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Categoria: Química


16:55 · 25.07.2018 / atualizado às 16:55 · 25.07.2018 por
Foto: AFP

Por Salvador Nogueira

Pesquisadores europeus encontraram evidências de um lago com água em estado líquido sob a calota polar sul de Marte.

Com 20 km de largura, o local é o equivalente marciano dos lagos que existem sob o gelo da Antártida, na Terra. Ao menos por aqui, esses ambientes -às vezes selados do contato com a atmosfera por muitos milhões de anos- estão cheios de formas de vida. A pergunta atual é se ocorre o mesmo por lá.

A descoberta foi feita com dados colhidos pela sonda europeia Mars Express. Um dos instrumentos embarcados nela é conhecido pela sigla Marsis. Trata-se de um sofisticado radar projetado por italianos e americanos, capaz de sondar o que há no subsolo do planeta vermelho.

A técnica é bastante conhecida aqui na Terra, e pesquisadores fazem todo tipo de observação com satélites para descobrir coisas no subsolo -desde lagos sob a calota polar antártica até petróleo.

Não é difícil entender como funciona. O satélite em órbita manda pulsos eletromagnéticos (em frequências de rádio) na direção do solo. A superfície, naturalmente, reflete boa parte deles de volta para o espaço, onde são captados pelo próprio satélite que os originou.

O tempo de viagem (ida e volta) do pulso indica exatamente a distância entre o satélite e o chão. Contudo, nem tudo é refletido da superfície. Boa parte do pulso original consegue penetrar mais profundamente, e vai ser refletida somente por camadas mais profundas do subsolo.

O tempo que cada um dos ecos leva para voltar até o satélite, além de sua intensidade, revela a estrutura nos primeiros quilômetros de profundidade do planeta. É como obter uma radiografia de uma faixa de terreno.

Longa busca

A Mars Express está em órbita de Marte desde 2003, mas o Marsis, que para funcionar exigia a abertura de duas antenas de 20 metros de comprimento e uma de 7 metros, só começou a operar em 2005.

Os dados que permitiram a descoberta foram colhidos pela espaçonave entre maio de 2012 e dezembro de 2015 -um total de 29 “perfis” de radar de uma região de cerca de 200 km de extensão em Planum Australe (o “plano austral”).

Numa área centrada nas coordenadas 193° Leste, 81° Sul -a apenas 9º do pólo geográfico Sul marciano-, o Marsis detectou um reflexo brilhante do radar vindo de uma profundidade de cerca de 1,5 km. Um sinal bastante familiar a quem já fez sondagens desse tipo na Antártida -um lago sob uma espessa camada de gelo, em plena calota polar Sul marciana.

A julgar pelos dados, o corpo d’água parecia ter cerca de 20 km de largura e pelo menos 1 metro de espessura (a profundidade é incerta, uma vez que o radar não consegue ir muito além, pois a água absorve o sinal todo). Essa detecção era o primeiro passo para mostrar que, a exemplo da Terra, Marte também tem lagos subglaciais. Mas não seria o último.

Analisando as possibilidades

O que parece óbvio na Terra deve ser tratado como duvidoso em Marte, por uma razão muito simples: não é tão fácil enviar alguém até lá (seja humano ou robô) para confirmar cada descoberta. E, bem ou mal, estamos falando de outro planeta, de forma que os cientistas que se arriscam a proclamar descobertas precisam avaliar à exaustão os dados e suas conclusões para se certificarem de que não há explicações alternativas escapando por entre os dedos.

Boa parte do trabalho da equipe liderada por Roberto Orosei, do Instituto Nacional de Astrofísica da Itália, em Bolonha, consistiu em demonstrar que provavelmente o sinal que se obteve em Marte é resultado do mesmo fenômeno que produz o mesmo sinal na Terra. “Esta condição na Terra acontece somente quando você observa água subglacial como na Antártida, sobre lugares como o lago Vostok, e nós passamos um longo tempo debatendo se esse também era o caso em Marte”, conta Orosei. “Foi uma longa investigação, que exigiu muito esforço, mas depois de vários anos pudemos demonstrar que esse era o caso.”

Os detalhes técnicos saem na edição desta semana da revista científica americana Science e envolvem explicar como seria possível essa água estar em estado líquido em Marte. O que não é nada fácil. O principal problema é que as regiões polares marcianas são ainda mais frias que as terrestres, de forma que é inviável que a água marciana detectada esteja acima de zero grau Celsius. Deve estar muito mais gelada que isso. Uma pista para a resposta está em nossos oceanos. Neles, a presença de sais diluídos na água quebra um galho, e a água não congela a 0° C, e sim a -2° C. Mas o caso de Marte teria de ser bem mais extremo que isso.

