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Categoria: Rligiosos


08:54 · 20.06.2016 / atualizado às 08:54 · 20.06.2016 por

Por Miguel Martins

Tem sido cada vez mais frequente a relação entre política e religião nas discussões e votações da Assembleia Legislativa do Ceará. Propostas de cunho religioso são apresentadas e aprovadas na Casa com o objetivo, segundo os deputados estaduais membros da chamada Bancada Religiosa, de construir uma sociedade mais fraterna e solidária. Na contramão deste discurso, no entanto, outros parlamentares criticam a presença cada vez mais constante de interesses religiosos na esfera pública.
Logo ao iniciar a sessão ordinária do dia, o presidente em exercício solicita a proteção de Deus para mais um dia de trabalho. O que parece apenas formalidade do processo de abertura das plenárias, a cada dia que passa, tem se mostrado mais presente nas discussões e até mesmo nas propostas apresentadas por parlamentares na Casa.
Na sessão deliberativa da última quinta-feira (16), a Assembleia aprovou uma nota de repúdio endereçada à Universidade Federal do Ceará (UFC) por permitir, em seu espaço, a apresentação de uma peça que, segundo a autora do requerimento, Silvana Oliveira (PMDB), “insultou a sensibilidade social, bem como a religiosidade” ao se utilizar de símbolos da Igreja Católica em uma apresentação artística.
Uma das porta-vozes dos evangélicos na Casa, Silvana é conhecida pelos pronunciamentos exaltados em nome da fé e por posicionamentos conservadores. É dela a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que deu mais autonomia aos templos religiosos no Ceará, e também foi a parlamentar quem iniciou uma verdadeira cruzada contra diversos pontos do Plano Estadual de Educação (PEE).
Na mesma semana em que conseguiu aprovar nota de repúdio direcionada ao reitor da UFC, ela comemorou o Dia do Pastor (data que também propôs) durante sessão solene na sede do Poder Legislativo.
A parlamentar tem, contudo, o embate travado contra alguns itens do PEE como sua maior vitória. “Se não fosse essa bancada, teríamos hoje um Plano pautado apenas pela comunidade LGBT. Não foi fácil, mas a bancada se movimentou e teve coragem de dizer que o Plano deveria ser neutro”. Para ela, o momento do País fez com que a população começasse a “acordar” por “representações legítimas de ideias, pensamentos e causas”.
Silvana usa a tribuna como se em uma igreja estivesse, inclusive, não são raras as vezes que dedica parte de seus pronunciamentos para parabenizar determinada denominação religiosa ou líder religioso. “A gente vê que o povo cristão está representado, porque a sociedade não quer ser pautada por um pequeno grupo em nome de uma falsa democracia. Digo o que muitos querem falar, e eles se sentem representados”, justificou.
Membro da Comunidade Católica Shalom, Carlos Matos (PSDB), ao lado de Walter Cavalcante (PMDB), é um dos principais deputados a defender os princípios da Igreja Católica na Casa. Para ele, a luta de classes não gerou o resultado desejado por seus líderes e, portanto, é preciso defender uma sociedade mais fraterna e solidária.
O tucano se disse contrário ao PEE porque ele ia de encontro, inclusive, a acordos internacionais. “O que fizemos foi lutar para ter uma lei que possa, de fato, contemplar o interesse da sociedade como um todo”.
David Durand (PRB), que é pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, afirmou que é necessária a participação de cristãos na política, uma vez que, em sua opinião, os valores da família e do Cristianismo propriamente dito foram colocados “na lata de lixo”. Segundo ele, quanto mais cristãos na política, mais melhorias terão para a formação do caráter e da ética do brasileiro.
Há quem discorde da presença cada vez mais constante de religiosos ferrenhos na construção do pensamento político da sociedade brasileira. É o caso do deputado Renato Roseno (PSOL), que vez por outra tem participado de embates com a Bancada Religiosa na Casa.
Segundo ele, tal participação é um retrocesso para o Brasil, visto que a separação entre religião e Estado, em sua opinião, foi uma grande vitória para a sociedade. “A laicidade é um direito da pluralidade, em que todos têm que ter sua fé respeitada. Para haver isso, não se pode levar para a esfera pública seus interesses privados. Isso é um retrocesso”, considerou.
Já o deputado Elmano de Freitas (PT), que iniciou a carreira política na Igreja, disse que alguns valores da religião, como amor e preocupação com os mais humildes, em regra, são bons para a política. No entanto, quando alguém é motivado pela religião e quer que isso seja regra para direcionar toda a sociedade é ruim. “Se for uma posição fundamentalista, acho que é ruim, porque no mundo inteiro, em regra, funciona como limitação dos direitos dos outros. O espaço da política é para a realização de políticas públicas”, defendeu.