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Exóticas predominam na flora urbana de Fortaleza

09:11 · 10.03.2012 / atualizado às 09:11 · 10.03.2012 por

Por Maristela Crispim

O grupo Edson Queiroz lançou a campanha “Plante uma árvore. Semeie esta ideia” com o objetivo de chamar a atenção da população de Fortaleza para a importância do verde em nossas vidas.

Um dos pontos de destaque neste tipo de campanha é o valor educativo que conduz, como uma discussão mais atenta sobre como a nossa cidade é planejada, administrada e como ocupamos os espaços públicos.

Como o professor de Paisagismo da Universidade Federal do Ceará (UFC), Ricardo Bezerra, me disse, em entrevista realizada nesta semana, o gesto de plantar árvores também é influenciado pela moda, já que as pessoas costumam escolher a espécie que está em evidência.

Mas isso pode ameaçar a biodiversidade local se não houver um cuidado com a escolha das espécies, pois a maioria das árvores cultivadas em Fortaleza são exóticas (ou seja, são plantas que vêm de fora) e algumas dessas espécies (como o nim indiano) podem competir com as plantas nativas.

Em 2006, o então estudante de biologia Marcelo Freire Moro fez um inventário das árvores existentes nos espaços públicos do bairros Benfica e Jardim América (ruas e praças) com o objetivo de fazer um levantamento qualiquantitativo da arborização.

Do total de 2.075 indivíduos amostrados, ele descobriu que a grande maioria era exótica, ou seja, trazida de fora do Brasil para cá: “A despeito da grande diversidade de espécies nativas disponível para cultivo ornamental na flora brasileira, a arborização de Fortaleza é essencialmente exótica e o cultivo excessivo de exóticas na arborização desvaloriza a flora nativa.”

Moro lembra que exótico é qualquer organismo levado pelo ser humano para um local além da ocorrência natural daquela espécie: “Uma planta trazida da África, Ásia ou mesmo da Amazônia para o Ceará, mas que não ocorria naturalmente aqui é exótica”.

Na Biologia, o termo “exótico” (que significa “aquilo que vem de fora”) é usado para contrastar com o termo “nativo”, que são as plantas que existem naturalmente em uma dada região.

Segundo suas informações, a maioria das exóticas não se reproduz sozinha e, portanto, não causa problemas. Mas algumas delas conseguem se adaptar bem e começam a se reproduzir e se espalhar, tornando-se invasoras; e, ao chegar a locais com vegetação natural, acabam competindo com as plantas nativas e causando danos à biodiversidade local.

É o caso da viuvinha-alegre (Cryptostegia madagascariensis), nim-indiano (Azadirachta indica) e algaroba (Prosopis juliflora), que depois de trazidas para o Ceará, estão se espalhando e competindo com as plantas nativas.

 

Segundo Moro, hoje há muito mais espécies da Ásia do que do Brasil em Fortaleza: “Essa é uma grande contradição, pois o Brasil é o país mais rico biodiversidade do mundo. O Ficus benjamina, o nim indiano, o jambeiro, a castanholeira, são todas espécies da Ásia”, “Enquanto plantas nativas como o juazeiro, maçaranduba, jenipapo, pitombeira e murici raramente são cultivados aqui”.

Ele destaca que é raro encontrar exemplares de murici, juazeiro, pitombeira, catanduva ou maçaranduba, que são árvores nativas do Ceará. “As pessoas em Fortaleza já não conhecem mais as plantas nativas do Ceará”, destaca.

“Eu contei todas as árvores desses dois bairros e, infelizmente, as árvores exóticas perfaziam 95% da arborização, deixando as nativas (e isso no País de maior diversidade biológica do mundo) com menos de 5% dos indivíduos”, completa.

Quem desejar ler um pouco mais sobre a questão da biodiversidade nativa na arborização de Fortaleza, pode consultar os dados da sua monografia de graduação, na revista Ciência Florestal (http://cascavel.ufsm.br/revistas/ojs-2.2.2/index.php/cienciaflorestal/article/viewFile/4524/2684).

“O site ‘Flora do Ceará’ (http://www.floradoceara.com.br/), do Agrônomo Antônio Sérgio, é uma fonte extra de dados sobre a flora do Ceará, como um banco fotográfico onde as pessoas podem conhecer mais sobre as nossas plantas”, lembra Marcelo.

