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Categoria: Paleontologia


16:44 · 30.05.2018 / atualizado às 16:44 · 30.05.2018 por
Concepção artística da espécie Megachirella wachtleri, que pode ter sido o primeiro réptil escamado do mundo Imagem: Davide Bonadonna

Por Reinaldo José Lopes

Há 240 milhões de anos, antes que os dinossauros iniciassem sua escalada rumo à dominação planetária, viveu um pequeno réptil que deixou uma herança de respeito: as cerca de 10 mil espécies atuais de lagartos, serpentes e anfisbenas (também conhecidas como cobras-de-duas-cabeças).

Um novo estudo mostra que o bicho, achado no norte da Itália, é o exemplar mais antigo desse grupo, o dos Squamata (“escamados”). O Megachirella wachtleri, como foi batizado pelos cientistas, ganhou esse status especial ao ser reexaminado por meio de uma técnica de tomografia computadorizada conhecida como micro-CT.

“O espécime foi preservado de forma que somente a parte dorsal do corpo ficou exposta, com toda a parte ventral embutida no pedaço de rocha”, explicou à reportagem o paleontólogo brasileiro Tiago Simões, coordenador do estudo. “A micro-CT nos permitiu ver pela primeira vez como era a anatomia do ventre do fóssil, incluindo dados que foram essenciais para reconhecer essa espécie como um lagarto.”

Simões, que trabalha na Universidade de Alberta, no Canadá, assina o artigo na revista científica “Nature” detalhando as descobertas, junto com colegas de instituições da Europa, da Austrália e dos EUA. Algumas das características exclusivas de lagartos que aparecem no bichinho italiano são a forma da clavícula, com uma curvatura secundária, e o fato de que um dos ossos do pulso se funde ao primeiro metacarpal (equivalente a um dos ossos da mão, logo abaixo dos dedos, em humanos).

Por outro lado, como o animal é muito primitivo, ele ainda retém traços que não existem em cobras e lagartos atuais, como a presença das chamadas gastrália, ou costelas na região da barriga.

Estudo comparativo

A descoberta da nova cara do fóssil foi só parte do trabalho, porém.

A equipe fez ainda um monumental estudo comparativo, cotejando as características do Megachirella wachtleri com uma grande variedade de répteis extintos e modernos. No caso das espécies atuais, eles também fizeram uma análise comparativa de variantes de DNA. Esse caminhão de dados foi usado para montar um mapa da diversificação dessas espécies ao longo de milhões de anos, confirmando a posição do bicho de 240 milhões de anos como o mais antigo dos Squamata.

E bota mais antigo nisso, aliás -ele é 70 milhões de anos mais velho que os fósseis antes apontados como os primeiros representantes do grupo. Há, portanto, um buraco grande a ser preenchido na história evolutiva de lagartos, serpentes e companhia, o que na verdade seria de se esperar mesmo, segundo Simões.”Pequenos vertebrados são mais difíceis de serem preservados como fósseis do que os grandes”, explica. “Além disso, há muito menos pesquisadores trabalhando com Squamata fósseis do que com dinossauros ou mamíferos. Também pode ser que existam lagartos fósseis que ninguém notou até agora em coleções de museus mundo afora.”A idade do Megachirella wachtleri também sugere que os ancestrais de lagartos surgiram um pouco antes da maior extinção em massa da história da Terra, a do Permiano-Triássico.

Na época, outros grupos de vertebrados terrestres dominavam o planeta, mas extinções em massa costumam deixar uma grande quantidade de nichos ecológicos vagos -ou seja, fazem com que diferentes estilos de vida fiquem disponíveis para os poucos sobreviventes da catástrofe.

Como eram de pequeno porte e comedores de insetos, que estão sempre disponíveis mesmo em ambientes mais pobres, os ancestrais dos Squamata conseguiram passar pelo gargalo da megaextinção e se diversificar paulatinamente nos períodos seguintes.

Com informações: Folhapress

12:30 · 23.02.2018 / atualizado às 12:32 · 23.02.2018 por
O mais próximo parente extinto do Homo sapiens, foi também a primeira espécie a escolher cavernas para fazer pinturas, superando a nossa nesse quesito Foto: Haaretz

Os Neandertais – e não os humanos pré-históricos – foram os primeiros artistas da Europa, de acordo com uma nova pesquisa liderada por cientistas da Universidade de Southampton (Reino Unido) e do Instituto Max Planck (Alemanha).

Os pesquisadores estudaram pinturas em três cavernas da Espanha e, com um método especial de datação, descobriram que elas foram criadas há mais de 64 mil anos, quando os únicos hominídeos na Europa eram os Neandertais (Homo neanderthalensis). O Homo sapiens só chegou ao continente cerca de 20 mil anos mais tarde.

