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21:06 · 02.03.2018 / atualizado às 21:06 · 02.03.2018 por
Foto: Argyll Freepress

A cobertura do gelo marinho na Antártica caiu para o seu segundo nível mais baixo já registrado, anunciaram autoridades australianas nesta sexta-feira (2), acrescentando que ainda não estava claro o que estava impulsionando a redução após vários anos de níveis máximos recorde.

O relatório chega após cientistas dizerem, no início desta semana, que a região do Ártico estava registrando recordes de temperaturas altas, e que o gelo do mar estava cobrindo a menor área no inverno desde que os registros começaram, há mais de meio século. A Divisão Antártica Australiana (AAD) disse que os últimos dados de satélite mostraram um total de 2,15 milhões de quilômetros quadrados em torno do continente gelado durante o ponto mais baixo em fevereiro, durante a temporada de verão. O recorde mínimo foi registrado em março do ano passado, quando uma leitura de verão de 2,07 milhões de quilômetros quadrados foi registrada, disse o AAD, que administra o programa da Antártida da Austrália. “Desde agosto de 2016, a cobertura do gelo do mar vem seguindo bem abaixo da média de longo prazo”, disse o cientista Phil Reid, do Instituto de Meteorologia do Antártico, em um comunicado.

“Em 2017, a extensão máxima de gelo do mar no inverno foi a segunda menor já registrada, em 18,05 milhões de quilômetros quadrados, vindo após níveis recordes sucessivos em 2012, 2013 e 2014.”

Reid disse que as variações foram uma “mudança significativa” da tendência crescente global no gelo marinho da Antártida, de cerca de 1,7% a cada década desde 1979.

Recomposição de outono

Depois de chegar ao seu ponto mais baixo no verão, o gelo marinho – que é criado quando o oceano ao redor do continente se congela – se recompõe no outono e se expande pela Antártica.

O cientista da AAD Rob Massom disse que os pesquisadores ainda estavam tentando determinar o que estava impulsando as mudanças e a variabilidade na cobertura do gelo marinho, e disse que entender esses processos era uma “alta prioridade”.

“A cobertura de gelo desempenha um papel crucialmente importante tanto no sistema climático global quanto como um habitat-chave para uma ampla gama de biota, de micro-organismos até grandes baleias”, acrescentou em um comunicado.

“As condições do gelo do mar também têm um grande impacto nas operações de navegação e logística no Oceano Antártico”.

Com informações: AFP

16:33 · 27.02.2018 / atualizado às 16:33 · 27.02.2018 por
Foto: Sciences et Avenir

Por Reinaldo José Lopes

Os maiores vírus descobertos até hoje no mundo vêm de dois ambientes extremos do Brasil: lagos de água muito salgada e alcalina do Pantanal e as profundezas do litoral do Rio de Janeiro, cerca de 3 km abaixo da superfície do mar.

Para os padrões do mundo microscópico, os dois Tupanvírus, como foram apelidados, são imensos, chegando a superar diversos tipos de bactérias. O nível de sofisticação de seu DNA também está muito além do que os cientistas esperavam encontrar no universo viral até agora, o que pode ajudar a transformá-los em fábricas biotecnológicas no futuro.

Ainda não se sabe exatamente que tipo de hospedeiro os supervírus brasileiros costumam invadir na natureza, mas os estudos em laboratório mostram que eles conseguem se multiplicar dentro de amebas, a exemplo do que acontece com outros vírus gigantes que têm sido identificados nas últimas décadas. “A diferença é que os Tupanvírus infectam várias espécies diferentes de amebas, são generalistas se comparados aos seus parentes”, conta o biólogo virologista Jônatas Abrahão, do Laboratório de Vírus da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Seja como for, essa predileção por amebas indica que não há motivos para se preocupar com possíveis doenças causadas por eles em humanos. Abrahão é o primeiro autor da pesquisa que descreveu as características dos parasitas, publicada na revista científica de acesso livre “Nature Communications”.

Aspectos virais

Vistas pelo microscópio, as partículas virais parecem pequenos microfones peludos.

As maiores medem 2,3 micrômetros ou mícrons (cada mícron tem um milésimo de milímetro), e grande parte desse comprimento corresponde à cauda cilíndrica do vírus -algo que, por si só, já é inusitado, já que a grande maioria das partículas virais é formada apenas por uma espécie de carapaça, dentro da qual fica armazenado o material genético.

“Tentamos de todos os jeitos separar a cauda do resto do vírus, inclusive com ultrassom, mas não conseguimos”, conta o pesquisador da UFMG. De qualquer modo, faz sentido imaginar que os genes dos Tupanvírus também estejam armazenados apenas na tal carapaça, o chamado capsídeo.

Elo perdido

As lagoas alcalinas da região de Nhecolândia, estudadas por outro coautor do estudo, Ivan Bergier, da Embrapa Pantanal, lembram em parte as condições extremas onde as primeiras formas de vida da Terra teriam surgido.

E, de fato, os vírus recém-descobertos e seus parentes têm algumas características de “elo perdido” entre os organismos formados por células (basicamente todas as formas de vida) e os demais vírus, que não são considerados propriamente vivos pela maioria dos cientistas. Essa aparente confusão vem do fato de que as partículas virais dependem das células que invadem para todos os aspectos de seu ciclo de vida, do uso de energia à reprodução. Para isso, elas contrabandeiam seu material genético para dentro da célula hospedeira e deixam que as máquinas moleculares da vítima façam todo o serviço sujo com base no “manual de instruções” dos genes. Vírus não possuem metabolismo, ou seja, não comem nem digerem nada, nem realizam fotossíntese como a das plantas.

