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Categoria: Erosão Costeira


21:18 · 29.09.2013 / atualizado às 23:27 · 29.09.2013 por
A erosão em praias como a do Icaraí demonstração que a nossa já é vulnerável Foto: Érica Fonseca / Agência Diário
A erosão em praias como a do Icaraí demonstra que a nossa já é vulnerável Foto: Érica Fonseca / Agência Diário

Por Maristela Crispim*

Reunidos até ontem em Estocolmo, na Suécia, os pesquisadores integrantes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) divulgaram a primeira parte de seu quinto relatório de avaliação (AR5), uma nova atualização dos seus prognósticos sobre os rumos das mudanças climáticas globais. Nele, os pesquisadores acrescentaram mais centímetros à elevação do nível do mar esperada para o próximo século. Essa elevação seria causada pelo aumento do degelo na região da Antártica e do Ártico.

No cenário mais otimista, com corte de emissões e políticas climáticas, o aumento da temperatura terrestre poderia variar entre 0,3 °C e 1,7 °C de 2010 até 2100 e o nível do mar poderia subir entre 26 e 55 centímetros ao longo deste século.

Já no pior cenário, com altas emissões de gases-estufa e não cumprimento de regras para a redução, a superfície da Terra poderia aquecer entre 2,6 °C e 4,8 °C ao longo deste século, fazendo com que o nível dos oceanos aumente entre 45 e 82 centímetros. O documento mostra também que o nível dos oceanos aumentou 19 centímetros entre 1901 e 2010.

Uma mudança da escala de dezenas de centímetros na projeção não é pequena. A margem de erro para o cenário mais pessimista chega a quase um metro de altura, o que afetaria não apenas nações insulares, mas as metrópoles costeiras do Planeta, segundo alertaram os pesquisadores do IPCC.

Considerando as possíveis consequências, eles tentam adotar respostas cada vez mais precisas. “Reduzimos atualmente a margem de incerteza de forma considerável” declarou Anny Cazenave, especialista em observação dos oceanos no Laboratório Francês de Estudos em Geofísica e Oceanografia Espacial (Legos).

No Ceará

A coordenadora do curso de Oceanografia da Universidade Federal do Ceará (UFC), Lidriana Pinheiro reconhece que uma elevação da ordem de 80 centímetros no nível do mar potencializaria o processo erosivo que já acomete parte da nossa costa, a exemplo do que ocorre em praias como Iparana, Pacheco e Caponga, por exemplo.

Segundo suas informações, o processo existente depende tanto de fatores naturais, como a flutuação no nível do mar e a própria morfologia da costa; quanto de origem antropogênica (atividades humanas), com o barramento de rios que impede o transporte natural dos sedimentos e o avanço urbano em direção à área de praias.

“É claro que o foco de erosão não se dá de uma forma só ao longo do litoral. Onde tem falésia, por exemplo, é diferente de onde não tem”, explica. A professora alerta quem, diante dos prognósticos, é necessário que planos de ordenamento e gerenciamento urbanos de cidades litorâneas incluam a convivência com a erosão costeira para evitar a destruição do patrimônio material e histórico local. “As obras e expansões urbanas nessas áreas precisam atentar para os cenários futuros, mesmo que ainda haja controvérsia em relações a essas previsões na comunidade científica”, afirma.

No Brasil

Em nosso país, a previsão levanta uma discussão sobre o futuro de milhares de cidades que ficam no litoral. As mais vulneráveis já foram mapeadas por pesquisadores brasileiros, já que o País tem um imenso litoral com mais de oito mil quilômetros de praias.

O mais completo estudo já feito no Brasil sobre os impactos da elevação do nível do mar revela que 40% das nossas praias são vulneráveis. Manguezais, dunas, áreas de baixada e cidades densamente povoadas próximas de estuários como Rio de Janeiro e Recife oferecem menos resistência ao mar.

Setenta e um pesquisadores assinam o relatório feito no País em 2006. O estudo detalha os impactos previstos em 16 Estados. “O Brasil tem vulnerabilidade ao longo de todo o litoral, de forma pontual”, disse o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Dieter Muhe, coordenador do estudo, em entrevista à TV Globo.

Segundo o professor, já existe uma recomendação do governo federal de que toda nova construção em área urbana deve ficar a uma distância mínima de 50 metros da praia, exatamente do ponto onde termina a areia. Nas regiões desocupadas, a distância mínima deve ser de 200 metros.

