bico, sem dentes, foi descrita como “um dos quebra-cabeças mais duradouros da evolução”.

Foram encontrados relativamente poucos fósseis pré-históricos de tartarugas, o que deixa um mistério sobre como estas criaturas desenvolveram suas características únicas, e inclusive a partir de quais antepassados evoluíram.

Mas uma nova pesquisa traz algumas pistas, após a análise de um fóssil de tartaruga de 228 milhões de anos (período Triássico da era Mesozóica) descoberto na China. O esqueleto tem em sua parte frontal um bico, mas também alguns dentes, o que sugere que pode ser um “elo perdido” na evolução de uma tartaruga com dentes à forma atual. “Este é o primeiro fóssil pré-histórico de tartaruga com um bico”, disse Chun Li, pesquisador da Academia Chinesa de Ciências de Pequim e coautor do artigo sobre o fóssil, chamado “Eorhynchochelys”.

“O interessante é que ainda que tenha se desenvolvido um bico, os dentes se conservaram, de modo que é uma mandíbula meio bicuda, meio dentada, uma excelente característica transitória”, disse.

O fóssil além disso é grande, de 2,5 metros de comprimento, com uma longa cauda e costelas extensas e planas ao longo de suas costas, que parecem formar um disco, precursor de um casco.

Debate sobre origem

Com tão poucas evidências para se avançar, um dos grandes debates sobre a evolução das tartarugas e demais quelônios é de que animais provêm.

Uma teoria afirma que compartilham o mesmo ancestral comum que maioria dos répteis, mas alguns especialistas asseguram que isto é pouco provável devido à forma do crânio atual das tartarugas.

Com informações: AFP

22:56 · 30.07.2018 / atualizado às 18:15 · 27.08.2018 por
Boa parte das peças paleontológicas é composta por trilobites, grupo de animais que surgiu há 521 milhões de anos e foram extintos há 252 milhões de anos Foto: Governo do Chile

O Chile devolveu à Bolívia 42 peças paleontológicas de entre 390 e 420 milhões de anos de antiguidade (período Devoniano da era Paleozoica), confiscadas na fronteira há dois anos, informou nesta segunda-feira (30) a Aduana Nacional.

Agentes da Alfândega chilena descobriram as peças fósseis em um veículo que tentava entrar no Chile a partir da Argentina pelo passo Los Libertadores, um movimentado complexo fronteiriço situado na zona central do país. Peritagens do Conselho de Monumentos Nacionais (CMN) determinaram que se tratava de vestígios provenientes da Bolívia.

As peritagens “permitiram estabelecer que as peças paleontológicas, por suas características e data, podiam corresponder a unidades geológicas bolivianas”, indicou um comunicado da Aduana. Após confirmar os primeiros resultados sobre a origem das peças, foi inciado o contato com autoridades diplomáticas bolivianas para realizar sua devolução, que aconteceu nesta segunda-feira.

“É uma grande satisfação para nosso governo a recuperação de um material inestimável de qualquer ponto de vista. Queremos agradecer as gestões realizadas no Chile para a entrega destes fósseis”, declarou Juan Carlos Dueñas, cônsul da Bolívia em Santiago, que recebeu as peças de parte das autoridades chilenas.

“É uma grande notícia que hoje tenhamos a oportunidade de devolver estas 42 peças de alto valor paleontológico à Bolívia”, afirmou Francisco Moreno, subsecretário de Fazenda do Chile.

Em 2018, foram encontradas 150 peças fósseis em 14 descobertas realizadas em fronteiras chilenas, informou a Aduana do país.

Período Devoniano

O Devoniano é também conhecido como “idade dos peixes”, por ter sido o período em que esse grupo animal se diversificou e passou a dominar rios e mares.