Os Tupanvírus se destacam, em primeiro lugar, porque seu manual de instruções é enorme. O genoma deles tem cerca de 1,5 milhão de pares de “letras” químicas de DNA -mais uma vez, acima do que têm algumas bactérias, e em quarto lugar entre os vírus gigantes. Além disso, tal manual contém instruções completíssimas para o processo de produção de proteínas a partir de suas unidades básicas, os aminoácidos, algo que ainda não havia sido visto em nenhum outro vírus.

Ao invadir as amebas, as partículas montam uma espécie de fábrica viral, cooptando mecanismos do hospedeiro para produzir mais cópias de si mesmo, as quais arrebentam as células e partem para invadir mais amebas.

“É um processo ativo, o vírus orquestra tudo isso”, diz Abrahão.

Utilidade futura

Tamanha versatilidade nas instruções para produção de proteínas pode acabar sendo muito útil para aplicações biotecnológicas. Em projeto financiado pela Fapemig, fundação mineira de fomento à pesquisa, os pesquisadores da UFMG vão tentar usar Tupanvírus modificados para produzir substâncias de interesse humano.

É comum que isso seja feito com a ajuda de bactérias, mas a bioquímica viral consegue fazer pequenos ajustes na molécula “finalizada” que as bactérias não são capazes de realizar, o que levaria a produtos com propriedades mais adequadas.

Com informações: Folhapress

18:18 · 26.02.2018 / atualizado às 18:18 · 26.02.2018 por
Risco é devido aos efeitos do aquecimento global sobre os ecossistemas habitados pela ave. Mesmo na hipótese climática mais otimista, 45% da população de pinguins-reis estaria ameaçada, segundo os pesquisadores Foto: Wiktionary

Diante das mudanças climáticas que os afastam de seu alimento, até 70% dos pinguins-reis poderiam desaparecer até o final do século, adverte um estudo publicado nesta segunda-feira (26). Atualmente, existem 1,6 milhão de casais de pinguim-rei (Aptenodytes patagonicus), que são um pouco menores que os pinguins-imperadores, medindo menos de um metro. Vivem sobretudo nas ilhas subantárticas de Crozet, Kerguelen e Príncipe Eduardo, na Terra do Fogo, assim como nas Malvinas.

Para pôr o ovo que a fêmea e o macho incubam de forma alternada durante mais de 50 dias, esta ave sem asas necessita de uma praia, um mar sem gelo e uma fonte de alimentos abundante e próxima para levar comida a seu bebê durante mais de um ano. Mas as mudanças climáticas está empurrando as reservas de peixes e polvos de que se alimentam para o sul, longe das colônias, segundo o estudo publicado pela revista científica Nature Climate Change. Dessa forma, suas viagens em busca de comida serão cada vez mais longas, ameaçando a sobrevivência dos pequenos e dos adultos que ficam com eles, a não ser que a espécie se instale em outras ilhas.

“Se não se tomar nenhuma medida para parar ou limitar o aquecimento (…), a espécie poderia desaparecer em um futuro próximo”, resumem à AFP os três principais autores do estudo, Robin Cristofari, Céline Le Bohec e Emiliano Trucchi.

Capacidade de explorar o oceano

E se acontecer o pior dos cenários previstos pelo grupo de especialistas da ONU sobre o clima (IPCC), “70% dos 1,6 milhão de casais reprodutores provavelmente se exilarão de forma brusca ou desaparecerão antes do final do século”, segundo o estudo.

Na hipótese climática mais otimista do IPCC, 45% da população de pinguins-reis estaria ameaçada, segundo os pesquisadores.

A espécie conseguiu, contudo, sobreviver a outras grandes mudanças ambientais, a última há 20.000 anos. Por isso, “parecem capazes de explorar de modo eficaz o oceano Antártico para localizar os melhores abrigos”, segundo Trucchi, da universidade italiana de Ferrara. Os especialistas citam a possibilidade de que se exilem mais ao sul, por exemplo, na ilha Bouvet.

Mas nas ocasiões anteriores, os pinguins dispuseram de mais tempo para efetuar este exílio forçado, em comparação com o ritmo atual das mudanças climáticas. “A concorrência pelos lugares para fazer ninho e se alimentar será árdua, sobretudo com outras espécies como o pinguim-de-barbicha, o gentoo ou o de adélia, sem contar a atividade pesqueira” na zona, comentou Le Bohec.

Além disso, o pinguim-rei não será provavelmente o único a enfrentar o dilema de permanecer em sua colônia para se reproduzir com o risco de morrer de fome ou partir sem garantias.

“No oceano Antártico, as aves marinhas, entre elas muitas espécies de pinguins – até mesmo todas – assim como alguns mamíferos marinhos (como o leão-marinho subantártico) poderiam enfrentar o mesmo dilema”, ressaltaram os autores do estudo.

