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Categoria: Cristovam Buarque


11:14 · 22.01.2016 / atualizado às 11:20 · 22.01.2016 por

Na longa entrevista que concedeu ao jornalista Adriano Brito da BBC Brasil, o senador Cristovam Buarque diz que Ciro Gomes entrou no PDT para ser candidato a presidente da Repblica, por indicao de Lula, para ser uma alternativa do PT no caso de o ex-presidente no poder ser o candidato. Ele tambm defende a mesma tese de Cid Gomes, registrada neste Blog, de que Dilma deveria se desligar do PT.

Buarque, ex-petista que h alguns anos se filiou ao PDT de Braslia,quer ser candidato a presidente, mas reconhece que a preferncia da cpula do seu partido pelo nome de Ciro Gomes, apresentado desde a sua filiao ao PDT, no ano passado, pelo prprio presidente nacional da agremiao, Carlos Lupi, como candidato sucesso da presidente Dilma Rousseff.

Leia a entrevista:

PT se ‘autoassassinou’ e governo est em fase terminal, diz ex-ministro de Lula

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Adriano Brito – @adrianobrito
Da BBC Brasil em So Paulo


  • Reproduo de vdeo/UOL

H pouco mais de dez anos, o senador Cristovam Buarque deixou o PT aps uma srie de desgastes que levaram sua demisso, por telefone, do cargo de ministro da Educao e no embalo da ecloso do escndalo do mensalo – ele foi um dos integrantes que no concordaram com a resposta dada pelo partido e pelo ento presidente Luiz Incio Lula da Silva s irregularidades reveladas poca.

Hoje, ensaia um novo desembarque, desta vez do PDT, que, nas palavras de Cristovam, “no existe” como partido, pois virou um “puxadinho do PT” controlado pelo ex-ministro Carlos Lupi que j colocou como candidato prxima corrida presidencial um nome escolhido por Lula – Ciro Gomes – para “preencher o vazio” caso o petismo no se recupere a tempo de 2018.

Segundo o senador, “o PT se autoassassinou” ao desconsiderar a meritocracia na nomeao de cargos e no pensar um projeto de longo prazo para o pas.

Diz ainda que o “fracasso” da gesto Dilma Rousseff se deve principalmente a erros cometidos pela presidente em seu governo, que est em “fase terminal”.

Aos 71 anos, o ex-governador do Distrito Federal e ex-reitor da UnB (Universidade de Braslia) defende, porm, que se pense menos no resultado do pedido de impeachment da presidente, e mais em que governo o pas ter aps o processo – com ou sem Dilma.

Confira trechos da entrevista BBC Brasil, feita por telefone.

BBC Brasil – A ex-senadora Marina Silva defendeu ao jornal “Folha de S.Paulo” que se agilize o processo contra a presidente Dilma Rousseff no TSE (Dilma e seu vice, Michel Temer, podem ter o mandato cassado se o Tribunal Superior Eleitoral entender que a chapa cometeu irregularidades na campanha), em detrimento ao pedido de impeachment em curso no Congresso. Como v isso?

Cristovam Buarque – Para mim, o importante no saber como isso termina, mas como comea o prximo momento. O chamado day after (dia seguinte). Acho que lamentavelmente a Marina no trabalha com o day after. Estou menos preocupado com se isso vai terminar com a continuao da Dilma, o impeachment ou a cassao.

Teremos o dia seguinte com o Temer em um governo de unidade nacional? Ou com a Dilma, com um governo de coalizo nacional? Se houver a cassao, a eleio em 90 dias vai permitir a construo dessa coalizo com um projeto alternativo? Essa a minha preocupao.

Qual seria o cenrio ideal?

Hoje, e ns dissemos isso a ela em agosto, a melhor alternativa seria a Dilma, mas com um governo que no fosse da Dilma. Ela sendo a “Itamar” dela prpria. No que consiste isso: ela dizer que no mais do PT, nem de qualquer outro partido, a no ser do “Partido do Brasil”.

