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Tag: Homo sapiens


17:19 · 08.12.2017 / atualizado às 17:19 · 08.12.2017 por
Concepção artística das migrações humanas ocorridas entre 60 e 120 mil anos atrás, em um período anterior ao que se pensava Imagem: Ivan Heredia/CSIC

A tese de uma única migração humana fora da África há 60 mil anos não poderá mais ser considerada um dado correto da história da humanidade, argumenta uma revisão da literatura científica publicada na revista científica americana Science.

Ao contrário, várias migrações para fora da África, que começaram há 120 mil anos, deram origem à população moderna, demonstram os resultados da pesquisa. Avanços na análise de DNA e em outras técnicas de identificação de fósseis, principalmente em relação a descobertas na Ásia, estão ajudando a reescrever o que pensávamos saber sobre nossas origens.

Uma “abundância de novas descobertas” na última década mostrou que os humanos modernos, ou Homo sapiens, chegaram a partes do continente asiático muito antes do que se pensava, assinalou o informe. Vestígios de Homo sapiens datados de 70 mil a 120 mil anos foram encontrados em diferentes locais no sul e no centro da China. Outras descobertas de fósseis mostram que os humanos modernos chegaram ao sudeste de Ásia e à Austrália antes de 60 mil anos atrás.

“As primeiras dispersões fora da África antes de 60 mil anos atrás provavelmente eram feitas em pequenos grupos de pessoas que buscavam comida e, pelo menos, algumas dessas dispersões iniciais deixavam traços genéticos de baixo nível em populações modernas”, explicou Michael Petraglia, pesquisador do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana, na Alemanha.

Migração maior

“Um evento posterior e maior de [migração] ‘Fora da África’ muito provavelmente ocorreu por volta de 60 mil anos atrás ou depois disso”, informou. Pesquisas recentes confirmaram que esta migração em massa há 60 mil anos “contribuiu para a maior parte da composição genética dos não africanos atuais”, de acordo com o comunicado.

Estes primeiros viajantes se miscigenaram com outras espécies, incluindo Neandertais e Denisovanos, e uma população não identificada de homininis (primatas hominóideos) pré-modernos em muitos locais através da Eurásia. Os cientistas consideram que, entre os Homens modernos não africanos atuais, de 1% a 4% do DNA seria de origem dos Neandertais e até 5% podem ser de Denisovanos. “Agora está claro que humanos modernos, os Neandertais, Denisovanos e talvez outros grupos homininis provavelmente se sobrepuseram no tempo e no espaço na Ásia, e certamente tiveram muitos casos de interação”, destacou o estudo.

Com informações: AFP

20:09 · 09.12.2016 / atualizado às 20:11 · 09.12.2016 por
Foto: Snow Brain
Alteração genética deve ter acontecido antes de 500 mil anos atrás, porque não é exclusiva do DNA do Homo sapiens Foto: Snow Brain

Uma mutação aparentemente insignificante no DNA dos ancestrais da humanidade pode ter contribuído para que nosso cérebro alcançasse o tamanho descomunal que tem hoje (três vezes maior que o dos grandes macacos).

Bastou inserir o gene que contém essa mutação em fetos de camundongo para que dobrasse o número de células que dão origem aos neurônios do córtex, a área cerebral mais “nobre”. A pesquisa, conduzida por cientistas do Instituto Max Planck (Alemanha), é um dos primeiros frutos da tentativa de usar o genoma para entender como a evolução humana se desenrolou.

Por enquanto, isso não tem sido fácil –tanto que o gene estudado pelos pesquisadores no novo estudo, designado pela indigesta sigla ARHGAP11B, é o único específico da linhagem humana a ser associado com a proliferação das tais células do córtex cerebral. “Ainda não sabemos qual o mecanismo que leva a essa proliferação aumentada”, disse à Folha o coordenador do estudo, Wieland Huttner.