Com informações: AFP

12:30 · 23.02.2018 / atualizado às 12:32 · 23.02.2018 por
O mais próximo parente extinto do Homo sapiens, foi também a primeira espécie a escolher cavernas para fazer pinturas, superando a nossa nesse quesito Foto: Haaretz

Os Neandertais – e não os humanos pré-históricos – foram os primeiros artistas da Europa, de acordo com uma nova pesquisa liderada por cientistas da Universidade de Southampton (Reino Unido) e do Instituto Max Planck (Alemanha).

Os pesquisadores estudaram pinturas em três cavernas da Espanha e, com um método especial de datação, descobriram que elas foram criadas há mais de 64 mil anos, quando os únicos hominídeos na Europa eram os Neandertais (Homo neanderthalensis). O Homo sapiens só chegou ao continente cerca de 20 mil anos mais tarde.

Os resultados da pesquisa foram publicados na revista Science. De acordo com os cientistas, a descoberta é importante por demonstrar que os Neandertais eram capazes de pensar simbolicamente, assim como os humanos modernos. Os desenhos, que foram feitos durante a Era do Gelo, incluem representações de animais, sinais geométricos e pontos.

Segundo os autores, os resultados do novo estudo reforçam uma série de descobertas que têm ajudado a “desconstruir” a tradicional imagem dos Neandertais como um brutal homem das cavernas com inteligência extremamente limitada. Dois estudos publicados em 2017, por exemplo, mostravam que os Neandertais eram capazes de lidar com problemas odontológicos e de utilizar plantas medicinais como antibióticos e analgésicos.

“Essa é uma descoberta incrivelmente emocionante e ela sugere que os Neandertais eram muito mais sofisticados do que se acredita popularmente”, disse o autor principal do estudo, o arqueólogo Chris Standish, da Universidade de Southampton.

“Nossos resultados mostram que essas pinturas são, de longe, o mais antigo registro de arte nas cavernas do mundo. E elas foram criadas pelo menos 20 mil anos antes da passagem dos humanos modernos da África para a Europa – e por isso só podem ter sido pintadas por Neandertais”, disse Standish.

Segundo Standish, até agora a arte das cavernas havia sido atribuída integralmente a humanos modernos e a imprecisão das técnicas de datação haviam impedido que se explorasse a hipótese de uma autoria Neandertal. Para realizar o novo estudo, os cientistas utilizaram uma técnica de datação de urânio-tório, que fornece resultados muito mais confiáveis que os métodos de datação por radiocarbono, com margem de erro muito menor.

O método de urânio-tório envolve a datação de minúsculos depósitos de carbonato que se acumulam na superfície as pinturas nas cavernas. Esses depósitos contêm traços dos elementos radioativos urânio e tório, que indicam quando os depósitos se formaram – e fornecendo assim uma idade mínima para qualquer coisa que esteja abaixo da superfície onde estavam as amostras.

Uma equipe de cientistas do Reino Unido, da Alemanha, da Espanha e da França analisou mais de 60 amostras de carbonato de três cavernas da Espanha: La Pasiega, no nordeste do país, Maltravieso, no oeste e Ardales, no sudoeste espanhol.

As três cavernas contêm pinturas feitas com traços vermelhos ou pretos e representando grupos de animais, pontos e sinais geométricos, assim como desenhos de contornos de mãos, marcas de mãos “carimbadas” e gravações feitas na rocha.

Comportamento sofisticado

Segundo os cientistas, a criação de arte – por mais simples que ela seja – envolve comportamentos sofisticados como a própria escolha do local, o planejamento relacionado à fonte de luz e a mistura de pigmentos.

“Logo depois da descoberta do primeiro fóssil de Neanderthal no século 19, eles foram retratados como abrutalhados e desprovidos de cultura, incapazes de comportamentos artísticos e simbólicos. E algumas dessas visões ainda persistem até hoje”, disse outro dos coordenadores do estudo, Alistair Pike, arqueólogo da Universidade de Southampton. “A questão sobre até que ponto os Neandertais se comportavam como humanos é objeto de um debate acalorado. Nossas descobertas darão uma considerável contribuição a esse debate”, disse Pike.

De acordo com outro dos autores do artigo, Dirk Hoffmann, do Instituto Max Planck a cultura simbólica e material – uma coleção de feitos culturais e intelectuais passada de geração para geração – só havia sido atribuída até hoje à espécie humana. “A emergência da cultura simbólica e material representa um limiar fundamental na evolução da humanidade. Ela é um dos principais pilares daquilo que nos torna humanos. Artefatos cujo valor funcional não está em seu uso prático, mas em seu uso simbólico, remetem a aspectos fundamentais da cognição humana”, afirmou Hoffmann.

Artefatos simbólicos ainda mais antigos, com cerca de 70 mil anos, já haviam sido encontrados na África, mas acredita-se que eles foram produzidos por humanos, segundo os cientistas. Os desenhos Neandertais da Espanha, porém, podem ser considerados as mais antigas representações simbólicas em cavernas. Outros artefatos de cerca de 40 mil anos, incluindo arte em cavernas, figuras esculpidas, ferramentas de ossos decoradas e joias também já foram encontradas antes na Europa. Mas os cientistas concluíram que todos esses artefatos foram feitos por humanos modernos que nessa época já estavam se espalhando pela Europa, após a saída da África.