Contudo, o Devoniano também foi marcado pela expansão de animais e plantas terrestres, incluindo os primeiros anfíbios. Nesse período, animais como os trilobites começavam a entrar em declínio. Os trilobites, que compõem boa parte das peças fósseis devolvidas do Chile à Bolívia, eram muito comuns em períodos anteriores, tendo surgido há cerca de 521 milhões de anos. Eles foram extintos há 252 milhões de anos.

Com informações: AFP

16:44 · 30.05.2018 / atualizado às 16:44 · 30.05.2018 por
Concepção artística da espécie Megachirella wachtleri, que pode ter sido o primeiro réptil escamado do mundo Imagem: Davide Bonadonna

Por Reinaldo José Lopes

Há 240 milhões de anos, antes que os dinossauros iniciassem sua escalada rumo à dominação planetária, viveu um pequeno réptil que deixou uma herança de respeito: as cerca de 10 mil espécies atuais de lagartos, serpentes e anfisbenas (também conhecidas como cobras-de-duas-cabeças).

Um novo estudo mostra que o bicho, achado no norte da Itália, é o exemplar mais antigo desse grupo, o dos Squamata (“escamados”). O Megachirella wachtleri, como foi batizado pelos cientistas, ganhou esse status especial ao ser reexaminado por meio de uma técnica de tomografia computadorizada conhecida como micro-CT.

“O espécime foi preservado de forma que somente a parte dorsal do corpo ficou exposta, com toda a parte ventral embutida no pedaço de rocha”, explicou à reportagem o paleontólogo brasileiro Tiago Simões, coordenador do estudo. “A micro-CT nos permitiu ver pela primeira vez como era a anatomia do ventre do fóssil, incluindo dados que foram essenciais para reconhecer essa espécie como um lagarto.”

Simões, que trabalha na Universidade de Alberta, no Canadá, assina o artigo na revista científica “Nature” detalhando as descobertas, junto com colegas de instituições da Europa, da Austrália e dos EUA. Algumas das características exclusivas de lagartos que aparecem no bichinho italiano são a forma da clavícula, com uma curvatura secundária, e o fato de que um dos ossos do pulso se funde ao primeiro metacarpal (equivalente a um dos ossos da mão, logo abaixo dos dedos, em humanos).

Por outro lado, como o animal é muito primitivo, ele ainda retém traços que não existem em cobras e lagartos atuais, como a presença das chamadas gastrália, ou costelas na região da barriga.

Estudo comparativo

A descoberta da nova cara do fóssil foi só parte do trabalho, porém.

A equipe fez ainda um monumental estudo comparativo, cotejando as características do Megachirella wachtleri com uma grande variedade de répteis extintos e modernos. No caso das espécies atuais, eles também fizeram uma análise comparativa de variantes de DNA. Esse caminhão de dados foi usado para montar um mapa da diversificação dessas espécies ao longo de milhões de anos, confirmando a posição do bicho de 240 milhões de anos como o mais antigo dos Squamata.

E bota mais antigo nisso, aliás -ele é 70 milhões de anos mais velho que os fósseis antes apontados como os primeiros representantes do grupo. Há, portanto, um buraco grande a ser preenchido na história evolutiva de lagartos, serpentes e companhia, o que na verdade seria de se esperar mesmo, segundo Simões.”Pequenos vertebrados são mais difíceis de serem preservados como fósseis do que os grandes”, explica. “Além disso, há muito menos pesquisadores trabalhando com Squamata fósseis do que com dinossauros ou mamíferos. Também pode ser que existam lagartos fósseis que ninguém notou até agora em coleções de museus mundo afora.”A idade do Megachirella wachtleri também sugere que os ancestrais de lagartos surgiram um pouco antes da maior extinção em massa da história da Terra, a do Permiano-Triássico.

Na época, outros grupos de vertebrados terrestres dominavam o planeta, mas extinções em massa costumam deixar uma grande quantidade de nichos ecológicos vagos -ou seja, fazem com que diferentes estilos de vida fiquem disponíveis para os poucos sobreviventes da catástrofe.