O certo é que parece haver um efeito direto da presença do gene sobre as chamadas BPs (progenitoras basais, na sigla inglesa). As BPs possuem uma vantagem importante quando a questão é produzir mais e mais neurônios: elas ficam numa região do cérebro em desenvolvimento em que há bastante espaço. Com isso, conseguem se multiplicar mais, conduzindo, portanto, a um aumento mais vigoroso do órgão.

Origem da mudança

Desde quando esse fenômeno acontece no cérebro dos membros da linhagem humana? “A mutação deve ter acontecido antes de 500 mil anos atrás”, diz Huttner -isso porque ela não é exclusiva do DNA dos seres humanos modernos.

Os colegas do pesquisador no Max Planck estão entre os responsáveis por resgatar o genoma de dois parentes extintos da nossa espécie, os neandertais e os denisovanos. Ao desvendar o DNA completo de ambas as espécies, os cientistas identificaram o gene ARHGAP11B -mas nada de encontrá-lo em outros primatas ou mamíferos. Segundo o pesquisador alemão, uma possibilidade é que essa mutação tenha acontecido no DNA do Homo erectus, primeiro ancestral do homem a ter passado por um grande aumento de sua capacidade cerebral. O estudo saiu na revista especializada “Science Advances”.

Com informações: Reinaldo José Lopes/Folhapress

23:25 · 29.09.2016 / atualizado às 23:25 · 29.09.2016 por
Foto: The New York Times
A organização e a defesa de territórios são importantes motivos de conflitos. A combinação desses fatores leva, por exemplo, a uma forma embrionária de guerra entre chimpanzés, nossos “primos” Foto: The New York Times

Guerra, assassinato e outras formas de agressão letal são parte importante do legado evolutivo da espécie humana, numa proporção muito maior do que ocorre com outros animais planeta afora.

A conclusão, aparentemente desanimadora, vem de um monumental estudo comparativo conduzido por pesquisadores espanhóis, mas há também uma boa notícia: a taxa de mortes violentas pode variar muito de acordo com a época e a cultura, e os tempos atuais são os mais pacíficos de todos.

Publicado na “Nature”, o levantamento coordenado por José María Gómez, da Universidade de Granada, apresenta uma visão das “raízes filogenéticas da violência letal humana”, conforme diz o título do trabalho. Trocando em miúdos, os pesquisadores tentaram investigar até que ponto a filogenia do Homo sapiens -ou seja, o parentesco do homem com outros seres vivos- influenciou o padrão de interações violentas entre membros da nossa espécie que resultam em mortes.

Ou seja, estamos falando apenas da chamada violência letal intraespecífica: não contam, por exemplo, os casos de morte por predação nos quais um animal de determinada espécie mata um membro de outra para comê-lo, que caracteriza a chamada violência interespecífica.

Milhões de mortes

O primeiro passo foi criar um banco de dados gigantesco: informações sobre mais de 4 milhões de mortes em 1.024 diferentes espécies de mamíferos como o ser humano.

O primeiro resultado importante é que, embora mortes violentas tenham sido registradas em 40% dessas espécies, a taxa costuma ser relativamente baixa, numa média 3 para cada 1.000 mortes (0,3%). Baleias e morcegos são especialmente pacíficos, ao menos nesse sentido. O problema é que a taxa vai aumentando progressivamente conforme o parentesco fica mais próximo dos primatas, o subgrupo que inclui os macacos e a humanidade. Entre essas criaturas, a média da violência letal fica em torno de 2% -seis vezes superior à dos mamíferos como um todo.

De fato, embora existam exceções, espécies de parentesco mais próximo tendem a ter comportamento violento mais parecido, o que, segundo os cientistas, corrobora a ideia de que há um componente evolutivo influenciando esse fator. Dois elementos acabam colaborando para o aumento da violência letal em certos grupos de mamíferos ao longo de sua trajetória evolutiva: a vida em grandes grupos e a territorialidade (ou seja, o hábito de tomar posse de um território específico).

A organização em bandos, por um lado, facilita a agressão grupal contra inimigos, que é quase sempre mais mortífera do que brigas na base do mano a mano, enquanto a defesa de territórios é um importante motivo de conflitos. A combinação desses fatores leva a uma forma embrionária de guerra entre chimpanzés, nossos “primos”.