Árvores nativas sugeridas para a arborização de Fortaleza

  • Pitombeira (Talisia esculenta): oferece uma ótima sombra e seus frutos podem ser consumidos pelas aves e pelas pessoas.
  • Ipê-roxo (Handroanthus impetiginosus): possui flores muito bonitas. Perde todas (ou parte das) folhas durante a floração, e se enche de flores roxas, oferecendo um espetáculo visual.
  • Caraúba ou ipê-amarelo-do-cerrado (Tabebuia aurea): Fornece sombra e tem flores amarelas muito bonitas, que atraem beija-flores.
  • Peroba ou ipê-branco (Tabebuia roseoalba): árvore nativa das florestas do litoral do Ceará, possui belíssimas flores brancas.
  • Joazeiro (Ziziphus joazeiro): ótima sombra e frutos que alimentam as aves e humanos, ricos em vitaminas. É uma das árvores mais marcantes do sertão do Ceará, mas é muito rara na arborização de Fortaleza.
  • Angelim (Andira surinamensis): tem boa sombra e flores muito bonitas. Durante a floração sua beleza chama a atenção de quem passa pelas ruas.
  • Murici (Byrsonima sericea): essa árvore, nativa do litoral e serras do Ceará, é bem ornamental, com belas flores amarelas e frutos que atraem aves, além de sombra agradável. Uma boa opção para ruas e praças.
  • Pau-branco (Auxemma oncocalyx): flores bonitas e sombra moderada. Já é usada na arborização de Fortaleza, mas ainda com baixa abundância.
  • Oiti (Licania tomentosa): uma das poucas árvores nativas a estar presente entre as mais cultivadas em Fortaleza. Tem ótima sombra. Indivíduos muito antigos estão presentes em algumas avenidas e praças de Fortaleza, especialmente no Centro.
  • Oiticica (Licania rigida): Outra árvore emblemática da Caatinga, pois fica muito grande e não perde as folhas na estação seca. É uma espécie de grande porte, adequada à arborização de praças e avenidas. Apenas alguns exemplares antigos estão presentes em Fortaleza.

Fonte: Marcelo Freire Moro

Comentários 20

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Joilson

06/04/2018 as 23:25

Olá boa noite queria saber ser vc fariam doação de sementes,estou reflorestado um roça com parte da mata e queria utilizar umas frutas e árvores de outros estados queria ver ser teria como me envia por gentileza. Meu telefone 01527997093995 ficarei muito grato

Bruna Gonçalves Batista

24/06/2017 as 14:36

Gostaria de saber se no cocó existe árvore a moringa olifera

Maristela Crispim

01/11/2016 as 18:51

Não seria o abricó de macaco?

Argentina Scipiao

25/10/2016 as 10:20

Tenho interesse em saber o nome de uma árvore na praça da imprensa com uma flor grande, perfumada. Acho essa Flôr linda e gostaria de saber onde posso conseguir uma muda para levar para meu ditou na Serra do Vicente.

NEYLON NUNES

09/11/2015 as 14:57

AO FAZER MINHA MONOGRAFIA CONSTATEI ISSO EM MEU MUNICÍPIO, POIS DEFENDO O PLANTIO DE NATIVAS NA CIDADES ,SETENTA POR CENTO DO COMPONENTE VERDE DA MINHA CIDADE SÃO EXÓTICOS….

João Bosco da Costa Nunes

23/07/2015 as 17:33

Na verdade quase tudo que no Brasil é cultivado ou explorado pode ser considerado exótico. Porém aquelas plantas que foram introduzidas pelos Portugueses no inicio da colonização dessa Terra, encontram-se bem adaptadas e, em geral chamamos de nativas. como exemplo temos o coqueiro, o cajueiro, mangueira, dentre outras.
Lichia, espatodea, diversas acácias, fruta-pão, etc. são exóticas.

Francisca

04/04/2015 as 16:17

Exótica ou não, quanto maior o numero de mudas que começarmos a plantar e cultivar AGORA com certeza teremos árvores tão necessárias em nossa região já tão devastada.

