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Categoria: Representação


11:03 · 15.11.2016 / atualizado às 11:03 · 15.11.2016 por

Por Antonio Cardoso

No Brasil estão registrados atualmente, no Tribunal Superior Eleitoral, um total de 35 partidos políticos, mas isso pode não significar representatividade se considerados o número de abstenções registrado nas urnas no pleito deste ano e, principalmente, a pesquisa Datafolha de 2015, onde mostra que a fatia dos brasileiros que dizem não ter um partido de preferência saltou de 61% em dezembro de 2014 para 71% no ano passado.
A relação entre eleitores e partidos políticos constitui um dos aspectos centrais do ideal democrático. Porém, ao que parece, a representação política se encontra diante de uma grave crise, demonstrada pelo aumento no número de eleitores que não se identificam com os partidos.
Presidente do Partido Social Democrático (PSD), no Ceará, o deputado federal Domingos Neto endossa a pesquisa ao avaliar que a grande maioria do eleitorado não se vê representado pelas legendas. “Pela crise política atual é evidente que há o afastamento dos eleitores. Cabe a nós como lideranças de partidos nos aproximar desse público”.
Para o parlamentar, esse cenário pode passar por mudanças positivas desde que aconteçam avanços numa verdadeira Reforma Política, mais profunda do que a chamada minirreforma, apresentada em 2015. “Tem que ser implantada a cláusula de barreira e o fim das coligações. Esses são exemplos do que pode assegurar a existência de partidos mais condizentes com o que o Brasil precisa”, aponta. “Hoje há candidato que desconhece a história do próprio partido”.
Bandeiras
Domingos analisa que o que existe mais fortemente hoje é o voto na personificação, e não no partido e sua ideologia. “Tem que ser feita na reforma a escolha entre fortalecer os partidos e, para isso se faz necessário um conjunto de legislações, ou fortalecer as lideranças, podendo ter candidato, inclusive, sem filiação partidária”, conta. “São questões que precisam ser mais debatidas, mas o clima é pelo fortalecimento dos partidos, que eles tenham bandeiras mais claras para o eleitor saber diferenciar melhor o que cada um representa”.
O deputado federal Gomes de Matos (PSDB) diz não acreditar que ainda exista relação entre “pessoa” e “partido”. Para ele, infelizmente os partidos estão fragilizados e não existe representatividade política. “Precisa diminuir o número de partidos e ter efetivamente essa análise com mais detalhes”.
Na visão do tucano, a quantidade de legendas ocasionam na busca pelo lado mais fácil de entrar em cargos proporcionais. “Finda nos que querem ter mandato buscando o mais fácil de ser eleito e inexistindo a defesa da linha programática dos partidos”. Por fim, Matos diz que, se perguntar a boa parte dos que foram eleitos, com certeza não conhece o programa do partido.

09:21 · 23.10.2016 / atualizado às 09:21 · 23.10.2016 por

A historiadora Mary do Del Priore, colunista convidada do jornal Folha de S.Paulo, escreveu neste domingo com o título: Raro era o político que não citasse Camões, Cervantes ou Vieira mostrando o diferencial da representação política brasileira do passado e a atual, portanto, muito interessante que todos tomem conhecimento e possam avaliar melhor no momento de escolher os nossos legisladores e  governantes.

Leia a íntegra do artigo:

Políticos têm mãe e têm passado. As mães são costumeiramente lembradas em época de tensão no plenário. Quanto à história, estudiosos vêm se perguntando quem foram eles em outros tempos e em outras casas legislativas.

Pesquisas revelam que, durante o Império, a Câmara dos Deputados e o Senado foram ocupados por políticos altamente qualificados para o exercício das funções públicas. De início, grandes proprietários de terras, pouco a pouco foram sendo substituídos por padres, médicos e magistrados.

Egressos da Universidade de Coimbra, muitos tiveram papel fundamental no processo de emancipação do Brasil e na construção do jovem Estado, deixando um legado de projetos e leis, cuja influência se estendeu por todo o Império. A maioria era formada em direito.

Atuaram de 1822 até o final da Regência, em 1840, e foram responsáveis por intensos debates sobre a descentralização político-administrativa e a criação das Assembleias Legislativas Provinciais.

Essa foi uma época em que a Câmara dos Deputados foi animada por bacharéis, tanto entre liberais moderados quanto por ultraconservadores. De Honório Hermeto Carneiro Leão a Francisco Acaiaba de Montezuma, inúmeros tinham diploma português.

Outros tantos, desde a criação dos cursos de direito no Brasil, se diplomaram em Olinda e São Paulo. Entre os suplentes, a maioria também era de advogados. A partir de 1841, médicos, padres e comerciantes deram lugar, sobretudo, aos funcionários públicos: secretários provinciais, militares, juízes, jornalistas e desembargadores.

Leitores de Locke, Montesquieu, Paine e Rousseau. Só na Assembleia da Bahia, para ficar num exemplo, mais de 40% eram diplomados. No Segundo Reinado, apesar de conservadores e liberais terem uma agenda comum e arcaica –a escravidão e a monarquia–, conheciam bem a filosofia liberal clássica que usavam de um jeito ou de outro, em favor de seus pleitos.

Quem ignora Joaquim Nabuco, Cotegipe, Rio Branco, Taunay, Ruy Barbosa e outros nomes que brilharam na Assembleia e nos legaram livros, discursos, memórias? Raro então o político que desconhecesse história geral e do Brasil, que não citasse Camões, Cervantes ou Vieira, que não frequentasse gabinetes de leitura ou não fosse membro de uma sociedade literária ou do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Sem contar que as lojas maçônicas, que tanta influência tiveram entre eles, continham bibliotecas fartíssimas com obras de física, química, medicina, ciências naturais e filosofia, como, por exemplo, a criada, em 1852, pelo deputado provincial Joaquim José Teixeira Leite, o barão de Itambé: a Benemérita Loja Capitular Estrela do Oriente, em Vassouras.

No passado, tivemos políticos diplomados no Brasil ou no exterior. Hoje, quase metade dos prefeitos não têm curso superior e um terço dos deputados não cursou faculdade. Não espanta se confundirem o “Pequeno Príncipe” de Saint-Exupéry com “O Príncipe” de Maquiavel. Temos um Estado inchado e um Legislativo abarrotado.

Uma consulta pública no site do Senado sobre um projeto de autoria do senador Jorge Viana, do PT, para a redução do número de deputados e senadores (de três para dois por Estado da Federação), está bombando nas redes sociais e já conta com mais de 500 mil assinaturas a favor e apenas umas 1.500 contra.

Como se não bastasse, candidatos a vereador nas últimas eleições foram apelidados por um humorista de “Galera Medonha”: o João do Biscoito, o Serginho da Empada, o Carlinhos da Suruba. A PEC apresentada pelo deputado Irajá Abreu, do PSD, que afirma ter no Legislativo “parlamentares com problemas de leitura”, poderá corrigir o problema. Político sem mãe não existe. Mas sem educação é péssimo para o país.