Guerra e paz

O passo seguinte foi examinar os dados sobre a espécie humana moderna, presentes em cerca de 600 estudos que vão do Paleolítico (a popular Idade da Pedra Lascada) aos dias de hoje.

Tais dados muitas vezes não têm a mesma qualidade: nos últimos séculos, basta compilar certidões de óbito mundo afora, enquanto no caso da Pré-história é preciso procurar marcas de violência em esqueletos antigos (e nem sempre um assassinato vai deixar vestígios no esqueleto do defunto).

Feitas essas ressalvas, os dados sugerem que durante dezenas de milhares de anos as mortes violentas ficaram estáveis, na casa dos 2% ou pouco acima dela -ou seja, nossa espécie estava se comportando mais ou menos da maneira esperada, como qualquer outro grande primata. A coisa, porém, encrespou para valer a partir da Idade do Ferro (pouco mais de 3.000 anos atrás), possivelmente por conta do surgimento de Estados e impérios que desenvolveram classes de guerreiros e conquistadores, cujo papel de elite dependia justamente da habilidade de cortar a cabeça alheia.

Nos últimos 500 anos, porém, fortaleceu-se uma tendência lenta, segura e gradual de queda da proporção de mortes violentas, em parte porque os Estados modernos passaram a controlar cada vez mais os conflitos entre cidadãos, em parte porque os conflitos entre Estados foram se tornando mais raros.

A taxa atual está abaixo da média dos mamíferos, aliás -apesar de conflitos étnicos e religiosos e do terrorismo. Em média, a paz está vencendo, ao menos por enquanto.

Com informações: Reinaldo José Lopes/Folhapress

18:16 · 08.06.2016 / atualizado às 18:17 · 08.06.2016 por
Foto: National Museum of Nature and Science of Tokyo
Medindo apenas 1,1 metro, os chamados Homo floresiensis (nome derivado da ilha de Flores, seu local de origem) causam dores de cabeça nos especialistas em evolução humana desde 2004 Foto: National Museum of Nature and Science of Tokyo

As dúvidas que ainda pairavam sobre a identidade dos misteriosos “hobbits” da Indonésia devem ser dissipadas, ao que tudo indica.

Novas descobertas na mesma ilha onde esses hominídeos diminutos foram achados originalmente revelaram seus prováveis ancestrais, os quais já eram pequeninos há 700 mil anos.

Medindo apenas 1,1 metro, os chamados Homo floresiensis (nome derivado da ilha de Flores, seu local de origem) causam dores de cabeça nos especialistas em evolução humana desde 2004, quando sua existência foi revelada ao público pela primeira vez nas páginas da prestigiada revista científica “Nature”.

Ocorre que nenhum dos outros membros da linhagem humana jamais teve tamanho tão modesto, e o cérebro dos espécimes de Flores, equivalente ao de um chimpanzé, também é surpreendentemente pequeno (a pequenez, obviamente, foi o que levou os cientistas a comparar os exemplares com os hobbits de “O Senhor dos Anéis”).

Os dados aparentemente malucos levaram alguns especialistas a argumentar que a equipe australiano-indonésia responsável por desencavar os primeiros H. floresiensis na caverna de Liang Bua tinha errado feio: os hobbits não passariam de Homo sapiens com algum problema severo de desenvolvimento, talvez de origem genética.

Isolamento

O fato de que todos os indivíduos da suposta nova espécie achados até hoje vinham de uma única caverna ajudou a sustentar tal hipótese até hoje, já que as características peculiares poderiam ser consideradas anomalias ligadas a um único grupo familiar, por exemplo.

Mas os descobridores dos hobbits argumentavam que a morfologia do crânio e dos demais ossos do H. floresiensis tinha traços primitivos que não tinham nada a ver com patologias modernas -e tudo a ver com o Homo erectus, hominídeo que já andava pelo Sudeste Asiático há cerca de 1,5 milhão de anos.