“Os dados do radar nos dizem que esta água deve conter uma grande quantidade de sais”, explica Orosei. “Porque o gelo acima dela é muito transparente [ao radar], e isso não seria possível se ele estivesse muito quente, muito perto do ponto de derretimento.” Os pesquisadores estimam que a água em contato com o gelo deve estar a pelo menos -10° C e possivelmente bem mais fria. Orosei fala em uns -30° C. E pode ser ainda pior: o limite extremo para a redução do ponto de congelamento da água pela dissolução de sais é de cerca de -60° C.

A aposta razoável é que haja uma grande presença de percloratos (substâncias já detectadas em solo na região polar sul de Marte, pela sonda Phoenix) diluídos na água, reduzindo seu ponto de congelamento de maneira extrema. “Este certamente não é um ambiente muito confortável para a vida”, diz o pesquisador italiano.

Ou é?

“O problema nessa história é o perclorato”, diz Douglas Galante, astrobiólogo do LNLS (Laboratório Nacional de Luz Síncrotron), em Campinas, que não participou do estudo europeu. “Água com perclorato não parece legal para microrganismos terrestres. Ou, pelo menos, era o que achávamos. Mas essa visão parece estar mudando.”

O pesquisador brasileiro cita dois trabalhos científicos recentes que relatam a descoberta de algumas espécies de microrganismos capazes de lidar com concentrações de perclorato compatíveis com as encontradas em Marte. “Então temos exemplos aqui na Terra de extremófilos percloratorresistentes, que poderiam servir como modelo de vida que poderia estar presente nesse lago subglacial marciano”, completa Galante.

Ou seja, a resposta provisória que temos sobre se poderia ou não haver vida em um ambiente assim é um intrigante “talvez”. Seja como for, a descoberta é festejada pela comunidade dos astrobiólogos, ansiosos que estão por encontrar mais potenciais habitats espalhados pelo Sistema Solar e além. “Encontrar um bolsão de água líquida próximo à superfície é uma excelente notícia para o programa de busca de vida em Marte”, arremata o pesquisador brasileiro.

Infelizmente, ainda está além das tecnologias atuais das agências espaciais enviar uma sonda capaz de perfurar 1,5 km de gelo para explorar um lago marciano como esse. Mas o futuro transborda possibilidades.

Com informações: Folhapress

18:04 · 25.06.2018 / atualizado às 18:04 · 25.06.2018 por
Medicamento experimental coloca a insulina dentro de um líquido, contido em uma cápsula de polímero que resiste aos ácidos do estômago Foto: Bel Marra Health

Estudos com ratos abriram a possibilidade para a elaboração de um novo tipo de comprimido de insulina que poderia evitar que milhões de diabéticos se submetam às injeções diárias, informaram pesquisadores nesta segunda-feira (25).

Ainda é necessário fazer mais pesquisas para que a pílula, criada por especialistas da Universidade de Harvard, possa ser testada em humanos, ou esteja disponível em escala mundial. Até agora, o principal desafio para a sua elaboração tem sido encontrar um modo de preservar a proteína da insulina uma vez que entre em contato com os ácidos no estômago.

O medicamento experimental coloca a insulina dentro de um líquido, contido em uma cápsula de polímero que resiste aos ácidos do estômago, segundo descrição da Academia de Ciências. Essa proteção se dissolve quando entra em contato com um ambiente alcalino no intestino delgado, permitindo que o líquido que contém a insulina seja liberado.

“Uma vez ingerida, a insulina deve atravessar uma corrida de obstáculos antes que seja efetivamente absorvida pela corrente sanguínea”, assinalou o autor do estudo Samir Mitragotri, professor de Bioengenharia em Harvard.

“Nossa abordagem é quase como um canivete suíço, já que o comprimido tem ferramentas para enfrentar cada um dos obstáculos que encontra”. A pílula é de “fácil produção e pode ser conservada por até dois meses à temperatura ambiente sem se degradar”, indicou o estudo. Os pesquisadores não detalharam quanto tempo levaria para iniciar os testes em humanos, mas podem ser anos. Ainda são necessários mais estudos em animais, além de análises sobre os possíveis efeitos tóxicos por seu uso em longo prazo.

Quarenta milhões de pessoas no mundo têm diabetes tipo 1, uma condição que requer a aplicação diária de injeções com insulina, uma substância que seu organismo não pode produzir por si só. Segundo Mark Prausnitz, chefe de Química e Engenharia Molecular no Georgia Institute of Technology, a busca por doses de insulina para ser ingerida tem sido considerada o “Santo Graal” nas pesquisas de diabetes. “As implicações deste trabalho na medicina podem ser enormes se as descobertas puderem ser transformadas em comprimidos que podem administrar segura e efetivamente a insulina e outras drogas nos humanos”.

