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Tag: Universidade Federal do Ceará


18:13 · 23.03.2018 / atualizado às 18:13 · 23.03.2018 por
Ideia dos pesquisadores é fornecer a técnica de forma gratuita pelo Sistema Único de Saúde (SUS) Foto: Ribamar Neto/UFC

Pesquisadores do grupo de pesquisa Biotecnologia Molecular do Látex Vegetal, da Universidade Federal do Ceará, encontraram uma alternativa para tratar lesões causadas pela hanseníase: uma biomembrana desenvolvida a partir de proteínas vegetais com alto poder de cicatrização.

Em alguns dos testes com voluntários com sequelas de hanseníase, ferimentos abertos há mais de 15 anos apresentaram cicatrização de aproximadamente 80% da lesão apenas três meses após o início do tratamento. Um dos fatores que dificultam a cura da lesão da hanseníase é seu constante estado de inflamação. Isso faz as bordas do ferimento adquirirem forma semelhante à de calos, impedindo o processo de cicatrização do tecido epitelial. A membrana produzida na pesquisa age como um princípio ativo quando aplicada diretamente na pele dos pacientes, quebrando essa barreira e estimulando o processo de recuperação.

O grupo é coordenado pelos professores Márcio V. Ramos, do Programa de Pós-Graduação em Bioquímica, responsável por todas as etapas relacionadas à obtenção da proteína; e Nylane Nunes de Alencar, do Programa de Pós-Graduação em Farmacologia, que acompanha todas as ações ligadas à área médica.

Essas ações são realizadas no Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM), da UFC, em parceria com a médica Maria Araci Pontes Aires, do Centro Dermatológico Dona Libânia, referência em hanseníase no Estado do Ceará.

No Centro, os pacientes considerados pós-hansênicos (que se curaram, mas ainda apresentam lesões) recebem tratamento apenas para evitar infecções, uma vez que as feridas estão abertas. A rede pública, no entanto, não disponibiliza um tratamento que favorece a cicatrização. A ideia dos pesquisadores, portanto, é fornecer a biomembrana de forma gratuita pelo Sistema Único de Saúde (SUS), algo que seria viabilizado pela criação de um laboratório totalmente destinado a essa produção. Esse laboratório seria voltado não apenas para tratamento da hanseníase, mas para outras doenças de sequelas semelhantes, como a diabetes.

“Há drogas no mercado que promovem cicatrização, mas com preço inacessível aos pacientes. E quem tem hanseníase geralmente são pessoas pobres”, conta o Prof. Márcio Ramos, coordenador do Laboratório de Plantas Laticíferas, responsável pela extração e caracterização das proteínas ativas. Um fator que torna a membrana viável para o sistema público é justamente o barateamento da produção, uma vez que ela seria feita sem as margens de lucro da indústria convencional. Os pesquisadores estimam que, com isso, o custo do tratamento poderia ser reduzido de 50% a 70% em relação à terapia disponível no mercado. “Por isso a importância de criar um laboratório de produção”, defende a Profª Nylane Alencar.

A criação desse setor de produção ganha ainda outra justificativa considerando-se a gama de aplicações possíveis da membrana. Além do uso em pacientes pós-hansênicos e diabéticos, já há expectativa de utilização em enfermos com úlcera venosa, cuja cirurgia não tem cicatrização total. “Começamos com a hanseníase, mas temos potencial de ampliar o atendimento para outros problemas igualmente graves, mas negligenciados”, diz o Prof. Márcio Ramos.

Efeito cicatrizante

O estudo teve início ainda em 2013, quando os pesquisadores já haviam constatado o efeito cicatrizante dessas enzimas em modelos animais. Com o início das aplicações em humanos no ano passado, a biomembrana se mostrou igualmente eficiente, com resultados que variavam de acordo com o paciente.

As doutorandas do Programa de Pós-Graduação em Farmacologia da UFC responsáveis pelo trabalho experimental, Marília Nunes e Tamiris Goebel, explicam que a porcentagem de cura da lesão depende, por vezes, de fatores externos ou de apoio médico. “É preciso acompanhamento de neurologista, ortopedista e até uso de um calçado adequado, por exemplo. Às vezes há pacientes que não cicatrizaram por conta de fatores básicos”, explica Marília.

Naquelas pessoas tratadas que atendiam a necessidades simples, como o exemplo citado, o efeito acelerador da cicatrização ocorreu sem problemas, garantindo a recuperação das lesões nos três meses em que as doutorandas aplicaram a pesquisa.