Como eram de pequeno porte e comedores de insetos, que estão sempre disponíveis mesmo em ambientes mais pobres, os ancestrais dos Squamata conseguiram passar pelo gargalo da megaextinção e se diversificar paulatinamente nos períodos seguintes.

Com informações: Folhapress

12:30 · 23.02.2018 / atualizado às 12:32 · 23.02.2018 por
O mais próximo parente extinto do Homo sapiens, foi também a primeira espécie a escolher cavernas para fazer pinturas, superando a nossa nesse quesito Foto: Haaretz

Os Neandertais – e não os humanos pré-históricos – foram os primeiros artistas da Europa, de acordo com uma nova pesquisa liderada por cientistas da Universidade de Southampton (Reino Unido) e do Instituto Max Planck (Alemanha).

Os pesquisadores estudaram pinturas em três cavernas da Espanha e, com um método especial de datação, descobriram que elas foram criadas há mais de 64 mil anos, quando os únicos hominídeos na Europa eram os Neandertais (Homo neanderthalensis). O Homo sapiens só chegou ao continente cerca de 20 mil anos mais tarde.

Os resultados da pesquisa foram publicados na revista Science. De acordo com os cientistas, a descoberta é importante por demonstrar que os Neandertais eram capazes de pensar simbolicamente, assim como os humanos modernos. Os desenhos, que foram feitos durante a Era do Gelo, incluem representações de animais, sinais geométricos e pontos.

Segundo os autores, os resultados do novo estudo reforçam uma série de descobertas que têm ajudado a “desconstruir” a tradicional imagem dos Neandertais como um brutal homem das cavernas com inteligência extremamente limitada. Dois estudos publicados em 2017, por exemplo, mostravam que os Neandertais eram capazes de lidar com problemas odontológicos e de utilizar plantas medicinais como antibióticos e analgésicos.

“Essa é uma descoberta incrivelmente emocionante e ela sugere que os Neandertais eram muito mais sofisticados do que se acredita popularmente”, disse o autor principal do estudo, o arqueólogo Chris Standish, da Universidade de Southampton.

“Nossos resultados mostram que essas pinturas são, de longe, o mais antigo registro de arte nas cavernas do mundo. E elas foram criadas pelo menos 20 mil anos antes da passagem dos humanos modernos da África para a Europa – e por isso só podem ter sido pintadas por Neandertais”, disse Standish.

Segundo Standish, até agora a arte das cavernas havia sido atribuída integralmente a humanos modernos e a imprecisão das técnicas de datação haviam impedido que se explorasse a hipótese de uma autoria Neandertal. Para realizar o novo estudo, os cientistas utilizaram uma técnica de datação de urânio-tório, que fornece resultados muito mais confiáveis que os métodos de datação por radiocarbono, com margem de erro muito menor.

O método de urânio-tório envolve a datação de minúsculos depósitos de carbonato que se acumulam na superfície as pinturas nas cavernas. Esses depósitos contêm traços dos elementos radioativos urânio e tório, que indicam quando os depósitos se formaram – e fornecendo assim uma idade mínima para qualquer coisa que esteja abaixo da superfície onde estavam as amostras.

Uma equipe de cientistas do Reino Unido, da Alemanha, da Espanha e da França analisou mais de 60 amostras de carbonato de três cavernas da Espanha: La Pasiega, no nordeste do país, Maltravieso, no oeste e Ardales, no sudoeste espanhol.

As três cavernas contêm pinturas feitas com traços vermelhos ou pretos e representando grupos de animais, pontos e sinais geométricos, assim como desenhos de contornos de mãos, marcas de mãos “carimbadas” e gravações feitas na rocha.

Comportamento sofisticado

Segundo os cientistas, a criação de arte – por mais simples que ela seja – envolve comportamentos sofisticados como a própria escolha do local, o planejamento relacionado à fonte de luz e a mistura de pigmentos.