Como ocorre

O principal fenômeno por trás do aumento do nível do mar é o fato de que a água aumenta de volume quando está mais quente e os oceanos absorvem boa parte do calor aprisionado na atmosfera.

“A expansão termal é a maior contribuição para o aumento futuro do nível do mar, sendo responsável por 30% a 55% do total, com a segunda maior contribuição vindo das geleiras”, afirma a versão preliminar do sumário político do documento. O texto destaca, ainda, que “há alta confiabilidade em que o aumento do derretimento da superfície da Groenlândia vai exceder a elevação da queda de neve, levando à contribuição positiva (aumentou do nível do mar)”.

De acordo com estudos mais recentes, as calotas da Groenlândia e da Antártica teriam contribuído em pouco menos de um terço da elevação do nível do mar há 20 anos. O resto se distribui entre a dilatação térmica e o derretimento das geleiras de montanhas.

Nas pesquisas, leva-se mais em consideração um fenômeno insuficientemente conhecido em 2007: o deslizamento nos mares das geleiras costeiras da Groenlândia e da Antártica, detalhou Cazenave, co-autora, como em 2007, do capítulo sobre o mar do novo relatório do IPCC. Um dos problemas por trás dessas projeções, no entanto, é que o balanço do derretimento e da formação de gelo na Antártida ainda é difícil de prever.

Incertezas regionais

Os pesquisadores admitem que ainda é possível fazer avanços na forma de registrar a grande variabilidade regional da elevação das águas. Essa variabilidade se deve às diferenças na expansão térmica, mas também aos movimentos da crosta terrestre. Em algumas regiões, o solo tem a tendência de afundar, por exemplo, por causa do bombeamento da água ou da exploração do petróleo, tornando estas regiões ainda mais vulneráveis.

Apesar de a maioria das observações e dos modelos de computador alertar para o derretimento da parte ocidental do continente gelado, o aumento de precipitação na Antártida oriental deixa o cenário incerto. “Há uma cofiabilidade média de que nevascas na Antártida vão aumentar, enquanto o derretimento de superfície continuará pequeno, resultando numa contribuição negativa (redução do nível do mar”, diz o texto.

Um avanço do novo relatório é a tentativa de lidar melhor com as incertezas regionais. Por exemplo, apesar de a Groenlândia ter a massa de gelo terrestre que mais vai contribuir para a elevação do mar, lá ele não deve subir. Como a massa de gelo da região vai diminuir, ela perde força de gravidade que puxa água na direção da costa. E o mesmo deve ocorrer com a Península Antártica.

“Precisamos entender o papel das plataformas de gelo, das geleiras, o efeito térmico e saber como a crosta vai se mover”, detalha Aimée Slangen, da Universidade de Utrecht, na Holanda. Slangen publicou, no ano passado, um estudo sobre diferenças regionais na subida da linha d’água, mas diz que ainda é difícil fazer um mapa preciso.

O último esboço do relatório afirma que, em 95% das áreas oceânicas do mundo, o nível do mar vai subir, e que 70% das áreas costeiras terão um aumento com desvio de menos de 20% da média. Para os cientistas, porém, é preciso aprimorar o mapeamento. “Para uma cidade ou um país, a média mundial não importa, é preciso saber o que está acontecendo logo à porta de casa”, afirma Slangen.

Atividades humanas

Essa publicação do IPCC confirma que há 95% de probabilidade de que as atividades humanas sejam a principal causa para o aquecimento global e que estamos a caminho de uma elevação de 4,8ºC até o fim do século.

O relatório “Mudanças Climáticas 2013 – As bases físicas científicas” resultou de quatro anos de trabalho do GT I e da análise de 9.200 estudos. Algumas das conclusões do documento foram antecipadas, como a extrema probabilidade (mais de 95%) de que as atividades humanas, principalmente a queima de combustíveis fósseis, sejam a principal causa para o aquecimento do planeta desde 1950.

“É grande a confiança de que isso (as ações da humanidade) resultou no aquecimento dos oceanos, no derretimento de neve e gelo, no aumento do nível do mar e transformou alguns extremos climáticos”, afirmou o documento preliminar.