Também há evidências de que Neandertais da Europa utilizaram ornamentos corporais entre 40 mil e 45 mil anos atrás, mas vários pesquisadores sugeriam que eles teriam sido inspirados por humanos modernos que haviam acabado de chegar ao continente e conviveram com os Neandertais. “Os Neandertais criaram símbolos cheios de significados em locais igualmente cheios de significados. Não foi uma arte acidental”, disse outro dos autores do estudo, Paul Pettitt, da Universidade Durham (Reino Unido).

“Temos agora exemplos de três cavernas que ficam separadas por mais de 700 quilômetros e evidências de que essa arte era uma tradição que perdurou longamente. É bem possível que outras manifestações artísticas em cavernas semelhantes na Europa também tenham origem Neanderthal”, declarou Pettit.

Com informações: Estadão Conteúdo

15:02 · 22.02.2018 / atualizado às 15:05 · 22.02.2018 por
Exame, baseado em algoritmos, pode ser realizado em poucos minutos e permite observar as diversas camadas da retina, identificar alterações causadas por doenças que podem causar perda de visão Foto: Healing The Eye

Por Gabriel Alves

É possível que, em breve, o leitor possa ser atendido por um androide médico, tal qual no filme “Star Wars”, ou ter seu tratamento decidido por um poderoso algoritmo na nuvem.

A “consulta” seria barata e rápida e estaria baseada em uma tecnologia que já deixou de ser embrionária -a inteligência artificial baseada em deep learning, uma espécie de aprendizado de programa de computador por conta própria.

Equipamentos médicos com finalidade diagnóstica já são vendidos com programas baseados em algoritmos que podem ajudar, por exemplo, um ortopedista a detectar alguma anormalidade em um raio-X ou e em outros exames de imagem, como aqueles que mapeiam a retina em busca de degenerações.

Foi justamente com exames como esses que cientistas dos EUA, China e Alemanha mostraram que a máquina -na verdade um programa de computador- pode se igualar e até superar o homem quando o assunto é saber quem é doente e quem não é. Um algoritmo desenvolvido pelos pesquisadores foi treinado com um gigantesco banco de imagens de exames -mais especificamente, tomografias de coerência óptica.

Esse exame, que é realizado em poucos minutos, permite observar as diversas camadas da retina e identificar alterações causadas por doenças que podem causar perda de visão, como a degeneração macular relacionada à idade (DMRI), e outras provocadas pelo diabetes, como a retinopatia diabética ou o edema macular diabético. De modo simplificado, o programa aprendeu, por conta própria, a “ler” alguns aspectos das imagens que julgou importantes para a definição do diagnóstico. Foi fundamental nesse processo a não interferência de um “raciocínio humano”, o que permitiu que o algoritmo encontrasse os melhores caminhos para chegar a um veredito sobre cada paciente.

O resultado do treinamento com mais de 200 mil imagens foi surpreendente: o programa chegou a superar experts em retina na taxa de diagnósticos corretos, errando apenas 6,6% dos casos em um dos testes.

Redução de custo de tratamento

Segundo estimativas, ao menos 1 milhão de pessoas no Brasil, entre diabéticos e idosos, têm risco elevado de apresentar doenças degenerativas da retina.

Em muitos casos, porém, por causa da distância dos centros de diagnóstico e pela desinformação, essas pessoas podem perder a visão. Hoje em dia, muitas desses casos seriam tratáveis com injeções intraoculares mensais, por exemplo, explica o professor titular de oftalmologia da UFG Marcos Ávila, que já foi presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO).

Talvez a principal vantagem de ter uma inteligência artificial assinalando os diagnósticos é o custo do exame, que tende a cair. Provavelmente o paciente não precisaria mais passar por dois ou três especialistas até ter o diagnóstico final, argumentam os autores do estudo. Na opinião de Rubens Belfort Jr., professor titular de oftalmologia da Unifesp, é notório também o de qualidade.

“Mesmo em países ricos a qualidade da análise nem sempre é boa, seja por despreparo, falta de tempo ou até mesmo por desleixo. Assim, com um processo mais inteligente, não só haveria redução de custos do exame e da interpretação mas também de tratamentos ineficazes ou desnecessários dessas doenças de retina ou de qualquer outra que possa ser diagnosticadas via exame de imagem, como tomografia, ressonância magnética e raio-X.”

Máquina X Homem

Paulo Schor, que também é professor de oftalmologia da Unifesp, lembra que já houve outros avanços importantes na área.

Com uma simples imagem do fundo de olho, um outro programa consegue identificar inúmeros fatores de risco cardiovascular, como idade, se a pessoa fuma, se tem pressão arterial elevada e se a pessoa já sofreu algum evento cardiovascular grave. Tudo isso com razoável acurácia.

O professor afirma que é muito provável que cada vez mais as máquinas se encarreguem de selecionar aqueles que têm alguma chance de estarem doentes, deixando para os médicos a filtragem final, que descartariam os casos que não são graves e tratando os demais. Já Kang Zhang, autor do estudo e pesquisador na Universidade Médica de Guangzhou (China) e da Universidade da Califórnia em San Diego, é mais otimista.

Para ele, no futuro espera-se que a inteligência artificial seja capaz de fazer um diagnóstico completo, encaminhar pacientes e até mesmo decidir qual tratamento é o mais adequado. Seria necessário, porém, uma espécie de “período de adaptação”, com inteligência artificial e médicos humanos trabalhando lado a lado, diz o pesquisador à reportagem.