Com informações: AFP

12:11 · 16.06.2018 / atualizado às 12:11 · 16.06.2018 por
O LHC, um imenso anel com 100 metros de profundidade, 27 km de circunferência, e situado sob os territórios suíço e francês, começou a operar em 2010 Foto: CERN

O CERN, organização europeia para a pesquisa nuclear, iniciou uma grande obra de engenharia civil para incrementar as capacidades do maior acelerador de partículas do mundo, o LHC.

“Até 2026, esta importante melhoria incrementará notavelmente a capacidade do LHC ao multiplicar o número de colisões, o que elevará a probabilidade de descobrir novos fenômenos”, explica o CERN em comunicado.

O LHC, um imenso anel com 100 metros de profundidade e situado sob os territórios suíço e francês, começou a colidir partículas em 2010. No interior do túnel de 27 km de circunferência, pacotes de prótons viajam a uma velocidade próxima da luz e entram em colisão em quatro pontos de interação.

Estas colisões engendram novas partículas, que os físicos do mundo inteiro analisam para aprofundar os conhecimentos sobre as leis da natureza.

Com informações: AFP

16:46 · 07.06.2018 / atualizado às 20:57 · 07.06.2018 por
Ao analisar amostras colhidas na cratera Gale com idade de cerca de 3 bilhões de anos, o robô Curiosity estabeleceu de forma conclusiva que havia abundância de compostos orgânicos no planeta Foto: Nasa

Por Salvador Nogueira

Já sabemos há algum tempo que Marte, em seu passado remoto, foi habitável -ou seja, tinha a capacidade de preservar água em estado líquido na superfície. Agora, graças ao jipe Curiosity, sabemos que ele tinha, na mesma época, os ingredientes necessários para a vida -moléculas orgânicas complexas.

Ao analisar amostras colhidas na cratera Gale com idade de cerca de 3 bilhões de anos, o robô da Nasa estabeleceu de forma conclusiva que havia abundância de compostos orgânicos no planeta. Com efeito, os resultados sugerem um conteúdo orgânico comparável ao de rochas sedimentares ricas nessas substâncias aqui da Terra. Ninguém está dizendo que houve vida em Marte, claro. Mas saber que os ingredientes estavam lá -água e moléculas orgânicas- é um passo importantíssimo em busca dessa resposta. Tanto que o principal objetivo do Curiosity, assim que chegou a Marte, em 2012, era achar esses benditos compostos. E a busca não foi nada fácil.

Nas primeiras tentativas de detecção, nos primeiros cem dias da missão, a melhor definição para o resultado era “fracasso”. A quantidade de compostor orgânicos simples era tão pequena que não se podia descartar contaminação da Terra enviada dentro do jipe ou mesmo que a fonte desses compostos fossem asteroides a colidir com Marte.

A ausência de compostos orgânicos no planeta vermelho era uma grande surpresa. Afinal, essas moléculas de carbono parecem estar em toda parte no espaço -em asteroides, cometas, planetas, luas e até nebulosas. Por que Marte seria estranhamente empobrecido nelas? Ocorre que a superfície marciana hoje é bem hostil a moléculas orgânicas. Raios ultravioletas do Sol encontram pouca filtragem na tênue atmosfera daquele mundo, quebrando com facilidade moléculas orgânicas maiores. E, para completar, o solo é rico em percloratos. São moléculas sem graça feitas de oxigênio e cloro, mas que, quando suficientemente aquecidas, se quebram e destroem qualquer molécula orgânica maior que esteja por perto.

Calor não é lá um grande problema em Marte. Mas é um grande problema quando o método de detecção de moléculas orgânicas do seu jipe envolve aquecer a amostra centenas de graus Celsius para ver que moléculas evaporam por lá. Você já começa com quase nada, graças ao ambiente hostil de Marte, e o que ainda restava é destruído pelos percloratos assim que você aquece a amostra. Voilà: um grande desapontamento. A equipe do Curiosity, no entanto, perseverou, procurando rochas mais adequadas para a busca. No fim de 2014, eles anunciaram um grande avanço: uma das amostras recolhidas mostrava uma quantidade de moléculas orgânicas simples tal que se podia descartar qualquer contaminação. Era química orgânica para valer no passado marciano.