Os resultados da pesquisa foram publicados na revista Science. De acordo com os cientistas, a descoberta é importante por demonstrar que os Neandertais eram capazes de pensar simbolicamente, assim como os humanos modernos. Os desenhos, que foram feitos durante a Era do Gelo, incluem representações de animais, sinais geométricos e pontos.

Segundo os autores, os resultados do novo estudo reforçam uma série de descobertas que têm ajudado a “desconstruir” a tradicional imagem dos Neandertais como um brutal homem das cavernas com inteligência extremamente limitada. Dois estudos publicados em 2017, por exemplo, mostravam que os Neandertais eram capazes de lidar com problemas odontológicos e de utilizar plantas medicinais como antibióticos e analgésicos.

“Essa é uma descoberta incrivelmente emocionante e ela sugere que os Neandertais eram muito mais sofisticados do que se acredita popularmente”, disse o autor principal do estudo, o arqueólogo Chris Standish, da Universidade de Southampton.

“Nossos resultados mostram que essas pinturas são, de longe, o mais antigo registro de arte nas cavernas do mundo. E elas foram criadas pelo menos 20 mil anos antes da passagem dos humanos modernos da África para a Europa – e por isso só podem ter sido pintadas por Neandertais”, disse Standish.

Segundo Standish, até agora a arte das cavernas havia sido atribuída integralmente a humanos modernos e a imprecisão das técnicas de datação haviam impedido que se explorasse a hipótese de uma autoria Neandertal. Para realizar o novo estudo, os cientistas utilizaram uma técnica de datação de urânio-tório, que fornece resultados muito mais confiáveis que os métodos de datação por radiocarbono, com margem de erro muito menor.

O método de urânio-tório envolve a datação de minúsculos depósitos de carbonato que se acumulam na superfície as pinturas nas cavernas. Esses depósitos contêm traços dos elementos radioativos urânio e tório, que indicam quando os depósitos se formaram – e fornecendo assim uma idade mínima para qualquer coisa que esteja abaixo da superfície onde estavam as amostras.

Uma equipe de cientistas do Reino Unido, da Alemanha, da Espanha e da França analisou mais de 60 amostras de carbonato de três cavernas da Espanha: La Pasiega, no nordeste do país, Maltravieso, no oeste e Ardales, no sudoeste espanhol.

As três cavernas contêm pinturas feitas com traços vermelhos ou pretos e representando grupos de animais, pontos e sinais geométricos, assim como desenhos de contornos de mãos, marcas de mãos “carimbadas” e gravações feitas na rocha.

Comportamento sofisticado

Segundo os cientistas, a criação de arte – por mais simples que ela seja – envolve comportamentos sofisticados como a própria escolha do local, o planejamento relacionado à fonte de luz e a mistura de pigmentos.

“Logo depois da descoberta do primeiro fóssil de Neanderthal no século 19, eles foram retratados como abrutalhados e desprovidos de cultura, incapazes de comportamentos artísticos e simbólicos. E algumas dessas visões ainda persistem até hoje”, disse outro dos coordenadores do estudo, Alistair Pike, arqueólogo da Universidade de Southampton. “A questão sobre até que ponto os Neandertais se comportavam como humanos é objeto de um debate acalorado. Nossas descobertas darão uma considerável contribuição a esse debate”, disse Pike.

De acordo com outro dos autores do artigo, Dirk Hoffmann, do Instituto Max Planck a cultura simbólica e material – uma coleção de feitos culturais e intelectuais passada de geração para geração – só havia sido atribuída até hoje à espécie humana. “A emergência da cultura simbólica e material representa um limiar fundamental na evolução da humanidade. Ela é um dos principais pilares daquilo que nos torna humanos. Artefatos cujo valor funcional não está em seu uso prático, mas em seu uso simbólico, remetem a aspectos fundamentais da cognição humana”, afirmou Hoffmann.

Artefatos simbólicos ainda mais antigos, com cerca de 70 mil anos, já haviam sido encontrados na África, mas acredita-se que eles foram produzidos por humanos, segundo os cientistas. Os desenhos Neandertais da Espanha, porém, podem ser considerados as mais antigas representações simbólicas em cavernas. Outros artefatos de cerca de 40 mil anos, incluindo arte em cavernas, figuras esculpidas, ferramentas de ossos decoradas e joias também já foram encontradas antes na Europa. Mas os cientistas concluíram que todos esses artefatos foram feitos por humanos modernos que nessa época já estavam se espalhando pela Europa, após a saída da África.