Acompanhamento automatizado

Para Ávila, um outro possível ganho é automatizar o acompanhamento de pacientes de alto risco ou que estão em tratamento.

O único trabalho para o paciente seria ter de ir até uma clínica e realizar o exame periodicamente, desafogando, assim, os consultórios médicos. Belfort explica que o Brasil ainda engatinha na área. “Precisamos ainda de uma base de dados confiável, de um número enorme de exames”. E esses exames de imagem têm de estar bem rotulados, ou seja, tanto a quantidade quanto a precisão de informações associadas a eles são fundamentais para um bom desempenho da inteligência artificial.

“É possível que, no futuro, médicos briguem com a máquina. Ambos vão ter que aprender onde estão errando; vai ter que haver ‘diálogo'”, diz Belfort. “Não pode haver competição. Todos estão buscando a inteligência artificial, mas a inteligência natural não pode ficar de lado.” Para Zhang, que também é oftalmologista, não dá para fugir do futuro: “Penso que a chegada dos sistemas de diagnósticos baseados em inteligência artificial é inevitável. A nós, médicos, resta trabalhar e interagir com a IA para fazer o futuro da medicina mais custo-efetivo e, além disso, prover um melhor cuidado.”

Com informações: Folhapress

13:34 · 20.02.2018 / atualizado às 16:20 · 20.02.2018 por
Pesquisadores têm estudado os sistemas de manutenção e reparo do material genético de humanos e outros animais e algumas moléculas têm se mostrado promissoras para conseguir melhorias na redução de danos causados pelo processo de divisão celular Foto: FaderMex

Por Reinaldo José Lopes

Dá para levar a sério a ideia de estender a longevidade humana e, quem sabe, produzir pessoas potencialmente imortais? São raríssimos os cientistas dispostos a responder que sim na lata, mas um progresso (muito) modesto já tem acontecido.

Por enquanto, apareceram alguns candidatos interessantes a “alvo molecular” da longevidade. Ou seja, moléculas, ou conjuntos de moléculas, que poderiam ser manipuladas para alterar os sistemas celulares que acabam levando ao envelhecimento. Várias delas tem alguns pontos em comum: estão associadas à maneira como o organismo lida com o excesso de recursos e com o crescimento.

Outra via que está sendo explorada tem a ver com os sistemas de manutenção e reparo do material genético. Problemas no DNA frequentemente desencadeiam câncer, e também há uma importante relação entre a diminuição das estruturas chamadas telômeros (as “pontas de segurança” dos cromossomos, onde o DNA está armazenado) e o envelhecimento celular. Boa parte dos dados que apoiam esses dois ramos da pesquisa vem do estudo de animais de laboratório. Intervenções em espécies de vida relativamente curta, como vermes nematoides, camundongos e ratos, já obtiveram aumentos substanciais da expectativa de vida e da saúde mesmo em idade avançada.

E também há pistas intrigantes vindas do organismo de animais que vivem muito mais do que o esperado considerando seu tamanho e seus parentes -em geral, criaturas pequenas vivem pouco, são muito predadas e se reproduzem velozmente (caso dos roedores), enquanto animais de grande porte e relativamente livres de inimigos naturais (caso dos seres humanos) tendem a ser longevos.

Segredo do morcego

Considere, porém, o caso dos morcegos, e em especial o dos morceguinhos do gênero Myotis, que pesam apenas algumas dezenas de gramas. Eles “deveriam” viver apenas alguns anos, como os roedores, mas a capacidade de voar diminuiu muito a pressão que eles sofreriam por partes dos predadores e permitiu que eles tivessem um ciclo de vida bem mais relaxado, morrendo por volta dos 40 anos (outros morcegos morrem na casa dos 20 anos ou 30 anos).

Um estudo que acaba de ser publicado na revista científica “Science Advances” por Emma Teeling e seus colegas do University College de Dublin (Irlanda) investigou justamente os telômeros do Myotis e de outros morcegos. Teeling explicou à reportagem o resultado: “Não é exatamente que o Myotis tenha telômeros mais compridos, mas o de que eles não encurtam com o passar da idade, conforme o esperado. Seres humanos com mais de 60 anos e telômeros mais curtos têm probabilidade três vezes maior de morrer de alguma doença ligada ao envelhecimento”.

Essa estrutura dos cromossomos diminui com as sucessivas divisões das células. Quando esse encurtamento alcança um nível crítico, chega-se ao estado chamado de senescência celular. A célula não se divide mais, mas pode produzir uma série de substâncias (com capacidade inflamatória, por exemplo) que parecem contribuir para os efeitos negativos do envelhecimento. “Eles também reparam melhor o seu DNA, têm níveis mais altos de controle de tumores e mecanismos anti-inflamatórios rápidos e eficientes”, diz Teeling. A julgar pelos estudos com animais, porém, alguém poderia achar que a intervenção definitiva não poderia ser mais simples: fechar a boca. Os estudos com restrição calórica -às vezes cortando 40% das calorias consumidos pelos bichos- foram os mais bem-sucedidos com espécies pequenas. Resultados preliminares com macacos e humanos, porém, nem chegaram perto desse êxito.