Princípio ativo

As proteínas usadas na produção da biomembrana são extraídas do látex da planta Calotropis procera, conhecida popularmente como ciúme ou algodeiro-de-seda, típica de regiões áridas como o Nordeste brasileiro.

Após a extração, essas proteínas são separadas e purificadas. Na UFC, a equipe do grupo de pesquisa de Biotecnologia Molecular de Látex Vegetal já conseguiu aplicá-las em processos que vão da produção de um “queijo vegetariano” até a criação de um produto para depilar couro animal.

No processo de separação, materiais como borracha e compostos secundários são removidos, para que as proteínas possam ser recuperadas, desidratadas e transformadas em pó. Esse pó é homogeneizado em uma solução de álcool polivinílico (PVA) até a formação de um líquido branco, que, quando seca, se torna quase um filme transparente: a biomembrana.

Ao ser colocado na pele em ferida aberta, o filme é progressivamente absorvido e promove a ação cicatrizante. “É uma liberação controlada”, diz a Profª Nylane. “As proteínas vão saindo aos poucos. Quando são aplicados géis, às vezes a pele não absorve, mas isso não ocorre com a membrana.” A pesquisa foi financiada com recursos do Programa de Pesquisa para ao SUS (PPSUS) e da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap).

Com informações: Agência UFC

22:47 · 07.04.2013 / atualizado às 01:50 · 08.04.2013 por
Físico Harry Stanley recebe título de professor honoris causa das mãos do reitor da UFC, Jesualdo Farias Imagem: Coordenadoria de Comunicação Social e Marketing Institucional da UFC
Físico Harry Stanley recebe título de professor honoris causa das mãos do reitor da UFC, Jesualdo Farias Imagem: Coordenadoria de Comunicação Social e Marketing Institucional da UFC

O reconhecimento de cientistas brasileiros no exterior pode ser uma das formas mais claras de demonstração do crescimento da Ciência no País, mas o inverso também é um bom indicativo disso.

Um exemplo de que a Ciência não tem mesmo fronteiras foi o que aconteceu na última sexta-feira na Universidade Federal do Ceará (UFC). O Professor Harry Eugene Stanley, da Universidade de Boston, nos Estados Unidos recebeu da instituição cearense o título de professor honoris causa

Stanley trouxe contribuições essenciais para a Física Estatística e tendo trabalhos de destaque sobre transições de fase, teoria da percolação, sistemas desordenados, fenômenos de agregação, polímeros e Física Biológica. Já produziu contribuições na área de sistemas complexos, tais como quantificar as correlações entre os componentes do cérebro com a doença de Alzheimer. Hoje, sua pesquisa se concentra na compreensão do comportamento anômalo da água líquida.

Por suas contribuições científicas na Física das transições de fase e fenômenos críticos, recebeu em 2004 a Medalha Boltzmann, concedida pela União Internacional de Física Pura e Aplicada, a mais alta distinção acadêmica da Física Estatística. Também é detentor do Prêmio Julius Edgar Lilienfeld, da Sociedade Americana de Física. Até hoje, o físico tem 1.126 artigos científicos publicados em periódicos indexados, que contam com 57.230 citações, e orientou 106 alunos de doutorado, tendo colaborado com 131 pós-doutorandos e professores visitantes.

Stanley ocupa cargos simultâneos de professor honorário na Universidade de Ciência e Tecnologia do Leste da China, no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Xangai, bem como nas universidades de Pavia e de Eotvos Lorand, em Budapeste. Na UFC, o professor tem contribuído com o Departamento e da Pós-Graduação em Física Computacional, liderado pelo Prof. José Soares de Andrade Jr.

Física cearense pode ser uma das melhores do mundo

Homenageado, Stanley afirmou que a honraria o deixou  “tocado e agradecido, principalmente pelo fato da distinção ter vindo de uma universidade do Nordeste, que criou um departamento de Física a partir do nada e é muito recente, se comparada a universidades centenárias, mas já pode ser considerada uma das melhores do País e será uma das melhores do mundo”. O Reitor da UFC, Jesualdo Farias, presidiu a solenidade de entrega do título. 

O Professor José Soares Andrade Jr. ressaltou a semelhança entre os estados do Ceará e de Oklahoma, onde o pesquisador homenageado nasceu. “Oklahoma é reconhecido como o verdadeiro representante da famosa hospitalidade e generosidade sulista da América, fama igualmente reputada aos nordestinos cearenses. Stanley pautou e vem pautando suas relações humanas, sejam elas pessoais ou profissionais, no respeito mútuo, na dignidade e, mais importante, em sua infinita compreensão da complexidade humana”.