Maristela Crispim

20/10/2012 as 16:47

Infelizmente não sei responder a sua pergunta. Só conheço dois lugares que comercializam mudas: o Horto Municipal de Fortaleza e os pontos de venda de plantas na Praça Eudoro Correia

mario sales

20/10/2012 as 15:39

comprei casa na praia de aguas belas e queria colocar arvores de fruto e outras sobre tudo coqueiros gostaria de saber a loja mais perto e alguns preços obrigado

ANTONIO SÉRGIO F. CASTRO

19/03/2012 as 10:37

Sem CONHECIMENTO não se pode esperar que haja avanços. A ciência é fundamental no processo de desenvolvimento e de conservação ambiental. Não basta só plantar, é preciso conhecer a realidade natural e buscar a aplicação de métodos e técnicas com o fim da proteção das espécies e o plantio adequado com a planta certa no local certo, garantindo ademais a sobrevivência das árvores, evitando apenas discursos vazios de significado. Se os órgãos públicos fazem a coisa errada não é culpa dos acadêmicos – muitos talvez não se engajem em algo “prático”, mas seus estudos são necessários àqueles que queiram fazer algo “prático”. Biodiversidade é algo muito sério e tem a ver com nossa própria sobrevivência. Como conhecer nossas árvores nativas sem pesquisa ? Perguntando ao padeiro ? E a divulgação delas na internet é ferramenta fundamental pois “tira” conhecimento das prateleiras e gavetas como dito acima e compartilha com milhares de pessoas interessadas e para aqueles que querem de fato CONTRIBUIR temos o Movimento Pró-Árvore justamente para isto – questionar, intervir, contribuir, com CONHECIMENTO e não apenas retórica. E mãos à obra !

Marcelo Moro

13/03/2012 as 09:38

E acho importante deixar claro um ponto. Essa não é uma matéria para incentivar a retirada das árvores exóticas da cidade, mas uma matéria para chamar a atenção para o fato de que Fortaleza tem excluído quase completamente as plantas nativas da arborização. Acharia curioso um ambientalista defender que a biodiversidade é um assunto irrelevante, mas por falta de percepção de que a arborização faz parte do contexto de “biodiversidade”, as vezes se defende a ideia de que arborização é sombra, enquanto ela é muito mais que isso. Sombra poderemos obter com qualquer espécie. Biodiversidade nas cidades não. Vale o exemplo de Curitiba (http://www.biocidade.curitiba.pr.gov.br/indexpt.html), que lançou o programa “plantas nativas”, objetivando trazer as plantas da região (inclusive espécies ameaçadas de extinção) para a arborização (http://www.biocidade.curitiba.pr.gov.br/biocity/48.html)

Marcelo Moro

13/03/2012 as 09:25

Ao contrário do que os amigos pensam, a discussão sobre biodiversidade nativa não é uma “divagação acadêmica”. Em primeiro lugar porque parte do processo de educação ambiental passa pela divulgação dos organismos nativos (imagine uma campanha de preservação da Semace com leões e girafas…). Há, portanto, a necessidade de divulgação da flora local. Além disso, árvores nativas trariam muitos ganhos ambientais às cidades (alimentariam a fauna, permitiriam fluxo gênico e polinização nas cidades e aumentariam a biodiversidade nas zonas urbanas). Um segundo ponto é que algumas plantas exóticas (como a algaroba, o nim e a viuvinha) viraram pragas, se espalharam e hoje competem com as plantas nativas, causando prejuízos ambientais. São as chamadas “plantas invasoras”. Os problemas gerados pelos organismos invasores são tão graves que eles são considerados uma das maiores causas de perda de biodiversidade do planeta, junto com o desmatamentos e a destruição dos ecossistemas (vejam mais informações no site do MMA: http://www.mma.gov.br/sitio/index.php?ido=conteudo.monta&idEstrutura=174/). Curiosamente, embora o desmatamento venha recebendo atenção da mídia, o problema das espécies invasoras tem recebido pouca divulgação. Daí a impressão que “não importa se uma planta é nativa ou exótica”. Plantas exóticas como o jambeiro e o Ficus não causam nenhum problema, mas outras como o nim podem causar, e a arborização pode contribiur com o problema. Além de tudo isso, convenhamos, é um fato curioso que uma cidade com tantas espécies de árvores nativas como Fortaleza tenha privilegiado exclusivamente plantas de fora, ignorando completamente o seu próprio patrimônio ambiental.