Para eles, portanto, o cenário mais provável era o seguinte: ao se espalhar pela atual Indonésia, alguns grupos de H. erectus teriam ficado isolados em Flores. A partir daí, desencadeou-se um processo conhecido como nanismo de ilhas, no qual a relativa falta de recursos e território em áreas insulares leva a seleção natural a favorecer versões miniaturizadas de uma espécie.

Parece coisa de ficção científica, mas é algo tão comum que aconteceu de forma independente diversas vezes: as ilhas do Mediterrâneo abrigavam elefantes anões (alguns medindo apenas 1,5 m) na pré-história, e a própria Flores foi lar de parentes extintos do elefante chamados Stegodon, que também eram versões “pocket” de seus ancestrais.

Sítio a céu aberto

A importância da nova pesquisa, também publicada na “Nature”, vem justamente do fato de que os novos fósseis foram achados a 74 km de Liang Bua, num sítio arqueológico a céu aberto conhecido como Mata Menge.

A equipe liderada por Gerrit van den Bergh, da Universidade de Wollongong (Austrália), também teve a sorte de datar com relativa precisão os restos (um fragmento de mandíbula e alguns dentes), porque eles estavam recobertos por uma camada de material vulcânico, cujas propriedades radioativas permitem uma boa estimativa de idade.

Os fósseis foram analisados pelo antropólogo japonês Yousuke Kaifu, do Museu Nacional de Natureza e Ciência de Tóquio. “Fiquei tão surpreso com o tamanho minúsculo da mandíbula e dos dentes que cheguei a achar que eram de uma criança”, contou Kaifu. No entanto, imagens de tomografia computadorizada do osso mostraram que ele tinha características típicas de indivíduos adultos.

O exame detalhado da morfologia dos fragmentos revelou grandes semelhanças com os da caverna de Liang Bua (embora os de Mata Menge sejam entre 20% e 30% menores, na verdade). E, como os restos da gruta foram todos datados entre 200 mil e 50 anos atrás -contando aí tanto artefatos quanto ossos-, a equipe postula que os habitantes de Mata Menge são os prováveis ancestrais dos hobbits que foram encontrados primeiro.

“Isso finalmente encerra o debate sobre a validade do H. floresiensis como espécie separada”, diz Aida Gómez-Robles, da Universidade George Washington (EUA), que comentou o novo estudo a pedido da “Nature”.

Como há artefatos de pedra em Flores com idade estimada em 1 milhão de anos, os autores da pesquisa argumentam que isso reforça a hipótese de que os H. erectus aportaram por lá mais ou menos nessa época.

Com informações: Reinaldo José Lopes/Folhapress

18:54 · 22.10.2014 / atualizado às 19:08 · 22.10.2014 por
Imagem: AVPH
Fêmur encontrado na Sibéria (Rússia) pertenceu a um homem que morreu há 45 mil anos Imagem: AVPH

Cientistas anunciaram nesta quarta-feira (22) ter decifrado o mais antigo DNA já recuperado do osso de um “Homo sapiens”, um feito que lança luz sobre a colonização dos humanos modernos no planeta.

O fêmur encontrado por acaso nas margens de um rio do oeste da Sibéria (Rússia) em 2008 pertenceu a um homem que morreu cerca de 45.000 anos atrás, afirmaram. Obtido a partir do colágeno contido no osso, o genoma contém rastros de neandertais: uma espécie próxima da nossa que viveu na Eurásia juntamente com o “Homo sapiens”, antes de desaparecer misteriosamente.

Estudos anteriores revelaram que “Homo sapiens” e Neandertais se miscigenaram e, como resultado, estes últimos teriam deixando uma pequena marca de apenas 2% nos humanos atuais, exceto os africanos. A descoberta tem impacto no chamado cenário “Fora da África”: a teoria segundo a qual o “Homo sapiens” evoluiu no leste da África há cerca de 200 mil anos e, então, se aventurou fora do continente.