“Logo depois da descoberta do primeiro fóssil de Neanderthal no século 19, eles foram retratados como abrutalhados e desprovidos de cultura, incapazes de comportamentos artísticos e simbólicos. E algumas dessas visões ainda persistem até hoje”, disse outro dos coordenadores do estudo, Alistair Pike, arqueólogo da Universidade de Southampton. “A questão sobre até que ponto os Neandertais se comportavam como humanos é objeto de um debate acalorado. Nossas descobertas darão uma considerável contribuição a esse debate”, disse Pike.

De acordo com outro dos autores do artigo, Dirk Hoffmann, do Instituto Max Planck a cultura simbólica e material – uma coleção de feitos culturais e intelectuais passada de geração para geração – só havia sido atribuída até hoje à espécie humana. “A emergência da cultura simbólica e material representa um limiar fundamental na evolução da humanidade. Ela é um dos principais pilares daquilo que nos torna humanos. Artefatos cujo valor funcional não está em seu uso prático, mas em seu uso simbólico, remetem a aspectos fundamentais da cognição humana”, afirmou Hoffmann.

Artefatos simbólicos ainda mais antigos, com cerca de 70 mil anos, já haviam sido encontrados na África, mas acredita-se que eles foram produzidos por humanos, segundo os cientistas. Os desenhos Neandertais da Espanha, porém, podem ser considerados as mais antigas representações simbólicas em cavernas. Outros artefatos de cerca de 40 mil anos, incluindo arte em cavernas, figuras esculpidas, ferramentas de ossos decoradas e joias também já foram encontradas antes na Europa. Mas os cientistas concluíram que todos esses artefatos foram feitos por humanos modernos que nessa época já estavam se espalhando pela Europa, após a saída da África.

Também há evidências de que Neandertais da Europa utilizaram ornamentos corporais entre 40 mil e 45 mil anos atrás, mas vários pesquisadores sugeriam que eles teriam sido inspirados por humanos modernos que haviam acabado de chegar ao continente e conviveram com os Neandertais. “Os Neandertais criaram símbolos cheios de significados em locais igualmente cheios de significados. Não foi uma arte acidental”, disse outro dos autores do estudo, Paul Pettitt, da Universidade Durham (Reino Unido).

“Temos agora exemplos de três cavernas que ficam separadas por mais de 700 quilômetros e evidências de que essa arte era uma tradição que perdurou longamente. É bem possível que outras manifestações artísticas em cavernas semelhantes na Europa também tenham origem Neanderthal”, declarou Pettit.

Com informações: Estadão Conteúdo

08:53 · 28.01.2018 / atualizado às 11:25 · 27.01.2018 por
O Geopark Araripe faz parte de uma rede global de geoparques ligada à Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) Foto: Crato.org

Mais de quatro anos após uma apreensão de quase 3 mil fósseis furtados da Bacia do Araripe, localizada na região Nordeste, incluindo parte do território cearense, cientistas paulistas e nordestinos disputam o material.

Os fósseis, com idades de 100 milhões a 120 milhões de anos, foram retirados da região do Cariri, que inclui partes do Ceará, Pernambuco e Piauí. A Bacia do Araripe é uma das maiores e mais importantes jazidas do Período Cretáceo no Brasil e no mundo. Em 2014, quando a Justiça Federal decidiu que os fósseis recuperados pela Polícia Federal na França, em Minas Gerais e no interior de São Paulo fossem cedidos à Universidade de São Paulo (USP), que deveria armazená-los adequadamente e, principalmente, estudá-los.

A decisão foi cumprida e, de acordo com a pesquisadora responsável pelo material, Juliana Leme, professora de Paleontologia do Instituto de Geociências da USP, os fósseis – furtados para serem vendidos por altos valores a museus privados no exterior – estão proporcionando conhecimento científico há mais de um ano.

Na universidade paulista, eles têm sido utilizados em aulas, pesquisas de mestrado e doutorado e na divulgação científica: a instituição inaugurou recentemente uma exposição (mais informações nesta página) com mais de 50 peças importantes do acervo apreendido. De acordo com Juliana, os abundantes fósseis são “um tesouro científico brasileiro.”