O jeito, porém, talvez seja contornar isso com medicamentos que reproduzem parte dos efeitos moleculares da boca fechada sem fazer as pessoas passarem fome de verdade. Uma delas é a rapamicina, droga originalmente usada para controlar a rejeição de transplantes (veja infográfico). Ela afeta um circuito molecular da célula chamado mTOR que, quando ativado, leva ao crescimento e à divisão celular. Desligá-lo parece colocar a célula em “modo de segurança”, estendendo a longevidade.

Outra possibilidade é a metformina, droga muito usada para controlar o diabetes. Ainda falta muito antes que haja evidências claras de que essas e outras abordagens similares funcionem, porém.

Com informações: Folhapress

19:54 · 07.02.2018 / atualizado às 19:54 · 07.02.2018 por

Depois de lançar o Tesla Roadster vermelho de Elon Musk como carga de teste para o foguete Falcon Heavy na terça-feira (6), a SpaceX transmitiu as primeiras horas da viagem inédita.

No vídeo acima, é possível ver diversos ângulos do carro e do “motorista”, um boneco vestido de astronauta apelidado de Starman em homenagem à música de David Bowie, que estaria tocando no rádio se o som pudesse se propagar no espaço.

As imagens cobrem mais de quatro horas e foram transmitidas ao vivo. No lugar de uma tela multímidia há a frase: “Don’t panic” (não se desespere), citada no “Guia do mochileiro das galáxias”. Em uma das placas eletrônicas do carro, Musk mandou gravar “Feito na Terra por humanos”, caso algum alienígena trombe com o carro por aí.

Mais do que uma jogada do empresário Elon Musk, que criou a Tesla, colocar o esportivo elétrico dentro de um foguete serviu para mostrar a capacidade da sou outra empresa, a SpaceX, de fazer viagens espaciais. O teste real foi do foguete jumbo Falcon Heavy, que se tornou o veículo espacial mais poderoso a ser lançado dos Estados Unidos desde os foguetes Saturn 5, da Nasa, que transportaram astronautas para a lua 45 anos atrás.

No entanto, o mais impressionante é que dois dos três foguetes usados como propulsores voltaram ao solo e pousaram intactos, prontos para uma próxima. O terceiro deles errou o alvo e se desintegrou no mar.

O Tesla Roadster foi impulsionado uma última vez, para escapar da órbita de Marte e dar uma volta como previsto no esquema divulgado por Musk.

Trajetória

A SpaceX ainda não confirmou se a trajetória está correta e quais as chances de ele colidir com qualquer outro objeto no espaço no meio do caminho. A ideia inicial era deixar o carro na órbita de Marte por anos.

O Falcon Heavy é projetado para transportar cargas úteis de muito maior peso do que um carro esportivo, com a SpaceX vangloriando sua capacidade de colocar cerca de 70 toneladas em órbita terrestre por um custo de US$ 90 milhões por lançamento.

A expectativa é de que a SpaceX, com sede na Califórnia, vai ganhar vantagem em relação às companhias de foguetes comerciais rivais que buscam contratos importantes com a Nasa, as Forças Armadas dos EUA, empresas de satélites e até mesmo com turistas espaciais pagantes.

O esportivo foi o primeiro modelo da Tesla e ganhará um “upgrade” em 2020, que o colocará como o carro mais rápido do mundo em aceleração. De acordo com o anúncio feito em novembro passado, ele será capaz de ir de 0 a 96 km/h em 1,9 segundo.

Essa marca supera o próprio Tesla Model S P100D, o híbrido Porsche 918 Spyder e o Bugatti Chiron – todos com desempenho acima de 2 segundos.

O novo Tesla Roadster ainda é conversível e tem outra característica impressionante: uma carga de bateria dura cerca de 1.000 km.

Com informações: Auto Esporte/Globo.com

16:25 · 01.02.2018 / atualizado às 16:25 · 01.02.2018 por
Mudanças climáticas estão reduzindo o habitat desses animais, forçando-os a ir cada vez mais longe para buscar comida durante o degelo, gastando mais energia que conseguem repor Foto: National Geographic

Os ursos polares têm taxas metabólicas mais altas do que se pensava e isso explica por eles têm sido incapazes de conseguir alimentos em quantidade suficiente para suas necessidades, de acordo com um novo estudo.

De acordo com os autores, publicada nesta quinta-feira (1), na revista Science, a pesquisa mostra quais são os mecanismos fisiológicos por trás do declínio já observado nas populações e nas taxas de sobrevivência dos ursos polares.

“Temos documentado, ao longo da última década, o declínio nas taxas de sobrevivência, nas condições de saúde e nos números populacionais do urso polar. Ao calcular as necessidades energéticas reais dos ursos polares e observar com que frequência eles são capazes de caçar focas, esse estudo identificou os mecanismos que estão levando a esses declínios”, disse o autor principal da pesquisa, Anthony Pagano, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz.

Pagano explica que o declínio das populações de ursos já era associado às mudanças climáticas que estão reduzindo o habitat desses animais, forçando-os a ir cada vez mais longe para buscar comida durante o degelo. Mas a conta não fechava, porque não se sabia que os ursos precisavam de tanta energia – os estudos anteriores se baseavam em estimativas de uma taxa metabólica 50% mais baixa.

Monitoramento

Para realizar o novo estudo, os cientistas monitoraram o comportamento dos ursos, a frequência de sucesso na caça e as taxas metabólicas de fêmeas adultas sem filhotes quando elas buscavam presas no gelo do Mar de Beaufort durante a primavera.