Ainda assim, eram moléculas bem pequenas, muito longe do que seria necessário para a vida. A hipótese de trabalho era a de que, na origem, havia moléculas orgânicas mais complexas, que no entanto foram destruídas por percloratos e tiveram seus átomos recombinados nos compostos simples detectados. Não havia, contudo, como descartar a noção de que, desde o início, fossem só aquelas pequenas porcarias mesmo. Quase quatro anos depois, chega a resposta definitiva: analisando amostras ainda melhores, e se concentrando apenas nos gases evaporados delas a temperaturas bem altas (assim descartando o que pudesse ser ação de percloratos ou qualquer outro contaminante vindo da Terra), os pesquisadores encontraram moléculas orgânicas relativamente grandes e que provavelmente compunham cadeias de moléculas ainda maiores. O proverbial filé orgânico marciano.

O artigo científico reportando a descoberta, que tem como primeira autora Jennifer L. Eigenbrode, da Nasa, sai na edição desta sexta-feira (8) da revista Science. E, na mesma publicação, outro artigo relata outra descoberta feita pelo Curiosity em Marte.

A temporada do metano

Sim, é mais química orgânica. Desta vez na atmosfera. Além de procurar compostos complexos em rochas, o Curiosity tinha como uma de suas metas primordiais fazer a primeira detecção de gás metano na atmosfera, estando ele envolto nela. Resultados anteriores obtidos por telescópios e missões orbitais sugeriam a presença de uma quantidade significativa dele, ainda que medido em partes por bilhão. No início, o Curiosity detectou quantidades tão baixas que esbarravam no limite de precisão do equipamento.

Os pesquisadores então começaram a trabalhar num novo método para diminuir a margem de erro, “enriquecendo” a amostra da atmosfera em metano antes de tomar a medição. E ajudou o fato de que, em 2013, o jipe foi engolfado por uma pluma de metano emanando do solo, que fez saltar a detecção de 0,69 parte por bilhão para 7,2 partes por bilhão. Certo, mas por que essa neura com metano? São dois os motivos: primeiro, trata-se de uma molécula que não dura muito na atmosfera, exposta aos famigerados raios ultravioletas solares. O que significa que, se ela existe no ar marciano, mesmo em quantidades pentelhesimais, algo está constantemente lançando mais dela na atmosfera.

E o segundo motivo é ainda mais interessante: ao menos na Terra, a imensa maioria do metano atmosférico é produzido por formas de vida. Pois é. Manja a sua flora intestinal? De vez em quando ela te força a lançar uma pluma de metano no ar que, em Marte, deixaria os cientistas num frenesi nerd. Por outro lado, há outros meios de gerar metano que não envolvem vida, como um processo químico conhecido como serpentinização. Afinal, o que gera as plumas de metano em Marte? Desde essa detecção inicial em 2013 os cientistas responsáveis pelo Curiosity permaneceram tomando medidas periódicas do metano na atmosfera. E agora, com dados colhidos ao longo de quase cinco anos (terrestres, três marcianos), eles encontraram uma pista intrigante: a emissão de metano é sazonal. Os dados revelam que, noves fora os picos gerados por plumas repentinas locais, a quantidade média de metano na baixa atmosfera flutua entre 0,24 e 0,65 parte por bilhão. O pico se dá próximo ao fim do verão no hemisfério norte marciano (inverno no sul). O jipe em si está na região equatorial do planeta, apenas 4,5 graus Sul.

Com esse resultado, os pesquisadores podem descartar várias possíveis fontes para o metano que não apresentariam esse padrão. A aposta deles é que haja grandes quantidades do gás presas no subsolo marciano no interior de cristais baseados em água chamados de clatratos. Para eles, as mudanças sazonais de temperatura poderiam explicar as flutuações na liberação do gás observadas pelo jipe. Ainda resta a pergunta mais importante: o que teria produzido o metano aprisionado nesses clatratos? Pode ser vida, pode ser outro processo abiótico. A resposta terá de esperar -talvez por novos resultados, mais provavelmente por novas missões. Com efeito, o Trace Gas Orbiter, da ESA (Agência Espacial Europeia), acabou de começar sua missão científica em órbita marciana, e seu objetivo é estudar a distribuição e os padrões de emissão do metano em escala global. Ele poderá corroborar ou colocar em dúvida os atuais resultados do Curiosity, mas certamente agregará mais peças ao quebra-cabeça.