“O material enviado à USP é belíssimo, com muitas peças raras. Vários fósseis estão em um grau incomum de preservação. É um alívio que isso não tenha ido parar em coleções particulares fora do País”, afirma.

Protesto cearense

Apesar do aparente final feliz, a escolha da USP como depositária dos fósseis causou protestos.

O paleontólogo Álamo Saraiva, professor da Universidade Regional do Cariri (Urca), discorda da decisão judicial e entrou com um recurso para que os fósseis sejam enviados de volta à região de origem.

“Por sorte, pudemos contar com a Polícia Federal e a Agência Brasileira de Inteligência, que têm feito um trabalho tão bom que até nos surpreende. Mas ainda temos um grande problema aqui no Cariri: além de ter de lidar com os traficantes de fósseis, somos vítimas do ‘fogo amigo’”, diz Saraiva, que é curador do Museu de Paleontologia da Urca, em Santana do Cariri, no Ceará, referindo-se aos cientistas do Sudeste.

Saraiva explica que, para os pesquisadores nordestinos, a presença dos fósseis no Ceará é fundamental para o desenvolvimento sustentável da região, que abriga o Geopark Araripe, parte de uma rede global de geoparques ligada à Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco). Criados em áreas do mundo onde há patrimônio geológico importante, os geoparques envolvem ciência, conservação ambiental e do patrimônio cultural, educação, geoturismo e desenvolvimento econômico.

“Vivemos dos fósseis, que têm valor de patrimônio cultural. Eles perdem esse valor quando saem daqui e vão parar em gavetas em universidades de São Paulo e do Rio, embora ainda mantenham o valor científico”, declarou Saraiva.

‘Cumprimento de decisão’

Juliana, por outro lado, argumenta que a USP está apenas cumprindo uma decisão judicial, segundo a qual o Instituto de Geociências da USP foi escolhido como destino das peças “por ter totais condições de dar a elas o tratamento e uso científico adequado”.

A pesquisadora também alega que a USP investiu recursos e trabalho no material, já que a universidade recebeu os fósseis lacrados em outubro de 2014, acompanhados de laudos técnicos. O processo para retirar o lacre, identificar, acondicionar e guardar peça por peça durou um ano. Apenas no fim de 2015 o material foi liberado para pesquisa.

Nos dois anos seguintes, a coleção proporcionou pelo menos oito pesquisas de iniciação científica, mestrado e doutorado, de acordo com Juliana. No fim de 2016 foi lançado o edital para a exposição e, um ano depois, ela foi aberta ao público. “Não é verdade, absolutamente, que esse material ficou engavetado”, defende. Saraiva, porém, contesta o investimento feito pela USP. “Se a USP tivesse injetado muitos recursos no material apreendido, eu até aceitaria que a coleção ficasse em São Paulo. Mas o que requer mais investimento é a preparação dos fósseis e esse material já estava perfeitamente preparado”, disse.

A preparação dos fósseis é um processo de alta complexidade técnica, no qual os especialistas retiram minuciosamente, no laboratório, o excesso de sedimentos incrustados nas peças, para que as características dos fósseis fiquem visíveis, permitindo seu estudo.

Contrabando

Segundo Saraiva, pela alta qualidade da preparação dos fósseis apreendidos, é possível até mesmo identificar o paleontólogo que fez o serviço: o alemão Michael Schwickert, considerado um dos principais contrabandistas de fósseis do Araripe há pelo menos 20 anos.

De acordo com a PF, ele está entre as 13 pessoas que integravam a quadrilha desbaratada. “Basta olhar para o material para constatar que a preparação primorosa foi feita por ele”.

Com informações: Estadão Conteúdo

17:49 · 04.01.2018 / atualizado às 17:50 · 04.01.2018 por
Foto: Ben Potter

A análise do DNA de um bebê que viveu há 11,5 mil anos no Alasca revelou a existência de uma antiga população da América do Norte que até agora permanecia desconhecida. De acordo com os autores do estudo, publicado na revista Nature, a descoberta levará a uma importante mudança nas teorias sobre como os humanos povoaram o continente americano.