Também há evidências de que Neandertais da Europa utilizaram ornamentos corporais entre 40 mil e 45 mil anos atrás, mas vários pesquisadores sugeriam que eles teriam sido inspirados por humanos modernos que haviam acabado de chegar ao continente e conviveram com os Neandertais. “Os Neandertais criaram símbolos cheios de significados em locais igualmente cheios de significados. Não foi uma arte acidental”, disse outro dos autores do estudo, Paul Pettitt, da Universidade Durham (Reino Unido).

“Temos agora exemplos de três cavernas que ficam separadas por mais de 700 quilômetros e evidências de que essa arte era uma tradição que perdurou longamente. É bem possível que outras manifestações artísticas em cavernas semelhantes na Europa também tenham origem Neanderthal”, declarou Pettit.

Com informações: Estadão Conteúdo

08:53 · 28.01.2018 / atualizado às 11:25 · 27.01.2018 por
O Geopark Araripe faz parte de uma rede global de geoparques ligada à Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) Foto: Crato.org

Mais de quatro anos após uma apreensão de quase 3 mil fósseis furtados da Bacia do Araripe, localizada na região Nordeste, incluindo parte do território cearense, cientistas paulistas e nordestinos disputam o material.

Os fósseis, com idades de 100 milhões a 120 milhões de anos, foram retirados da região do Cariri, que inclui partes do Ceará, Pernambuco e Piauí. A Bacia do Araripe é uma das maiores e mais importantes jazidas do Período Cretáceo no Brasil e no mundo. Em 2014, quando a Justiça Federal decidiu que os fósseis recuperados pela Polícia Federal na França, em Minas Gerais e no interior de São Paulo fossem cedidos à Universidade de São Paulo (USP), que deveria armazená-los adequadamente e, principalmente, estudá-los.

A decisão foi cumprida e, de acordo com a pesquisadora responsável pelo material, Juliana Leme, professora de Paleontologia do Instituto de Geociências da USP, os fósseis – furtados para serem vendidos por altos valores a museus privados no exterior – estão proporcionando conhecimento científico há mais de um ano.

Na universidade paulista, eles têm sido utilizados em aulas, pesquisas de mestrado e doutorado e na divulgação científica: a instituição inaugurou recentemente uma exposição (mais informações nesta página) com mais de 50 peças importantes do acervo apreendido. De acordo com Juliana, os abundantes fósseis são “um tesouro científico brasileiro.”

“O material enviado à USP é belíssimo, com muitas peças raras. Vários fósseis estão em um grau incomum de preservação. É um alívio que isso não tenha ido parar em coleções particulares fora do País”, afirma.

Protesto cearense

Apesar do aparente final feliz, a escolha da USP como depositária dos fósseis causou protestos.

O paleontólogo Álamo Saraiva, professor da Universidade Regional do Cariri (Urca), discorda da decisão judicial e entrou com um recurso para que os fósseis sejam enviados de volta à região de origem.

“Por sorte, pudemos contar com a Polícia Federal e a Agência Brasileira de Inteligência, que têm feito um trabalho tão bom que até nos surpreende. Mas ainda temos um grande problema aqui no Cariri: além de ter de lidar com os traficantes de fósseis, somos vítimas do ‘fogo amigo’”, diz Saraiva, que é curador do Museu de Paleontologia da Urca, em Santana do Cariri, no Ceará, referindo-se aos cientistas do Sudeste.

Saraiva explica que, para os pesquisadores nordestinos, a presença dos fósseis no Ceará é fundamental para o desenvolvimento sustentável da região, que abriga o Geopark Araripe, parte de uma rede global de geoparques ligada à Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco). Criados em áreas do mundo onde há patrimônio geológico importante, os geoparques envolvem ciência, conservação ambiental e do patrimônio cultural, educação, geoturismo e desenvolvimento econômico.

“Vivemos dos fósseis, que têm valor de patrimônio cultural. Eles perdem esse valor quando saem daqui e vão parar em gavetas em universidades de São Paulo e do Rio, embora ainda mantenham o valor científico”, declarou Saraiva.

‘Cumprimento de decisão’

Juliana, por outro lado, argumenta que a USP está apenas cumprindo uma decisão judicial, segundo a qual o Instituto de Geociências da USP foi escolhido como destino das peças “por ter totais condições de dar a elas o tratamento e uso científico adequado”.

A pesquisadora também alega que a USP investiu recursos e trabalho no material, já que a universidade recebeu os fósseis lacrados em outubro de 2014, acompanhados de laudos técnicos. O processo para retirar o lacre, identificar, acondicionar e guardar peça por peça durou um ano. Apenas no fim de 2015 o material foi liberado para pesquisa.