Dizer que precisa da oposio e de todos para governar, compor um ministrio de unidade e com um programa de unidade, no qual a estabilidade monetria seja objetivo imediato, desde que no sacrifique conquistas sociais nem investimentos em infraestrutura. Definindo quem vai se sacrificar para que o Brasil seja reorientado e como vamos atravessar os trs anos at a prxima eleio.

Seria a continuidade do governo Dilma sem Dilma, uma espcie de presidente sem ser chefe de governo, com um “primeiro-ministro” – entre aspas, no precisa de parlamentarismo para isso. O Itamar (Franco, ex-presidente) conseguiu: o Fernando Henrique (Cardoso) foi o primeiro-ministro. Isso seria o ideal.

Mas no vejo na Dilma condies para isso. Tanto que ns, um grupo de senadores, fomos at ela em agosto, levamos um documento, propusemos isso, dissemos que estvamos dispostos a apoi-la. Ela ouviu com seriedade, carinho, nos dedicou muito tempo, mas no aconteceu nada. Perdeu a chance.

Na sua viso, por que o governo chegou a esse ponto? Quem tem mais culpa, Dilma ou o PT?

Acho que a grande culpa do PT.

O PT se autoassassinou. H uma diferena entre autoassassinato e suicdio: suicdio um gesto consciente, em que existe at uma dignidade; o autoassassinato nem consciente nem carrega dignidade.

O PT se autoassassinou por recusar o mrito nos seus dirigentes: nomeava ministro, vice-ministro, subministro, diretores apenas por interesses imediatistas, corporativos. Se autoassassinou por no pensar o mdio e longo prazo do Brasil, por ficar prisioneiro da prxima eleio, por abrir mo das reformas necessrias que poderia ter feito, sobretudo com a grande liderana que era Lula.

Agora, a Dilma colaborou. Ela poderia ter se “independizado” do PT, mas continuou dependente dele, e com isso destruiu seu governo.

Como v o papel do seu partido, o PDT, na base aliada?

O PDT, como partido, no existe: uma associao, um clube de militantes sob o comando absoluto do Carlos Lupi.

Em 2007, ele assumiu o Ministrio do Trabalho. De l para c, continua sempre junto ao governo em troca de ministrio e isso destruiu o PDT como partido, fez dele o que o Pedro Taques (ex-senador e atual governador do Mato Grosso) chamava de “puxadinho do PT”.

E a situao essa, ao ponto de hoje ele ter colocado um candidato a presidente escolhido pelo Lula, o Ciro Gomes, cujo papel preencher o vazio que haver se o PT e o Lula no se recuperarem do impacto.

Do impacto da Operao Lava Jato?

Da Lava Jato e do fracasso do governo Dilma. E um erro achar que esse fracasso decorre da Lava Jato. Do ponto de vista tico, sim, mas tambm dos erros que ela cometeu na conduo do governo.

Se fosse a Lava Jato sem inflao, com a economia crescendo, seria diferente: apenas o PT carregaria o problema. Mas temos recesso, inflao, infraestrutura desorganizada, crise de gesto. O problema a soma com a crise socioeconmica.

E o PDT optou equivocadamente, e digo isso desde 2007, em vez de ser uma alternativa para o Brasil, por ser coadjuvante de um partido e de um governo em fase terminal.

O que o manteve no PDT at hoje, ento?

Primeiro porque sair de um partido algo muito dolorido, complicado. E voc sempre fica acreditando que ele pode mudar.

E segundo, porque essa uma crise geral dos partidos.

como se no houvesse para onde ir?

isso. No s o PDT. O PDT perdeu a vergonha, mas os outros no demonstram ainda o vigor transformador.

Creio que um partido precisa de duas coisas: vergonha, do ponto de vista tico, e vigor transformador, do ponto de vista poltico. A gente sente que muitos tm vergonha na cara, mas fica se perguntando se tm esse vigor.