O monitoramento foi feito com coleiras hi-tech, que registravam em vídeo as andanças dos animais, rastreando seu deslocamento, seu comportamento e os níveis de atividade em períodos de oito a 11 dias. Foram utilizados também sensores de atividade metabólica para determinar quanta energia os animais gastavam em suas atividades.

Com isso, os cientistas descobriram que as taxas metabólicas registradas eram, em média, 50% mais altas do que as estimadas por estudos anteriores. Cinco dos nove ursos estudados perderam muito peso e não conseguiram caçar focas em número suficiente para suprir seus gastos de energia.

“A pesquisa foi feita no início do período que vai de abril a julho, quando os ursos polares capturam a maior parte das suas presas e conseguem acumular a maior parte da gordura corporal que eles precisam para sustentá-los pelo resto do ano”, disse Pagano.

O cientista afirma que as mudanças climáticas têm efeitos dramáticos no gelo do mar do Ártico, forçando os ursos polares a percorrer distâncias maiores e dificultando a busca de presas.

No Mar de Beaufort, as geleiras marinhas começam a recuar a partir da plataforma continental em julho, quando a maioria dos ursos se move em direção ao norte à medida que o gelo se retrai.

Derretimento do gelo

Com o aquecimento do Ártico, mais gelo derrete nesse processo, obrigando os ursos a percorrer distâncias maiores que no passado. Isso faz com que eles gastem mais energia durante o verão, quando eles ficam em jejum até que o gelo volte, no outono, à plataforma continental. Em outras áreas, como na Baía de Hudson, a maior parte dos ursos vai para a terra quando o gelo marinho recua. Ali, o aquecimento do Ártico faz com que o gelo marinho se rompa mais cedo no verão e volte a se formar mais tarde no outono, forçando os ursos a ficarem mais tempo em terra.

“De qualquer maneira, a questão continua sendo quanta gordura eles podem acumular antes que o gelo comece a recuar e quanta energia eles terão que gastar. Nós descobrimos que os ursos polares têm uma necessidade de energia muito mais alta do que o estimado”, afirmou Pagano. Na primavera, os ursos polares caçam principalmente as focas que nasceram recentemente e que são mais suscetíveis que as focas adultas. No outono, quando as jovens focas já estão mais velhas e espertas, os ursos não conseguem tantas presas. “Calculamos que os ursos podem capturar até duas focas no outono. Na primavera e no começo do verão, eles caçam de cinco a 10 focas”, disse Pagano.

Os cientistas da Universidade da Califórnia em Santa Cruz têm estudado os ursos polares no Mar de Beaufort desde a década de 1980. Segundo Pagano, a estimativa populacional mais recente indica que o número de ursos polares caiu cerca de 40% na última década. Mas, segundo Pagano, era difícil estudar a biologia fundamental e o comportamento dos ursos polares em um ambiente tão remoto e hostil. “Agora nós temos a tecnologia para descobrir como eles se movem no gelo, quais são seus padrões de atividades e suas necessidades energéticas, de forma que podemos entender melhor a implicações das mudanças que estamos observando no gelo marinho” afirmou Pagano.

Com informações: Estadão Conteúdo

21:02 · 28.01.2018 / atualizado às 21:03 · 28.01.2018 por
O monumento de Ain Dara data da “era arameia” (1.300 a 700 anos a.C) e se encontra no enclave de Afrin. A foto acima foi feita antes do ataque aéreo deste fim de semana Foto: Hitite Monuments

Um templo neo-hitita de 3 mil anos de antiguidade foi danificado pelos bombardeios aéreos turcos no norte da Síria, indicou neste domingo (28) uma organização não governamental e um arqueólogo.

O templo de Ain Dara, que data da “era arameia” (1.300 a 700 anos a.C) se encontra no enclave de Afrin, na mira da aviação e da artilharia turca, detalhou a ONG Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH). “O alcance das destruições é de 60%”, estimou o diretor do OSDH, Rami Abdel Rahman.

O sítio de 50 hectares, descoberto em 1982, é famoso por seus “leões em basalto, imponentes e excepcionais, e afrescos esculpidos em pedra”, indicou o ex-diretor-geral de Antiguidades e Museus da Síria, Mamun Abdelkarim. “Três mil anos de civilização, destruídos em um bombardeio aéreo”, lamentou o especialista.

A Direção-Geral de Antiguidades e Museus síria condenou em um comunicado “os ataques turcos a sítios arqueológicos de Afrin” e confirmou “a destruição do templo de Ain Dara, um dos edifícios arqueológicos mais importantes construídos pelos arameus na Síria”. A Turquia começou em 20 de janeiro uma ofensiva militar no norte da Síria para expulsar as milícias curdas sírias da região.

Palmira

Abdelkarim comparou a destruição do templo de Ain Dara à destruição causada pelo grupo jihadista Estado Islâmico (EI) em 2015 na cidade de Palmira, sítio de 2.000 anos de antiguidade inscrito na lista do Patrimônio da Humanidade da Unesco.

“A destruição do templo de Ain Dara é do mesmo nível de atrocidade que a do templo de Bel”, em Palmira, lamentou Abdelkarim. Ele se preocupa com as consequências dos combates no setor de Jabal Saman, onde há localidades que datam do começo do cristianismo e que estão inscritas desde 2013 na lista em perigo do Patrimônio Mundial da Unesco.