Datar quando os Neandertais e os “Homo sapiens” se miscigenaram também indicaria quando o “Homo sapiens” iniciou uma etapa chave desta jornada, a saída da Eurásia rumo ao sul e ao sudeste da Ásia. O novo estudo, publicado na revista britânica Nature, foi chefiado por Svante Paabo, um geneticista renomado do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva em Leipzig, Alemanha, pioneiro nas pesquisas sobre os neandertais.

Cruzamento com neandertais

O osso encontrado no rio Irtyush, perto do assentamento de Ust’-Ishim, contém uma quantidade sutilmente maior de DNA neandertal do que os não africanos da atualidade, afirmaram os cientistas.

Mas assume a forma de tiras relativamente longas, enquanto o DNA neandertal no nosso genoma, hoje, foi retalhado e disperso em seções minúsculas, como consequência da reprodução ao longo das gerações.

Estas diferenças fornecem uma pista para um “calendário molecular” ou datação do DNA, segundo mutações ao longo de milhares de anos. Usando este método, a equipe de Paabo estima que a miscigenação entre os neandertais e os “Homo sapiens” tenha acontecido entre 7.000 e 13.000 anos antes de quando o indivíduo siberiano viveu, portanto, não mais de 60.000 anos atrás.

Isto fornece um esboço de datação para estimar quando os “Homo sapiens” partiram rumo ao Sul da Ásia, destacou em um comentário do estudo Chris Stringer, professor do Museu Britânico de História Natural. Se os australasiáticos atuais têm DNA neandertal, isto se deve a que seus antepassados atravessaram um território ocupado por Neandertais e se misturaram com os locais.

“Os ancestrais dos australasiáticos, com ‘input’ similar de DNA neandertal ao dos eurasiáticos, devem ter participado de uma dispersão tardia, e não precoce, no território neandertal”, afirmou Stringer. “Embora ainda seja possível que os humanos modernos tenham atravessado o sul da Ásia antes de 60.000 anos atrás, estes grupos podem não ter dado uma contribuição significativa às populações modernas remanescentes”, prosseguiu.

Antropólogos sugerem que um ramo de Eurasiáticos do norte fez a travessia para onde hoje fica o Alasca mais de 15.000 anos atrás, através de uma “ponte de gelo”, que conectava as ilhas d Estreito de Bering, habilitando o “Homo sapiens” a colonizar as Américas.

Com informações: AFP

16:58 · 01.09.2014 / atualizado às 17:39 · 01.09.2014 por
Foto: Reuters
Foram feitos dois tipos de análises: o estudo da composição dos minerais que cobrem a gravura, que concluiu ter sido ela criada antes da deposição dos sedimentos, e a comparação de microfotografias das marcas presentes na representação, com outras reconstruídas experimentalmente Foto: Reuters

Uma equipe internacional de cientistas revela ter encontrado, pela primeira vez, uma gravura rupestre da autoria de um humano que não pertencia à nossa espécie – mais precisamente, de um neandertal.

Para os autores, que publicaram os seus resultados nesta segunda-feira (01/09) na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, trata-se da primeira prova concreta de que os neandertais possuíam capacidades de raciocínio e de expressão abstratos que até agora eram considerados exclusividade dos humanos modernos.

Clive Finlayson, do Museu de Gibraltar, juntamente com colegas de Gibraltar, Espanha, França, Reino Unido e Noruega, descobriram uma gravura que, ao que tudo indica, foi feita de forma intencional, mas não com fins utilitários, na gruta de Gorham, na costa oriental de Gibraltar, pequeno promontório rochoso situado na extremidade sul da Península Ibérica.

Desde a década de 1950 é sabido que aquela gruta foi habitada pelos nossos “primos” humanos mais próximos, os neandertais, uma espécie de homem arcaico euroasiático que se extinguiu na Europa há uns 30.000 anos. Este não é o primeiro indício sugerindo que as capacidades cognitivas dos neandertais têm sido subestimadas, mas derruba argumentos que afirmam serem os neandertais menos “sofisticados” do que os Homo sapiens.

