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Categoria: Crise hídrica


09:41 · 05.08.2016 / atualizado às 09:41 · 05.08.2016 por

Por Antônio Cardoso

 

Em discurso ontem, no plenário da Assembleia, o deputado Renato Roseno reclamou providências do Governo para atender a população que está sentindo a falta d'água Foto: José Leomar
Em discurso ontem, no plenário da Assembleia, o deputado Renato Roseno reclamou providências do Governo para atender a população que está sentindo a falta d’água Foto: José Leomar

O deputado estadual Renato Roseno (Psol) comparou, ontem, em discurso na tribuna da Assembleia Legislativa, a invasão da Secretaria de Recurso Hídricos do Ceará, ocorrida na quarta-feira (03), com o Movimento Contra a Carestia, registrado nas décadas de 70 e 80, quando, conforme o parlamentar explicou, com os altos índices de industrialização ocorridos no passado, o país cresceu economicamente, porém, gerando concentração de renda e grande desigualdade social. Para os trabalhadores restavam salários desvalorizados e carestia dos produtos.
O resultado disso tudo foram atos que ficaram conhecidos na história como Movimento Contra a Carestia, iniciados em 1977, e que se repetiram em 1983, mesmo ano em que uma série de entidades formaram o movimento Jornada de Luta Contra a Fome. No Ceará caravanas do Interior se deslocaram em marcha até a frente da Assembleia Legislativa, em Fortaleza. “Há 33 anos cerca de 12 mil camponeses, trabalhadores rurais e sertanejos de todo o Ceará, vieram para a Assembleia denunciar o abandono do Estado frente a sua condição perante a seca. Estavam abandonados e só lhes restavam as frentes de serviço”, relatou. “Estamos no século XXI, lidando com temas que o século XIX já estava habituado a lidar”.
Segundo Roseno, mais de três décadas depois, ativistas, camponeses e aqueles que militam na região do semiárido ocuparam a sede da Secretaria de Recursos Hídricos em batalha pela água. “Mais uma vez, movimentos do Cariri, Vale do Jaguaribe, Sertão Central e dos litorais, se deslocaram para reclamar da ausência de políticas de convivência com o semiárido”. Entre as demandas dos manifestantes, ele relacionou o acesso das comunidades a mananciais de águas subterrâneas, explorado pelo agronegócio e a melhoria da qualidade da água, posto que, no Rio Quixeré, por exemplo, análise da água dos poços situados no leito, constatou a presença de 11 tipos de agrotóxicos. “Isso significa que foi encontrado veneno. Portanto a luta é também pela qualidade e não apenas pela quantidade”.
O socialista pregou que as falhas do passado deveriam ter servido de aprendizado para a atual geração. O que não aconteceu. “Deveríamos ter aprendido com a história, e não impulsionado um modelo econômico que atraiu empresas hidro intensivas, que consomem muita água”.
Ele contou que três termelétricas instaladas com recursos do Estado, tendo assegurado abatimento no valor da água e isenção fiscal, consomem água suficiente para matar a sede de mais de 6% da população. “O Ceará tem, hoje, 72% da outorga de água bruta voltada para agronegócios e indústrias, contrariando as leis de Política Nacional e Estadual de Recursos Hídricos, quando ela diz que, quando há escassez de água, a prioridade no uso deve ser para o consumo humano e dos animais”.
O parlamentar apontou que, a cada segundo em que as térmicas funcionam, são gastos 900 litros de água. “Isso dá 10 vezes o consumo de uma cidade de médio porte. Não tem sentido manter essas térmicas abertas, causando poluição ambiental, produzindo poucos empregos, enquanto o povo cearense passa sede”. Ele cobrou que o governador Camilo Santana tome a decisão de cortar a água do setor e priorizar o consumo humano. “O governador declarou que, se necessário tomará a atitude. Mas já se faz necessário. A hora é agora. No passado a luta foi contra a fome. Hoje precisamos nos aliar aos que batalham pela água”, destacou.
A deputada Rachel Marques (PT) disse concordar em partes com o pronunciamento de Roseno. Ela reconheceu a luta dos cearenses em busca da garantia de algo fundamental como a água. “Mas discordo quando fica a crítica de que o governo não mostra sensibilidade e preocupação. Medidas estão sendo tomadas para garantir que a água chegue até a população nesse momento difícil. São medidas emergenciais como as adutoras, carros-pipas, e obras estruturantes como o Cinturão das Águas para receber as águas da Transposição”, rebateu a petista. “Claro que precisamos avançar ainda mais e temos essa preocupação”.