O artigo reportando a sazonalidade do metano em Marte tem como primeiro autor Christopher Webster, também da Nasa, e sai ao lado do texto de Eigenbrode, nesta sexta. “Ambos os resultados são avanços revolucionários para a astrobiologia”, avalia Inge Loes ten Kate, pesquisadora da Universidade de Utrecht que não participou das pesquisas, mas escreveu um artigo de comentário para a Science. “A detecção de moléculas orgânicas e metano em Marte tem vasta implicações à luz de potencial vida passada marciana. O Curiosity mostrou que a cratera Gale foi habitável há 3,5 bilhões de anos, com condições comparáveis às da Terra primitiva, onde a vida evoluiu mais ou menos na mesma época. A questão de se a vida pode ter se originado ou existido em Marte é muito mais oportuna agora que sabemos que moléculas orgânicas estavam presentes na superfície naquela época.”

Em 2020, tanto europeus quanto americanos prometem enviar jipes capazes de dar o próximo passo e procurar evidências diretas de vida marciana.

Com informações: Folhapress

16:12 · 01.06.2018 / atualizado às 16:12 · 01.06.2018 por
Ventos suaves que sopram na superfície do corpo celeste a uma velocidade de entre 30 e 40km/h esculpiram essas formações, localizadas entre uma geleira e uma cordilheira Foto: NASA

Plutão está coberto por dunas surpreendentes de grãos gelados de metano, que se formaram numa época relativamente recente, apesar da atmosfera rarefeita do planeta-anão gelado, anunciou um grupo internacional de pesquisadores.

A atmosfera de Plutão é 100 mil vezes menos densa do que a da Terra, e os pesquisadores acreditavam que ela poderia ser muito baixa para permitir que os pequenos grãos de metano sólido fossem transportados pelo ar. Mas os ventos suaves que sopram na superfície de Plutão a uma velocidade de entre 30 e 40km/h formaram estas dunas, localizadas entre uma geleira e uma cordilheira, explicam os pesquisadores em um relatório publicado pela revista “Science”.

“Parece que a procedência dos grãos das dunas é o gelo de metano que sai das montanhas próximas”, assinalaram. “Embora não se possa descartar o gelo de nitrogênio”. As dunas estão espalhadas ao longo de uma espécie de cinturão de cerca de 75km da largura, e foram registradas pela nave New Horizons, da Nasa, em 2015. “Quando vimos pela primeira vez as imagens da New Horizons, achamos na hora que se tratassem de dunas, mas foi realmente surpreendente, porque sabemos que ali não há muita atmosfera”, comentou uma das autoras, Jani Radebaugh, professora associada do departamento de ciências geológicas da Universidade Brigham Young, em Utah, Estados Unidos.

“Apesar de estar 30 vezes mais afastado do Sol do que a Terra, resulta que Plutão ainda tem características parecidas com as da Terra”, assinalou.

Surpresa

Outros corpos celestes que apresentam dunas, além da Terra, incluem Marte e Vênus, bem como a Lua de Saturno Titã e o cometa 67P.

“Sabíamos que cada corpo do sistema solar com uma atmosfera e superfície rochosa sólida apresenta dunas, mas não sabíamos que iríamos encontrá-las em Plutão”, comentou Matt Telfer, autor principal e professor de geografia física na Universidade de Plymouth, Inglaterra. “Resulta que, apesar de haver muito pouca atmosfera e a temperatura da superfície ser de cerca de -230°C, ainda assim dunas são formadas”, disse.

Os cientistas também acreditam que as dunas, que parecem inalteradas, podem ter se formado nos últimos 500 mil anos, ou muito mais recentemente. Na Terra, para se formarem com areia dunas como estas, são necessários ventos mais fortes, assinalou o coautor Eric Parteli, professor de geociências computacionais na Universidade de Colônia, Alemanha. “A gravidade consideravelmente mais baixa de Plutão e a pressão atmosférica extremamente baixa significa que os ventos necessários para manter o transporte de sedimentos podem ser 100 vezes mais fracos”, explicou.

Em Plutão, a radiação solar também causa gradientes de temperatura – variação de temperatura por unidade de distância – na camada de gelo granular, o que contribui para a formação das dunas.

“Juntos, descobrimos que estes processos combinados podem formar dunas em condições de vento normais e cotidianas em Plutão”, assinalou Parteli.

Com informações: AFP

11:24 · 07.04.2018 / atualizado às 11:24 · 07.04.2018 por
Atualmente, cerca de 34 mil brasileiros fazem uso do medicamento, que é um imunossupressor, ou seja, reduz a atividade do sistema imunológico para que não haja rejeição dos órgãos após o transplante Foto: Farmanguinhos/Fiocruz

O Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos) finalizou, nesta semana, a produção dos primeiros lotes do medicamento tacrolimo, utilizado continuamente por pacientes transplantados de rim e fígado.