Nos dois anos seguintes, a coleção proporcionou pelo menos oito pesquisas de iniciação científica, mestrado e doutorado, de acordo com Juliana. No fim de 2016 foi lançado o edital para a exposição e, um ano depois, ela foi aberta ao público. “Não é verdade, absolutamente, que esse material ficou engavetado”, defende. Saraiva, porém, contesta o investimento feito pela USP. “Se a USP tivesse injetado muitos recursos no material apreendido, eu até aceitaria que a coleção ficasse em São Paulo. Mas o que requer mais investimento é a preparação dos fósseis e esse material já estava perfeitamente preparado”, disse.

A preparação dos fósseis é um processo de alta complexidade técnica, no qual os especialistas retiram minuciosamente, no laboratório, o excesso de sedimentos incrustados nas peças, para que as características dos fósseis fiquem visíveis, permitindo seu estudo.

Contrabando

Segundo Saraiva, pela alta qualidade da preparação dos fósseis apreendidos, é possível até mesmo identificar o paleontólogo que fez o serviço: o alemão Michael Schwickert, considerado um dos principais contrabandistas de fósseis do Araripe há pelo menos 20 anos.

De acordo com a PF, ele está entre as 13 pessoas que integravam a quadrilha desbaratada. “Basta olhar para o material para constatar que a preparação primorosa foi feita por ele”.

Com informações: Estadão Conteúdo

17:49 · 04.01.2018 / atualizado às 17:50 · 04.01.2018 por
Foto: Ben Potter

A análise do DNA de um bebê que viveu há 11,5 mil anos no Alasca revelou a existência de uma antiga população da América do Norte que até agora permanecia desconhecida. De acordo com os autores do estudo, publicado na revista Nature, a descoberta levará a uma importante mudança nas teorias sobre como os humanos povoaram o continente americano.

A nova população foi batizada pelos cientistas de “antigos beringianos”, em alusão à Beríngia – a ponte terrestre coberta de gelo que, durante as glaciações, ligava o leste da Sibéria ao oeste do Alasca, onde hoje fica o estreito de Bering, que separa a Ásia da América do Norte.

“Nós não sabíamos que essa população existia. Esses dados também fornecem a primeira evidência direta da origem da população nativa americana, o que traz novas informações sobre como esses povos primitivos migraram e colonizaram a América do Norte”, disse um dos autores principais do estudo, Ben Potter, da Universidade do Alasca em Fairbanks.

De acordo com a análise genética e a modelagem demográfica feita pelos cientistas, um único grupo – que foi ancestral de todos os povos nativos das Américas – separou-se dos grupos asiáticos há cerca de 35 mil anos. Há cerca de 20 mil anos, esse grupo se dividiu novamente, dando origem aos antigos beringianos e aos ancestrais de todos os outros povos americanos.

O bebê fossilizado, uma menina que morreu seis semanas após o nascimento, foi batizado pela comunidade indígena local de “Xach’itee’aanenh T’eede Gaay”, que significa “menina do sol nascente”. Ela foi encontrada em 2013, no sítio arqueológico de Upward Sun River, junto a uma outra menina mais nova, que foi batizada de “Ye’kaanenh T’eede Gaay”, ou “menina da luz do amanhecer”.

“Seria difícil exagerar a importância da descoberta desse novo povo para o nosso conhecimento sobre como as antigas populações vieram habitar as Américas. Essa nova informação nos permite desenhar um quadro muito mais preciso da pré-história dos nativos americanos – que é muito mais complexa do que pensávamos”, afirmou Potter.

Cenários

A descoberta também sugere dois novos cenários para o povoamento das Américas.

Em um deles, um só grupo teria cruzado a ponte terrestre há cerca de 20 mil anos e então teria se dividido entre os antigos beringianos e os demais nativos americanos. O primeiro grupo teria permanecido no extremo norte do continente até o seu completo desaparecimento. O segundo grupo, após a retração das geleiras, teria migrado para o sul há 15,7 mil anos.

No outro cenário, dois grupos distintos de pessoas teriam cruzado a Beríngia. Os antigos beringianos teriam então se estabelecido ao norte, enquanto os ancestrais de todos os indígenas teriam migrado para o sul há 15,7 mil anos. Para Potter, o segundo cenário é mais plausível, porque para que houvesse uma só onda migratória a passagem pela Beríngia teria de ocorrer muito antes da divisão das duas populações. “O fundamento para esse cenário da migração de dois povos distintos é bastante forte. Não temos evidências de humanos na região da Beríngia há 20 mil anos.”

