Assinada por Henrique Nunes, o Caderno 3 do Diário do Nordeste publica, sob o título Glamour à moda antiga a seguinte matéria sobre o cantor cearense Paulo José e seu último CD Minha Voz, lançado com os elo da Som Livre: “O cantor Paulo José optou por uma trajetória mais voltada a eventos sociais, onde desenvolve um estilo influenciado por grandes intérpretes da canção mundial, de Frank Sinatra e Charles Aznavour a Cauby Peixoto. Um estilo que une o sempre questionável ´bom-gosto´ na escolha do repertório e dos arranjos com uma técnica vocal eloqüente, distante do padrão popular atual. Assim, lançou quatro álbuns de caráter religioso, que venderam mais de cem mil cópias. Seu primeiro álbum de cunho mais popular distancia-se um pouco desta estética. Sem descartá-la. Produzido por José Milton, com apoio do grupo M. Dias Branco e da Fundação Beto Studart, no badalado estúdio Companhia dos Técnicos, onde Paulo José pôde cantar “ao vivo”, mais próximo do velho estilo das gravações, ´Minha Voz´ é constituído por um repertório mais popular, em que Paulo José envereda pela MPB e pela música latina, além dos standards. No entanto, o álbum é coerente com a linguagem do cantor, em arranjos sofisticados, inclusive na única canção de motivação religiosa: a ´Ave Maria´ de Aznavour. O glamour domina o projeto. Inspirada no filme The Old Fashioned Way (1934, de William Beaudine, com W.C Fields), Old Fashioned Way ou Les Plaisirs Démodés, de Charles Aznavour, representa bem o estilo de Paulo José. Ela ganhou versão orquestrada na trilha do polêmico De olhos bem fechados, despedida de Stanley Kubrick em 1999. Nela, Paulo José tem a companhia da big band discreta de Eduardo Souto Neto (entre saxes, pistons e trombones de Idriss Boudrioua, Marcelo Martins, Daniel Garcia, Henrique Band, Jessé Sadok, Altair Martins, Márcio André, Aldivas Ayres e Sérgio de Jesus), também responsável pelos arranjos de Dorothy L´amour (de Fausto Nilo e Petrúcio Maia, que abre o projeto em ritmo de bolero), Spotlight (de Carlos Colla e Maurício Duboc, do repertório de Cauby Peixoto) e Vieste (Ivan Lins e Vitor Martins, já em um dos momentos mais “populares” do álbum). Old fashioned way, algo como “à moda antiga”, é certa nos “bailes” de Paulo José, que chega a levá-la com uns “scats”. Assim como a “outra religião” do cantor, também por Aznavour, em sua Ave Maria, acompanhada pelas 56 Meninas Cantoras de Petrópolis, além do naipe de cordas (que inclui o baixista cearense Jorge Helder entre músicos como o spala Bernardo Bessler) e de Assiere ao piano, com Paulo José atingindo tons altos e de boa extensão. — Cordas, metais e lirismo — Única canção cearense do álbum, Dorothy L´amour também ganha este toque de sofisticação, como a francesa, guiada pelo piano de Itamar Assiere e depois ganhando não o arranjo de metais, mas cordas que também destacam o ritmo latino da canção, com direito a solo de sax alto de Zé Canuto. A percussão de Don Chacal é outro charme a mais. A latinidade presente em momentos mais intimistas ganha mais destaque na salsa contemporânea Color Esperanza, do argentino Diego Torres. Pra dançar com mais energia. Outros momentos glamourosos são Spotligth e Hello, Detroit (B.Gordy/W. Hutchison, do repertório de Sam Davis Jr). Na primeira, a big band e o intérprete fazem a festa. “Faz de conta que eu sou Fred Astaire e você Ginger Rogeres”, diz a letra que fala ainda em Stranger´s in the Night, clássico de Frank Sinatra… Helo, Detroit, a voz e piano, até a chegada dos metais e daquela bateria cheia de suingue, entre um Paulo José completamente à vontade, inclusive para deixar a “orquestra” bailar mais, como em Old Fashioned Way. A MPB está presente, além de Vieste, em Nascente (Murilo Antunes e Flávio Venturini, do repertório de Beto Guedes), ambas introduzidas pelo acordeom de Itamar Assiere. Nesta, ele assume o piano e volta aos foles entre as cordas, logo após Dorothy L´amour, no comecinho do CD, anunciando sua proposta de revezar temas mais eloqüentes com outros em que Paulo exercita um estilo mais comedido, mas não abre mão de confirmar toda a sua extensão vocal. Em Minha Voz (João Lyra/Paulo César Pinheiro), Paulo José flui uma interpretação mais empostada, usando “o dom que Deus lhe Deu”, seu “turbilhão” vocal, entre as cordas e o oboé de Carlos Prazeres. Mais comedido, Paulo soará em outro bolero, E era Copacabana (Carlos Lyra e Joyce), entre cordas, trompete de Jessé Sadok e novamente Chacal. Outra mineira, Cantar, do pai de Beto, Godofredo Guedes, talvez seja a maior surpresa do repertório. Introduzida pelo acordeom de Cristóvão Bastos, depois ao piano, a canção tem o arranjo mais discreto, de João Lyra, o dono do violão. Em O que é amar, de Johnny Alf, também clássico no dueto entre Claudette Soares e Dick Farney, ele ajuda a revelar o lado mais intimista de uma banda que tem nomes como Paulo Braga (bateria), João Lyra (violão) e Cristóvão Bastos (piano e arranjo desta e de outras faixas). A religião musical de Paulo José alça novos vôos.