A nova população foi batizada pelos cientistas de “antigos beringianos”, em alusão à Beríngia – a ponte terrestre coberta de gelo que, durante as glaciações, ligava o leste da Sibéria ao oeste do Alasca, onde hoje fica o estreito de Bering, que separa a Ásia da América do Norte.

“Nós não sabíamos que essa população existia. Esses dados também fornecem a primeira evidência direta da origem da população nativa americana, o que traz novas informações sobre como esses povos primitivos migraram e colonizaram a América do Norte”, disse um dos autores principais do estudo, Ben Potter, da Universidade do Alasca em Fairbanks.

De acordo com a análise genética e a modelagem demográfica feita pelos cientistas, um único grupo – que foi ancestral de todos os povos nativos das Américas – separou-se dos grupos asiáticos há cerca de 35 mil anos. Há cerca de 20 mil anos, esse grupo se dividiu novamente, dando origem aos antigos beringianos e aos ancestrais de todos os outros povos americanos.

O bebê fossilizado, uma menina que morreu seis semanas após o nascimento, foi batizado pela comunidade indígena local de “Xach’itee’aanenh T’eede Gaay”, que significa “menina do sol nascente”. Ela foi encontrada em 2013, no sítio arqueológico de Upward Sun River, junto a uma outra menina mais nova, que foi batizada de “Ye’kaanenh T’eede Gaay”, ou “menina da luz do amanhecer”.

“Seria difícil exagerar a importância da descoberta desse novo povo para o nosso conhecimento sobre como as antigas populações vieram habitar as Américas. Essa nova informação nos permite desenhar um quadro muito mais preciso da pré-história dos nativos americanos – que é muito mais complexa do que pensávamos”, afirmou Potter.

Cenários

A descoberta também sugere dois novos cenários para o povoamento das Américas.

Em um deles, um só grupo teria cruzado a ponte terrestre há cerca de 20 mil anos e então teria se dividido entre os antigos beringianos e os demais nativos americanos. O primeiro grupo teria permanecido no extremo norte do continente até o seu completo desaparecimento. O segundo grupo, após a retração das geleiras, teria migrado para o sul há 15,7 mil anos.

No outro cenário, dois grupos distintos de pessoas teriam cruzado a Beríngia. Os antigos beringianos teriam então se estabelecido ao norte, enquanto os ancestrais de todos os indígenas teriam migrado para o sul há 15,7 mil anos. Para Potter, o segundo cenário é mais plausível, porque para que houvesse uma só onda migratória a passagem pela Beríngia teria de ocorrer muito antes da divisão das duas populações. “O fundamento para esse cenário da migração de dois povos distintos é bastante forte. Não temos evidências de humanos na região da Beríngia há 20 mil anos.”

Segundo Potter, quando sua equipe começou a análise do material genético, esperava-se encontrar a conexão entre o perfil genômico dos fósseis encontrados no Alasca e o de outros povos nativos da América do Norte. Porém, o DNA dos fósseis não combinava com o de nenhuma outra população antiga.

Isso sugere, de acordo com o cientista, que os antigos beringianos permaneceram no extremo norte do continente por milhares de anos, enquanto os ancestrais dos povos indígenas se espalharam por todo o continente.

Travessia pelo litoral

Um dos autores do novo estudo, Eske Willerslev, da Universidade de Copenhague (Dinamarca), havia publicado em 2016 uma outra pesquisa que desmontava uma das principais teorias sobre a migração da Sibéria para o Alasca, que seria uma migração por terra pela Beríngia. Naquele trabalho, também publicado na Nature Willerslev mostrou que o corredor que tornaria o caminho possível entre as geleiras formou-se há 15 mil anos, mas só oferecia condições para a travessia há 12,6 mil anos. A presença humana no continente, porém, é confirmada por vestígios fósseis há pelo menos 13 mil anos.