Segundo Potter, quando sua equipe começou a análise do material genético, esperava-se encontrar a conexão entre o perfil genômico dos fósseis encontrados no Alasca e o de outros povos nativos da América do Norte. Porém, o DNA dos fósseis não combinava com o de nenhuma outra população antiga.

Isso sugere, de acordo com o cientista, que os antigos beringianos permaneceram no extremo norte do continente por milhares de anos, enquanto os ancestrais dos povos indígenas se espalharam por todo o continente.

Travessia pelo litoral

Um dos autores do novo estudo, Eske Willerslev, da Universidade de Copenhague (Dinamarca), havia publicado em 2016 uma outra pesquisa que desmontava uma das principais teorias sobre a migração da Sibéria para o Alasca, que seria uma migração por terra pela Beríngia. Naquele trabalho, também publicado na Nature Willerslev mostrou que o corredor que tornaria o caminho possível entre as geleiras formou-se há 15 mil anos, mas só oferecia condições para a travessia há 12,6 mil anos. A presença humana no continente, porém, é confirmada por vestígios fósseis há pelo menos 13 mil anos.

De acordo Willerslev a hipótese mais plausível é que os povos da Ásia tenham migrado para a América viajando ao longo da costa do Oceano Pacífico – pela orla, ou por mar – o que poderia ter ocorrido há mais de 15 mil anos.

Com informações: Estadão Conteúdo

17:55 · 12.12.2017 / atualizado às 17:55 · 12.12.2017 por
cientistas descobriram, em Myanmar, vários carrapatos aprisionados em diversos pedaços de âmbar (uma espécie de resina fóssil), associados a restos dos grandes répteis Foto: NPR

A partir da descoberta de um fóssil de carrapato preservado em âmbar, um grupo internacional de cientistas mostrou pela primeira vez que esses parasitas já se alimentavam do sangue de dinossauros há quase 100 milhões de anos.

O estudo, publicado nesta terça-feira (12), na revista Nature Communications, também revela uma nova espécie extinta de carrapato, batizada de Deinocroton draculi, em alusão ao vampiro Drácula. Os cientistas descobriram, em Mianmar, vários carrapatos aprisionados em diversos pedaços de âmbar – uma espécie de resina fóssil – datados em 99 milhões de anos.

Um deles estava agarrado a uma pena de dinossauro. Segundo os autores do estudo, raramente são encontrados parasitas associados aos fósseis de seus hospedeiros e a descoberta é a primeira evidência direta da relação entre carrapatos e dinossauros.

Sem ‘Jurassic Park’

Embora o contexto da pesquisa lembre bastante o filme Jurassic Park, os cientistas afirmam que é praticamente impossível reconstruir dinossauros a partir de eventuais restos de DNA desses animais no fóssil de um carrapato do período Cretáceo (145 milhões a 66 milhões de anos atrás).

Na obra ficcional, dirigida por Steven Spielberg em 1993, os cientistas extraem o DNA de dinossauros de fósseis de mosquitos preservados em âmbar e, a partir daí, conseguem clonar os lagartos gigantes e trazê-los de volta à Terra. Os pesquisadores porém, explicam que embora seja comum encontrar fósseis em âmbar, é praticamente inviável extrair dessas amostras DNA em condições de ser utilizado – e o processo de clonagem seria ainda mais difícil. Todas as tentativas feitas até hoje de extrair DNA de espécimes em âmbar foram um fracasso, por causa da curta vida útil dessa molécula.

“Os carrapatos são infames organismos parasitários sugadores de sangue, que têm um impacto tremendo na saúde de humanos, de gado de bichos de estimação e de animais selvagens. Mas até agora estava faltando uma clara evidência do papel desses parasitas no passado remoto”, disse o autor principal do estudo, Enrique Peñalver, do Instituto de Pesquisa de Geologia e Mineração da Espanha.

Penas de dinossauros

Segundo Peñalver, o âmbar do Cretáceo fornece aos cientistas uma janela para o mundo dos dinossauros emplumados. Parte desse grupo de dinossauros mais tarde evoluiria para dar origem às aves modernas. A pena de dinossauro encontrado no âmbar com o carrapato, segundo os cientistas, tem estrutura semelhante à das penas dos pássaros.

Com informações: Estadão Conteúdo

17:19 · 08.12.2017 / atualizado às 17:19 · 08.12.2017 por
Concepção artística das migrações humanas ocorridas entre 60 e 120 mil anos atrás, em um período anterior ao que se pensava Imagem: Ivan Heredia/CSIC

A tese de uma única migração humana fora da África há 60 mil anos não poderá mais ser considerada um dado correto da história da humanidade, argumenta uma revisão da literatura científica publicada na revista científica americana Science.