A medicação era produzida pela indústria privada nacional Libbs Farmacêutica, mas por meio de um acordo de transferência de tecnologia passou a ser produzida por Farmanguinhos, que é vinculada à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Mesmo antes de iniciar a produção em Farmanguinhos, a Fiocruz e a Libbs já tinham desenvolvido uma parceria de desenvolvimento produtivo do medicamento que gerou, em cinco anos, uma economia de R$ 980 milhões para os cofres públicos, por tornar a medicação mais acessível aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).

A expectativa é de que a economia possa ser ainda maior com a continuidade da produção, após o credenciamento de Farmanguinhos na Anvisa como local de fabricação do remédio.

Beneficiados

Segundo a Fiocruz, atualmente cerca de 34 mil brasileiros fazem uso do medicamento, que é um imunossupressor, ou seja, reduz a atividade do sistema imunológico para que não haja rejeição dos órgãos após o transplante.

São realizados mais de 6 mil novos transplantes de rins e mais de mil de fígado anualmente no Brasil. O tacrolimo é usado por toda a vida de uma pessoa transplantada.

Outros medicamentos

Ainda de acordo com a Fiocruz, espera-se que outros medicamentos da mesma categoria terapêutica passem também a ser produzidos por Farmanguinhos.

Um deles é o everolimo, utilizado em pacientes com câncer renal e que, assim como o tracolimo, consta na lista de medicamentos estratégicos do SUS.

Com informações: Agência Brasil

13:34 · 20.02.2018 / atualizado às 16:20 · 20.02.2018 por
Pesquisadores têm estudado os sistemas de manutenção e reparo do material genético de humanos e outros animais e algumas moléculas têm se mostrado promissoras para conseguir melhorias na redução de danos causados pelo processo de divisão celular Foto: FaderMex

Por Reinaldo José Lopes

Dá para levar a sério a ideia de estender a longevidade humana e, quem sabe, produzir pessoas potencialmente imortais? São raríssimos os cientistas dispostos a responder que sim na lata, mas um progresso (muito) modesto já tem acontecido.

Por enquanto, apareceram alguns candidatos interessantes a “alvo molecular” da longevidade. Ou seja, moléculas, ou conjuntos de moléculas, que poderiam ser manipuladas para alterar os sistemas celulares que acabam levando ao envelhecimento. Várias delas tem alguns pontos em comum: estão associadas à maneira como o organismo lida com o excesso de recursos e com o crescimento.

Outra via que está sendo explorada tem a ver com os sistemas de manutenção e reparo do material genético. Problemas no DNA frequentemente desencadeiam câncer, e também há uma importante relação entre a diminuição das estruturas chamadas telômeros (as “pontas de segurança” dos cromossomos, onde o DNA está armazenado) e o envelhecimento celular. Boa parte dos dados que apoiam esses dois ramos da pesquisa vem do estudo de animais de laboratório. Intervenções em espécies de vida relativamente curta, como vermes nematoides, camundongos e ratos, já obtiveram aumentos substanciais da expectativa de vida e da saúde mesmo em idade avançada.

E também há pistas intrigantes vindas do organismo de animais que vivem muito mais do que o esperado considerando seu tamanho e seus parentes -em geral, criaturas pequenas vivem pouco, são muito predadas e se reproduzem velozmente (caso dos roedores), enquanto animais de grande porte e relativamente livres de inimigos naturais (caso dos seres humanos) tendem a ser longevos.

Segredo do morcego

Considere, porém, o caso dos morcegos, e em especial o dos morceguinhos do gênero Myotis, que pesam apenas algumas dezenas de gramas. Eles “deveriam” viver apenas alguns anos, como os roedores, mas a capacidade de voar diminuiu muito a pressão que eles sofreriam por partes dos predadores e permitiu que eles tivessem um ciclo de vida bem mais relaxado, morrendo por volta dos 40 anos (outros morcegos morrem na casa dos 20 anos ou 30 anos).

Um estudo que acaba de ser publicado na revista científica “Science Advances” por Emma Teeling e seus colegas do University College de Dublin (Irlanda) investigou justamente os telômeros do Myotis e de outros morcegos. Teeling explicou à reportagem o resultado: “Não é exatamente que o Myotis tenha telômeros mais compridos, mas o de que eles não encurtam com o passar da idade, conforme o esperado. Seres humanos com mais de 60 anos e telômeros mais curtos têm probabilidade três vezes maior de morrer de alguma doença ligada ao envelhecimento”.