Artista metódico

Também não é o primeiro indício a sugerir que os neandertais podiam ser artistas. Mas é a primeira vez, salientam os autores, que é possível excluir as explicações alternativas para uma peça de arte rupestre.

“A gravura da gruta de Gorham representa a primeira instância diretamente demonstrável em que um padrão abstrato gravado, realizado com muito cuidado e sem fins utilitários e cuja produção requereu ações prolongadas e focadas, é observado na rocha de uma gruta”, escrevem os pesquisadores.

Até aqui, a arte das cavernas tem sido atribuída exclusivamente à nossa espécie, a dos humanos modernos, que chegou à Europa, vinda de África, há cerca de 40.000 anos. Mas no caso da gravura de Gorham, uma eventual autoria da nossa espécie parece muito improvável.

A gravura encontrava-se coberta por sedimentos onde já tinham sido desenterrados artefatos neandertais (em particular, ferramentas de pedra). E, mais importante ainda, explicam os autores, estes sedimentos permaneceram intocados, sem se misturarem com camadas mais recentes, durante 39.000 anos.

A gravura propriamente dita, com uma área de uns 300 centímetros quadrados (15×20), encontra-se na parte mais funda da gruta, no centro de uma plataforma rochosa natural de um metro quadrado, a 40 centímetros do chão. É composta por várias linhas profundas entrecruzadas.

Os cientistas fizeram dois tipos de análises. Por um lado, estudaram a composição geoquímica dos minerais que cobrem a gravura e concluíram que a representação abstrata tinha sido criada antes da deposição desses sedimentos.

Por outro, fizeram microfotografias das marcas de ferramenta presentes na gravura e compararam-nas com marcas que reconstruíram experimentalmente com várias ferramentas utilizadas pelos neandertais.

E constataram, por exemplo, que as marcas não poderiam nunca ter sido produzidas acidentalmente quando de atividades da vida quotidiana dos neandertais, tais como cortar a pele de porcos.

Com informações: Público

20:13 · 21.08.2014 / atualizado às 20:20 · 21.08.2014 por
Foto: Associated Press
Reprodução em forma de estátua de cera retratando um casal de neandertais. Espécie viveu no continente europeu até cerca de 39 mil anos atrás e conviveu com população de humanos modernos Foto: Associated Press

Uma nova análise de amostras procedentes de 40 sítios arqueológicos, coletados desde a Rússia até a Espanha, permitiu constatar que os neandertais podem ter coexistido na Europa com os humanos modernos por até 5,4 mil anos.

A partir de uma técnica melhorada de datação por radiocarbono, investigadores liderados por uma equipe da universidade britânica de Oxford detalham em um estudo, divulgado na revista “Nature”, que os neandertais desapareceram da Europa entre 39.260 e 41.030 anos atrás.

Não foi uma extinção abrupta, segundo os cientistas, mas um processo gradual que seguiu seu próprio ritmo em diferentes pontos do continente. A nova cronologia “sugere que provavelmente algumas pequenas povoações sobreviveram em pontos específicos da Europa antes de serem extintas” completamente, explicou Thomas Higham, responsável pela pesquisa.

A descoberta aponta que neandertais e homens modernos podem ter convivido por um período entre 2,6 mil anos até 5,4 mil anos. Os milênios nos quais houve essa convivência representam “um tempo amplo para a transmissão de comportamentos culturais e simbólicos, assim como para possíveis intercâmbios genéticos”, destacou o estudo.

Os pesquisadores descrevem a Europa desse período de transição, entre o paleolítico médio e superior, como um “mosaico de povoações”. De acordo com os autores do estudo, há 45 mil anos, antes que começasse esse processo de mudança, a Europa era essencialmente neandertal, com pequenos redutos de humanos modernos.

Essa distribuição mudou nos milênios seguintes, uma evolução que foi forjada ao longo de 25 a 250 gerações, dependendo da localização geográfica.

Intercâmbios culturais e genéticos

O professor da Universidade do País Basco Álvaro Arrizabalaga, um dos pesquisadores que participou do estudo, especificou que, apesar de “não ser possível descartar a existência de intercâmbios culturais e genéticos entre ambos os grupos”, essa é a “grande pergunta que ainda está pendente de confirmação na Europa”.