Ao contrário, várias migrações para fora da África, que começaram há 120 mil anos, deram origem à população moderna, demonstram os resultados da pesquisa. Avanços na análise de DNA e em outras técnicas de identificação de fósseis, principalmente em relação a descobertas na Ásia, estão ajudando a reescrever o que pensávamos saber sobre nossas origens.

Uma “abundância de novas descobertas” na última década mostrou que os humanos modernos, ou Homo sapiens, chegaram a partes do continente asiático muito antes do que se pensava, assinalou o informe. Vestígios de Homo sapiens datados de 70 mil a 120 mil anos foram encontrados em diferentes locais no sul e no centro da China. Outras descobertas de fósseis mostram que os humanos modernos chegaram ao sudeste de Ásia e à Austrália antes de 60 mil anos atrás.

“As primeiras dispersões fora da África antes de 60 mil anos atrás provavelmente eram feitas em pequenos grupos de pessoas que buscavam comida e, pelo menos, algumas dessas dispersões iniciais deixavam traços genéticos de baixo nível em populações modernas”, explicou Michael Petraglia, pesquisador do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana, na Alemanha.

Migração maior

“Um evento posterior e maior de [migração] ‘Fora da África’ muito provavelmente ocorreu por volta de 60 mil anos atrás ou depois disso”, informou. Pesquisas recentes confirmaram que esta migração em massa há 60 mil anos “contribuiu para a maior parte da composição genética dos não africanos atuais”, de acordo com o comunicado.

Estes primeiros viajantes se miscigenaram com outras espécies, incluindo Neandertais e Denisovanos, e uma população não identificada de homininis (primatas hominóideos) pré-modernos em muitos locais através da Eurásia. Os cientistas consideram que, entre os Homens modernos não africanos atuais, de 1% a 4% do DNA seria de origem dos Neandertais e até 5% podem ser de Denisovanos. “Agora está claro que humanos modernos, os Neandertais, Denisovanos e talvez outros grupos homininis provavelmente se sobrepuseram no tempo e no espaço na Ásia, e certamente tiveram muitos casos de interação”, destacou o estudo.

Com informações: AFP

10:22 · 08.11.2017 / atualizado às 10:22 · 08.11.2017 por
Concepção artística de mamíferos que conviveram com ancestrais das aves modernas e com dinossauros na era Mesozóica Imagem: Mark Witton

Um estudante universitário britânico encontrou dentes de mamíferos parecidos com ratos que viveram há 145 milhões de anos e possuem ligações distantes com os humanos. A descoberta foi feita na costa de Dorset, no sudoeste da Inglaterra, pelo estudante de graduação Grant Smith, quando ele examinava pedras na Universidade de Portsmouth.

“Inesperadamente, ele não encontrou um, mas dois dentes bastante notáveis ​​de um tipo nunca antes visto em rochas desta época”, disse Steve Sweetman, pesquisador da universidade. “Eu fui convidado a olhar para eles e dar uma opinião e, mesmo à primeira vista, fiquei de boca aberta!”, escreveu na revista científica Acta Palaeontologica Polonica.

Acredita-se que os dentes pertenceram a duas espécies diferentes de criaturas pequenas e peludas que provavelmente eram noturnas e se alimentavam de insetos e talvez plantas. “Os dentes são de um tipo altamente avançado que pode perfurar, cortar e esmagar alimentos”, disse Sweetman.

“Eles também estão muito desgastados, o que sugere que os animais aos quais eles pertenciam viveram até uma boa idade para suas espécies. Um grande feito quando você está compartilhando seu habitat com dinossauros predatórios!”.

Apesar desses animais serem significativamente diferentes dos humanos, Sweetman os descreveu como “sem dúvida os mais antigos conhecidos da linha de mamíferos que leva à nossa própria espécie”. As duas espécies foram nomeadas Durlstodon ensomi e Durlstotherium newmani, a segunda em homenagem ao proprietário de um pub local, Charlie Newman.

A descoberta foi feita na “Costa Jurássica” de Dorset, um Patrimônio Mundial da Unesco que carrega 185 milhões de anos de história.

Com informações: AFP

16:28 · 10.08.2017 / atualizado às 16:28 · 10.08.2017 por
Réplica do Patagotitan mayorum, que pode ter pesado até 70 toneladas, e vivido na Argentina há 100 milhões de anos Foto: France24h

Uma nova espécie de titanossauro descoberta na Patagônia argentina há três anos e talvez o maior dinossauro a caminhar sobre a Terra foi batizada formalmente nesta quarta-feira em Nova York, de Patagotitan mayorum.