Essa estrutura dos cromossomos diminui com as sucessivas divisões das células. Quando esse encurtamento alcança um nível crítico, chega-se ao estado chamado de senescência celular. A célula não se divide mais, mas pode produzir uma série de substâncias (com capacidade inflamatória, por exemplo) que parecem contribuir para os efeitos negativos do envelhecimento. “Eles também reparam melhor o seu DNA, têm níveis mais altos de controle de tumores e mecanismos anti-inflamatórios rápidos e eficientes”, diz Teeling. A julgar pelos estudos com animais, porém, alguém poderia achar que a intervenção definitiva não poderia ser mais simples: fechar a boca. Os estudos com restrição calórica -às vezes cortando 40% das calorias consumidos pelos bichos- foram os mais bem-sucedidos com espécies pequenas. Resultados preliminares com macacos e humanos, porém, nem chegaram perto desse êxito.

O jeito, porém, talvez seja contornar isso com medicamentos que reproduzem parte dos efeitos moleculares da boca fechada sem fazer as pessoas passarem fome de verdade. Uma delas é a rapamicina, droga originalmente usada para controlar a rejeição de transplantes (veja infográfico). Ela afeta um circuito molecular da célula chamado mTOR que, quando ativado, leva ao crescimento e à divisão celular. Desligá-lo parece colocar a célula em “modo de segurança”, estendendo a longevidade.

Outra possibilidade é a metformina, droga muito usada para controlar o diabetes. Ainda falta muito antes que haja evidências claras de que essas e outras abordagens similares funcionem, porém.

Com informações: Folhapress

17:33 · 22.01.2018 / atualizado às 17:33 · 22.01.2018 por
O incêndio na embarcação decorreu da colisão com um cargueiro chinês a 300 km ao leste de Xangai Foto: The Guardian

A maré negra provocada pelo naufrágio de um petroleiro no mar da China oriental triplicou seu tamanho em apenas quatro dias e cobre agora mais de 300 km² – informa Pequim.

Imagens feitas por satélite permitiram detectar três camadas de hidrocarbonetos que medem 332 km² no total, indicou no domingo (21) à noite a agência chinesa responsável pelos oceanos, em um comunicado. Na quarta-feira passada (17), essa agência havia informado que a maré negra se espalhava por 101 km².

O “Sanchi”, que transportava 136 mil toneladas de condensado – hidrocarbonetos leves -, afundou em 14 de janeiro após arder por uma semana. O incêndio na embarcação decorreu da colisão com um cargueiro chinês a 300 km ao leste da cidade de Xangai.

Perdas humanas e risco ambiental

No acidente, 32 marinheiros – 30 iranianos e dois bengalis – morreram na catástrofe. O barco está agora a 115 metros de profundidade no mar.

Ainda não se sabe a quantidade de agentes poluentes em seu interior. Além de sua carga, o “Sanchi”, de bandeira panamenha, pode levar a bordo até mil toneladas de diesel pesado para o funcionamento de suas máquinas.

A maré negra se desloca para o norte, devido aos ventos e às correntes marinhas e pode ameaçar o litoral de Coreia do Sul e Japão, anunciou a Administração de Oceanos na semana passada.

Com informações: AFP

19:05 · 09.10.2017 / atualizado às 19:05 · 09.10.2017 por
Os cientistas utilizaram o 5-MeO-DMT, que está presente em drogas psicodélicas como o chá de ayahuasca – uma planta da Amazônia utilizada ritualmente por indígenas para produzir estados alterados de consciência Foto: Aya Healing Retreats

Com estudos feitos em organoides celulares conhecidos como “minicérebros”, um grupo de cientistas brasileiros mostrou como uma substância psicodélica produz alterações benéficas em circuitos cerebrais associados à neuroplasticidade, à inflamação e à neurodegeneração.

A pesquisa, publicada nesta segunda-feira (9), na revista científica Scientific Reports, é a primeira a revelar as alterações que drogas psicodélicas causam no funcionamento molecular do tecido neural humano. De acordo com os autores, os resultados ajudam a explicar os efeitos antidepressivos e anti-inflamatórios que as substâncias psicodélicas vêm mostrando em diversos outros estudos.

No experimento, os cientistas utilizaram o 5-MeO-DMT, um composto da família da dimetiltriptamina, que está presente em drogas psicodélicas como o MDMA, o LSD e o chá de ayahuasca – uma planta da Amazônia utilizada ritualmente por indígenas para produzir estados alterados de consciência.

“Pela primeira vez pudemos descrever mudanças relacionadas a psicodélicos no funcionamento do tecido neural humano”, disse o autor principal do estudo, Stevens Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino.