De acordo Willerslev a hipótese mais plausível é que os povos da Ásia tenham migrado para a América viajando ao longo da costa do Oceano Pacífico – pela orla, ou por mar – o que poderia ter ocorrido há mais de 15 mil anos.

Com informações: Estadão Conteúdo

17:55 · 12.12.2017 / atualizado às 17:55 · 12.12.2017 por
cientistas descobriram, em Myanmar, vários carrapatos aprisionados em diversos pedaços de âmbar (uma espécie de resina fóssil), associados a restos dos grandes répteis Foto: NPR

A partir da descoberta de um fóssil de carrapato preservado em âmbar, um grupo internacional de cientistas mostrou pela primeira vez que esses parasitas já se alimentavam do sangue de dinossauros há quase 100 milhões de anos.

O estudo, publicado nesta terça-feira (12), na revista Nature Communications, também revela uma nova espécie extinta de carrapato, batizada de Deinocroton draculi, em alusão ao vampiro Drácula. Os cientistas descobriram, em Mianmar, vários carrapatos aprisionados em diversos pedaços de âmbar – uma espécie de resina fóssil – datados em 99 milhões de anos.

Um deles estava agarrado a uma pena de dinossauro. Segundo os autores do estudo, raramente são encontrados parasitas associados aos fósseis de seus hospedeiros e a descoberta é a primeira evidência direta da relação entre carrapatos e dinossauros.

Sem ‘Jurassic Park’

Embora o contexto da pesquisa lembre bastante o filme Jurassic Park, os cientistas afirmam que é praticamente impossível reconstruir dinossauros a partir de eventuais restos de DNA desses animais no fóssil de um carrapato do período Cretáceo (145 milhões a 66 milhões de anos atrás).

Na obra ficcional, dirigida por Steven Spielberg em 1993, os cientistas extraem o DNA de dinossauros de fósseis de mosquitos preservados em âmbar e, a partir daí, conseguem clonar os lagartos gigantes e trazê-los de volta à Terra. Os pesquisadores porém, explicam que embora seja comum encontrar fósseis em âmbar, é praticamente inviável extrair dessas amostras DNA em condições de ser utilizado – e o processo de clonagem seria ainda mais difícil. Todas as tentativas feitas até hoje de extrair DNA de espécimes em âmbar foram um fracasso, por causa da curta vida útil dessa molécula.

“Os carrapatos são infames organismos parasitários sugadores de sangue, que têm um impacto tremendo na saúde de humanos, de gado de bichos de estimação e de animais selvagens. Mas até agora estava faltando uma clara evidência do papel desses parasitas no passado remoto”, disse o autor principal do estudo, Enrique Peñalver, do Instituto de Pesquisa de Geologia e Mineração da Espanha.

Penas de dinossauros

Segundo Peñalver, o âmbar do Cretáceo fornece aos cientistas uma janela para o mundo dos dinossauros emplumados. Parte desse grupo de dinossauros mais tarde evoluiria para dar origem às aves modernas. A pena de dinossauro encontrado no âmbar com o carrapato, segundo os cientistas, tem estrutura semelhante à das penas dos pássaros.

Com informações: Estadão Conteúdo

17:19 · 08.12.2017 / atualizado às 17:19 · 08.12.2017 por
Concepção artística das migrações humanas ocorridas entre 60 e 120 mil anos atrás, em um período anterior ao que se pensava Imagem: Ivan Heredia/CSIC

A tese de uma única migração humana fora da África há 60 mil anos não poderá mais ser considerada um dado correto da história da humanidade, argumenta uma revisão da literatura científica publicada na revista científica americana Science.

Ao contrário, várias migrações para fora da África, que começaram há 120 mil anos, deram origem à população moderna, demonstram os resultados da pesquisa. Avanços na análise de DNA e em outras técnicas de identificação de fósseis, principalmente em relação a descobertas na Ásia, estão ajudando a reescrever o que pensávamos saber sobre nossas origens.