Alm disso, importante dizer com clareza: h trs anos o Carlos Lupi diz que vai sair do governo no ms seguinte. Reunia a ns senadores e dizia: “no prximo ms ns estamos fora do governo”. Passava o ms, a gente esperava, ele nos reunia e dizia a mesma coisa. No vou negar que cometi o erro de ficar esperando por esse ms seguinte.

A imprensa d como certo que o senhor vai para o PPS, que o convite j foi feito.

O convite foi realizado pelo meu velho amigo Roberto Freire, que meu companheiro desde a poltica estudantil em Pernambuco, ainda nos anos 60. Mas no vou tomar essa deciso em um perodo de recesso, antes de conversar com meus colegas do PDT do Distrito Federal e ouvir diferentes foras ligadas a mim.

Mas houve o convite, e eu no disse no.

O senhor foi procurado por outros partidos?

Outros partidos me procuraram, mas a sintonia com o PPS maior.

Est em seus planos se candidatar Presidncia em 2018?

Quando conversei com o Roberto Freire, ele falou nisso. Mas deixei claro: no vou para o PPS exigindo ser candidato Presidncia, e nem com o compromisso de ser candidato se o PPS quiser. No ser por essa razo (a eventual mudana).

At porque… Eu disse a ele que, na idade da gente, antes de tomar uma deciso to ousada como ser candidato a presidente, precisamos pensar se j no hora de comear a pensar mais na memria do que j fez do que na aventura do que vai fazer.

O senhor tem um histrico ligado aos chamados partidos de esquerda. Indo para o PPS, migraria para uma sigla que, para muitos, est mais direita e criticada como uma espcie de satlite do PSDB. Seus eleitores no estranhariam esse movimento?

Diferencio a palavra partido da palavra sigla. No mudo de partido. J mudei de sigla: era PT, virei PDT, mas sem mudar de partido. Se sair do PDT, e for para outra sigla, no mudarei de partido. Meu partido de que a gente precisa transformar a sociedade brasileira, e isso exige uma revoluo. E o elemento fundamental dessa revoluo garantir escola de qualidade para todos, por o filho do trabalhador na mesma escola do filho do patro, entre outros aspectos.

Agora, a sigla PPS vem do Partido Comunista. Voc pode dizer que o Roberto Freire esteve ao lado de gente do PSDB, mas voc no pode dizer que ele e os militantes do PPS so conservadores e de direita.

Continuo dividindo a poltica entre direita e esquerda. Mas no divido por sigla, e sim por compromissos. Para mim, compactuar com corrupo coisa de direitista. Mesmo que seja do PT, do PC do B.

O PT vai sobreviver a essa crise?

Veja bem, sobreviver, vai. Mas vai sobreviver cambaleante. E a pergunta para a qual eu gostaria de ter uma resposta sobre o que vir depois desse perodo em que o PT vai cambalear.

Vai cambalear para o lado dos corruptos, dos acomodados socialmente? Ou vai cambalear para o lado dos ticos e dos revolucionrios? Isso no d para saber.

A Cmara e o Senado so comandadas por parlamentares implicados na Lava Jato. Como isso influencia o funcionamento do Congresso neste ano?

Se continuar nesse ritmo, o impeachment ser um tema para todos, no s para a Dilma. E poder vir, sim, o povo na rua pedindo eleio geral, para todos os cargos. Porque no s a Dilma que est sob suspeio. Todos ns, que temos mandato, estamos.

H os “Cunhas” da vida, os outros, mas tambm os que no aparecem. Somos hoje um Parlamento sob suspeio, e nenhum de ns, portanto estou no meio, est fora da suspeio, da dvida, do questionamento da populao.

Temo que, se no formos capazes de cassar logo os corruptos conhecidos, vamos cair num processo de reao to forte da populao que teremos de fazer uma eleio geral para todos.