O nome pode ser traduzido como “Gigante da Patagônia”, disse o paleontólogo Diego Pol em uma cerimônia no Museu de História Natural americano, onde desde 2016 se exibe uma réplica em tamanho real da criatura colossal, tão enorme que sua cabeça e pescoço se estendem até um saguão.

O nome “mayorum” foi escolhido em reconhecimento à família Mayo, em cujo rancho na Argentina foram encontrados, em 2014, os restos do gigante herbívoro que viveu há 100 milhões de anos.

Estima-se que o jovem adulto chegou a pesar até 70 toneladas, o mesmo que 10 elefantes africanos.

Sua idade sugere que animais ainda maiores podem ter vivido na Patagônia nessa época, disse Pol, do Museu Paleontológico Egidio Feruglio de Trelew, na província argentina de Chubut (sul), que ajudou a dirigir a escavação.

Quando a réplica foi revelada em Nova York, em janeiro de 2016, especialistas disseram que a espécie era uma descoberta recente demais para ter um nome. Após 20 meses de intensa pesquisa e de comparar os ossos com outras descobertas em outros lugares do mundo, os pesquisadores concluíram que efetivamente o dinossauro pertencia a uma nova espécie que merecia um nome próprio.

“Acreditamos que este dinossauro era ligeiramente maior que os outros conhecidos até então”, disse Pol, embora tenha admitido que só há restos fragmentados de algumas espécies e que isso dificulta as estimativas. “Dar um nome científico é o símbolo de conduzir e finalizar um estudo científico no qual aprendemos algo de uma nova espécie”, acrescentou por Skype, na Patagônia.

“As novas espécies são importantes porque nos mostram como eram os animais no passado”, explicou. “Podem oferecer informação para responder perguntas sobre o passado do nosso planeta”. O pesquisador assegurou que “a pergunta de um milhão” é “o que aconteceu há 100 milhões de anos na Patagônia” que permitiu a estes animais “ser aspirantes ao campeonato de pesos pesados dos dinossauros”. No total, 223 ossos fósseis de seis criaturas foram descobertos no local perto do sítio La Flecha, 216 km ao oeste de Trelew. Todos eram adultos jovens. A espécie vivia nas florestas do que hoje é a Patagônia, durante o período Cretáceo Tardio.

Como os fósseis são muito pesados para montá-los, a réplica colossal de 37,2 metros é feita de impressões dos ossos em 3D em fibra de vidro.

Com informações: AFP

19:33 · 01.08.2017 / atualizado às 19:38 · 01.08.2017 por
Concepção artística e descrição (em inglês) de um provável ancestral das flores modernas Imagem: Nature Communications

A primeira flor a aparecer ao longo do caminho da evolução vegetal, durante a época dos dinossauros, era uma hermafrodita com órgãos em forma de pétala dispostos em círculos concêntricos, disseram pesquisadores nesta segunda-feira.

A flor tinha órgãos reprodutores masculinos e femininos no centro, cercados por múltiplas camadas de “espirais” ou partes semelhantes a pétalas chamadas tépalas, dispostas em conjuntos de três por camada, escreveram os cientistas na revista Nature Communications.

A reconstrução, baseada no maior conjunto de dados de características de flores já reunidos – de 792 espécies existentes – desafia os pressupostos científicos de que a flor ancestral teria seus órgãos sexuais e “pétalas” dispostas em uma espiral.

A maioria das flores hoje tem quatro “espirais” – as folhas exteriores ou sépalas, seguidas pelas pétalas, que encerram os órgãos masculinos chamados de estames, com os órgãos femininos ou carpelos no centro.

A flor ancestral provavelmente não tinha sépalas e pétalas separadas, em vez disso, uma mistura entre os dois – em torno dos órgãos sexuais no centro.

Flores modernas com tépalas em vez de pétalas incluem tulipas e lírios.

“Os resultados são realmente emocionantes”, disse Maria von Balthazar, especialista em morfologia floral da Universidade de Viena, que participou da pesquisa.

“Esta é a primeira vez que temos uma visão clara para a evolução precoce das flores em todas as angiospermas” – o termo científico para plantas floríferas. Os pesquisadores ainda não sabem a cor da flor, o seu cheiro, ou seu tamanho – que provavelmente era menor que um centímetro de diâmetro.

Evolução das plantas

Os especialistas acreditam que as plantas terrestres emergiram de plantas aquáticas ancestrais há cerca de 470 milhões de anos – mais de três bilhões de anos depois da primeira forma de vida ter surgido, quando a Terra tinha cerca de um bilhão de anos.