“Sim, sabemos que aconteceu (a troca) no Oriente Médio”, acrescentou. Determinar a relação espacial e temporal entre os neandertais e os humanos modernos é essencial para compreender o processo que levou ao desaparecimento dos primeiros. As limitações técnicas foram os desafios mais sérios para os pesquisadores nesse campo.

As amostras arqueológicas que se aproximam da fronteira dos 50 mil anos têm muito pouco carbono-14, o que torna difícil obter datações mais precisas. Para este novo estudo, os cientistas voltaram a analisar amostras dos principais sítios arqueológicos europeus, à luz da técnica de datação de radiocarbono com um acelerador de espectrometria de massas, para determinar que o período terminou entre 41.030 e 39.260 anos atrás.

Com informações: EFE / G1

22:20 · 23.06.2014 / atualizado às 22:27 · 23.06.2014 por
Foto: Reuters
No Pleistoceno Médio, entre 400 e 500 mil anos atrás, espécies humanas arcaicas se separaram dos grupos que viviam na África e no Leste Asiático e se instalaram na Eurásia. Isolado dos demais, esse grupo desenvolveu as características que definem a linhagem neandertal Foto: Reuters

Fósseis encontrados em um sítio arqueológico espanhol, incluindo 17 crânios quase completos de hominídeos do Pleistoceno Médio, lançam luz sobre um dos períodos mais controversos da evolução humana.

A coleção de ossos encontrada na região do “Abismo dos Ossos” revela características típicas dos neandertais, associadas com as de hominídeos mais primitivos. A descoberta reforça a hipótese de que os caracteres definidores do homem de Neandertal se desenvolveram aos poucos e em períodos diversos, e não de uma vez.

No Pleistoceno Médio, entre 400 e 500 mil anos atrás, espécies humanas arcaicas se separaram dos grupos que viviam na África e no Leste Asiático e se instalaram na Eurásia. Isolado dos demais, esse grupo desenvolveu as características que definem a linhagem neandertal. Quando o homo sapiens chegou à Eurásia, alguns milhares de anos depois, acabaram suplantando os neandertais. Havia incompatibilidade reprodutiva entre as duas espécies.

O grau de diferenciação entre os neandertais e os humanos que os precederam, em tão pouco tempo, sempre surpreendeu os cientistas. Faltava uma amostra da população europeia que viveu há cerca de 400 mil anos, os primeiros da linhagem neandertal; os 17 crânios recém-descobertos preenchem essa lacuna e fortalecem a hipótese que diz que os neandertais desenvolveram suas características em épocas diferentes.

“O sítio do Abismo dos Ossos é único porque lá há um acúmulo sem precedente de fósseis desse período. Nada assim já havia sido descoberto, para nenhuma espécie extinta de hominídeos”, afirma Juan-Luis Arsuafa, professor de Paleontologia da Universidade Complutense de Madri.

O sítio é escavado e estudado desde 1984. “Em 30 anos, descobrimos cerca de 7.000 fósseis humanos, que compõem pelo menos 28 indivíduos”, explica Ignacio Martínez, paleontólogo da Universidade de Alcalá.

Com informações: Portal AZ

21:48 · 09.02.2014 / atualizado às 22:00 · 09.02.2014 por
Espécie tinha o canibalismo como prática comum Foto: Wikipedia
Espécie tinha o canibalismo como prática comum Foto: Wikipedia

As pegadas, descobertas nas margens de Happisburgh, na costa de Norfolk, têm mais de 800 mil anos e são evidências diretas dos primeiros hominídeos que viveram no norte da Europa.

O achado é de pesquisadores do Museu Britânico, do Museu de História Natural de Londres e da Universidade Queen Mary, que publicaram a descoberta no último número da revista científica “Plos One”.

Entre as pegadas, há rastros de crianças e adultos, e uma delas corresponde a um pé com um tamanho europeu de sapato do número 42, o que sugere que poderia corresponder a um homem de cerca de 1,70 de altura.