Os pesquisadores revelaram que a concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, gás oriundo da queima de combustíveis fósseis e o mais nocivo ao ambiente, cresceu 40% desde 1750 e continua a se acumular. Com isso, a temperatura na Terra já subiu 0,89ºC entre 1901 e 2012 e deve se elevar entre 1,5ºC, no melhor cenário, e 6ºC no pior até o fim do século.

Pelos cálculos do IPCC, a concentração de CO2 na atmosfera vem se intensificando – subiu 20% entre 1750 e 1958 e chegou a 40% agora. O resultado imediato é o agravamento do efeito estufa, que provoca o aquecimento do Planeta.

“Cada uma das últimas três décadas foi mais quente que todas as décadas precedentes desde 1850, e a primeira década do século XXI foi a mais quente”, adverte o relatório. Entre 2016 e 2035, o planeta deve aquecer entre 0,3ºC e 0,7ºC.

Ao avaliar quatro cenários de emissões de gases, o IPCC fez previsões de que até 2100 a temperatura no planeta pode aumentar entre 0,3 ºC e 1,7 ºC (no cenário mais brando, com menos emissões e políticas climáticas implementadas) e entre 2,6 ºC 4,8 ºC se não houver controle do lançamento de gases-estufa.

Para o Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), que possui membros do IPCC em seus quadros, as projeções indicam que a temperatura média em todas as grandes regiões do Brasil será de 3ºC a 6ºC mais elevada em 2100 do que no fim do século XX.

O IPCC defende que o aquecimento global deveria ser limitado a 2ºC para que as piores consequências das mudanças climáticas, como o aumento da frequência e da intensidade dos eventos climáticos extremos, não aconteçam.

O novo documento também detalha porque o aquecimento global ficou mais lento nos últimos 15 anos, fato que está sendo utilizado por céticos para questionar toda a ciência climática.

Uma das explicações é a maior ocorrência da La Niña, que resfria as águas do Oceano Pacífico, mas outras variáveis naturais podem ter também influenciar, como a atividade vulcânica, que dispersa partículas na atmosfera que refletem a luz do sol de volta para o espaço.

O IPCC

O IPCC foi estabelecido em 1988 e é formado por milhares de climatologistas, geógrafos, meteorologistas, economistas e outros especialistas que representam mais de uma centena de países.

Em 2007, a entidade recebeu o Prêmio Nobel da Paz por “construir e divulgar um maior conhecimento sobre a mudança climática causada pelo homem e por fixar a base das medidas que são necessárias para resistir a essa crise”.

O IPCC é dividido em três Grupos de Trabalho (GTs) e uma Força-Tarefa. O GT I é responsável pela “Base Científica da Mudança Climática”, o II lida com “Impactos da Mudança Climática, Adaptação e Vulnerabilidade” e o III está a cargo de explicar a “Mitigação da Mudança Climática”. A Força-Tarefa busca melhorar as metodologias para o cálculo e divulgação das emissões nacionais de gases do efeito estufa.

É importante destacar que o IPCC não realiza as pesquisas climáticas que apresenta. Os relatórios que divulga são um panorama de tudo o que foi publicado na literatura científica recentemente. Sua importância consiste em trazer para os governos e para a sociedade, em uma linguagem mais acessível, o que a ciência afirma estar acontecendo com o nosso planeta.

O “Mudanças Climáticas 2013 – As bases físicas científicas” contou com a participação de 259 autores de 39 países e ouviu mais de 50 mil comentários. A previsão é de que o GT II apresentará seu relatório em março de 2014 e o GT III, em abril.

O grande documento síntese de todos esses trabalhos será a Quinta Avaliação do IPCC (IPCC Fifth Assessment Report – AR5), que deve ser divulgado durante a Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas no fim do ano que vem em Lima, no Peru (COP 20). As outras quatro grandes avaliações do IPCC foram publicadas em 1990, 1995, 2001 e 2007.

Dados

– Temperatura global aumentou 0,85 ºC entre 1880 e 2012

– Há 95% de chance de que o homem causou aquecimento

– A concentração de CO2 no ar é a maior em 800 mil anos

– No pior cenário de emissões, a temperatura sobe 4,8 ºC até 2100

– No mesmo cenário, nível do mar pode aumentar 89 cm até 2100

– O gelo do Ártico pode retroceder 94% até 2100 durante o verão

*Com informações de agências