Uma “abundância de novas descobertas” na última década mostrou que os humanos modernos, ou Homo sapiens, chegaram a partes do continente asiático muito antes do que se pensava, assinalou o informe. Vestígios de Homo sapiens datados de 70 mil a 120 mil anos foram encontrados em diferentes locais no sul e no centro da China. Outras descobertas de fósseis mostram que os humanos modernos chegaram ao sudeste de Ásia e à Austrália antes de 60 mil anos atrás.

“As primeiras dispersões fora da África antes de 60 mil anos atrás provavelmente eram feitas em pequenos grupos de pessoas que buscavam comida e, pelo menos, algumas dessas dispersões iniciais deixavam traços genéticos de baixo nível em populações modernas”, explicou Michael Petraglia, pesquisador do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana, na Alemanha.

Migração maior

“Um evento posterior e maior de [migração] ‘Fora da África’ muito provavelmente ocorreu por volta de 60 mil anos atrás ou depois disso”, informou. Pesquisas recentes confirmaram que esta migração em massa há 60 mil anos “contribuiu para a maior parte da composição genética dos não africanos atuais”, de acordo com o comunicado.

Estes primeiros viajantes se miscigenaram com outras espécies, incluindo Neandertais e Denisovanos, e uma população não identificada de homininis (primatas hominóideos) pré-modernos em muitos locais através da Eurásia. Os cientistas consideram que, entre os Homens modernos não africanos atuais, de 1% a 4% do DNA seria de origem dos Neandertais e até 5% podem ser de Denisovanos. “Agora está claro que humanos modernos, os Neandertais, Denisovanos e talvez outros grupos homininis provavelmente se sobrepuseram no tempo e no espaço na Ásia, e certamente tiveram muitos casos de interação”, destacou o estudo.

Com informações: AFP

10:22 · 08.11.2017 / atualizado às 10:22 · 08.11.2017 por
Concepção artística de mamíferos que conviveram com ancestrais das aves modernas e com dinossauros na era Mesozóica Imagem: Mark Witton

Um estudante universitário britânico encontrou dentes de mamíferos parecidos com ratos que viveram há 145 milhões de anos e possuem ligações distantes com os humanos. A descoberta foi feita na costa de Dorset, no sudoeste da Inglaterra, pelo estudante de graduação Grant Smith, quando ele examinava pedras na Universidade de Portsmouth.

“Inesperadamente, ele não encontrou um, mas dois dentes bastante notáveis ​​de um tipo nunca antes visto em rochas desta época”, disse Steve Sweetman, pesquisador da universidade. “Eu fui convidado a olhar para eles e dar uma opinião e, mesmo à primeira vista, fiquei de boca aberta!”, escreveu na revista científica Acta Palaeontologica Polonica.

Acredita-se que os dentes pertenceram a duas espécies diferentes de criaturas pequenas e peludas que provavelmente eram noturnas e se alimentavam de insetos e talvez plantas. “Os dentes são de um tipo altamente avançado que pode perfurar, cortar e esmagar alimentos”, disse Sweetman.

“Eles também estão muito desgastados, o que sugere que os animais aos quais eles pertenciam viveram até uma boa idade para suas espécies. Um grande feito quando você está compartilhando seu habitat com dinossauros predatórios!”.

Apesar desses animais serem significativamente diferentes dos humanos, Sweetman os descreveu como “sem dúvida os mais antigos conhecidos da linha de mamíferos que leva à nossa própria espécie”. As duas espécies foram nomeadas Durlstodon ensomi e Durlstotherium newmani, a segunda em homenagem ao proprietário de um pub local, Charlie Newman.

A descoberta foi feita na “Costa Jurássica” de Dorset, um Patrimônio Mundial da Unesco que carrega 185 milhões de anos de história.

Com informações: AFP

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