As marcas descobertas pela primeira vez em maio do ano passado durante a maré baixa graças as ondas que retiraram os sedimentos que as recobriam, são as únicas pegadas desta idade na Europa. Há apenas outros três conjuntos que são mais antigos e estão na África. Nick Ashton, arqueólogo do Museu Britânico, relatou que ele e seus colegas se apressaram para fazer fotografias e modelos em 3D das pegadas, antes que as ondas constantes as destruíssem.

Ainda não se sabe ao certo de quem são as pegadas, mas, de acordo com especialistas, há a possibilidade de elas serem de uma espécie chamada Homo antecessor, que viveu no sul da Europa. Acredita-se que este grupo tenha chegado a Norfolk através de uma faixa de terra que ligava o Reino Unido ao resto da Europa há um milhão de anos.

Eles surgiram por volta de 1,6 milhão de anos (época pleistocênica ou idade paleolítica) atrás e teriam desaparecido há cerca de 800 mil anos em decorrência de mudanças climáticas.

Embora bastante similar à espécie humana atual, o Homo antecessor não teria relação direta com os seres humanos modernos.

Com informações: Portal Terra

18:05 · 21.10.2013 / atualizado às 19:42 · 21.10.2013 por
Crânios de 1,8 milhão de anos encontrados na Geórgia sugerem que Homo habilis e Homo rudolfensis eram variaçoes do Homo erectus Foto: Associated Press
Crânios de 1,8 milhão de anos encontrados na Geórgia sugerem que Homo habilis e Homo rudolfensis eram apenas variações primitvas do Homo erectus Foto: Associated Press

A família humana pode ter sido menos diversificada do que se imaginava anteriormente. A descoberta de cinco crânios de 1,8 milhão de anos atrás, na Geórgia, pode colocar em xeque a teoria de que várias espécies do gênero Homo conviveram no período Pleistoceno.

Os fragmentos de nossos ancestrais, encontrados nas montanhas de Dmanisi, apresentavam diferenças significativas entre si, mas como pertencem ao mesmo sítio arqueológico e foram datadas como sendo do mesmo período devem se tratar de indivíduos da espécie Homo erectus, considerado o mais provável antecessor do Homo sapiens.

O resultado foi publicado na Science e o estudo foi conduzido pelo diretor do Museu Nacional Georgiano, David Lordkipanidze. O pesquisador acredita que a descoberta pode representar que as espécies Homo habilis e Homo rudolfensis, na verdade, eram apenas variações, ou no máximo, subespécies mais primitivas de Homo erectus.

O hominídeo tinha um cérebro que media um terço do volume do humano moderno, fronte projetada e mandíbulas salientes como um símio. Os ossos foram encontrados juntamente com ferramentas de pedra que sugerem o abate de animais. ​Para Lordkipanidze, trata-se da “coleção mais rica e completa de restos incontestáveis de Homo primitivo encontrada. Os cinco indivíduos de Dmanisi são claramente diferentes entre eles, mas não mais diferentes do que quaisquer indivíduos humanos modernos ou cinco chimpanzés de uma população dada. Nós concluímos que a diversidade em uma espécie é mais regra que exceção”.

Mas nem todos os especialistas concordam. “Penso que as conclusões a que chegaram estão mal orientadas. O que temos é uma criatura da qual não tínhamos visto evidências antes. Poderia ser algo novo e não entendo porque estão relutantes em pensar que deve ser algo novo”, afirmou Bernard Wood, diretor do programa de doutorado em “paleobiologia de hominídeos”, da Universidade George Washington.

A descoberta também levantou polêmica entre religiosos e teóricos do criacionismo, que se mobilizaram nas redes sociais para interpretar o achado como uma suposta evidência de que o homem não evoluiu de antigos primatas. Contudo, mesmo para cientistas que discordam de uma maior biodiversidade do gênero Homo, as pesquisas georgianas apenas podem encurtar os galhos da árvore genealógica humana e não derrubá-la.