Ganho de espaço

As drogas psicodélicas estão cada vez mais ganhando espaço nos laboratórios de pesquisas. Diversos grupos internacionais têm feito estudos e experimentos com essas substâncias a fim de desenvolver terapias para problemas psiquiátricos como ansiedade, depressão, estresse pós-traumático e para a dependência de drogas como álcool, cocaína, heroína e crack.

Apesar dos resultados promissores em um número cada vez maior de pesquisas, a identificação dos circuitos moleculares envolvidos com a ação dos psicodélicos no cérebro era limitada pelas restrições para estudos com essas substâncias e pela falta de ferramentas biológicas apropriadas. Para estudar os efeitos do DMT, Vania Dakic, do Idor e Juliana Minardi Nascimento, do Idor e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) expuseram os organoides cerebrais – que são culturas de células neurais tridimensionais que imitam um cérebro em desenvolvimento – a uma única dose do psicodélico.

Depois de receber o psicodélico, os “minicérebros” foram submetidos a uma análise proteômica – isto é, um mapeamento do conjunto de proteínas neles presentes – com uma técnica espectrometria de massas. Eles conseguiram assim observar alterações na expressão de cerca de mil proteínas – e conseguiram identificar qual o papel dessas proteínas no cérebro humano.

Proteínas

Os cientistas descobriram que proteínas importantes para a formação das sinapses tiveram uma regulação positiva – entre elas, proteínas relacionadas aos mecanismos celulares de aprendizado e memória, que são componentes centrais do funcionamento do cérebro. Por outro lado, proteínas envolvidas em inflamação, degeneração e lesão cerebral tiveram uma regulação negativa, sugerindo que a substância psicodélica tem um potencial papel de proteção neural. “Os resultados sugerem que os psicodélicos clássicos são poderosos indutores da neuroplasticidade – uma ferramenta de transformação psicobiológica sobre a qual sabemos muito pouco”, disse outro dos autores do novo estudo Sidarta Ribeiro, diretor do Instituto do Cérebro, ligado à UFRN.

“”O estudo sugere possíveis mecanismos pelos quais essas substâncias exercem seus efeitos antidepressivos, que temos observado em nossas pesquisas. Nosso estudo reforça o potencial clínico escondido dessas substâncias que estão hoje sob restrições legais, mas que merecem total atenção das comunidades médica e científica”, afirmou outro dos autores, Draulio Araújo, professor da UFRN.

Com informações: Estadão Conteúdo

19:58 · 04.10.2017 / atualizado às 19:58 · 04.10.2017 por
Após administração de três anticorpos, pesquisadores não encontraram um nível quantificável do vírus no sangue dos animais tratados Foto: New Scientist

Um coquetel de três anticorpos mostrou que é capaz de prevenir em primatas a infecção causada pelo zika vírus, e essa pesquisa pode passar a uma etapa seguinte de ensaios com humanos, anunciaram cientistas nesta quarta-feira (4).

“É uma intervenção promissora para prevenir e tratar uma infecção pelo zika vírus durante a gravidez”, comentou David Watkins, professor da faculdade de medicina Miller da Universidade de Miami. “Gostaríamos de desenvolver esta associação de anticorpos e submetê-los a ensaios clínicos o quanto antes”, acrescentou.

O zika vírus, transmitido principalmente por mosquitos, se propagou pela América Latina, o Caribe e o sul dos Estados Unidos em 2015 e 2016, provocando uma emergência mundial devido a sua associação com malformações em fetos, particularmente a microcefalia.

A ameaça acabou, sobretudo porque as pessoas não podem ser infectadas mais de uma vez, mas os pesquisadores continuaram realizando estudos para encontrar a primeira vacina contra o zika.

Experimento

Os cientistas identificaram três poderosos anticorpos – SMZAb1, SMZAb2 e SMZAb5 – no organismo de um paciente sul-americano.

“Administramos um coquetel desses três anticorpos aos primatas não humanos um dia antes do seu contato com o zika vírus que tinha sido recuperado de uma mulher grávida durante a epidemia de 2016 no Rio de Janeiro”, disse Watkins.

Os pesquisadores não encontraram um nível quantificável do vírus no sangue dos quatro animais tratados e não detectaram reação no sistema imunológico, o que indica que o vírus tinha sido completamente bloqueado, segundo o estudo, publicado na revista Science Translational Medicine.

Quatro macacos que não receberam esses anticorpos antes de ser expostos ao zika ficaram doentes durante uma semana. “Dado que esses anticorpos têm perfis excepcionais na segurança dos humanos e na placenta, esta combinação poderia ser desenvolvida rapidamente para proteger as mulheres grávidas não infectadas e seus fetos”, indicou Watkins.

Com informações: AFP