Maristela Crispim

13/03/2012 as 07:57

Um pouco de ousadia (neste sentido) não faria mal à nossa cidade, não é mesmo, Jairo?

Maristela Crispim

13/03/2012 as 07:55

Doação eu não sei, Laura. Mas o Horto Municipal Falconete Fialho (ao lado do Zoológico Sargento Prata – Próximo ao Cemitério Parque da Paz) vende mudas a preços quase que simbólicos.

jairo

12/03/2012 as 14:17

Todo bairro deveria ter no mínimo duas praças e as calçadas para novos emprendimentos(edificios, casas e conjuntos habitacionais)deveriam ter calçadas de no minimo 2,5 metros de recuo, canteiros centrais de no mímino 3 metros deveria ser uma lei obrigatória comrigor(ou seja com fiscalização e multa se não cumprida).Antigamente nossas ruas e avenidas além de praças era vistosas e agradáveis pois tinhamos adiministração voltada para a cidade hoje temos adimistração voltada para o voto ou seja não temos adiministração temos politicalização, é uma pena.
Já pensou uma avenida com seu canteiro central de ponta a ponta com o ipê roxo ou ipê amarelo e ainda com oiti e oiticica, pitombeira, angelim pau-branco… há como seria agradável ai sim seria uma fortaleza bela. mas só asfalto e concreto não!!!!!! seria a europa dos trópicos (ou quase isso).

FRANCISCO SILVA JÚNIOR

12/03/2012 as 13:30

Concordo que devemos privilegiar as nossas árvores nativas, entretanto não concordo com o discurso que as plantas “exóticas” são prejudiciais. Nós seres vivos temos uma caractéristica muito especial, o instinto da sobrevivência, as plantas exóticas se desenvolveram e se adaptaram muito bem ao nosso solo e clima, melhoram o ar que respiramos, ameniza os efeitos do sol e clima. E não são “invasoras”, pois na natureza existe a seleção natural onde os diversos estratos vegetais se harmonizam e desenvolvem-se de acordo com a dinâmica do seu habitat. Vamos realmente parar com o discurso acadêmico e técnico e procurar entender as plantas como um ser vivo que apenas deseja sobreviver. Vamos procurar fazer mais, e isso inclue plantar uma árvore e cuidar, que seja “nativa” ou “exótica”, mas que seja uma arvore.

laura

12/03/2012 as 12:54

eu queria saber onde fazem doação destas mudas pois comprei um sítio e queria plantar flores e frutos. obrigada.

Alex Ribeiro

12/03/2012 as 11:53

Concordo com o Sérgio, tá na hora de parar com essa conversa de acadêmico e começar a fazer algo de fato, ou a flora cearense ficará para sempre registrada apenas em sites e artigos em fundo de gaveta de biblioteca, enquanto isso continuamos a ver as espécies exóticas sendo plantadas indiscriminadamente, os projetos urbanísticos sem a mínima qualificação ou elaboração visando as áreas verdes e a fauna urbana. Já viram os canteiros da beira mar cuja empreiteira encheu os canteiros de areia da praia? Vão plantar o que ali? Acorda povo, chega de conversa, precisamos de ação.

Maristela Crispim

10/03/2012 as 21:18

Concordo com você, Sérgio. Esta é apenas mais uma dentre as muitas discussões relacionadas à questão da arborização urbana, mas não deixa de ser uma constatação surpreendente.
Maristela

sergio

10/03/2012 as 20:24

Em relação as espécies exóticas, concordo com Prof., porém temos que levar em conta, que o leite que tomamos é exótico(a vaca veio de onde?), o frango…., a soja…o milho…, o trigo(pão)…portanto já adaptadas, servindo e alimentando milhões de Brasileiros! O ponto em relação a arborização, é que fala que se plantou X milhões de “mudas”, mas não leva-se em conta a manutenção destas mudas para que as mesmas transformen-se em árvores! O tipo de espécie adequada para o passeio, canteiro central , praças,margens de rios e lagoas, áeas verdes já consolidadas…Vamos sair do discurso acadêmico e arregaçar as mangas planto o máximo de árvores possível em nossa cidade.