A primeira planta com sementes provavelmente surgiu cerca de 320 milhões de anos atrás, quando havia animais diversos na terra e no mar, mas ainda não havia dinossauros, mamíferos ou pássaros. Os fósseis mais antigos conhecidos de plantas com flores datam de cerca de 140 milhões de anos atrás – durante a era dos dinossauros, que foram extintos há cerca de 66 milhões de anos.

Desde então, a primeira flor evoluiu para ao menos 300.000 espécies, afirmou a equipe de pesquisa. As plantas com flores representam cerca de 90% de todas as plantas na Terra. Em 1879, o cientista Charles Darwin descreveu o rápido aumento e diversificação das flores durante a era geológica do Cretáceo como um “abominável mistério”.

A equipe combinou dados de DNA e uma vasta literatura sobre características de plantas para compilar uma árvore evolutiva detalhada que voltava até o último antepassado comum.

“A flor cresceu em apenas um tipo de planta, a espécie ancestral de todas as plantas floríferas vivas”, disse à AFP o coautor Herve Sauquet, da Universidade Paris-Sul.

“De acordo com trabalhos anteriores, provavelmente era uma pequena árvore ou arbusto”, acrescentou.

Com informações: AFP

20:52 · 18.07.2017 / atualizado às 21:06 · 18.07.2017 por
Análise de DNA mostra que os cachorros antigos se separaram de seus ancestrais pela primeira vez há cerca de 40 mil anos Foto: VetStreet

De patas curtas ou alongadas, com o pelo enrolado ou comprido, todos os cães do mundo vêm de uma mesma população de lobos domesticados há entre 20 mil e 40 mil anos – revela um estudo publicado na revista científica Nature Communications nesta terça-feira (18).

“Nossos dados mostram que todos os cães modernos espalhados pelo mundo foram domesticados de uma única população de lobos”, diz à AFP a coautora do estudo Krishna Veeramah, da Universidade do Estado de Nova York, em Stony Brook. Tomando indícios genéticos como base, esse novo estudo se soma a outras hipóteses sobre as controversas origens do melhor amigo do homem.

Segundo uma dessas hipóteses, os humanos domesticaram os cães pela primeira vez na Europa, há mais de 15 mil anos. Outros pesquisadores afirmam que essa domesticação teve início no leste da Ásia, pelo menos 12,5 mil anos atrás. Já um estudo publicado no ano passado na revista Science apontou que os cães foram domesticados em dois lugares distintos, partindo de matilhas de lobos na Europa e na Ásia.

Os autores do estudo publicado nesta terça-feira disseram que sua análise de DNA mostra que os cachorros antigos se separaram dos lobos pela primeira vez há cerca de 40 mil anos, em um processo provavelmente desencadeado pela presença de humanos. Os pesquisadores não sabem, porém, em que parte do mundo isso aconteceu.

Há 20 mil anos, disse a equipe, os primeiros cães se dividiram geograficamente entre os caninos do Oriente e os do Ocidente. O primeiro grupo deu origem aos cães do leste da Ásia, e o outro aos cães na Europa, no centro e no sul da Ásia e na África. “Há 7 mil anos, eles (os cachorros) estavam praticamente por toda parte”, disse Krishna Veeramah. O cão europeu desse período deu origem à maioria das raças de cães modernas encontradas hoje, concluíram os pesquisadores.

Krishna Veeramah e seus colegas analisaram amostras de DNA fossilizado de dois cães encontrados na Alemanha. Um deles, de 7 mil, é o cão mais velho a ter tido seu DNA sequenciado até hoje. O outro é de pelo menos 4,7 mil anos. Ambos remontam ao Neolítico, período que marca o início da agricultura e da pecuária. O genoma desses dois “senhores” europeus é parecido com o dos cachorros do presente, o que sugere uma origem geográfica única de cães domésticos.

O processo de domesticação desse animal – um carnívoro potencialmente perigoso ao homem – foi, certamente, “difícil”, afirma Krishna Veeramah, bem mais do que a de ovelhas, porcos, ou vacas. “A hipótese atual é que esse processo ocorreu passivamente a partir de uma população de lobos que vivia na periferia dos campos de caçadores-coletores, alimentando-se do lixo produzido pelos humanos”, relata a cientista.

Os menos agressivos teriam, então, desenvolvido uma relação particular com os homens. É essa população ancestral de cães, única, que teria se disseminado pelo planeta, provavelmente ao sabor dos deslocamentos humanos.

Com informações: AFP