Com informações: AFP

08:53 · 28.01.2018 / atualizado às 11:25 · 27.01.2018 por
O Geopark Araripe faz parte de uma rede global de geoparques ligada à Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) Foto: Crato.org

Mais de quatro anos após uma apreensão de quase 3 mil fósseis furtados da Bacia do Araripe, localizada na região Nordeste, incluindo parte do território cearense, cientistas paulistas e nordestinos disputam o material.

Os fósseis, com idades de 100 milhões a 120 milhões de anos, foram retirados da região do Cariri, que inclui partes do Ceará, Pernambuco e Piauí. A Bacia do Araripe é uma das maiores e mais importantes jazidas do Período Cretáceo no Brasil e no mundo. Em 2014, quando a Justiça Federal decidiu que os fósseis recuperados pela Polícia Federal na França, em Minas Gerais e no interior de São Paulo fossem cedidos à Universidade de São Paulo (USP), que deveria armazená-los adequadamente e, principalmente, estudá-los.

A decisão foi cumprida e, de acordo com a pesquisadora responsável pelo material, Juliana Leme, professora de Paleontologia do Instituto de Geociências da USP, os fósseis – furtados para serem vendidos por altos valores a museus privados no exterior – estão proporcionando conhecimento científico há mais de um ano.

Na universidade paulista, eles têm sido utilizados em aulas, pesquisas de mestrado e doutorado e na divulgação científica: a instituição inaugurou recentemente uma exposição (mais informações nesta página) com mais de 50 peças importantes do acervo apreendido. De acordo com Juliana, os abundantes fósseis são “um tesouro científico brasileiro.”

“O material enviado à USP é belíssimo, com muitas peças raras. Vários fósseis estão em um grau incomum de preservação. É um alívio que isso não tenha ido parar em coleções particulares fora do País”, afirma.

Protesto cearense

Apesar do aparente final feliz, a escolha da USP como depositária dos fósseis causou protestos.

O paleontólogo Álamo Saraiva, professor da Universidade Regional do Cariri (Urca), discorda da decisão judicial e entrou com um recurso para que os fósseis sejam enviados de volta à região de origem.

“Por sorte, pudemos contar com a Polícia Federal e a Agência Brasileira de Inteligência, que têm feito um trabalho tão bom que até nos surpreende. Mas ainda temos um grande problema aqui no Cariri: além de ter de lidar com os traficantes de fósseis, somos vítimas do ‘fogo amigo’”, diz Saraiva, que é curador do Museu de Paleontologia da Urca, em Santana do Cariri, no Ceará, referindo-se aos cientistas do Sudeste.

Saraiva explica que, para os pesquisadores nordestinos, a presença dos fósseis no Ceará é fundamental para o desenvolvimento sustentável da região, que abriga o Geopark Araripe, parte de uma rede global de geoparques ligada à Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco). Criados em áreas do mundo onde há patrimônio geológico importante, os geoparques envolvem ciência, conservação ambiental e do patrimônio cultural, educação, geoturismo e desenvolvimento econômico.

“Vivemos dos fósseis, que têm valor de patrimônio cultural. Eles perdem esse valor quando saem daqui e vão parar em gavetas em universidades de São Paulo e do Rio, embora ainda mantenham o valor científico”, declarou Saraiva.

‘Cumprimento de decisão’

Juliana, por outro lado, argumenta que a USP está apenas cumprindo uma decisão judicial, segundo a qual o Instituto de Geociências da USP foi escolhido como destino das peças “por ter totais condições de dar a elas o tratamento e uso científico adequado”.

A pesquisadora também alega que a USP investiu recursos e trabalho no material, já que a universidade recebeu os fósseis lacrados em outubro de 2014, acompanhados de laudos técnicos. O processo para retirar o lacre, identificar, acondicionar e guardar peça por peça durou um ano. Apenas no fim de 2015 o material foi liberado para pesquisa.

Nos dois anos seguintes, a coleção proporcionou pelo menos oito pesquisas de iniciação científica, mestrado e doutorado, de acordo com Juliana. No fim de 2016 foi lançado o edital para a exposição e, um ano depois, ela foi aberta ao público. “Não é verdade, absolutamente, que esse material ficou engavetado”, defende. Saraiva, porém, contesta o investimento feito pela USP. “Se a USP tivesse injetado muitos recursos no material apreendido, eu até aceitaria que a coleção ficasse em São Paulo. Mas o que requer mais investimento é a preparação dos fósseis e esse material já estava perfeitamente preparado”, disse.

A preparação dos fósseis é um processo de alta complexidade técnica, no qual os especialistas retiram minuciosamente, no laboratório, o excesso de sedimentos incrustados nas peças, para que as características dos fósseis fiquem visíveis, permitindo seu estudo.

Contrabando

Segundo Saraiva, pela alta qualidade da preparação dos fósseis apreendidos, é possível até mesmo identificar o paleontólogo que fez o serviço: o alemão Michael Schwickert, considerado um dos principais contrabandistas de fósseis do Araripe há pelo menos 20 anos.

De acordo com a PF, ele está entre as 13 pessoas que integravam a quadrilha desbaratada. “Basta olhar para o material para constatar que a preparação primorosa foi feita por ele”.

Com informações: Estadão Conteúdo